sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O celular é o novo cigarro

Não é uma frase de efeito: “O celular é o novo cigarro”, disse Amber Case, socióloga americana que explora (estuda) as questões relacionadas ao nosso novo mundo virtualizado.
Case se referia a utilizá-lo como distração da existência (embora pouquíssimas pessoas admitiriam isso), como forma de passar o tempo, pois estamos sempre rapidamente entediados com tudo. Eu acrescentaria para preencher os espaços do silêncio sepulcral entre as pessoas ou o desconforto da presença de estranhos tão proximamente íntimos, como num elevador, por exemplo.
O tédio parece resultar de um adestramento cognitivo e emocional pela torrente ininterrupta e interminável de estímulos a que somos submetidos hoje cada vez mais cedo. Estes estímulos produzem uma avidez pela instantaneidade, mas disso já falou muito bem Zygmunt Bauman. Estamos condicionados irremediavelmente.
Case é categórica: estamos sendo escravizados. O celular é o símbolo máximo dos grilhões escravizantes. Novamente, não é uma frase de impacto. Sua pesquisa registrou que as pessoas, em média, olham o celular entre 1000 e 2000 vezes num único dia!!!! Mesmo se considerarmos que cada olhada leva alguns segundos é um bocado de olhada.
A socióloga sugere que devemos, conscientemente – e aqui há outra questão que ela destaca, talvez a mais importante –, silenciar o smartphone (não há uma ironia nisso?) ou colocá-lo no modo avião por algum tempo durante o dia. Pede que recuperemos o velho despertador analógico ou digital, tanto faz, em lugar do celular que permanece ligado 24 horas. O cérebro, segundo afirma, sofre com a conexão constante.
Retomo a parte que considero mais importante. Estar consciente, controlar o celular em vez de permanecer atado a ele como zumbi, é um tipo de ganho de liberdade. Quanto daquilo que você vê no celular é, de fato, necessário, importante, isto é, algo que faz diferença na sua vida? Quanto disso você se recorda depois de horas grudado à telinha?
Estamos sendo roubado de nós. Vivemos focados em tudo que está fora, especialmente na aprovação ou qualificação que apps e redes sociais criam a nosso respeito. Um episódio do humorista americano Larry David explora esta situação. Ele foi mal qualificado pelo motorista o Uber e isso resultou numa exclusão dele por outros motoristas. A situação se desenvolve num completo nonsense e cenas de ridículo atroz.
As pessoas são agora boas ou más (aqui num sentido amplo, sem qualquer avaliação moral) se elas tem bons perfis nas redes. Valor que obedece a toda uma ética relacional e urbanidade virtuais criadas não mais pela convivência humana direta, mas por algoritmos que, afinal, venderão propaganda gerando bilhões aos donos das redes sociais. Não é incrível que muito do oferecido é “grátis”? Não lhe vem à mente aquela imagem icônica de Matrix: milhões de pessoas em casulos gerando energia para as máquinas?

Concluo com uma frase de Case: “Vivemos constantemente em atenção parcial, nunca estamos presentes, portanto não temos tempo de reflexão.” Qual foi a última vez que você se deu conta, por si mesmo, que estava vivo, sem que tenha sido fruto de alguns likes e curtidas?

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