terça-feira, 7 de agosto de 2018

Postagem no Purgatório

Assim estamos. E vai piorar. Vivemos uma espécie de Minority Report ao contrário. No filme, prende-se o criminoso por um ato futuro, que é rastreado por uma fusão de tecnologia e pessoas que tem uma habilidade de ver o futuro.
Já se disse que tudo, absolutamente tudo mesmo, que você fizer, disser, filmar, fotografar e postar em qualquer rede se eterniza. Movimentos pelo esquecimento total tem acontecido, em especial na Europa – eu duvido mesmo que a pessoa seja deletada de verdade da base de dados, apenas não aparecerá nas buscas. Por aqui acho que ninguém quer ser esquecido. Não se viu qualquer querela jurídica de quem quer que seja pedindo o esquecimento. As redes tem se antecipado e criado – de novo não acredito que eles deletem os dados da pessoa – dispositivos para, por exemplo, uma saída definitiva do Facebook.
Enfim, o caso do momento, não deste momento exato, foi no mês passado. Ressalvo porque se os dados se eternizam, a frugalidade com que é novidade é medida em nanossegundos. Mas voltará para atormentar se ferir o infeliz do politicamente correto ou qualquer novo dogma das incontáveis autointituladas minorias.
O Diretor James Gunn de Guardiões da Galáxia foi demitido porque descobriram que ele postou vários tuítes fazendo ofensivas em que fazia suposta apologia à pedofilia e ao estupro. Quando ele fez isso? Em 2008!!!!!!!
Muitas pessoas da indústria cinematográfica apoiaram o diretor e o defenderam. A direção da Marvel, no entanto, apenas classificou as palavras de quase uma década atrás de inaceitáveis.
O próprio diretor disse algo mais ou menos como cresci nos últimos dez anos como pessoa. Quer dizer, o cara era um “porra louca” que fazia todo tipo de maluquice sabe-se lá embalado porque tipo de droga, era um provocador como se autodefiniu na época, afirmou-se como diretor dos filmes da Marvel, uma das maiores produtoras de filmes de heróis do mundo e, vindo à luz seu passado boquirroto condenável foi sumariamente demitido.
Imagine que um movimento como o Mee too é todo fundando nesse tipo de coisa, embora seja justo e necessário a defesa de qualquer e toda mulher que se encontre em situação vulnerável. Pessoalmente não creio que seja o caso das atrizes, agora milionárias, que fizeram o teste do sofá porque queriam subir na vida. Funcionou. Agora, no Olimpo das divas, acusam um e outro de assédio e outras coisas.
Convenhamos, parece muito uma negociação da profissão mais velha do mundo. No caso, alguém tinha a oportunidade num filme, a outra tinha uma moeda particularíssima. Houve pagamento e a oportunidade foi dada e elas faturaram, saltaram de desconhecida a atrizes respeitadas e bem pagas. Agora, décadas depois gritam: fui abusada. What!!!!!!!!
Voltando ao James Gunn. A aberração do caso está em que algo que foi dito em uma situação, ainda que reprovável, passa um tempão e aquilo ainda vale para condenar alguém independente daquilo que ela seja no momento. Ou que demonstre claramente ser contrário ao que disse antes, como nos lembra Raul Seixas: “Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes...” E porque não pode? 
No final, tudo se resume a vender uma imagem coerente com a cultura de caça às bruxas que o politicamente correto castrador patrocina. A liberdade individual, mesmo de dizer asneiras, foi incluída num Índex e a denúncia, passe o tempo que passar, é implacável, instantânea e não há qualquer possibilidade de salvação ou perdão congelado num purgatório virtualmente eterno.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Contradição e cegueira moral

Imagine a seguinte personagem. Ela teve sete filhos. Moradora de rua. Dependente química. Grávida do oitavo filho, a promotoria abriu processo para submetê-la a uma laqueadura. Laudos do centro de assistência social e de uma psicóloga subsidiaram a decisão da justiça.
Além disso, a mulher tem passagem pela prisão por tráfico. O documento de consentimento para a laqueadura foi assinado pela mulher. Mas...
A prefeitura de Mococa (SP) entrou na justiça para impedir o procedimento cirúrgico que foi acatado pelo Tribunal de Justiça, mas  a morosidade da justiça chegou tarde. Procurada por reportagem, a mulher negou que tenha consentido com a laqueadura e bastou para se tornar um grande imbróglio em debates acalorados pelos defensores do direito da mulher sobre seu corpo. A OAB da cidade, entretanto, afirmou que em visita à mulher na prisão, ouviu que ela concordou com o procedimento.
A mulher, no centro das atenções momentaneamente, recém saída da prisão onde estava desde novembro/2017, talvez única moradia estável que tenha tido, tornou-se uma grande vítima. Disse que não teve direito de olhar o “rostinho dela”, pois a criança foi encaminhada para adoção.
Mas vejamos este amor maternal. Os sete outros filhos estão assim distribuídos: 3 sob a guarda do pai do primeiro relacionamento, um dos quais internado por dependência química. Da relação atual, 5 filhos, três foram adotados, uma adolescente está em um abrigo social. A última é a bebê do problema atual.
O juiz e o promotor foram expostos pela reportagem do Fantástico como se fossem verdadeiros nazistas eugenistas, inclusive com declarações que serviam a manchar suas condutas por anteriores envolvimentos em supostas questões polêmicas. A edição é mais verdadeira que a verdade.
Então retomemos. Independente dos graves problemas socioeconômicos da família, o fato concreto é que as crianças precisaram ser abrigadas ou doadas por negligência dos pais. Aqui não cabe indagar as razões da prolificidade ou da irresponsabilidade paternas. As crianças são mais importantes que qualquer coisa.
Os autodenominados progressistas e politicamente corretos de todos os matizes logo apareceram com sua verborragia em defesa dos direitos humanos. Togados fissurados apenas na letra seca da lei gritaram a ilegalidade do ato. Instaurações de processos investigativos pela conduta do magistrado e do promotor seriam realizados para verificar a violação da lei sacrossanta.
Uma tal coordenadora-auxiliar do núcleo especializado de promoção e defesa dos direitos da mulher da Defensoria de São Paulo, vociferou que o planejamento familiar é de livre decisão do homem e da mulher por isso houve ilegalidade. Independente dos laudos e testemunho do juiz que ouviu a mulher mais de uma vez. A pergunta que se faz é: que decisão livre pode fazer uma dependente de drogas?
Mas o mundo é feito de contradições brutais. Quanto mais partidários de uma ideia, mais fácil cair nesta armadilha. Os progressistas, grande parte do judiciário, em especial as defensorias, ultra sensíveis a direitos humanos, são os primeiros a gritar pelo direito da mulher escolher abortar. Defendem como se fosse um valor que sobrepuja o direito à vida do feto. As razões são as sociais, econômicas e pelo simples fato da mulher não querer aquele filho seja lá a razão que esboce. Quer dizer, matar pode, mas impedir uma mulher de continuar colocando filho no mundo que não tem a mais remota condição de cuidar, o que acarretará sobrecarga à sociedade, não pode.
Os abortistas absolutizam o ato como algo moderno, democrático e que, acima de tudo, respeita os direitos humanos, mesmo que seja à custa da morte de alguém que não pode se defender e que, nascido, poderia ser encaminhado à adoção, caso a mulher continuasse rejeitando o filho que gerou. A tal sub da defensoria paulista argumenta o direito de escolha do método anticoncepcional, tenho certeza que ela inclui o aborto, se não ela em pessoa, o órgão que representa.
Não pode haver absolutos de qualquer espécie quando a vida está em jogo. Não vale o argumento da defesa vitimista das mulheres que escolhem aborteiros em recantos imundos das cidades. Há múltiplas saídas possíveis para este problema, que não o assassinato consentido e legal, basta a sociedade querer.

