sábado, 26 de maio de 2012

O contador de moscas


Os banheiros públicos de Pequim poderão ter somente duas moscas cada, de acordo com novas regras aprovadas pela prefeitura da capital da China.
A regra curiosa faz parte de um novo esforço do governo local para melhorar as condições de limpeza das instalações que, embora estejam presentes em grande número, são alvo de críticas pelas más condições de higiene.
Fonte: BBC Brasil (23 de maio de 2012)

Tudo começou quando li uma oferta de trabalho nos classificados, doutor. Pensei: o emprego é moleza. Me diga: o que pode ser mais simples que contar moscas? O emprego seguia um modelo chinês que, por suposto, pedia paciência oriental. Os chineses inventaram um monte de coisas, estiveram em baixa, mas agora estão com tudo. Foram eles, inclusive, que inventaram a arte de pegar moscas em pleno ar com aqueles pauzinhos de comer. Não, não precisa comer a mosca.
Eu deveria fazer uma ronda nos banheiros públicos e averiguar se havia moscas ou não na quantidade determinada. Mais que duas, eu capturaria o excesso com os tais pauzinhos. Ah, com um treino especial que recebi, deveria classificar os odores e marcar numa tabuleta com cores que ia do branco ao roxo. Não é tão ruim quanto parece. Digamos que me tornei, a exemplo dos enólogos, provadores de café e charutos, um avaliador de cheiros. Um perfumista ao contrário.
Uma equipe passava depois de mim e, pela marcação na tabuleta, eles colocariam odorizador na quantidade adequada para anular o mau cheiro. É verdade que o sucesso de tal trabalho depende de uma sincronia perfeita entre os contadores de moscas e avaliadores de cheiro e a equipe de desifecção odorífera. Com o tempo um se acostuma, eu só não sabia que perderia meu olfato. Doutor, aquilo é corrosivo, abriu um buraco na minha mucosa nasal, ó.
O salário? Eu achei que era justo no começo, até que me deparei com alguns problemas do negócio. Tenho assombrações até hoje. Há coisas que se encontra num vaso sanitário que custa acreditar que um ser humano o fez. Hoje acredito piamente que temos ets entre nós. Como resultado, visões me assaltam mesmo acordado, chego a sentir um choque que corre pela espinha.
E a disciplina militar da contagem? Nisto penei, doutor. As moscas, como o senhor sabe, são insetos rápidos como um raio. Eu contava uma, duas e logo elas se misturavam e eu já não sabia que aquela que porventura pousava, já havia sido contada ou não. Começava outra vez e logo elas se embaralhavam, hoje eu sei, de propósito, riam de mim, pousavam em meu nariz de galhofa. Teve uma mais ousada que entrou em minha boca, só que fui rápido e dei uma dentada na patife. O gosto não é bom, não senhor.
Como dizia. Até fiquei bom em capturar mosca com os palitos. Mas isto exige extrema destreza e concentração. Confesso que burlei meu trabalho, só às vezes, deixei mais de duas moscas por banheiro. Não foi por mal, era a pressão do trabalho. Depois eu não sabia qual delas deixar. A gente se apega. Sabendo que sou coração mole, algumas pousavam no meu ombro e como minipapagaios, limpavam as patinhas, roçavam a cabeça e me fitavam com aqueles milhões de olhinhos suplicantes. Mas havia aquelas que se amotinaram contra mim. Brigavam, entregavam umas as outras dizendo que a mosca tal vivia em mais de um banheiro. São traiçoeiras entre si, doutor, pior do que gente.
Ouvir a discussão delas era insuportável. Me pesava ter que decidir, especialmente depois de confuso com a contagem. Tentei estimar a quantidade, assim eu me livrava do problema, mas quem disse que deu certo. Eles, meus supervisores, por artes não sei como, sabiam que eu pegava este pequeno atalho. Eu sei que comprometia a qualidade do trabalho. Perguntei uma vez: por que não simplesmente matar as moscas com um veneno qualquer? Suprema ofensa. Eu estava atrapalhando a geração de empregos e ainda por cima poluindo o meio ambiente. E aqueles animais que usavam os banheiros e deixavam para trás aquelas monstruosidades inclassificáveis, eram o quê?
Hoje não posso ver moscas, que sinto uma compulsão para contá-las, perco horas nisso. Este vício já me levou a lixões – o senhor sabia que acabei encontrando amigas dos tempos do trabalho por lá – só para contar moscas. E os odores? Opa, doutor o senhor passou por um daqueles banheiros, reconheci agora. Desculpe. Doutor, eu tenho cura?

