sábado, 24 de agosto de 2013

O Estrangeiro

Talvez todos nós sejamos em algum grau estrangeiros. O estranhamento é uma experiência que não poucas vezes afeta a própria percepção de nós mesmos. Como se o senciente não habitasse seu corpo e nele fosse um visitante, um intruso. Uma espécie de dejavú ao contrário. Mas não é disso que trata “O estrangeiro” de Albert Camus.
Escrito em 1942, reflete a convulsão do absurdo da guerra, do sem sentido da vida e da existência. Seus textos foram categorizados na escola literária do absurdismo. Ganhou o Nobel de Literatura em 1957 e falece três anos depois, num acidente de carro. Os fatos de sua morte parecem conspirar de maneira estranha, uma quase prova de sua forma de ver o mundo. De fato, suas histórias criam contradições e eventos que não encontram qualquer explicação a não ser por certo absurdo estonteante.
A história se passa em Argel, cidade em que Camus viveu até 1939, quando migrou para Paris e foi colhido pela eclosão da Segunda Guerra mundial. Viveu a resistência francesa de forma engajada e o domínio nazista na França.
Mersault é um homem jovem, solteiro, trabalhador dedicado num escritório, tanto que seu chefe chega a propor sua mudança para a Metrópole para cuidar dos negócios da empresa. Em meio a uma vida despreocupada e previsível, certo dia recebe um comunicado: sua mãe, que estava num asilo, morrera. Este evento se tornará tão importante em sua breve história que a definirá para sempre como se sua ocorrência, alheia a qualquer lógica de uma narrativa, ao acaso, se imiscuísse aleatoriamente em seu destino para determiná-lo.
A relação com uma mulher, as atividades do trabalho, as amizades, a rotina, o lugar onde mora, os vizinhos e o romance são descritos pelo olhar de um observador distante, não envolvido, inclusive sobre o próprio personagem Mersault acerca de si mesmo, ele que é o narrador. Todo lugar, para este homem, é um não lugar. A vida se manifesta numa sucessão de momentos que acontecem porque tem de acontecer. Não há plano, premeditação, projeto, expectativa e embora a palavra “esperança” surja nas páginas do romance, parece não significar a espera venturosa de um acontecimento.
A amante de Mersault é descrita como uma mulher vivaz, sorridente, solar. Eles vivem bons momentos e em algum momento, desenvolvem um diálogo estranho que explica bem este homem em tudo o mais. Ela praticamente lhe pede em casamento. Mersault aceita. Ela lhe pergunta se ele a ama. Ele diz que não, que isso não faz sentido. Ela quer saber por que ele quer casar se não a ama. Ele diz que tanto faz. Ela vai mais longe. Se fosse outra a lhe propor casamento, ele aceitaria? Mersault diz que sim. Apenas, por acaso, ela fizera a proposta primeiro. A vida deste homem é um enorme entediado “tanto faz”. Um ou outro momento lhe salta: um sol do amanhecer, a noite fresca, o banho de mar, comer, beber, como atos voluntários movidos por um prazer não inteiramente feliz.
Como tudo acontece numa sequência onde o antes e depois são meros e absurdos acasos, Mersault acaba por matar um homem de quem não tinha exatamente uma rixa ou raiva. Não é uma morte por vingança, ganância, até o simples prazer de matar, a ira ou a loucura. Ela simplesmente acontece. Mersault descreve os primeiros dias na prisão, suas relações com os guardas e o juiz com curiosidade, como se tudo acontecesse com outro. A realidade não se lhe impõe à consciência.
No julgamento, fala-se mais da morte da mãe e sua indiferença, desrespeito, e até descaso do filho em relação a sua genitora o que termina por pintar-lhe um monstro insensível e sem alma. Mersault choca o juiz com seu ateísmo, o que o coloca em posição ainda mais delicada como se fosse obrigado a crer em Deus e sua não crença justificasse as razões do assassinato. Ele não crê por convicção. Um fundamento filosófico, uma postura reativa com a lembrança de um pai ausente e opressor projetada em Deus. Deus não está nas cogitações dele como não estariam nas de uma formiga.
O desditoso homem tem suas próprias explicações para tudo quanto o acusam, mas sequer tem ânimo de defender-se ou aclarar suas razões. O sistema de justiça segue seu curso inexorável. Os atores estão todos no palco: juiz, advogado, promotor, jurados, plateia. Nenhuma das requisições do julgamento é esquecida, pois assim determina a lei. Ele tem direito a ampla defesa, mas é como se já estivesse condenado desde o início. O sistema pede sangue e os rapapés apenas justificam a normalidade da sociedade civilizada.
A religião não o consolará e ele a recusa, para horror do padre que queria fazer seu papel de consolar, é impedido e se frustra por isso. Talvez, entre paredes, o estrangeiro tem seu último ato de liberdade ao recusar o que outros querem fazer porque é normal, mas sequer sabem por que o fazem. Ele está livre com seus pensamentos, livre para esperar que o sistema funcione bem até o fim e a máquina que lhe porá fim à vida funcione perfeitamente. É seu máximo interesse que nada falhe, afinal Mersault parece ter encontrado seu lugar e ele é dentro de si mesmo.

domingo, 18 de agosto de 2013

Gato por lebre



Um zoológico chinês foi acusado de ludibriar seus visitantes ao exibir um cachorro como se fosse uma espécie rara de leão africano. A fraude foi descoberta pelos frequentadores quando o animal começou a latir.