PS. As reportagens sobre o caso da mulher circularam no início de junho/2018.

terça-feira, 3 de julho de 2018

AH! VAR... passear

O VAR virou top trend em tudo quanto foi meio de comunicação. E não foi só pela reclamação do gol duvidoso dos suíços no empate contra o Brasil. Seleção jogando aflora um nacionalismo e patriotismo bestas nos brasileiros.
E quem é esse tal VAR? Apelido carinhoso de alguém com o diminutivo do nome? Caso você ainda não saiba o que é (Uau!) trata-se do sistema de vídeo arbitragem do inglês: vídeo assistant referee (VAR).
É o velho replay, só que agora com a real possibilidade de mudar a história do jogo. Pênaltis dados e negados causaram uma revolução em campo e nos resultados, a ponto de ter nascido uma tabela fictícia: o que seriam as oitavas sem o VAR.
E aí eu me pergunto assim: já imaginou se pudéssemos ter um VAR para vida? Até acredito que temos, mas é absolutamente desesperador. O trecho do desastre dito ou feito passa na mente em infinitos ângulos, mas estamos lá paralisados, olhando a fita obsessivamente sem poder voltar e consertar, ou fugir, ou reagir à altura.
Um VAR para vida, naturalmente, permitiria voltar ao exato momento da cena e dar um resultado mais aceitável para nós. Aquele que apareceu na mente horas ou dias depois. Quase sempre é uma resposta bem dada àquela pessoa cretina que nos humilhou.
Mas me pergunto se o erro alheio ou o nosso não faz parte natural de muitos outros acertos no futuro. E se não errássemos, como aprenderíamos? Como se amadurece sem errar? Como nos tornamos resilientes sem os fracassos?
Acho que nos tornaríamos irresponsáveis com a vida. Como a galera adepta da prática do sexo de risco com AIDS, pois podem lançar mão do PEP – profilaxia pós-exposição. Resultado: há um número cada vez maior de pessoas praticando bareback, que na gíria do meio significa literalmente cavalgar um cavalo sem cela.
Acho que um VAR nos tornaria inconsequentes, afinal, depois a gente consertava e não teria que sofrer com o arrependimento, culpa, raiva, tristeza, remorso. Mas o que fazer quando se perde toda esta experiência? Essas emoções e sentimentos “negativos” modelam nossas relações: conosco e com os outros.
Com um VAR pessoal, imagino que não haveria mais desculpas. Não haveria mais necessidade de perdão. Bastava usar o VAR e ajeitar o mal feito. Quem não reconhece os erros cometidos e os repara (ou tenta), constrói uma falsa personalidade de infalível. Já temso gente demais assim sem o VAR.
Um VAR para a vida é tentador, mas como no primeiro filme Todo Poderoso, seria o personagem Bruce Nolan (Jim Carrey), um azarado incorrigível, investido de poderes divinos dizendo “sim” para todos os pedidos – que bom que fosse assim – e o mundo se torna um completo desastre. Parece que um erro ou um “não’ para nós, enquanto outros acertam e tem um “sim”, equilibra este cambaleante planeta.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Google "adivinha" as chances de morte de um paciente

O Google tem um programa que pode adivinhar quando o paciente morrerá. Adivinhar é por minha conta. A unidade de trabalho denominada Medical Brain conseguiu o que médicos e hospitais vêm tentando realizar a um tempão: tomar todos os dados disponíveis sobre um paciente e avaliar suas chances de sobrevivência com o máximo de precisão possível.
Nigam Shah, professor de Stanford, um dos autores do artigo, relata o feito goggliano (na verdade um programa baseado em inteligência artificial) e sugere que lidar com aqueles dados sobre o paciente, trabalho entediante e difícil, está com os dias contados. “Você pode jogar tudo lá e não precisa se preocupar com isso.” Com “jogar lá” Shah se refere a todo tipo de dado, inclusive aqueles escritos a mão. O programa os cataloga, analisa e vaticina preciso.
De uma única paciente com câncer de mama o programa analisou 175.639 pontos de dados. Resultado: a inteligência estimou em 19,9% suas chances de morte. A mulher morreu em poucos dias. Os computadores do hospital estimaram que suas chances de morte em apenas 9,3%.
A reportagem afirma que o Google tem nesse programa um novo mercado. De fato, estão trabalhando freneticamente para prepará-lo para o serviço em clínicas. A promessa é de que os médicos estarão livres do tal trabalho entediante de lidar com grande variedade de dados e fazer o que importa: cuidar dos pacientes. Mas por que será que tenho a impressão de que já ouvi esse mantra antes?
A tecnologia sempre oferece mais tempo para fazer o mais importante, seja estar com a família ou, neste caso, focar no cuidado do paciente. Mas ninguém é capaz de pensar (ou é) dos desdobramentos indigestos que a tecnologia gera. Celular era para nos comunicar em qualquer lugar e quando fosse necessário com as pessoas que quiséssemos. Mas presos às redes de centenas ou milhares de amigos as pessoas estão cada vez mais desconectadas umas das outras obsessivas com dar e receber likes.
Um sistema desses pode justificar com precisão lógica irrefutável as razões da (eufemisticamente) alteração do tratamento. A economia de tampo dos profissionais, recursos, leitos será resultado direto da adoção do sistema. O mal, diz Brodsky, quase sempre se disfarça de bem.
Sim, é muito tentador e, diria, até necessário que uma tecnologia realize com precisão máxima previsões diagnósticas e prognósticas. Mas há outro lado da moeda. Sempre há. Mercado rima com lucro. Lucro é, afinal, a razão de ser de um negócio. Qualquer um.
Quem impedirá que em nome da margem de ganho não se diminua substancialmente o suporte àquele que o sistema infalível determinou com parcas chances de sobrevivência?
Não digo que estamos na iminência de que uma IA faça sozinha o trabalho de definir todos os procedimentos que definirão, em última instância, a continuidade da vida de alguém, por precária que esteja. Mas é difícil não pensar que tamanha certeza não justifique a economia de procedimentos terapêuticos até em nome da economia que suprirá muito aos pacientes com melhores chances. Pense num sistema de saúde pública do tamanho do SUS com suas crônicas deficiências de tudo e a necessidade de atender milhões. Em megacorporações de saúde que atendem unicamente aos acionistas e à remuneração das ações.
Tecnologia como essa precisa de vigilância e ser submetida a intenso debate. De baixo de nossos narizes e mesmo envolto num escândalo que fez jus ao mastodôntico tamanho (com bilhões de dólares em perdas, mas já recuperadas), o Facebook diz candidamente que sabe até quantos e quais movimentos você faz no seu mouse. É para botar as barbas de molho ou não?