terça-feira, 22 de maio de 2012

Quando eu crescer eu quero ser pastor

"Tenho pastores que ganham entre R$ 4 mil e R$ 22 mil". (Silas Malafaia, em entrevista ao portal IG)
Reproduzo abaixo excelente charge do cartunista Alpino - Site Yahoo



sábado, 19 de maio de 2012

O morto-vivo


Eu não sei se rio ou se choro. Para os outros certamente será motivo de riso. Agora, experimente estar morto e depois viver de novo e você verá como é difícil. Isso me causou tanto dissabor que um psicólogo com quem fui forçado a conversar disse que desenvolvi um transtorno qualquer que agora não lembro o nome. Não gosto de médicos em geral. Sei, sei que psicólogo não é médico. Mas, imagine, você está lá com um problema e até se aguenta, então chega alguém dá um apelido médico ou psicológico. Pronto, você está como que fichado, melhor dizendo, ferrado como gado. Aquela coisa não desgruda mais de você. Doravante será conhecido como o fulano do transtorno tal. É assim que penso.
Imagino que você está confundido com esta história de morto-vivo. Claro que não sou um zumbi. Estou bulindo, mas estou morto. Eis minha história. Casei-me jovem. Vivemos bem durante um ou dois anos. Mas danei-me com aquilo, estava farto. Simplesmente fui embora sem dizer nada  e nunca mais dei notícia. Sabe aquela história de: vou bem ali comprar cigarro? Éramos pobres de doer. A pobreza explica sem vergonhice e atos desesperados.
Minha mulher amigou-se com um sujeito. Ela era pobre, mas não burra e tinha um quê de malandra o que faz de toda inteligência adubada pela necessidade uma arma. Quinze anos se passaram e eu soube que ela havia morrido. Como estou meio no zero, pensei: vou ganhar pensão da falecida. Levei um atestado de óbito que pedi a um amigo para fazer em minha cidade. Queria acelerar o processo, ora pois! No INSS, o cidadão disse: lamento, o senhor não pode se habilitar porque está morto. Foi um susto. Protestei, por suposto. Mas o funcionário foi totalmente cego e intransigente. Sem contar que me acusou de forjar uma certidão de óbito de minha falecida ex-esposa que, assim, agora havia morrido duas vezes.
A situação ficou cada vez mais esquisita. Eu gritava dizendo que estava vivo e o homem simplesmente disse que se havia um papel, registrado em cartório, dizendo que eu estava morto, o papel valia mais e que era melhor procurar ressuscitar para falar com ele. Agora me digam, como é que uma pessoa ressuscita?
Para esclarecer esta situação fui procurar aquele pé de pano safado que viveu com minha mulher. Não é pé de pano? Como não? Vivendo no pecado com minha falecida, quer dizer, quando viva estava? Adulterinos, isso sim. Aprendi esta palavra lá no INSS. Bonita palavra: adulterinos... Enfim, o tal me disse que eles passavam por aperto, como eu tivesse sumido sem deixar vestígios, minha finada teve a ideia de ganhar pensão como minha morte. Conseguiram um atestado de óbito e não é que o INSS, sem investigar nada, deu a pensão. Por anos, viveram da minha morte. Por isso, o bicho está gordo feito um porco, nunca mais meteu a mão na juquira.
Mas a coisa ainda se complica. Como morrasem num povoado, pediram a uma comadre de minha finada que pegasse o dinheiro. Para isso ela tinha uma procuração. Mas, morta minha mulher, ela continuou a receber e sem repassar ao meu pé de pano que, afinal, era o legítimo dono do dinheiro. Assim, na moita, ficou mais de dois anos no bem bom. Ele, burro feito um jumento, acreditou na pilantra da comadre. Todo mundo se dando bem e eu, necas!
Depois que descobriu, ele denunciou a comadre ladra ao delegado que prontamente investigou. Explicou que para cessar a pensão deveria entrar com o atestado de óbito de minha pobre falecida que, a estas alturas continuava viva para o INSS. Ele, então, atestou a morte da defunta minha ex e eu também, mas em meu favor digo que não fiz por mal, tentava ajudar sem saber, pois estava dando descanso a uma pobre alma que, morta, perambulava viva pelo INSS e dando dinheiro a uma farsante.
Meu pé de pano pede indenização, o INSS disse que deu o dinheiro para a que estava viva, pois nada havia contra sua vivência, portanto, um ato legal, não cabe indenização por fazer o certo. Ele que cobre da comadre que se escafedeu para lugar incerto e não sabido.
Minha ex, agora, está morta duas vezes e eu uma. Soube agora, fui indiciado por produção de documento falso, pois disse que a mulher estava morta, quando de fato, já estava. Sou mentiroso por isso, acreditam? Explicam que uma pessoa só morre uma vez. E eu que morrerei duas? Mas sabem, talvez a morte me venha a calhar. Será que a justiça pode mandar prender um morto?

