domingo, 13 de julho de 2014

Não quero ser o país do futebol fuleco



Fonte: Revista Veja (09/07/2014)

Estava determinado a não tocar no assunto. Resisti até mesmo às inúmeras versões de teorias conspiratórias que inundam o whatsapp sobre a venda da copa. Mas, eis que ao ligar o rádio distraidamente, ouço que certo jogador alemão, o simpático Lukas Podolski, havia postado numa rede social uma defesa apaixonada pela seleção brasileira que sofre uma avalanche de análises, insultos e pesares perplexos mundo afora.

Lamento por hoje, Gisele, você que não perde oportunidade de citar a coluna pelo humor que ela pretende. Você que tem um sorriso eterno estampado no rosto. Mas não sei se riremos juntos neste texto.

Voltando. Dizia que Podolski defendeu a seleção brasileira que chamou carinhosamente, num texto escrito em português – outra delicadeza – de amarelinha, uma atitude cavalheiresca que, parece, é a mesma dos demais membros do elenco alemão, inclusive de seu técnico.

A tal rádio, em uma nota jornalística, citou a atitude do jogador Podolski e reproduziu um trecho de sua fala: Respeite a amarelinha com sua história e tradição. O mundo do futebol deve muito ao futebol brasileiro, que é e sempre será o país do futebol. O final da frase ficou ecoando em minha cabeça. E me peguei dizendo para mim mesmo: Não, eu não quero ser o país do futebol. Lembrei inúmeros artigos que dissecaram o tal desastre futebolístico e terminavam, lembrando Jó, como consoladores molestos: ainda somos ou sempre seremos o país do futebol.

É preciso ler o texto inteiro de Podolski. Por que o quero ser ou onde quero estar é no segundo parágrafo de sua fala: A vitória é consequência do trabalho. Viemos determinados... Eles, diferentes da nossa amarelinha, cujos membros aparecem ao lado de necessitados como parte do marketing pessoal ou do conjunto, não apenas posaram com índios aculturados – fantasiados com penas de galinha – no sul da Bahia. Reza a lenda que além da construção de um centro de treinamento em tempo recorde, com a famosa eficiência alemã, olharam o entorno e se comprometeram a construir, não uma, mas duas escolas. Enquanto isso, um viaduto da tal mobilidade urbana da copa desaba, como se fosse feito de meleca e mata dois, curiosamente, na cidade da chamada hecatombe futebolística brasileira. Mineiraço: será assim que o chamarão doravante?

Não quero ser o país do futebol e detesto esta patriotada de rompante que emerge a cada quatro anos. Este ufanismo tolo de que com brasileiro não há quem possa. Já viram que as bandeirinhas sumiram dos carros? Pois desafio aos patriotas de temporada a usarem bandeirinhas até os farrapos por nada. Ganhando ou perdendo. Na eleição que se aproxima. Como um voto-flâmula que tremula cidadania. Com um cidadão, aí sim, não há político que possa.

Não quero ser país do futebol. Quero ver mais trabalho sério, econômico, eficiente e decente dos dirigentes do futebol, dos políticos que com eles se amancebam. Estádios de bilhões e ainda por cima inacabados? Dispenso. Mobilidade urbana fuleira? Renego. E nunca fui contra a copa no país. Quero ser o país da educação, da saúde mínima garantida e não de pirotecnias politiqueiras criminosas, como se vê no Maranhão. Quero que a educação seja boa para que o brasileiro médio – preto, branco, índio, amarelo e pardo – tenha o direito, por mérito, de alçar lugares melhores na vida e não dependa de cotas que dizem promover justiça, enviesada e extemporânea, ou bolsas miseráveis que tem porta de entrada e não de saída. É mais fácil criar cota do que melhorar a educação. E que esta seja mais profissional e menos pelega na sinérgica incompetência dos administradores públicos com professores que mais fazem greve que dão aula e quando dão, tornam o estudante duas vezes mais desinteressado e fracassado.

Detesto quando, ao viajar, ou conhecer um estrangeiro, eles citem nomes de jogadores como se todos nós só fizéssemos isso na vida. Cadê o estadista brasileiro? Onde anda aquele prêmio Nobel que revolucionou algo do conhecimento? Aquele criativo inventor que mudou uma comunidade inteira e virou notícia? Cadê a notícia de melhoras no ranking educacional comparado com outros países? No último, entre 40 nações mais desenvolvidas, ficamos em 38º lugar. A Argentina está um ponto à frente. Só falta ganhar a copa no Maracanã.

Vamos aproveitar que fomos ao fundo do poço – é assim que estão retratando o país depois da derrota – e vamos refundar o Brasil (exagero?). O momento eleitoral é propício. Do fundo, só resta subir. Não creio que qualquer das opções políticas tenha capacidade e compromisso de fazê-lo, mas já será alguma coisa se, em vez de votarmos em miragem, desfaçatez mimetizada de compromisso social, incapacidade edulcorada de bravatas, cinismo escamoteado de falsa ideologia, votarmos com realismo.

Lukas Podolski percebeu um país que derrapa ao citar a convulsão das ruas – atiçadas por grupos com apoio do próprio governo que lhes dá guarida e dinheiro público –, mas também viu que neste país (cito sua fala agora) tem um povo maravilhoso, um povo humilde e honesto. Um país que aprendi a amar. E eu acrescentaria: que todos nós precisamos aprender a amar a cada dia. Mas se você quiser, pode mandar a seleção e a CBF tomar no fuleco.

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