terça-feira, 1 de maio de 2018

Tamanduá fake

O júri do concurso de fotografia Wildlife Photographer of the Year desclassificou um concorrente premiado na última edição do certame ao descobrir que sua foto mostrava um animal empalhado. A imagem, do fotógrafo brasileiro Marcio Cabral, foi ganhadora na categoria de Animais em seu Entorno, em 2017. É intitulada The Night Raider (O Invasor Noturno) e mostra um tamanduá-bandeira avançando na direção de uma colônia de cupins no parque Nacional das Emas, no Brasil. (BBC -
Paralisado, ou melhor dizendo, eternizado numa mesma posição, você há de convir, dá todo tipo de dormência e desconforto. Tem vantagens, a pose, por exemplo, pega meu ângulo mais fotogênico e me mostra em plena ação, o que produz ilusão de movimento e até assusta. Mas basta mais três segundos de olhar fixo em mim e a dura verdade: estou empalhado.
Você deve se perguntar embatucado: como estou falando se, tecnicamente, estou morto? Bom isso é uma longa história que nada tem que ver com espiritismo, isso eu asseguro. Algum tipo de consciência tamanduaniana permaneceu em mim e, de algum modo, desenvolvi esta habilidade psíquica de falar na mente de meus interlocutores. Não todos.
Fui, involuntariamente, personagem de um escândalo. Não daqueles do tamanho da Lava Jato que a tudo redimensionou: valores de roubo, dimensão e extensão da gatunagem, sofisticação dos desvios do erário, quantidade da gente envolvida e importância de seus cargos. Mas ainda assim um escândalo.
Minha vida atual, pela própria condição em que me encontro, é viver na área de recepção dos visitantes do Parque das Emas. Sou um host nessa nova fase da vida. Pois vamos à história rocambolesca em que me meti e que é o estado da arte da natureza do brasileiro. Um verdadeiro case sociológico.
Marcio esteve aqui várias vezes e nos tornamos amigos. Outro dia ele disse que eu poderia fazer carreira como modelo. Desconfiei. Estou empalhado, não burro. Esse golpe é velho. Lembrei o serial killer dos patins. Mas neste estado de paralisia, um faz o que quer com a gente. É um tanto humilhante. Vocês não imaginam o que alguns idiotas fazem comigo. E quem se importa?
Voltando. Certo dia, no final da tarde, Marcio chegou com seus aparatos de fotografia e me carregou literalmente até um cupinzeiro que tantas vezes ataquei os deliciosos cupins. Enfiou minha cabeça no cupinzeiro e me colocou em tudo quanto foi posição. Um empalhado não cabe em qualquer postura, somos sestrosos. E foi foto daqui, dali, até anoitecer. Depois me deixou no meu canto. Ainda bem, não fez nada esquisito comigo como desconfiei no princípio.
Passados uns dias, ele retorna esfuziante. A foto comigo ganhou um prêmio internacional – Wildlife Photographer of the Year. Marcio ficou famoso e eu junto, embora com pouca repercussão neste fim de mundo aqui. O nome da fotografia: The Night Raider. Chique, não?
O que eu não sabia é que fui vendido como se vivo estivesse. Os gringos descobriram tudo e ficaram danados de raiva. Chamaram especialistas a partir de uma denúncia de que o tamanduá da foto era eu e que, bem, não estou exatamente vivo.
A justiça no estrangeiro não é essa loucura daqui com seus Gilmars, Lewandoviskis e Marcos Aurélios, cujas intenções inconfessáveis à luz do dia escapam em palavras e atos numa cornucópica enxurrada de atos falhos. Cassaram a foto e puseram o Márcio à merecida execração internacional e... eu junto. Que vergonha! Vocês acreditam que o cretino jura de pés juntos que é inocente? Se ele disser que eu fui sozinho ao cupinzeiro não vai prestar!
Bastava a foto do cupinzeiro que, isso eu asseguro, ele não falsificou como um produto paraguaio ou chinês. Mas me falsificou. Tornei-me o tamanduá fake da foto. O diabo, dizem, está nos detalhes. Tenho milhares de fotos espalhadas nesta maldita posição. Alguém achou parecida. Um especialista internacional em empalhamento comparou as fotos e pimba, decretou: É um tamanduá empalhado! Soube que até posição de tufos de pelo o infeliz comparou.
Marcio é brasileiro. Ele não desiste nunca... de querer ser mais esperto que os outros. De inventar atalhos e jeitinhos para se dar bem. A corrupção está no dna do brasileiro médio. Ele estrila com a corrupção sistêmica do alto de sua hipocrisia moralista, mas passa na frente da fila, paga propina para o guarda, cola na prova e tudo isso sem tremer um músculo de sua cara sem vergonha.
A única coisa que lamento é que meu bom nome e imagem foram para o lixo. Acho que mereço uma indenização. Agora, além dos visitantes do parque intrusivos que passam a mão até em lugares impróprios, sou alvo de chacota, como se eu fosse o autor desta patifaria fotográfica.