domingo, 13 de maio de 2012

Quem p... está com o dedo verde


A flatulência dos dinossauros herbívoros pode ter causado o aquecimento do planeta há 150 milhões de anos, durante a era Mesozoica, segundo um estudo divulgado nesta segunda-feira no Reino Unido e publicado no periódico Current Biology.

Fonte: Revista Veja (07/05/2012 - Com agência EFE)

A glória não vem fácil não. Precisa ralar, meu filho. Às vezes, literalmente, tem-se que meter a mão na m... Minha tese é revolucionária. Sei que vai causar espanto e alguma negativa, afinal todo mundo diz que um meteoro exterminou os dinossauros há 65 milhões de anos. Eu refutarei esta tese. Atrapalha-se um pouco. Afasta, Mimosa. Mimosa é nossa modelo para explicar a teoria. Quero dizer que a vaca não é maltratada, embora faça parte de uma pesquisa neste laboratório. Falo isso porque estas patrulhas de ecoxiitas são um saco. Querem acabar com a utilização de animais em pesquisas. Vamos usar o quê? Lesma? Minhoca?
Você perguntou no que consiste minha teoria. Vamos falar em palavras simples, para compreensão de seu público. Os dinossauros foram extintos por causa da flatulência. Só isso? O senhor nega a queda do meteoro? Há controvérsias quanto a esta queda. Como assim? Há uma cratera que foi medida e fotografada e os estudos provam que as consequências da queda do bólido sugerem a extinção, porque gerou um inverno gelado em todo o planeta.
Meu jovem, isso é o que dizem por aí. Afirmo que os dinossauros estavam extintos quando o meteoro caiu, se é que caiu mesmo. Eles morreram de calor e sufocados nos próprios peidos. Meu amigo, peido de dinossauro não é brincadeira, nem se fale no barulho. Não é mais difícil provar os peidos dinossáuricos do que a queda do meteoro? Digo que um meteoro deixa um cratera, mas o peido se dissipa no ar. Aí é que você se engana. Não se precisa “provar” os flatos. Todo ser vivo flatula – inventei esta palavra. Mesmo aqueles que negam. O senhor tem cara de quem nega.
Não nego nem afirmo nada. Aqui se trata de uma entrevista e quem peidou foram os dinossauros e não eu. Explique-me. Escapou-me uma coisa. O senhor se referia ao cheiro quando expressou que as bufas não eram brincadeira... Ah, esta é a cereja do bolo de nossa teoria, por assim dizer. Minha equipe conseguiu reproduzir o cheiro ou algo muito próximo. Não posso dizer como, é segredo. E estudos anatômicos da cloaca monumental dos bichos revelaram algo inusitado. Um engenheiro de som reproduziu o barulho do traque. Mas deixemos isso de lado, isto será parte do show da apresentação da tese. Concentremo-nos no mais importante.
O que seria? Que o metano saído daquelas bundas gigantescas esquentou o planeta inteiro. Isso desarranjou o clima com um calor insuportável. Incêndios, secas devastadoras e temos os pobres dinossauros mortos. Eis tudo. Para se ter uma ideia, eles despejaram mais metano na atmosfera que nós hoje com nossas fábricas. O frio veio depois, só congelou carcaça.  
E onde entra a Mimosa nesta história, já que se trata de um mamífero? Medimos as bombas da Mimosa e comparamos com os dinossauros. É praticamente uma regra de três simples. Um dinossauro saurópode pesava 45 toneladas e media 45 metros. Como era também herbívoro, a gente compara com uma vaca. Pensamos num elefante, mas era ligeiramente complicado manuseá-lo aqui dentro. Não era prático retirar 220 Kg de cocô do laboratório e o elefante não deixava a gente enfiar o equipamento para medir os gases.
Doutor, obrigado pela sua atenção. Nossos leitores ficarão muito gratos por estas informações tão importantes. De nada. Só queria dizer que um resultado de nossa pesquisa – ainda a ser provado –  tem a ver com a flatulência humana. Imagine 7 bilhões de onívoros vezes 1L/dia. Um o quê? Um litro de gases, meu caro jornalista. Tem gente demais no planeta, a coisa começa a complicar. O senhor não gostaria de participar como voluntário? Não, obrigado.
Tudo bem... Você sentiu? Olha que este estudo me deixou com um nariz muito sensível. Foi você? Não senhor, não nego estas coisas. Dá uma bifa no cara do microscópio. Ô sem noção, tu já comeste repolho com cebola de novo, não foi? Vai dar uma volta lá fora. Volta-se para o jornalista. Eu ainda demito este cara.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Saco de gatos


