sexta-feira, 17 de junho de 2016

Culpados são sempre os outros.

Volto ao tema de Orlando. Faço-o motivado pelo desejo de dar um equilíbrio, talvez um pouco mais que isso, combater ideias estereotipadas, rasas, generalizantes sobre as razões porque o cara assassinou 49 pessoas e feriu 53.
Contardo Calligaris, já falei dele aqui, é um psicanalista de renome e como afirma em seu último texto na Folha de São Paulo (O responsável de Orlando, 16/06/2016), jornal no qual escreve semanalmente, tem mais de 30 anos de clínica. É um bocado de experiência! Mas quem disse que experiência é prova de equilíbrio, ouso dizer, honestidade intelectual?
Como eu escrevi no post anterior, logo que me dei conta das primeiras informações sobre as mortes, comecei a desconfiar que o assassino teria razões inconfessáveis para perpetrar ato tão hediondo. Pois bem, Calligaris – aí, sim, sua experiência mostra sua validade – fez uma bem fundamentada exposição (do ponto de vista psicanalítico) das razões psicoemocionais que levaram o sujeito ao ato. Devo dizer que concordo com Calligaris completamente neste ponto, embora não partilhe de sua aboradagem.
O psicanalista, contudo, não poderia negar seus fundamentos ideológicos. Assim, nos três parágrafos finais, o homem acusa quem de fato, segundo sua lógica torta, são os verdadeiros culpados. Um contrassenso com o título, como se verá.
A preparação do arremate do texto é uma temeridade. Diz Calligaris: “Por isso, atrás de cada infeliz que agride o membro de uma minoria sexual, há outros que são responsáveis e deveriam ser imputáveis tanto quanto o agressor – se não mais.” Isso equivale a um pequeno surto. Contra todos os cânones de princípios jurídicos vigentes no mundo ocidental, cristão e democrático, nosso herói sugere que a culpa por ato tão nefasto seja socializada. Parece que no mundo calligariano se pode desindividualizar a culpa. Lembra o PT ou o Lula – o que dá no mesmo – que, pegos nos atos criminosos, alegam que todo mundo fazia antes deles. Culpados são sempre os outros.
O psicanalista registra, por fim, que todos os enrustidos e reprimidos sexuais só o são porque existe um discurso que sustenta a propaganda política e religiosa, no caso presente, homofóbica. O argumento deste homem é, no mínimo, solerte.
A se levar a sério o que diz o articulista da Folha, o mundo deveria se tornar uma ditadura do pensamento sexual único. Toda a discurseira pró homo não tem mais que umas décadas, se tomarmos Stonewall como referência. Mas o pensamento judaico-cristão que, asseguro, NÃO É HOMOFÓBICO, se mede em milênios. Não faço competição temporal, ou defendo um chocho argumento tradicionalista/conservador. O tempo aqui tem a representação de algo que foi avaliado, pensado, articulado em palavras por milhares de pessoas ao longo do tempo. Está curtido de meditação. Ademais, e é o mais importante, tudo isso está fundado numa Palavra que tem um valor de fé. São princípios espirituais que se creem terem sido determinados por Deus. Não querem, por capricho, atazanar os gays. Nem deles se ocupam como se fossem a coisa mais importante do mundo. Em todas as passagens bíblicas, esta questão é apenas um item em uma lista de outras coisas.
Ah, tem algo curioso em que Calligaris reproduz o pensamento do Jean Willys em seus posts sem noção internet afora. A tara por acusar e incriminar o cristianismo. Ele só se permite acusar o islamismo de viés, na figura do pai do assassino. Tinha que ser o pai, né? O homem teria dito ao filho que os gays vão para o inferno. Calligaris não se faz de rogado e interpreta psicanaliticamente o que esta fala causou à mente do gay louco. No mundo politicamente correto destes insensatos, é proibido falar mal dos muçulmanos. Eles são vítimas do ocidente judaico-cristão. Os Palestinos, então, são as vítimas-coitadas universais. Se alguém não sabe, a esquerdalha é a grande patrocinadora do coitadismo no mundo. Voltando.