PS. Desculpem ilustrar meu desabafo-denúncia com a foto malfadada, mas é que fiquei tão elegante e bonito que não resisti. Neste mundo de aparências, de parecer e não ser, permitam-me tirar uma casquinha. Mas é falsa, vocês sabem.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Uma história com o Lula

Era final dos anos 1980. Sarney ainda ocupava o Planalto e vivia seu ocaso na presidência, acuado naquele malfadado quinto ano que comprou mediante milhares de favores que ofertou aos picaretas da Câmara Federal. Ovadas, vaias e até machadada num ônibus em que estava era seu calvário e o cerco que sofria.
Lula, a essa altura, estava em plena campanha para a presidência da República. Foi sua primeira tentativa e que perdeu para Fernando Collor de Melo. Perdeu pelo medo que foi incutido na cabeça das pessoas. Perdeu por seus próprios erros e, por fim, teve o jogo sujo com a ex-mulher. Além disso, Fernando Collor, naquele momento, teve sua própria habilidade de perceber o que as pessoas queriam e emplacou o personagem jovem, bem apessoado, um discurso guerreiro, determinado a caçar marajás, os inimigos que criou e toda guerra precisa, sejam reais ou imaginários.
Vários amigos e eu, jovens idealistas, claro, abraçamos Lula com todo o ardor de nossas esperanças. Tínhamos uma militância na faculdade, em nossas igrejas, no que poderia ter sido uma esquerda evangélica. Pretendíamos lançar um candidato para o legislativo municipal de São Luís sob a bandeira do PT. As conversações com o partido fracassaram. Eles, radicais e burros, não queriam esse grupo estranho dentro de suas hostes vermelhas puras.
Na época criamos um grupo que denominamos GEESP: grupo evangélico de estudos sócio-políticos. Discutíamos as demandas da esquerda à luz da Bíblia. Caso você não seja versado no livro sagrado, acredite, há muito o que pensar sobre todas as reivindicações que são o discurso da esquerda: da reforma agrária aos direitos trabalhistas.
Mas estávamos em São Luís que era – e continua sendo – absolutamente periférica no aspecto político-intelectual. Nosso grupo pequeno e com pouco impacto. Não havia redes sociais. Sim, Sarney, maranhense, era presidente, mas vocês sabem como ele foi parar lá.
Mas tivemos a honra de sermos mencionados em um encontro nacional pelo inesquecível Robinson Cavalcanti. Sociólogo, teólogo, pastor e professor da UFPE. Ele se encantou com a ideia daquele grupo maranhense e que só teve algo parecido tempos depois, se não me engano, em Belo Horizonte uma cidade com muito mais conexões.
Voltemos ao Lula. A incipiente esquerda maranhense, capitaneada pelo PT trouxe o Lula para um comício que se realizou em cima de um caminhão na frente da Biblioteca Benedito Leite.
A praça ficou lotada. A maioria jovem como eu, que era o grande público ouvinte e entusiasmada com a candidatura do Lula. Foi eletrizante vê-lo e ouvi-lo. Ele falava aquele linguajar simples que hoje sabemos bem, mas havia inteligência, rapidez de raciocínio e uma incrível capacidade de nos manter hipnotizados pelo discurso.
Fiquei emocionado. Parecia que tudo era possível. Parecia que o país poderia seguir um rumo novo. Sobre aquele caminhão ele disse coisas terríveis sobre o Sarney para delírio do público. Como sabemos, naquele momento, já havíamos atravessado não sei quantos planos econômicos – todos fracassados –, não sei quantos cortes de zeros e nomes de dinheiro. Havíamos assistido à ridícula campanha dos ficais do Sarney. Os tais fiscais deduravam comerciantes que ante o congelamento dos preços, vendiam por preços majorados. O resultado foi um gigantesco desabastecimento de tudo, de frango a botijão de gás.
Na votação propriamente dita em 1989, eu estava fora do país e perdi o prazo para me cadastrar para votar. Liguei para minha mãe, que jamais votaria no Lula, e a chantageei para dar seu voto nele em meu nome. Ela assim o fez. Contrariada.
No dia que saiu o resultado – Collor ganhara a eleição –, que só fiquei sabendo dois ou três dias depois. Eu chorei. Três outras tentativas ainda viriam e em todas eu votei no Lula. Por fim, veio a consagradora vitória em 2002.
Como dizia Didi, grande craque do futebol brasileiro, bicampeão mundial em 1958 e 1962: “Treino é treino. Jogo é jogo.” Veio o primeiro mandato. Lula teve que aprender a lidar com a realidade dura de uma economia travada. Mas recebeu as contas organizadas. Uma inflação domada. Foi conservador na economia e jogou conforme as regras e colheu os frutos, surfando numa incrível fase de grande crescimento econômico mundial. O Brasil cresceu com taxas quase chinesas. Lula ampliou todas as iniciativas do Fernando Henrique. Não criou nada. Embora seu discurso sugerisse o tempo inteiro que não havia vida antes dele.
Pois bem, algo em mim mudou em relação ao homem. Reconheça-se o que fez de certo e resultou em boas coisas para a população. Mas algo nele se alterou completamente. Ele passou a acreditar que era infalível. Um homem especial. Tornou-se ousado e cada vez mais falastrão. Foi tomado por um narcisismo absurdo e passou a acreditar num mito do que pensava de si e do que seus acólitos diziam sobre ele.
Em seus dois mandatos dominou com absoluta autoridade as duas casas legislativas. Quem foi seu grande escudeiro no Senado? De fato, foi ressuscitado por Lula: Sarney.
Havia muitos sinais. A esquerda que ele representa tratava de cooptar o Estado para si. Havia um aceno para a classe média e outro para a gigantesca massa de pobres. Então veio a primeira gangrena: o Mensalão. Lula nada sabia. O discurso ia e vinha. Esperto, jogou aos tubarões companheiros fundamentais. Tudo em nome do plano da esquerda de dominar o país por décadas. Escapou sem nenhum arranhão. Diziam que era o efeito teflon. Nele nada pegava. Descobrissem um cadáver em seu quarto e sangue em suas mãos, e ele seria inocentado. Alguns como eu, já tinham em suas mentes e corações aquele Lula do comício em cima do caminhão completamente erodido. Ele mudou, nós mudamos.
E aí veio a Dilma. O primeiro mandato ainda sob a influência da onda boa. Mas a mulher mostrou-se um estorvo. Uma incompetência sem par. Uma incapacidade de besta quadrada. Dilma foi chutada. Certo ou errado, livramo-nos de uma imbecil que estava levando o país à total bancarrota econômica.  
Veio a Lava-jato. A pá de cal. Não deu pra dizer que não sabia. Um sítio, acordos espúrios para ganhar uma fortuna vendendo a Odebrecht, o assalto descarado de seu partido e aliados à Petrobras, um tríplex.
Olho o Lula em cima de outro caminhão sob uma ordem de prisão. Envelhecido. Rouco. Não é outro porque envelheceu, mas porque insiste em acreditar num messianismo ridículo, no qual ele é, por evidente, o messias. Seus seguidores não o seguem por ideias, embora ele pense e diga isso, mas porque o adoram como a um deus. Eles têm um tipo de fé nele. Ele ocupa um lugar paterno.
Que Lula fique 12 anos ou 12 dias na cadeia, não importa mais. Os que ainda acreditam nele são crentes, todos os demais de nós somos completos ateus. Nem o céu de Lula atrai aos que acordaram da hipnose, nem o inferno que seria a política nacional sem ele amedronta. Agora ele só parece com o lula molusco (ok, já fizeram memes com isso). Adeus Lula.