Crematório da Vila Alpina sofre com falta de urnas de madeira há dois meses. A licitação deveria ter acontecido no início do ano, mas só será realizada em maio. A prefeitura disse que o atraso ocorreu por que as empresas aumentaram em 137% o valor do produto.
Fonte: G1 (30/04/2012)
Olha esse pé na minha cara! Calma, amigo, estamos todos em igual situação, o lugar é apertado. Tira essa mão boba, disse uma voz feminina em algum lugar mais abaixo. Olha, isso aqui não é o trem da Central do Brasil, não, ouviu? Tenha um pouco de compostura, seu descarado, insistiu a voz feminina. Ô, companheiro, vou chamar a polícia, ameaçou outro. Pode chamar, eu não passei mão na bunda de ninguém, essa moça é muito sensível, aliás, nem sei onde foram parar minhas mãos, ó. Mostrou os cotocos. Então quem foi? Exasperou-se a mulher. Silêncio.
Alguém sabe dizer porque fomos amontoados que nem restos neste lugar? Faltou urna, dizem lá. Outro completou. Ouvi dizer que uns capitalistas, verdadeiros urubus, aumentaram o valor das urnas em mais de cem por cento. Mas isto não é da época do Sarney? Sunab neles! Que coisa mais antiga. Sei lá, alguém ponderou, o tempo aqui é meio estranho. Em que ano estamos? 1978, disse uma. 2003, disse outro. Viu só, estamos num limbo. Os caras das urnas são uns pilantras, vociferou uma voz aguda. Ok, e nós é que temos que pagar o pato? Incompetência! Gritou um que se dizia louco.
Uma voz gutural, lá no fundo, falou como se estivesse espremido por toneladas. Precisamos reclamar sobre este descalabro. É muita falta de respeito nos colocarem todos amontoados sem a menor cerimônia. Houve um coro de vozes concordando. Uma voz afetada e cheia de requebros gritou perguntando o que se iria fazer. Outro silêncio. A mesma voz deu a solução. Olha, eu e as monas minhas amigas fomos espremidas horrores por aquela sociedade preconceituosa e homofóbica. A saída é subir no salto e fazer uma parada. No meio da confusão, alguém perguntou: alguém viu um pezinho com um anelzinho no dedo mindinho? Ih, mais um, um sujeito gruniu. Enquanto isso, a ala masculina chiou com a sugestão do rapaz da vozinha. Era mais quem dizia que não subiria em salto nenhum. A vozinha deu uns muchochos amuados. Nós aqui nesta situação e vocês estão preocupados com uma metáfora? Incompetência! Clamou o louco, agora para risos de alguns.