O país de Calligaris, a Itália, agachou-se na visita diplomático-comercial do presidente iraniano e até encaixotar obras da Renascença – porque estavam nuas – eles fizeram. Não queriam ferir os sacrossantos olhos do religioso xiita. O ridículo foi tanto que uma foto oficial entre presidentes, que tinha uma estátua equestre de um César ao fundo, foi cancelada porque aparecia o colhão do cavalo. A França que recebeu a mesma comitiva iraniana recusou-se a transigir com seus valores. Cancelou um almoço porque os fanáticos queriam determinar o cardápio, inclusive proibir vinho à mesa. E olha que os franceses queriam vender também, e venderam.
É fato inconteste, porém, que pessoas que se dizem cristãs, por exemplo – não me ocupo dos muçulmanos aqui –, estão eivadas de preconceitos, falsas compreensões, interpretações equivocadas, tudo fruto de teologias doentes e, mais que tudo, desconhecem o Espírito da Palavra que é misericórdia, justiça, amor, etc, etc. Agora mesmo, um pobre coitado conseguiu seus quinze minutos de fama nos EUA. Pastor, Roger Jimenez se disse triste porque o tresloucado não acabou o serviço na boate Pulse. Que gostaria que o governo colocasse os gays num paredão e explodisse suas cabeças. Ele também fez aquilo que Calligaris faz no penúltimo parágrafo de seu texto: generalizou. Atribuiu a todos os gays um comportamento pedófilo e os chamou de predadores e abusadores. Isso é cristão? Afirmo categoricamente: NÃO! A fé cristã sofre pelos mortos e chora com seus familiares.
Calligaris nos brinda com essa pérola: “São os que contribuem para que esse infeliz não consiga tolerar seu próprio desejo: o bêbado do boteco que faz piada de veado e traveco, os pastores e os padres que querem curar homossexuais...” É proposital o que faz este senhor: bêbados de boteco, pastores e padres... Por sua régua, todos em pé de igualdade. Acho que Calligaris bateria palmas se Costinha fosse exumado e seu corpo vilipendiado em praça pública. Na Escolinha do Professor Raimundo, sua única função era contar piadas de “bichinha” como ele chamava os gays. Ainda está no ar no canal Viva da Globo. Taí uma sugestão Calligaris: encabece uma petição virtual para cancelar a repetição do programa.
É evidente que vender a ideia de cura de homossexuais é errada. Nem sei se as pessoas fazem isso de forma tão direta como o fazia o finado Projeto Exodus e este mesmo se limitava a ofertar seus “serviços”. Mas é verdade também que muitos gays praticantes atormentados sozinhos por suas incongruências de alma, buscam na espiritualidade cristã uma forma de se resolver. E o fazem de livre e espontânea vontade. Não consta que igrejas, mesmo as mais destrambelhadas, cacem gays nas ruas para obrigá-los a se curar. Algo parecido com o que foi feito com os dependentes de crack em algumas capitais brasileiras.
Como o psicanalista sabe muito bem, há inúmeras outras coisas que as pessoas carregam em si e rejeitam. É possível que não tenha o peso de uma identidade ou desejo sexual, mas a estrutura do problema é o basicamente igual. Será que o diagnóstico do doutor está fundado também em discursos impróprios dos outros que, por loucos que sejam, existem e não são crimes na sociedade plural em que vivemos?
Calligaris está com raiva. Transparece no texto. Está cheio de certezas fanáticas, diversas de um Jimenez apenas porque despidas do elemento de fé. Sofisticado, não teria coragem de verbalizar as aberrações do pastor, mas, no fundo, é um fanático também.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A tragédia de Orlando e a opinião energúmena de Jean Willys.