domingo, 1 de abril de 2018

Suburbicom

Bem-vindos ao paraíso! Esta é uma frase comercial para atrair ao bairro familiar perfeito no filme Suburbicom. Roteiro dos irmãos Joel e Ethan Cohen, dirigido por George Clooney. Estrelam Matt Damon e Julianne Moore como Gardner Lodge e Rose/Margareth. É que Moore faz o papel de irmãs gêmeas.
O bairro Suburbicon é resultado do incrível crescimento econômico americano no pós-guerra. Milhares de bairros suburbanos apareceram naquele período com suas ruas e casas impecáveis, típicas para as famílias que se formavam, com amplos espaços e todo tipo de comodidade.
Tudo parece funcionar perfeitamente, exceto que nestes paraísos artificiais – ou em qualquer outro – sempre estão cheios de gente e onde tem gente... Em nós o mal se abriga e não é a perfeição exterior que nos transforma em pessoas boas.
Duas histórias seguem paralelas. Um casal de negros e seu filho compraram uma casa no bairro perfeito. Ou seja, eles ousaram querer entrar no paraíso. Ao lado, uma família de brancos. Gardner, o pai, é um típico homem daquele momento: trabalha e sustenta a família, que é formada pela esposa paraplégica, sua irmã gêmea que mora com eles e o filho lá pelos 10-11 anos.
O nome do personagem de Damon sugere uma ironia. Ele é um jardineiro ao contrário, pois transforma o jardim em caos sempre com uma fleuma assustadora.
O filme segue o enredo básico dos Cohen. O que nós vemos não é o real. Há sempre um submundo disfarçado, à espreita. Alguém tenta obter vantagem, obviamente de forma trapaceira e imoral/ilegal. Alguém é um parvo completo ou inocente em suas atitudes e desejos e são estes que se safam, mas por uma ironia de forças desconhecidas.
Os maus são duramente castigados, mas por sua própria ganância e maldade. Eles destroem tudo ao redor e a si mesmos. Nos filmes dos Cohen, a maldade está a olhos vistos, porém, disfarçada. Basta ver alguns deles: “Onde os fracos não tem vez”, “Os matadores de velhinhas”, “Queime Depois de Ler”, “Um homem Sério”. Sim, não há final feliz. Talvez porque a história, a minha e a sua, não acabou. Todo final feliz é precário.
Há uma crueza na exposição dos sentimentos/emoções mais profundos nos personagens. É o caso de Suburbicon. A população de gente branca, religiosa, ordeira do bairro vai numa gradação cada vez mais violenta até explodir em desatinos que, por pouco, não matam a família de negros. O mal em latência submerge. Mas à medida que vem à tona, cada ato ruim parecerá menor ao seu perpetrador. É como uma droga, para dar barato a dose deve crescer continuamente.
Talvez numa alusão a estes tempos loucos em que mentiras tem força de verdade e se disseminam como doença contagiosa que encontram mentes receptivas para crer em todo lugar, a comunidade também acredita em várias teorias conspiratórias que fazem elos de causa e efeito com a chegada da família de negros. Em todo lugar e época as pessoas querem bodes expiatórios para esconder sua própria responsabilidade sobre as desgraças.
Na casa ao lado, a vida de Gardner e família vai sucumbindo a cada ato que desencadeia uma rede de acontecimentos que não podem ser parados. A cada remendo, a situação piora.
Evidente que um filme tem que simplificar bastante para contar sua história. Mas a vida real está cheia de exemplos, quem sabe conosco mesmos em que, tresloucadamente, escolhemos coisas que fazem rodar uma engrenagem desconhecida e nada que fazemos parece melhorar.
A trama urdida por Gardner: matar esposa, ficar com a cunhada, dar um golpe no seguro e se sair bem para morar no Caribe, parece perfeita até que ela é realizada. Infinitas possibilidades podem acontecer. Não temos controle de nada e, em certo sentido, apenas podemos, precariamente, reagir aos acontecimentos que, por si mesmos, engendram outros e outros numa cadeia infinita cujo final é impossível prever.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Você não sabe que não sabe

Você tende mais a subestimar suas habilidades e competências? Ou você as amplifica e superestima? Dirige melhor, ama melhor, cozinha melhor, é mais esperto, mais engraçado, mais...
Em qualquer dos casos do espectro, possivelmente você seja vítima do efeito Dunning-Kruger (David Dunning e Justin Kruger). Trocando em miúdos. Nós cultivamos um tipo de superioridade ilusória ou inferioridade. Seria uma defesa contra nossa própria ignorância sobre nós mesmos? Ou ainda uma compensação por nos sentirmos inferiores ou inadequados?
As distorções cognitivas são tão fáceis de acontecerem em nós que é, diria, quase impossível em algum momento não sermos flagrados em alguma delas. Elas se mostram sutis, muitas vezes, ou são rombudas. A diferença pode se dar no tamanho da ignorância ou do transtorno mental.
O que os psicólogos autores da teoria descobriram é que quanto mais ignorantes somos sobre um tema, mais tendemos a parecer que sabemos. Enquanto os que sabem tendem a minimizar seu saber numa espécie de humildade modesta ou medo. Os ignorantes são afirmativos e parecem saber tanto quanto os que sabem. Seria esta ênfase não uma assertividade, mas um tipo de arrogância que ignora a si mesma?
Os autores concluem que simplesmente não sabemos o que ignoramos. Mas algum tipo de ousadia tola nos força a falar e falar como se soubéssemos, quando deveríamos calar. Enquanto falam se distanciam cada vez mais da verdade dos fatos e já não saberão onde estão errados, ou até se há um erro.
A mente do que não sabe, não é vazia. Olha que curioso! É cheinha de ideias preconcebidas, experiências, fatos, intuições, vieses e pressentimentos, além de conceitos que importam de outras áreas do conhecimento. Com tudo isso, os ignorantes constroem histórias e teorias que nos dão a impressão de ter um conhecimento confiável. Eis como se monta teorias conspiratórias.
Quanto mais pensam em seus pressupostos sem alicerce, mais se convencem de sua verdade. É como o fanático para quem qualquer indício, alimenta a certeza, qualquer traço, prova a sua verdade. Sua mente se torna impermeável à racionalidade. Quanto mais convencidos, menos dispostos a se conectar com a realidade se tornam. Daí que a evidência dos fatos pouco lhes importa.
O efeito Dunning-Kruger prevê que estas verdades paralelas, podem se espalhar entre todos como se fosse um vírus. A gente simplesmente acredita e reproduz sem nunca perguntar: vem cá, esta ideia ou fato está baseada em que evidência mesmo? Isso significa que o exercício da pergunta ao fato e/ou ideia e de nossa própria percepção deve ser realizado continuamente, ainda mais quando a verdade virtualizada é documentada com a concretude de milhões de repetições.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Um café com meu pai