Senhora, senhora, por favor, sou um homem casado. E daí, sua esposa está por aqui, por acaso? Não, ficou... Então, tolinho... mas você não faz o meu  tipo e esta encoxada aqui não tem nenhuma segunda intenção, é que não posso evitar, aliás a coxa nem é minha. Pelo menos não lembro dela nesta cor. Como não sou o seu tipo? Incompetência! Interrompeu o louco para gargalhada geral, embora alguns o tenham mandado calar a boca. O que que eu não tenho que os outros tem? Que outros, seu coitado? Está me estranhando como uma dessas piriguetes que estão no meio do espremido? É que ela reconheceu uma zinha qualquer que foi sua desafeta lá no meio do bolo de gente. Além de causar reclamações de algumas que se sentiram atingidas, a tal zinha prometeu-lhe uns bons bofetes nas fuças e por pouco, não fosse a contenção de alguns, o lugar se tornaria um octógono feminino.
Por momento, a paz reinou em meio a gemidos e bufos. Bateram minha carteira! Alguém gritou em algum lugar. Claro, todos que ouviram queriam saber quem roubou e quem foi roubado. Uma mulher disse que era para chamarem o Janjão. Quem??? O guarda, ela respondeu. Eu o encontrei quando estávamos sendo jogados aqui. Quer dizer, o que reconheci por aquela pança.
Quase todos. Janjão! Janjão! Aqui, disse uma voz sonolenta. Ô Janjão, uma balbúrdia dessas e você aí, cochilando. Cochilando, não, comigo é sempre alerta. Levantou a mão direita para fazer o símbolo dos escoteiros, mas faltavam os três dedos. Acho que aquela feijoada pouco antes de vir para cá pesou. Justificou-se. O que é? Bateram a carteira de alguém. Estou fora. Você é única autoridade aqui, precisa fazer alguma coisa, basta o que passamos lá fora com a falta de segurança. Não é possível que numa comunidade tão pequena haja uma batedor de carteira desavergonhado. Janjão sem poder sair de seu lugar. Aê pessoal, estou a procura do larápio, qualquer informação passem aqui para meu setor e voltou a cochilar alheio ao banzé. A turba ficou aparentemente satisfeita, inclusive o suposto furtado.
Noutro plano, bem próximo, dois barnabés discutiam o destino das pessoas. Já fizeram a licitação? Sei não. Que vamos fazer com esta gente? O saco já está transbordando. Vamos esperar a licitação. O que é isso? Perguntou o mais burro dos dois. Acho que um jeito de comprar as urnas. É por que eu não aguento mais espanar cinzas da roupa e cabelo. E do chão, ó, do chão!

