terça-feira, 3 de março de 2009

O estado da mentira



Ensino aos meus filhos a não mentir. Esforço-me quanto me é possível para não fazê-lo. Nossa sociedade é absurda sob este ponto de vista porque ela se sustenta sobre as colunas, como o titã Atlas, de muitas mentiras. Mas se sairmos na rua central da cidade e perguntarmos quem acha correto mentir, possivelmente menos de um por cento dos entrevistados concordaria com a prática. É quase esquizofrênica nossa rejeição pela mentira e nosso traquejo cotidiano.

Entre os cristãos, se o assunto é a mentira ou se comentamos o deslize de alguém, sacamos logo textos bíblicos que as condenam e acrescentamos um clássico: mentiroso é o diabo, que é o pai da mentira (Jo 8.44). Não poucos de nós se escondem atrás desta anteface.

Um psicólogo americano, Paul Eckman, estudioso do assunto, afirma que uma pessoa comum ouve, lê ou vê, pelo menos duzentas mentiras ao longo de um dia, quando não for período eleitoral, acrescenta ele. Se excluirmos as horas de sono, dá mais ou menos uma mentira a cada 5 min. Excluam-se também as que nós mesmos dizemos.

Com o perdão do trocadilho, há uma verdade, todos nós mentimos. O que não se confunde com o praticante compulsivo, o cínico que adota a mentira como forma de vida. Mentimos socialmente como forma de cultivar algum tipo de diplomacia e só raríssimos casos não exercitam estes maneirismos sociais. Mas destes se diz: é ignorante, mal humorado, grosseiro.

O que você achou fulano? Ah, está muito bom. Está bonito. Quando nossa opinião é exatamente o contrário. É assim que agimos. Atrasamo-nos e damos a desculpa: foi a chuva, o trânsito... Atende-se o telefone: Fulano não está. Ao lado, o fulano gesticula com o dedo em negativo e você lá: não, não está, saiu faz duas horas.

E por que não tascamos a verdade nua e crua? Porque não queremos melindrar o perguntante. Cremos que não seria educado. E dá um trabalhão explicar porque está feio, a obra é ruim, o escrito é fajuto, a roupa não cai bem porque a pessoa está acima do peso e não tem auto-crítica muito boa. E assim, nas mais diversificadas situações, mentimos.

Paul Eckman, que estuda os aspectos sociais da mentira há 30 anos, diz que os políticos e os atores são os mentirosos mais perfeitos. Dos primeiros, os brasileiros dariam aula a qualquer um no mundo. Os segundos, tanto mais perfeita sua mentira, quer dizer, sua encarnação de um personagem, melhor será o espetáculo. Sua “mentira” não causa dano, ao passo que os políticos com suas ações, destroem nações inteiras. O Maranhão que o diga com seus índices africanos de miséria.

No estudo do psicólogo nem a religião escapa. Não precisa ser versado em teologia para saber. A mentira corteja a religião ao longo de sua história. E está perto de nós, a um clique da tv. Visões, curas espetaculares, profecias, promessas de sucesso a partir de ritos, tramas políticas pelo poder...

Penso que a questão não é mentir, que é algo muito difícil de não fazer numa dada circunstância – também mentimos por constrangimento –, mas a sensibilidade que se pode desenvolver contra este ato. Que ninguém pense que aqui segue uma defesa da mentira. Para além da sensibilidade, a capacidade de, também numa dada situação, confessar. Consertar as conseqüências. É certo que muitas não terão resultados danosos a quem quer que seja. Não maculará a honra, nem destruirá a dignidade de ninguém, contra estas resta a vigilância para que não se tornem um hábito.

Talvez de todas a maior das mentiras é aquela do auto-engano, que tão bem cantou Renato Russo em “Quase sem querer”: Como um anjo caído / Fiz questão de esquecer / Que mentir pra si mesmo / É sempre a pior mentira. Neste caso, quem mente não tem condição de perceber mais os terrenos da verdade em seu ser e modo de vida, ambas se confundem, seja por puro delírio, seja por mau caratismo.

Quando Jesus diz: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.” (Mt 5.37 – ARA). O contexto desta fala inclui o não jurar. Assunto que Tiago retoma de forma condensada em Tg 5.12. Analisemos. Nada que evoquemos, céu, terra, a alma da mãe, pode acrescentar um milímetro de veracidade àquilo que dizemos se o dito não se embasar na verdade. A verdade deve estar em quem fala e não fora dela. Aqui há um princípio psicológico importante envolvido, de integridade do ser, unidade psico-emocional. Há um princípio social. O sujeito falante tem valor por si, porque sua fala reproduz o fato como ele é, não o adultera, o que dá ao que fala e ao seu entorno a geração de um ciclo virtuoso, estabilidade, sustentabilidade.


O Maligno, o pai da mentira, relembra João, faz o que lhe é próprio, isto é, ele é uma farsa como ser, um ser deturpado de uma existência antes verdadeira, segundo as Escrituras, como anjo perfeito. Ora, se ele deixou esta condição, que era sua mais íntima identidade, ele é uma coisa fingida, enganadora. Assim acontece conosco. Nossa palavra deve ser o mais próximo da verdade que nos for possível porque antes do fato fala de nós mesmos. Nossa diferença para o maligno é que nascemos caídos e podemos caminhar para a perfeição por meio da fé em Jesus.

A sociedade atual criou todo tipo de mecanismo para nos proteger da mentira. As leis, um singelo dispositivo de consulta a crédito. Nossa grande tentação e natural inclinação é para sermos farsas, daí esta atávica atração pela mentira.

Se cada um de nós cria uma versão de si mesmo, nestes tempos de internete, um avatar, o resultado é a perda de si, o esfarelamento da unidade psicológica e espiritual. Não admira que a maioria de nós não saiba dizer quem é. E quem não sabe quem é, aceitará qualquer máscara, nunca se conhecerá e não tem coisa mais terrível do que olhar o espelho da alma e rejeitar a imagem daquele estranho ameaçador que ali se reflete. É uma espécie de morte.

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