Estava sentado à mesa enquanto aguardava um café. Minha mente era arrodeada por aquele tédio minúsculo que nos força a mexer no celular com dedos nervosos em busca de distração. Mas nem isso me interessava naquele momento.
Repentinamente, adotei uma postura. A mão esquerda meio que apoiando o queixo e cobrindo parte da boca, a coluna ereta e as pernas agitando como se fossem duas partes de um abano balançando nervosamente. Instantaneamente vi uma imagem mental-real: meu pai vivo diante de mim.
Eu o vi vividamente, como num pequeno fragmento de filme destes que se recuperam em algum porão que, neste caso, era minha mente. Borrões e traços do desgaste do tempo se projetam junto com a imagem, mas não lhe tira a força e definição.
Parei como que espantado por esta lembrança/vivência tão realista. Era ele ali e era eu. Ele em mim. Tão rapidamente quanto veio se foi, mas reverberava em minha mente qual imagem que se desfaz e em seu lugar deixava um sentimento confuso, posto que foi uma mistura de muitos outros. Alguns velhos e de aspecto ardido, outros alegres como quanto estava em sua companhia nos bons momentos.
Um pai apenas tem que estar. É sua presença pura e simples que precisamos tantas vezes. É nossa necessidade saber dele ali. Isso basta. É ruim quando nos acostumamos à ausência, pois perdemos a memória desta agradável satisfação que senti naquela pequena praça de alimentação com os comensais entretidos em seus próprios mundos e ambos, eu e eles, alheios uns aos outros.
Aquele sentimento estava literalmente perdido, pois não tenho sua presença há muitos anos e se manifestou naqueles poucos segundos. Eu tão acostumado aos meus próprios sentimentos, aqueles que definem e dizem quem sou, foram invadidos por outra pessoa em quem me confundi.
Temos tanto orgulho de ser nós mesmos que mesmo quando temos apenas vaga ideia, ainda assim gostamos de alardear esta singularidade. O adolescente em mim se estranhou, mas o homem ficou agradecido. Ter meu pai vagamente em mim fez-me perceber com nitidez uma origem e só posso ter um destino se tenho um começo. O começo não me define, mas é de onde parto e tenho a vida para (re)construir quem desejo ser. Então não o rejeito, acolho com todas as suas intensidades de dores e alegrias.
Sempre penso que não herdamos apenas vinte e três cromossomos de cada um de nossos pais. Coisas outras se formam tão fortes e duradouras quanto esta marca genética. Para o bem e para o mal. São memórias na carne, nos ossos que vazam para trejeitos imperceptíveis. Assim, estamos tatuados com estas marcas que permanecem até quando fugimos delas.
Eu e meu pai sentamos por segundos juntos para um café, como imagens superpostas. Foi um encontro feliz. Ele adorava café, eu também.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Deus com ou sem gênero

Será que Deus se importa se nos referirmos a Ele num gênero neutro? Ou que antecedamos o nome “Deus” por um artigo feminino? De quem é mesmo este problema de gênero divino? É de Deus, que vive uma crise de identidade, ou é das pessoas?
Há um movimento nos meios cristãos, protestantes de teologia liberal, vamos chamar assim, que é profundamente afetado pela filosofia e cultura líquida moderna. É uma inversão profunda dos pólos.
A teologia protestante fundamentou desde a Reforma, toda a cultura e forma de viver das pessoas no ocidente, inclusive com razoável influência nos países de maioria católica. Foi, portanto, um fundamento estável e relativamente sólido, até enquanto sua referência era o próprio texto sagrado. Mas quando este mesmo texto passou a ser lido e interpretado a partir de referenciais teóricos outros, então acabou.
É evidente que isso não tem mais fim. O chão foi definitivamente removido. Agora, como se estivesse no espaço em que os vetores direcionais apontam para lugar nenhum, a teologia protestante, especialmente de certos setores, é agora maria-vai-com-as-outras da cultura do momento.
É assim que, neste espírito, em assembleia ano passado o Sínodo Luterano sueco decidiu por maioria, que não se referirá a Deus antecedido do artigo masculino “o”. A explicação é que Deus transcende o humano, portanto, não faz cabe dar-lhe um sexo. A edição de suas Bíblias, doravante, obedecerá a esta norma gramatical onde tudo que se refira a Deus terá gênero neutro. Mas o Espírito Santo poderá ser tratado na forma feminina. Eles não ousaram mudar o artigo em relação a Jesus. Ainda.
A explicação verdadeira, no entanto, justifica um membro proeminente da corrente liberal majoritária: Trata-se de “dar um passo a mais em relação à linguagem inclusiva e indicar (...) que é preferível um pronome oculto para se referir a Deus”.
Há uma insanidade no raciocínio que, no Brasil, teve até sugestão de mudança da gramática com um nefasto exemplo no venerando colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Ali os gênios da pedagogia inventaram que qualquer coisa que defina o gênero deveria ser abolida e em vez de “o” ou “a”, seria um usado um “x”. Meninos passaram a usar saias normalmente nas aulas, mas isso é, por suposto, uma banalidade ante a ideia mefistofélica da abolição da fronteira entre gêneros.
Nem entro no mérito da ideia de inclusão de minorias que é, em si, boa, mas levada a um nível do paroxismo em que todos os sinais diferenciais sejam borrados ou extintos, caminhamos para sermos todos transformados numa grande massa informe de criaturas desconstruídas física, emocional e psiquicamente. Uma massa, afinal, de iguais em que qualquer definição identitária estará meramente na aparência, se muito.
A crise da masculinidade é bem uma antessala deste fenômeno. Homens que estão desesperados por um lugar e, não sabendo qual, se abandonam no encaixe de qualquer forma, menos da masculinidade/virilidade que hoje está demonizada. Estas características às quais sempre se associou a valores como coragem, honra, dignidade, heroísmo (por que não?) foram jogadas na vala comum do machismo reles, que na crítica da academia ganha o apelido de “modelo opressor do patriarcado”.
Ao escrever este texto, algumas vezes durante a revisão percebi um erro ao grafar o gênero da palavra. Sim, as palavras tem gênero! A leitura ficava claramente sem sentido ou, no mínimo, estranha gramaticalmente. Estamos falando da natureza das coisas. Não posso, ao meu bel prazer, subvertê-las se quiser comunicar, neste caso.
A cor azul tem uma natureza definida pela medida física de seu comprimento de onda. A palavra azul, por sua vez, é um substantivo masculino. Alguém gostaria de sugerir um novo nome se considerar que a palavra associada ao comprimento de onda é uma mera convenção de cientistas homens-masculinos, filhos da cultura patriarcal machista e misógina?

