sexta-feira, 24 de junho de 2016

O gato do quitandeiro

O velho quitandeiro criou um gato desde filhote. À noite, por razões obscuras, ele amarrava o gato ao pé da mesa do pequeno comércio e se ia para casa. Na manhã seguinte, ele desamarrava o bicho que estava livre para fazer suas gatices. Passados alguns poucos anos, o gato adulto, toda noite a certa hora lá de seu ciclo circadiano felino, miava desesperadamente. Só se aquietava depois que era amarrado ao pé da mesa. O gato estava definitivamente condicionado.
Cada pessoa, em certo grau, tem algum tipo de condicionamento. É comum que eles apareçam nas relações sociais. Há gente, por exemplo, que só funciona no conflito, na oposição. Há uma necessidade visceral de um “inimigo” ou alguém a quem culpar ou brigar. Retire-se esse opositor imaginário ou real e esta pessoa fará de tudo para achar outro.
Talvez o mundo político seja o lugar perfeito para se ver este tipo de comportamento. Em grande parte, é um teatro. Não raro, vemos um oposicionista esbravejando na tribuna e logo em seguida confraterniza alegremente com seu adversário. De modo que os passionais legítimos são poucos.
E no espectro político, como nos campos de futebol, na arte, quanto mais exagerado e teatral, mais a pessoa se destaca. Alguém duvida que as falas de um Bolsonaro ou de uma Maria do Rosário, ambos em polos opostos, por mais absurdas que sejam e que até firam nossas suscetibilidades, não tem um público ouvinte e aprovador de suas loucuras?
Episódio não tão recente entre esses dois ganhou novo round. Bolsonaro tornou-se réu num processo no STF por injúria – chamou a Maria do Rosário de feia – e apologia ao crime – teria dito que ela não merecia ser estuprada. O jurídico foi antecedido por uma refrega entre os dois, em que a deputada chamou seu colega de estuprador. Por truculenta que seja essa fala do deputado, admitir que o homem é um estuprador pedindo para acontecer parece um descabimento.
Toda essa querela seria apenas briga de ponta de rua, coisa de gente desclassificada, mas o sururu entre ambos tem um propósito. Cada qual representa para seu público um papel que pensam em suas cabeças vazias ser o ápice da defesa dos valores defendidos por cada um.
Ao ser indagada sobre o Supremo ter aceitado sua denúncia, Rosário cantou vitória e disse alguma coisa sobre o combate à “cultura do estupro”. Ora, essa é mais uma construção ideológica que, não avaliada como deve, leva a crer que estamos mais para uma Índia do que imaginamos. O Supremo quer tirar uma lasquinha do tema da moda. O único sensato neste imbróglio foi Marco Aurélio Melo que viu a cena real, a fala do deputado não passou de um “arroubo retórico”, como disse.
Afinal, onde está a cultura do estupro? Está no sentido que lhes dão um crescente e fortalecido movimento feminista e da esquerda desmiolada que mistura na mesma frase o “fora Temer” com o “corpo é meu”. Este movimento passou da fase de mostrar os seios com a FEMEM, para ser mais aguerrido com passeatas e falas, pode-se dizer, mais articulado, mas nem por isso diz a verdade e, desconfio, é intelectualmente desonesto.
Cultura pressupõe um conjunto de valores firmemente estabelecido, seguido pela imensa maioria das pessoas, caracteriza comportamentos, tem status de verdade, faz parte natural das disposições mentais e é cultuado como fundamento identificador de um grupo. Tem outras acepções, quando se refere à área artística, por exemplo.
A expressão “cultura de estupro” é, no mínimo, um exagero e um desrespeito aos milhões de homens que neste país nem de longe admitem tal comportamento. Quem pratica o estupro não faz apologia dele. Não publicamente. Tem um viés marginal-patológico. Até entre bandidos, há uma lei não escrita contra o estupro. Todos sabem o que acontece ao estuprador na cadeia. As próprias autoridades tendem a dar tratamento diferenciado ao criminoso para evitar que seja seviciado e/ou morto pelos demais detentos.
Nestes dias, há uma histeria que generaliza quase todo ato masculino como uma potencial indicação para perpetrar o estupro. Um assobio na rua, uma abordagem de um homem é, para alguns, indicação real da tal cultura. Ser masculino e viril está se tornando um crime. O politicamente correto que se refestela neste absurdo, aplaude.
Este discurso vociferado em rostos pintados e ocupações de escolas, universidades, ruas e órgãos públicos, fala de uma realidade da força, da agressão aos valores dos outros, do impingimento de rótulos – veja-se o “coxinha” para denegrir todos os que se opunham à bandalheira na política – como forma de desqualificar e desconstruir o outro. O estupro existe e deve ser combatido na forma da lei e com todo o rigor possível, mas não existe uma “cultura de estupro” no Brasil. A expressão serve a um grupo que se recusa a analisar as coisas em sua verdadeira realidade. É só um gato do quitandeiro, sem a honestidade daquele.