domingo, 29 de abril de 2012

Cada um tem o Fucking que merece


Os habitantes de uma cidadezinha na Áustria estão cansados de piadas, dos trotes diários e dos roubos das placas locais de sinalização. O motivo é o peculiar nome do povoado: Fucking.
Desde que os soldados americanos e britânicos descobriram a pequena vila ao Norte de Salzburgo na II Guerra Mundial, turistas não param de chegar para tirar fotos no local.

Fonte: BBC Brasil (25 de abril, 2012)

Há pais que, podem se especular as razões, dão nomes tão feios aos filhos que num futuro nada distante, ainda no maternal, aquela criatura em tenra idade sentirá todo o peso da maldade humana. Bebedeira no dia do nascimento, vingança por saber que você veio atrapalhar a vida deles, o casal fumou algo estranho ou tomou ácido, tiveram a triste ideia de juntar os próprios nomes reproduzindo o ato que lhe geraram ou, simplesmente, porque sofriam de algum tipo de retardo mental. As razões podem ser infinitas.
Se este é o seu caso, foi alcunhado com um nome que considera quase um xingamento ou ainda mais que isso, é algo que: 1. Causou-lhe constrangimento a cada vez que tinha de se nomear; 2. Vitimou-lhe com bullyngs monstruosos durante os miseráveis anos na escola; 3. Fez-lhe tortuosa e acidentada a travessia da adolescência entre crudelíssimos colegas; há recursos legais para se livrar deste carma infeliz. Você pode se autobatizar com aquele nome que sempre pensou que era a sua cara e depois tratar de refazer sua autoestima destruída até a raiz.
Agora imaginem uma cidadezinha bucólica na Áustria, espremida entre montanhas numa paisagem que lembra um conto de fada. Ali, os moradores vivem em tranquila harmonia por gerações. É possível traçar árvores genealógicas mais velhas que o Brasil. Como falam alemão, certas palavras têm significados, digamos, normais, enquanto noutras línguas evocarão palavrões cabeludos ou nomearão práticas humanas tão velhas quanto Adão, mas que ficam mais picantes quando são chamadas de forma chula.
Mas olhem como as coisas se entrelaçam. Digo, nome de pessoas e cidades que lhe prestem homenagem, como é o caso. A cidade recebeu uma variante do nome de um nobre que viveu séculos atrás e o tal se chamava Focko. Convenhamos, em bom português seria um ótimo nome para um cachorro, ou não? Focko é um nome chocho, sem brilho e se não fosse errado, a gente diria que é o marido da Foca.
Então, retomando a história. Sei lá quanto tempo depois, pelos feitos vitoriosos, heroísmo e coragem, o nobre Focko foi lembrado e a comunidade se autodenominou de Fucking. Vocês, caros leitores, mesmo sendo semianalfabetos em inglês, mas que de tanto ouvir rap em inglês aprenderam uma coleção de palavrões, já perceberam que este é um nome realmente curioso.
Os funckingers, o equivalente a chamá-lo de ludovicense, mas que traduzido literalmente seria... deixa pra lá. Enfim, os moradores estão p%#tos. Perderam a paz e a cidade foi eleita por turistas como destino para as mais estranhas práticas. Sem contar que roubam as placas de boas vindas que seria mais ou menos assim: Bem-vindos a F@#%ndo. Os boatos de que a cidade tem apelos afrodisíacos trouxe uma miríade de tarados e salientes dos quatro cantos do mundo. Os turistas fazem fuk-fuk nos lugares públicos, causando verdadeiras saias justas, ou saias no chão, como queiram.
Velhinhos, imaginem, foram pegos fuk-fukando na fila do supermercado. Carregam a água das fontes públicas porque afirmam que a água de Fucking é melhor que Viagra. Nem se fale os trocadilhos infames que os comerciantes ouvem. E os convites descarados para moradores fuk-fukarem com estranhos? Alguns mais afoitos, já foram pegos andando pelados pelas ruas.
O prefeito determinou câmeras para inibir a fuk-fukagem pública, mas além de tarados, os turistas se tornaram exibicionistas. Um auxiliar da prefeitura teve a infeliz ideia de fazer camisetas e pedir que os moradores usassem. Frases como I love Fucking e I’m proud to Fucking viraram hits alcançando preços estratosféricos. Foram canceladas e turistas não podem usá-las no perímetro da cidade. Aparentemente, depois de tanto esforço, estão perdendo a batalha e já há quem defenda aproveitar o embalo e transformr Fucking de vez numa Sodoma dos Alpes austríacos ou mudar de nome para algo como Montain View. Tá difícil.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Toma que o filho é teu!


Biólogo morto em 1972 é suspeito de ter usado os próprios espermatozoides para fertilizar óvulos de pacientes ao longo de 20 anos.
O dono de uma clínica de fertilidade, aberta nos anos 1940, em Londres, pode ser pai de cerca de 600 pessoas, segundo reportagem do jornal inglês "Telegraph".