Ter um gênero não é, em absoluto, uma agressão ao outro ou uma condição de inferioridade por si mesma. No encontro entre os dois gêneros, sim há desequilíbrios por ene razões, mas a solução não é, nunca será, a mera extinção de uma das partes que são, em si, complementares. Enfrente-se a violência, a misoginia, o machismo e o feminismo. Respeite-se aqueles que, por razões muito particulares, querem viver em outro sexo ou se relacionarem com outros do mesmo sexo, mas alto lá com esta sanha imbecil de fundir todos num um sem gênero. Ou haverá um momento em que as pessoas com gênero congruente com a expressão da sexualidade terão que pedir desculpas por existirem? Teremos que usar um arco-íris cinza de ponta cabeça grudado à roupa para sermos claramente identificados?

Obs.: A imagem ilustra um texto sobre o Facebook ampliar as opções de gênero para seus usuários. Vocês sabem, o Facebook é um site de caridade sem fins lucrativos.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Cansada da obrigação de ser feliz

Ela soltou um sopro forte e os olhos estavam marejados. Disse algo que revelava um enorme cansaço da obrigação para estar sempre bem. Era como se fosse alvo de muitos olhares e ato contínuo, a cobrança sobre aquilo que os outros percebiam em seu comportamento ou apenas em seu semblante não coerente com um estar bem, segundo os outros de sua convivência.
Eu sempre faço o que me pedem, resmungou. E descreveu uma fieira de coisas que realizou porque alguém a certo momento disse: é bom você fazer tal coisa. O que ela concluía ali não era algo não sabido, era a afirmação de um saber, mas naquele momento em liberdade de externá-lo em palavras.
Era como se até aquele instante ela descobrisse que as muitas coisas realizadas, incluindo as experiências afetivas que não deram certo se configurassem, em seu conjunto, num enorme fracasso de vida. Em algum momento, era possível pensar que ela se sentia estranha a si mesma; e que ser gente e carregar todos os desejos e sonhos que se tem, fosse algo errado.
Nesse bem-estar aberrante não há permissão para o sofrimento e a dor de ser. O terrível é que nossas dores estão completamente alheias e elas vêm formidáveis como um exército em marcha.
Talvez ela seja uma das milhões de pessoas que se veem forçadas a atender mais que expectativas, mas a ser um determinado tipo de gente que pensa e age segundo parâmetros que se movem, que se volatizam, mesclam e retornam ao ponto de partida sem qualquer aviso.
É assim que você é aceito, mas você pode ser o que quiser também, dizem. Mas ser o que se quer é, de fato, ser igual a todos os outros que anseiam por este lugar de reconhecimento pelo que se é. Este é o drama. Tenho liberdade de ser o que quiser desde que esteja dentro dos limites das formas disponíveis e só há uma.
Vivemos a ficção da individualidade plena. Podemos ter dezenas de avatares, mas sempre seremos cobrados para atender um padrão. Mas isso é assim desde que o mundo é mundo, agora molestamente amplificado pela instantaneidade e virtualidade.
O que é mais terrível é que as pessoas que não atendem aos ideais líquidos propostos se sentem incapazes, frustradas e incompetentes. A insatisfação corrói e o deslocamento se instala. Será que não faço nada certo? E isso que fiz, a escolha que realizei são bons ou ruins? Como vou saber?
“Miserável ser humano que sou! Quem me libertará deste corpo de morte?”
Estamos tantas vezes estarrecidos e pasmados com nossos desencontros. Saímos deles quando começamos a acolher-nos inteiros. É bom ter um referencial que nos permita aceitar-nos, conviver conosco e amar-nos tal como somos. Que aquilo que o outro deseja e diz e percebe é dele, não me pertence, especialmente se o que fala quer dizer respeito a mim. Sou eu, apenas eu, o responsável quanto ao que escolho e vivo. Chorarei e rirei, machucarei a mim e a outros e pedirei perdão, errarei o alvo e acertarei, mas serei sempre eu vivendo por minhas próprias crenças e diretrizes.
“Graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, eu mesmo com a razão sirvo à Lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.”

(Texto bíblico: Romanos 7.24,25)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Os abusadores

O colunista Xico Sá escreveu um artigo em El Pais com o título: “contra o ‘habeas corpus’ para a macharada”. Como muitos outros, ele repercutiu o bafafá causado pela carta assinada por cerca de cem atrizes francesas em resposta à histeria hollywoodiana, literalmente, das denúncias em série contra atores e produtores que supostamente teriam abusado das atrizes, alguns desses fatos ocorridos mais de vinte anos antes, quando ainda eram moçoilas loucas para vencer na vida na sétima arte.

Estes homens se aproveitaram dessas, à época, garotas, muitas dispostas a fazer o que fosse preciso para subir na vida e se submeteram ao famoso teste do sofá, de todos conhecido e escondido desde o tempo do cinema mudo. Algumas delas se tornaram divas do cinema e muito, muito ricas, com cachês hoje na casa dos vários milhões… de dólares!

O resultado desta sanha em que a cada semana um novo suposto abusador é dado in vivo à fome canina das mídias, nomes foram, definitivamente, jogados na lata de lixo e fora o notório Harvey Weinstein, pergunto-me, baseado em que provas tantas mulheres anunciam o abuso? E homens também, taí o Kevin Spacey que, qual um lobo mau, queria comer alguns porquinhos. De que tipo de abuso estão falando? Em algumas sinto um cheiro azedo de autopromoção.

Até o Woody Allen, cujas atrizes faziam fila para protagonizar um de seus filmes, agora fazem coro relembrando seu passado, sim, muito nebuloso, com brigas públicas e processos tormentosos e acusações de abuso por parte de sua ex, Mia Farrow, de quem herdou a filha que agora é sua esposa. Mas a fila para os filmes de Allen continuam, aparentemente sem abuso, para ser parte de uma grife criada pelo ator/diretor/roteirista. Algumas participarão, mas num mea culpa desajeitado dizem que doarão seus cachês para organismos feministas.

Deparo-me, após este vendaval, com a pergunta feita por um colunista de El Pais que indaga a respeito do cineasta: “o que fazer com a arte de homens monstruosos?” What????