A tragédia de Orlando ecoará por muitos anos. Muito cedo ainda apareceram mais versões sobre as razões porque aconteceu do que é possível listar. Os serviços de informação americanos ainda vasculham a vida do assassino a fim de compor melhor o quadro. Muito rapidamente se disse que era um ataque terrorista. Talvez porque, o insano, ao falar com o 911, teria dito que era um soldado do Estado Islâmico (EI). Claro que o EI se aproveitaria e tomaria para si um protagonismo que não teve, pois não se achou qualquer ligação entre o demente e o grupo terrorista. Mas é de se admitir que haviam, de algum modo, a inspiração, a ligação religiosa e a mesma forma de interpretar o mundo. Até porque, para o matador, seria uma ótima forma de encobrir sua verdadeira razão como se verá. E eu aposto nela.
Logo em seguida o presidente americano desmentiu peremptório, com aquela ginga típica de rufião do Harlen que ostenta no andar e no falar: “não foi um ataque terrorista”, disse. A verdade é que, naquele momento, ainda faltavam dados para dar um nome ao que aconteceu.
Aos poucos, para além das fotos do facinoroso, pescadas na internet – já li que ele gostava de postar fotos de si nas redes sociais... huuuumm – vai surgindo uma imagem psicológica do tal. Agressor contumaz da esposa, que terminou por pedir o divórcio. Rancoroso. Arredio nas relações sociais. Explosivo ante as contrariedades, o que sugere um baixo limiar para suportar a frustração. Um colega de trabalho disse que ele chutava as coisas e, algumas vezes, ameaçou matar a todos os companheiros.
O pai e mais alguém da família, admitiu que o mentecapto havia expressado sua ira e desconforto várias vezes contra os gays. O pai mesmo alegou que o gatilho disparador da carnificina teria sido porque o aluado viu dois homens se beijando na rua. Difícil crer nesta razão. Num país em que os gays conquistaram expressivo apoio da população e do governo na maior parte dos estados americanos, portanto, ele certamente já teria visto cenas entre gays na rua. A não ser que ele fosse totalmente recluso. Não é o caso. O cara nasceu e viveu grande parte de sua vida em Nova Iorque!
Pensei com meus botões. Já se saberá que esse sujeito teve experiências gays. Pois eis que surge a notícia: o pateta esteve várias vezes na tal boate. Um frequentador o reconheceu e disse que havia conversado e até o chamou insistentemente para dançar. Bem, há sempre a possibilidade de que o cara queira aparecer. Mas outras informações surgiram. O abestado teria feito contato com gays por telefone e internet e era assíduo participante de uma rede social para gays. Não era com o objetivo de matá-los, por suposto. Os especialistas saberão o que fazer com estas informações.
Familiares e outras pessoas do mundo islâmico começaram a se defender, inclusive um grupo de gays islamitas que, por óbvio, só podem sê-lo num país cristão e democrático. Dizem que o Islã nada tem com isso. Bom, diria o personagem do Milani, Pedro Pedreira: “Há controvérsias!” Basta lembrar países como Irã, Arábia Saudita, o EI já mencionado, que tem o péssimo hábito de jogar gays do cocuruto dos prédios.
O instituto internacional Pew Research realizou pesquisa em trinta países de vários continentes e de grande influência islâmica – a pesquisa não se realizou em países de origem árabe e berço do islamismo – e o resultado revela que, em média, mais de 90% das pessoas destes países considera a homossexualidade moralmente errada. O mais tolerante de todos, Uganda, apresentou apenas 12% de pessoas que consideravam a homossexualidade moralmente aceitável. Deve-se destacar que Uganda tem uma forte comunidade cristã. Donde se conclui que, do ponto de vista cultural-religioso, os muçulmanos tendem a ver a homossexualidade de forma reprovável.