Fonte: Folha de São Paulo – caderno Saúde (11/04/2012)

Esta é uma destas coisas que demora a gente se acostumar por aqui. A passagem do tempo. De fato, mal nos damos conta desta medida a qual Eistein incluiu como quarta dimensão. Encontrei-o outro dia... não, parou com a mania de botar a língua para fora. Aquilo foi só uma traquinagem.
Enfim, conversamos longamente, em alemão, vejam só! Eu que não sabia um “a” nesta língua, aqui sei todas. Ele explicou relatividade, teoria do espaço-tempo e até ensaiou me inteirar sobre o princípio da incerteza de Heisemberg. Acontece que nada disso faz qualquer sentido por aqui, ou faz todo sentido, sei lá. Disse que não vê a hora de conversar com o físico aleijadinho inglês (Stephen Hawking). Aquele da cadeira de rodas elétrica! Como é? Fui politicamente incorreto? Dane-se!
Mas me perco. Eis que chegou deste lado um velho conhecido que viveu até os noventa e tantos anos. A primeira coisa que fez foi me dar uma reprimenda. Claro, eu não entendi nada. Mas como ele ainda estivesse em processo de adaptação, entendi que fosse um jet lag, afinal é uma viagenzinha danada de longe com um fuso horário completamente louco. Parece que estamos no verão num dos pólos, é sempre de dia e sem sol, de modo que é impossível saber as horas.
Esperei meu velho amigo recuperar-se, mas para minha surpresa continuava cismado comigo. Disse que o traí. Estava boiando. Até que, num ímpeto disse que eu era pai do filho dele. Bom, aí a coisa enrolou de vez, pois se teve uma coisa que nunca me atraiu foi a ilustre tribufu com quem ele se casou. Não a desmereço como pessoa, entendam, apenas era um ser humano desprovido de qualquer atributo estético relevante. Nunca entendi o que ele viu nela. Pedi que meu amigo explicasse melhor. Ele, já refeito, disse que o buchicho do momento, pouco antes dele chegar, é que certo biólogo, dono de uma clínica in vitro, usava o próprio esperma para fecundar os filhos alheios. Trocando em miúdos. O tal tarado, louco, sem vergonha, fui eu.
Cara, isso doeu. Primeiro, porque havia esquecido esta história. Segundo, porque fiz isso para ajudar aquelas famílias desesperadas. Terceiro, fiz por amor à ciência. Agora, querer me tratar de Roger Abdelmassih, isto não aceito. Como é que eu sei da história deste patife? Vocês estão pensando o quê? Que ficamos tocando harpa e não se faz mais nada? Aqui tem a CNN cósmico-espiritual. Sem contar que cada um que chega, conta histórias do arco da velha. Eu mesmo, cada dia me convenço, melhor estar do lado de cá.
Voltando ao tema. À época, meu amigo suplicou que eu ajudasse a que ele e a distinta dama, sua mulher, engravidassem. Pô, só quis ajudar! O cara tinha os piores espermatozóides da paróquia. Que mal haveria se eu, secretamente, contribuísse para a felicidade de sua casa? Nasceu um menino forte e saudável, agora ele vem todo amuado queixando-se de traição. Pai é quem cria, não estou certo?
Ele disse que há uma verdadeira força tarefa fazendo exames de dna para provar que sou o pai biológico de mais de 600 pessoas. Tiveram o despautério de revirar meu esqueleto para retirar dna. Disse-me ele que a conta vai pelos 348 filhos e a fila só aumenta.
Deixa eu explicar. Um pioneiro tem que se sacrificar. Conversei com o Freud sobre isso. Ele deu lá umas boas explicações. Que eu incorporei – mentalmente, pessoal – o pai da horda primitiva ou coisa parecida. De fato, o episódio com meu amigo abriu as portas do dilúvio e inundei as placas de petri, os tubos de ensaio e sapequei, sim, espermatozóide de boa qualidade naquele óvulozinhos lindos.
Eu era o próprio macho alfa cumprindo o mandamento bíblico de encher a terra. Não é para me gabar não, mas se tinha que encher o mundo, por que não com uma prole de um sujeito inteligente e bom camarada? Não me arrependo. Só vou fazer uma coisa, aquele meu amigo é danado de fofoqueiro, com certeza vai contar para a Matilda, minha mulher e sócia na clínica. Vou logo pedir desculpas por este pequeno deslize que cometi, se não o pau vai quebrar quando eu chegar em casa.