Por que citei o Xico Sá? Porque ele é o típico colunista, jornalista que ecoa e reafirma estas e muitas outras insanidades que o politicamente correto cria. Em seu artigo, ele tenta, condescendente, explicar que as atrizes francesas não quiseram dizer o que disseram, daí o título citado. Quem leu o artigo francês entendeu claramente que era um contraponto ao desembesto que tomou conta de Hollywood e suas atrizes. As francesas defenderam a razoabilidade. Ponto. Melhor, são mulheres seguras e que longe de um feminismo castrador da masculinidade, aceitam os homens como são. E não, de jeito nenhum, deram carta branca aos tarados que merecem o mais duro combate por todos os meios.

Vocês percebem a loucura. Parece que certos tipos só entendem o mundo na base do ou oito ou oitenta. Quer dizer que defender o direito dos homens cortejarem as mulheres é concordar com abuso? Esse Xico Sá e outros de sua igualha pensam com quê? Com o unha?
Eu diria que talvez as europeias sintam com mais intensidade a feminilização ridícula dos homens naquele continente, resultado justamente do movimento que elas popularizaram queimando sutiãs nas praças. Os sutiãs queimados não criaram homens afrouxados e inseguros.

Em particular na Europa, a lástima é que os homens não preservaram sua masculinidade e deixaram as feministas tão à vontade que quando nos espantamos, em pleno 2016, nas passeatas alemãs motivadas, aí sim, por ataques sexuais a mulheres perpetrados desgraçadamente por aqueles que foram acolhidos no país na onda de imigração by África/Oriente Médio os homens alemães no máximo gritaram palavras de ordem, não sei se em falsete.

Mas o pior é muitos dos homens participantes nas passeatas usavam saias!! Era sua forma de solidariedade quando deveriam defender suas mulheres como homens. As saias não são uma piada. Temos a nossa própria versão tropical aqui no Brasil. Os namoradinhos-coisa das feministas de Copacabana desfilam com elas de sutiãs e com slogans pintados no corpo do tipo: meu corpo, minhas regras. Como assim?


Não sei aonde vai dar a postura do politicamente correto. Mas sei que o mundo está mais feio, triste, sem espontaneidade e tão cheio de regrinhas que daqui a pouco qualquer um que se oponha a este estado policialesco será caçado e estereotipado (isso já acontece nas redes virtuais) como um bicho indigno desta bela sociedade que querem criar e colocados em guetos, talvez sem muros. Mas numa sociedade tão vigiada, quem precisa deles? Ah, o Trump!

PS. Vocês não pensaram que eu colocaria a foto do Xico Sá aqui, né?

sábado, 13 de janeiro de 2018

"Fale mesmo se sua voz tremer"

Ammy “Dolly” Everett tinha 14 anos apenas quando tirou a própria vida. Seus pais e amigos a definiam como uma menina sensível e preocupada com os outros, especialmente aqueles que eram mais fracos.

A garota ficou conhecida em toda Austrália por causa de uma campanha publicitária que fez aos 8 anos para uma famosa marca de chapéus e da qual se tornou garota propaganda até o momento em pôs fim a sua vida.

Numa carta, seu pai disse que a causa de ato tão terrível seria resultado de Bullying que ela vinha sofrendo pelas redes sociais. Um desenho de Ammy foi compartilhado pela família. Nele se via uma figura magrinha inclinada para trás que dizia: “fale mesmo se sua voz tremer.”

Apesar de ser um anglicismo que não ganhou tradução na fala em português, a frequente abordagem do tema tornou compreensível a todos.

Deplorar a condição de alguém, apelidar maldosamente, agir de forma preconceituosa, destratar, desmerecer, isolar e ignorar as pessoas, são parte do arsenal de violências psicológicas que se pode fazer contra alguém. Além disso, a agressão física completa a lista de ações que definem o Bullying.

Histórias como a de Ammy ganharam visibilidade e revelaram um mundo até outrora invisível, então é muito bom que se fale sobre isso e se tome todas as medidas necessárias para evitá-lo, mas…

O Bullying é como uma doença e como qualquer doença ela está à espreita em algum lugar. É como um animal predador de emboscada. Ele se disfarça e se esconde. Ele simula desinteresse na presa até que seja tarde demais. Mas se tomarmos estas duas imagens como verdadeiras, por que temos a sensação de que há mais Bullying agora do que antes em nossa infância? É por que não conhecíamos a palavra? É por que havia mais resistência naqueles que sofriam a agressão? Nossos jovens são mais frágeis que a geração anterior?

Retomando as imagens utilizadas antes. Nenhuma presa é passiva diante de seu predador. Cada uma delas tem algum recurso para enfrentar, se disfarçar, fugir… Uma doença é tanto mais forte quanto mais precária for nossa imunidade.

Vivemos em um mundo onde a maldade está em todo lugar. E jamais ele será um espaço de bondade e paz permanente ou ausência de violência. Sim, a luta deve ser sem trégua contra as forças do mal, mas elas sempre existirão e farão vítimas. Então me parece utópico apenas querer impedir o Bullying com medidas que mais castram a liberdade das relações e das brincadeiras que, sim, às vezes são mais agressivas entre jovens, por exemplo, grupo de maior vulnerabilidade.

Não sei detalhes da história de Ammy, mas será que essa garota não ficou tempo demasiado sozinha e sem assistência? Vejam, não culpo os pais. Apenas esta excessiva liberdade nas redes permite uma vida paralela tão exigente e cheia de desafios quanto a vida real e parece que subestimamos isso.

As relações familiares, quando saudáveis, e com saudável quero dizer presença parental, diálogo, ensino sobre princípios da vida, afeto, convivência de qualidade, para mencionar algumas coisas. Estas relações são as grandes provedoras de anticorpos, recursos de defesa contra a violência de toda sorte. Estar preparado não impede de sofrer a violência, mas dá ao agredido um escape, a busca por ajuda e não a miserável tortura e angústia de quem se vê sozinho e acha que este problema é só seu.

Não invento a roda. Sei que existem iniciativas que tentam trabalhar nessa direção do fortalecimento, do conhecimento sobre o chão pantanoso das relações humanas aos quais estamos mais expostos quando mais jovens e inexperientes.

Mais que lei ou regras, os jovens precisam de orientação sólida sobre os limites do abuso. Parece que se defende mais que os jovens saibam mais sobre sexo protegido do que se defender ou buscar ajuda contra as agressões psicológicas que o Bullying produz.


Então pais e mães, é nossa responsabilidade começar agora, talvez com uma conversa de sondagem com seu(s) filho(s) em idade vulnerável. Há sinais em quem sofre. Mas se mal você vê seu filho, como perceberá que há algo diferente em seu comportamento? Paternidade dá trabalho, sim, então vai lá faça seu trabalho!