Mas o que causa asco é que uns mequetrefes da política nacional, a escória do pensamento, os mentirosos contumazes e delinquentes intelectuais como Jean Willys (JW), Lindberg de Farias e cia das esquerdas, rapidamente acharam culpados. Não lá nos EUA onde ocorreu a ação perversa, mas, espanto, aqui no Brasil. Aproveitaram a desgraça para acusar seus inimigos políticos, a direita e... inacreditavelmente, segundo o marginal JW, os cristãos.
Acusar inimigos políticos já seria de um cinismo sem par, mas acusar os cristãos de alimentarem a homofobia tinha que ser obra de um depravado mental. Nem o Silas Malafaia com sua agressividade verbal costumeira é capaz de insuflar um cristão a agir de forma violenta contra os gays, quanto mais matá-los. JW é destas personagens asquerosas que conseguiram algum lugar ao sol não por um mérito, um dom que ajude as pessoas, uma descoberta, uma arte, mas por ser um gay intelectualóide, projetada num reality show e que pensa sequestrar a causa gay para continuar num estrelato chinfrim que é a sua vida insignificante. Mais ainda como político.
Não satisfeito com sua verborragia desmesurada, JW ainda achou uma forma de defender, é de pasmar, o islamismo. Em seu discurso imoral, esse zé ruela da política nacional disse: “Esperamos que o atentado nos EUA não sirva a um discurso de estigmatização do Islã nem dos imigrantes do oriente médio vivendo naquele país”. Vamos fazer uma vaquinha para enviar JW para um passeio em Teerã com direito a uma esticada ao autoproclamado califado do EI. É ou não é de cair o queixo? Acreditem: esse canastrão não o faz por engano, há em sua fala uma medida e consciente irresponsabilidade. Esse leviano não tem compromisso com coerência, com honra ou a verdade. É um oportunista disposto a faturar nas situações mais bizarras e não importa se sua fala destrambelhada faz sentido ou não.
Esse desqualificado é do mesmo time daquelas aberrações que durante a visita do Papa Francisco fizeram seu espetáculo monstruoso de nudez, destruição de símbolos religiosos, cenas de sadomasoquismo e sexo e a mais chocante de todas – aquele bispo da universal que chutou a santa, comparado, seria culpado de uma brincadeira infantil –, uma sujeita enfiou a cabeça da imagem de Maria na vagina e no ânus. Ela, feminista insana, protestava a favor do aborto, contra a igreja, em meio ao evento católico em plena avenida N. Sra. de Copacabana. Isto tudo para horror dos católicos brasileiros e de visitantes de vários países. O que aconteceu? Nada. E esses néscios vêm falar de intolerância!
Tudo posto, é cada vez mais forte a hipótese de que o enlouquecido assassino tinha razões bem mais íntimas para querer matar os gays. Chamem os psicólogos especialistas! O retrato do homem é de um gay enrustido, consumido de horror e tesão. Sua rígida formação cultural-religiosa – sua ex-esposa, em sua defesa, disse que ele não era um muçulmano praticante, como se isso significasse algo – entrou em violento conflito com sua homossexualidade. Isso transformou este homem em uma bomba relógio. A própria profissão o colocava num ambiente em que a violência é parte do trabalho, o cara era segurança. Lidava com armas e tinha acesso a elas com muita facilidade. Dizer-se do EI, simular um ato terrorista, foi apenas uma cortina de fumaça.
O pai insiste em dizer que ele era homofóbico. Se livra de ter um filho veado, uma desonra nesse tipo de comunidade. Esta mesma desculpa serve ao imigrante islamita que não estaria ligado ao EI, algo complicado para a sensível opinião pública americana nestes dias bicudos. Por fim, limpa a cara da religião dizendo que o cara nem passava na porta de uma mesquita.  Acontece que o islamismo, como o judaísmo, é uma religião de fortíssimo determinante cultural. Elas mediam a vida comum em todos os seus aspectos. Estão de tal modo entranhadas na vida de quem nasce nesse meio que não importa muito se um é praticante ou não. Diferente do cristianismo que um não praticante tem todo um conjunto de valores mundanos e muito distantes daquilo que defende a fé cristã.

