terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Os passaportes da discórdia


O Ministério das Relações Exteriores concedeu passaporte diplomático a quatro líderes evangélicos das igrejas Internacional da Graça de Deus e Assembleia de Deus. Segundo a Agência Brasil, as portarias, assinadas pelo ministro Antonio Patriota, referem-se a pedidos de outubro e dezembro de 2012. Fonte: Revista Veja (16/01/2013)

A revista Forbes fez um ranking, mostrando o tamanho das fortunas de pastores brasileiros que ficaram milionários. Entre os nomes estão Edir Macedo, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia.  Fonte: Revista Época (18/01/2013)

O governo brasileiro, representado por sua chancelaria, precisava se explicar. Mas, como se sabe, o explicar-se para políticos e qualquer governo é uma das coisas mais difíceis. Normalmente, eles tem que justificar coisas, por sua natureza, incompatíveis com a lógica da vida, da justiça, da própria democracia que dizem representar e da qual, por suposto, são ferozes defensores.
Uma das coisas que os políticos e o governo de plantão abominam - a Cristina Elisabet Fernández de Kirchner que o diga - é lidar com a petulância e a sem cerimônia da imprensa e das pessoas que acham que eles tem que dar satisfações de seus atos. Ô gentinha infeliz!, pensam. Se o governo de plantão tem um viés esquerdista, a coisa se dá assim: eles adoram tomar o poder com a democracia, mas amam muito mais mandar sem ela.
O fato é que o Itamaraty estava numa saia justa. Havia que chamar alguém probo, com coragem e, acima de tudo, a principal característica, ser um sem-noção. Aristogênio Pimenta Carvalho e Silva de Albuquerque – os diplomatas adoram serem chamados pelo nome completo – era o homem para esta empreitada. Ele só não sabia disso. Os diplomatas de carreira parecem que já nascem predestinados, com nomes enormes e meio aristocráticos, embora falar disso no Brasil soe um tanto cômico.
Ari, como era conhecido na intimidade das lides diplomáticas, era meio burro, apesar do gênio no nome e nunca ocupou posição de destaque. Vivia enfurnado em montanhas de papéis insignificantes e protocolares. Responder correspondência para “República” do Waziristão, atender ao pedido de um diplomata de Vanuatu, etc, este era seu mundo.
Eis que espoca um escândalo de média intensidade – digo porque o Itamaraty fez ouvido mouco às críticas e apenas disse, enfatuado, que a concessão de passaportes diplomáticos para líderes religiosos havia sido feita em caráter excepcional. Considerou-se, para tanto, uma brechinha assim de minúscula na lei, naturalmente subsidiada por interpretação para lá de elástica e de hermenêutica suspeita.
O diabo é que os tais pastores, bispas (essa palavra é ótima), apóstolos e potestades, haviam acabado de sair em uma lista da Revista Forbes contando riqueza na casa dos milhões de dólares. A resposta lacônica do Itamaraty teria satisfeito aos impertinentes, mas a riqueza dos religiosos deu uma ligeira nódoa ao negócio. Aqui entra nosso herói Aristogênio.
Ari, chegou a sua vez. Grave crise nos ronda, disse o diplomata chefe. Nossa credibilidade está por um fio. Não queremos Joaquim Nabuco e o Barão do Rio Branco se revirando nos túmulos. Imagine que a imprensa capitalista, porco chauvinista está achincalhando nossa briosa instituição alegando que demos passaportes diplomáticos para pastores farrearem no exterior em seus jatinhos. Uma calúnia. Você foi escalado para falar em nosso nome e defender nossa honra.
Ari estava que não cabia em si. Esperou aquele momento a vida inteira. No dia da entrevista coletiva, assim enfrentaria aquela corja, estava afiado como navalha. O discurso escrito para não dar qualquer chance de perguntas desviantes e provocadoras. Leria, daria por encerrado e pronto.
Senhores e senhoras jornalistas. A recente querela sobre a emissão de passaportes para destacados religiosos de nossa nação foi questionada como se fosse ilegal. Pode ser imoral, mas não ilegal. Como sabem, em nossa pauta de exportação encontra-se também formas particularmente bem sucedidas do cristianismo. O mesmo bem que faz aqui, fará lá. Pessoas são estimuladas com mensagens de auto ajuda. Estimula-se a iniciativa e mostra-se que a pobreza, a miséria e a falta de sorte – atentem os senhores que nossos religiosos descobriram o botão mágico de deus – será devidamente exterminada apenas tocando no tal botão que faz a cornucópia celestial se abrir com toda sorte de riquezas. Estes pastores são um exemplo admirável disso.
Por fim. Considerando que a própria presidenta conta com estes fazedores de riqueza do nada para acabar com a pobreza em nosso próprio país até 2014, final de seu mandato que ficará para a posteridade como o mais progressista. Como gesto de boa fé para a humanidade sofrida e com votos de que todos alcancem a mesma prosperidade destes mágicos, diria mesmo, gênios da lâmpada maravilhosa que disporão por módica quantia, é certo, a mesma fonte que os brasileiros já tem acesso. Imaginem o aumento de entrada de divisas para nossa nação.
Estes passaportes inauguram, inclusive, uma nova modalidade, os passaportes celestiais para religiosos e cósmicos para os demais. Já já descobrimos além terra, outros planetas. Colonizaremos Marte e ali e acolá precisarão ouvir as boas novas. Certo de que este esclarecimento atenderá às suas demandas, mesmo injustas por informação, damos o assunto por encerrado. Obrigado.

Nenhum comentário: