quarta-feira, 3 de março de 2010

Alá por empréstimo e o manual gay politicamente correto

A língua malaia, segundo reportagem do Der Spiegel, não possui uma palavra para Deus. Como a religião muçulmana é majoritária no país, os cristãos decidiram usar o nome Alá, conforme sua crença. Os muçulmanos, insuflados por imãs fanáticos, passaram a perseguir os cristãos porque, segundo eles, o nome Alá é exclusivamente seu.
Uma corte de justiça na capital (Kuala Lumpur) reconheceu que os cristãos têm direito de usar o nome Alá, mas setores do governo apoiam os fanáticos e deram declarações que funcionaram como uma espécie de carta branca para que os cristãos fossem atacados. Resultado: igrejas foram incendiadas e cristãos agredidos e alguns mortos.
Embora haja componentes políticos envolvidos, a linha de frente da briga é por causa da utilização de uma palavra, pois, dizem os fanáticos muçulmanos, seus fiéis podem ser confundidos e até cometerem a traição de se converterem ao cristianismo. O raciocínio tosco é que não sabendo a que Alá os cristãos se referem, muçulmanos simplórios podem, inadvertidamente, servi-lo.
A briga por palavras é parte de nossa capacidade de articular vocábulos desde que estas eram apenas grunhidos sem sentido. Elas são agudas como um punhal. Não à toa a Bíblia compara a palavra de Deus com uma espada, penetrante, afiada, divisora mesmo daquilo que só a morte separa: alma, corpo e espírito, medulas e juntas, pensamentos e intenções.
Somos a sociedade da imagem, mas imagem não é tudo. A formatação social tem no campo semântico a face mais visível de uma luta de classes, ou de minorias contra a maioria que supostamente é opressora e discriminatória. Mas como todos querem uma lasca de vantagem, existem centenas destas minorias. Quem não protagoniza é protagonizado por alguma ONG que lhe toma a voz e defesa.
A luta se dá quando as pessoas se apossam de palavras ou instrumentalizam dicionários particulares que, consideram, lhes definem. É uma espécie de autotutela, a libertação de dizer um mesmo quem é. Prevarica contra a verdade particular aí embutida quem é analfabeto no dialeto ou se mantém chamando as coisas como são.
Este é o caso do movimento politicamente correto que elevou as expressões corriqueiras, que nunca foram depreciativas, à categoria de párias vernaculares, porque ferem suscetibilidades. Criaram uma prisão patrulhada por olhos e cenhos franzidos ao primeiro deslize de quem quer que seja.
Talvez haja aqui a incógnita de quem veio primeiro se a galinha ou o ovo. O movimento politicamente correto criou as minorias (ou o contrário?) que vicejaram na esteira de ações sociais. Tentativas de exorcizar culpas em favor de um tipo de participação direta que subverte a democracia ocidental, ironicamente, pela liberdade que ela proporciona. Assim, comerciantes de países como EUA, Inglaterra e grande parte da Europa, não usam mais o velho e conhecido Merry Christmas no natal em suas lojas, mas um seboso e sem sal Happy Holidays. Não se quer ferir os adeptos de outras religiões.
No Brasil, a Presidência da República encampou o manual da militância gay, que pretende ser um guia de comunicação com a classe, e o colocou no site do Observatório da Igualdade de Gênero, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, e por conselhos federais, como o de Serviço Social. Atentem (ver grifo) em que lugar o governo Lula colocou o tal manual.
A primeira coisa que um tem que aprender com o manual é que a palavra homossexualismo lembra doença. A expressão agora é homossexualidade, pois se trata de uma condição. A palavra homofobia, esta não mudou nada. É definida como medo, aversão ou ódio irracional aos homossexuais. Carregam bem nas tintas do verbete que é usado e abusado para classificar qualquer atitude, para etiquetar os outros, mesmo em contextos religiosos, por exemplo, para criticar uma citação bíblica. Não satisfeitos, descrevem o que seja fobia e aí também explicam: distúrbio psiquiátrico... Num mundo destes, imagine o Chacrinha, nas tardes de sábado, cantando: Maria sapatão, sapatão...
Não tarda e teremos uma versão bíblica politicamente correta em português. A propósito, sem definir quem, o manual acusa as religiões monoteístas de terem seguidores fundamentalistas, dogmáticos e literalistas que interpretam seus escritos sagrados ao pé da letra e ao fim escorregam,  reconhecem que a cultura cristã é fortemente arraigada no país.
O movimento politicamente correto é danoso à sociedade, agressivo e injusto, pois não trata os desiguais de forma desigual e os iguais de forma igual. Agride o direito de quem discorda. Rotula. Impõe padrões e falas que sejam aceitáveis. Engessa a sociedade. Exclui a espontaneidade nas relações. Arma as pessoas emocionalmente umas contra as outras. Inibe o contraditório. E, no Brasil, a minoria gay, aliada a deputados e senadores, está em plena campanha para crimiminalizar a fé cristã.
De algum modo, como os cristãos malaios, estão nos tomando as palavras. Pior, estão dizendo quais são corretas e quais não são e ai de nós, os que ousarmos ser livres naquilo que ainda nos divisa dos animais, das bestas, dos insanos: exercermos o sagrado direito de falar o que pensamos, neste fascinante mistério que é fazer-se entender e entender o outro, onde se inclui, sim, palavras que, se não devem denegrir a dignidade do outro, podem ofendê-lo. Mas se não posso nem correr o risco de ferir e ser ferido no processo de compreender e ser compreendido, como posso ter espaço para o diálogo? O caminho da tolerância inclui acatar a divergência, colocar-se e, neste movimento, aceitar aquele de quem divirjo, nunca tentar mudá-lo, nem suas palavras.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Peito de aço? Não, de silicone