Fonte: BBC Brasil (15/08/2013)

Bons tempos quando nós, brasileiros, achincalhávamos nossos vizinhos paraguaios com aquelas bobagens de cavalo paraguaio, uísque, relógios rolex legítimos e tantos outros produtos fantásticos, baratinhos que faziam a festa para parecer bem aos olhos dos outros. Não existem mais paraguaios: foram todos pirateados pelos chineses, estes, sim, sabem fazer uma falsificação.
Por aqui, fui forçado a contar inúmeras histórias dos chinas porque eles são insuperáveis. Quando penso que já vi tudo, eles me aparecem com outra inacreditável façanha e lá vou eu de novo. Desta vez, meu quase parente Aristogênio não tem nada com isso. Mas foi ele quem me contou de um seu homônimo chinês, o Maostogênio. Vamos chamá-lo apenas de Mao para economizar. Nada a ver com o fundador da China moderna, embora este também fosse um grande malandro.
Mao trabalhava num zoológico decadente. Ele e seu amigo Li tinham que alimentar os animais, limpar o cocô deles, vender bilhetes na entrada, algodão doce, pipoca e servir de segurança. O zoológico mais parecia um circo sem lona do interior do Nordeste. Num dia azarado, os dois foram fazer um reparo na jaula do velho leão. Velho é apelido. Dizem que era o próprio primeiro modelo da MGM (aquele que fica rosnando no início dos filmes).
Sem querer, uma barra de ferro caiu na cabeça do leo. Ele só pedia uma desculpa para urrar no paraíso, nem urrou. Foi-se. O dono do zoo, um obscuro membro regional inferior do partidão, iria matá-los. Leo dava muitos bilhetes e o povo acreditava que ele era aquele lá de que já falei. O medo faz um sujeito ter ideias do arco da velha. Mao lembrou que já tinham substituído coruja por papagaio, lobo por outro cachorro e um dromedário virou camelo com um saco extra nas costas, revestido de pelo de cabras. Nem se conte a vez que Li substituiu o gorila por uma semana.
O mastim tibetano do Li serviria para se passar por leão. Mas Li era aquele medroso que só servia para agourar o plano alheio. E se ele latir? - perguntou, apavorado. Você vai treinar o bicho para que não lata. Converse com ele. Foram em casa, pentearam os pelos do bicho pra frente, tascaram um permanente, um secador e o pêlo do  Tsé Tung ficou uma beleza.
Trabalho finalizado, Li teve uma conversa olho no olho com o Tsé. Tung, meu chapa, você precisa me salvar de uma enrascada. Tung olhava com um olhar de compreensão. Li, animado, continuou. Não lata por nada deste mundo. Preciso de seu silêncio. Prometo que é só por uns dias. Tung balançou a cabeça, concordando. Estamos salvos, disse Li a Mao.
O povo não notou nada. Tung até gostou daquilo. Fazia pose. Balançava a juba e fingia, só por sacanagem, latir, mas só fazia enormes bocejos o que deixava Li com o coração na boca. Numa tarde, uma mulher com seu filho chato se aproximaram da jaula. Ela ensinava ao rebento os diferentes sons que os animais faziam.
A mulher cacarejou, bufou, baliu, crocitou, miou e... rugiu. O menino repetia aquela coisa horrorosa da mãe. Pior, ela fazia tudo isso em chinês. Tung não aguentava mais aquilo. Será louca esta mulher? Por que ela não vai na jaula do bundão do panda? Eu dava uma mordida nela se estivesse mais perto. A gota d’água foi quando ela começou a provocá-lo que rugisse. De fato, ele, tomado sabe-se lá por que espírito, do Tarzan talvez, pensou que falava com ele rugindo. Infernizado, Tung  - que a esta altura já se sentia mais leão que cachorro - rugiu o mais alto que pôde, mas saiu um latido uivado terrível. 
A mulher descobriu o que todo mundo via, mas não enxergava: o leão era um cachorro. Foi um pandemônio no pequeno zoo. As pessoas quebraram móveis, se amontoaram na bilheteria pedindo o dinheiro de volta. Mao e Li fugiram montados num jumento que haviam pintado de zebra. Até agora não se sabe o seu paradeiro.