A recepcionista Lydia Carranza estava no trabalho quando um homem armado com uma pistola semiautomática entrou no consultório e atirou contra ela. A bala acertou o peito da vítima, mas não chegou próximo de seu coração por conta do implante.
Fonte: Do G1, em São Paulo
É curioso como os caminhos das pessoas se cruzam, para o mal e para o bem. Vá se saber que forças operam na tessitura desta grande teia de gente de todo jeito e suas vidas previsíveis na maior parte do tempo. O fato é que aquele dia tão banal seria abalado por um evento que mexeria com o bairro e a cidade.
Ceiça é uma destas cinquentonas sacudidas, cheia de energia e que a despeito de ser avó, gosta de se cuidar, como diz. Sua última incursão na área estética foi a aquisição de duas próteses mamárias, cada uma com 450 ml. Era um sonho, disse ela. Na verdade, trocou as peças antigas e menores, por umas mais avantajadas e que andam sempre à amostra num colo farto. Fora isso, já tinha dado uns repuxões aqui e ali, injetado botox, arrancado pelos a laser e outros procedimentos mais íntimos que não dizia, mas insinuava. Era quase uma garota propaganda da clínica estética onde trabalhava como recepcionista.
Com tanta produção, Ceiça havia remoçado uns dez anos pelo menos. Ela não se dizia aficionada de melhorias estéticas, fazia manutenção, pois o tempo é cruel e não perdoa as mulheres, dizia como uma verdade inabalável.
Aristófanes é um típico perdedor. Aos trinta e poucos anos, teve tempo de cevar uma enorme raiva de si e do mundo. É quase um milagre que tenha arranjando uma mulher com quem casar. Não é desconjuntado, o que explicaria uma possível fuga das mulheres, mas basta conversar com ele para perceber: é um mala suerte ambulante.
Homem de poucas falas, Aristófanes não sabe rir e tem péssimo humor. Os colegas de trabalho o apelidaram de percevejo, se mexer com ele, logo se percebe o mau cheiro. Ele nunca soube do apelido. É quase um autômato, o que é bom para sua atividade de controle de almoxarifado. Os obsessivos são perfeitos em trabalhos que pedem controle. Lá pelas tantas do casamento, sua mulher resolveu pular fora daquela canoa furada. As más línguas diziam que Aristófanes fora presenteado com algo mais do que cabelos na cabeça. Assim mesmo, à ameaça da mulher com o divórcio o fez choramingar para que não o abandonasse.
A mulher foi intransigente. Ele, que se sentia rejeitado, sofrer o abandono da mulher arrombou a represa de rancor e despeito que sentia pelo mundo. Essas coisas não se resolvem na conversa para este tipo de gente. Como quem amola uma faca cega, pacientemente ele acariciou a intenção de matar a mulher, que agora representava todas as suas frustrações, depois... bom, depois se mataria também.
Com esmero de ourives e a minúcia da montagem de um relógio, registrou horários, lugares, tudo que a mulher fazia. Dedicado a esta faina, perdeu até o emprego, pois não fazia outra coisa. Daria um tiro na traidora e fim, pensava.
Aquela tarde de segunda-feira estava aborrecida como tantas outras. Ceiça olhava para o relógio da parede contando os minutos. Se saísse dez minutos adiantada, pegaria o ônibus menos lotado. Uma última cliente aguardava distraída folheando uma revista. Do lado de fora, um vulto achegou-se ao vidro da porta de entrada duas vezes. Colocou as mãos em concha ao lado dos olhos para poder ver dentro da sala de espera. Ceiça não se importou.
Segundos depois, irrompe porta adentro o homem já com a arma em punho e tremendo. A cliente nem se deu conta. Ceiça viu, mas ficou como que em estado de suspensão. Acordou com o estampido, cujo alvo era a cliente. O homem levou arma ao ouvido e ia disparar. Seu olhar cruzou com o de Ceiça. Então o homem baixou a arma e foi em sua direção. Falou coisas incompreensíveis. Ceiça nem teve tempo de se proteger, apenas sentiu o impacto, justo em cima do peito direito. Caiu. O homem fugiu.
Ceiça estava atordoada. Não sabia se estava morta ou viva. Logo chegaram curiosos, chamaram a ambulância. A mama de silicone de Ceiça fora destruída, mas parou a bala. Ela pensou: preciso colocar umas maiores e “jaque”... aproveito e dou fim nestes pneuzinhos.