Imagem: "O grande masturbador". Salvador Dali (1929)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A máquina calculadora de morte

O pesquisador, ao explicar sua máquina de previsão de morte, disse uma frase que, involuntariamente, tinha um que de poética, filosófica e quântica. Quântica?!?!?! De uns tempos para cá, essa palavra está na moda. Pulou o cercadinho da física e do linguajar dos especialistas para, se duvidarem, aparecer até em receita de bolo.
A frase com características quânticas é esta: “A cada ano que passa, várias versões simuladas de você morrem.” Existir várias versões de uma mesma pessoa, admitir essa possibilidade no sentido físico, pois não poderia acontecer as várias mortes apenas no sentido figurado, só adotando o tal entrelaçamento (ou emaranhado) quântico para entender. Em miúdos: duas coisas estão tão intimamente relacionadas entre si que alterações na condição de uma se reflete na outra, embora estejam separadas fisicamente. Entendeu? Sigamos.
Imagine um programa que com três informações – sexo, idade e etnia – diz com precisão estatística o como e o quando se dará a morte do consulente. Era assim que se chamavam aqueles que buscavam, às vezes escondidos, os préstimos dos bruxos e bruxas que, pelas artes mais diversas, adivinhavam as coisas e poderia até ser a morte (por que não?), ainda que, espertos que são, eles não entrariam neste terreno pantanoso sob pena de perder a freguesia.
Retomando. Justiça seja feita. O programa – HowYou Will Die – não se pretende místico e trata do assunto com a assepsia emocional que a ciência gosta de se vender. Num quadro com centenas de pontos, que mudam de cor vertiginosamente à medida que os anos avançam, é como um filme de terror em que você assiste sua morte um monte de vezes.  Cada cor significa uma forma de morte. Há 113 formas na lista de causas distribuídas em vinte categorias. É hipnótico quando as bolinhas vão ganhando um colorido e enchendo todo o quadro. Quanto mais velho, mais colorido, afinal todas as mortes mais conhecidas vão sendo igualmente possíveis, especialmente todo tipo de doença do manual nosológico.
Uma curiosidade. Depois dos 80 anos cai muito a probabilidade de morte por “external causes”. Nessa categoria estão as mortes não causadas por doenças. Ocorre-me que esta seria uma ótima oportunidade para nessa idade começar a fazer esportes radicais e todo tipo de maluquice perigosa.
Gostei da ideia de uma versão ou versões de mim mesmo. Especialmente se elas morrem em meu lugar, eu que tenho ligeira antipatia pelo personagem morte. Há um filme com Bruce Willys, Substitutos, que mostra uma sociedade futura em que robôs idênticos às pessoas fazem toda a parte chata da vida. Mas, mesmo neste filme, não é possível passar uma procuração para que eles morram em nosso lugar. No caso presente, cada ponto no quadro da máquina calculadora de morte é uma versão de nossa vida. São 783 no total. Eu me contentaria com 500. Talvez menos, seria prudente tirar aquelas que se colorem primeiro no quadro.
Mensagem no whats num futuro não muito distante. Nossos cálculos indicam que neste ano o senhor terá um câncer. Qual de suas versões o senhor indica que adoeça? Imagine, você carrasco de si mesmo. Bem, de uma versão. Mas se, hipotetizemos, você fosse uma daquelas pessoas bem resolvidas que gostasse de todas as suas versões? Vejam que drama! Dá pra trocar pelo diabetes do ano que vem? você diria. A gente antecipa até, quem sabe, eu caia de ódio por um dos meus eus. Sabe como é relação íntima, né? Posso trocar o derrame pelo câncer de pele bobinho, quase uma impingem? Achei uma pessoa que está disposta a detonar uma versão sua, que ele odeia, com quatro doenças cabeludas?
Não duvido. Em pouco tempo haveria um mercado negro de troca de doença. Propina para o cara da máquina. Disfarces naquelas versões mais chegadas e que você quisesse proteger. Haveria gente vendendo versão para serem mortas, como quem vende um rim hoje. No Brasil, seria uma anarquia.
PS 1. No meu caso, tenho 11% de chance geral de morrer e 89% de continuar vivo. Devo admitir, não me impressionei com a chance de morrer.

PS 2. Quadro de Paul Klee - Angelus Novus (1920)

domingo, 5 de junho de 2016

Saul Fia

Entrei na sala de cinema que, por alguma razão, estava mais escura que de costume naqueles minutos que antecedem a projeção. Senti um pouco de insegurança, enquanto meus olhos se adaptavam às trevas e eu me dirigia ao lado oposto onde escolhi a poltrona. As luzinhas guia estão apenas na escadaria.
Sentado, dei-me conta de que não havia alma viva na sala. Sensação estranha. E sim, a sala estava bem mais escura que o normal. E assim assisti a “Saul Fia” (versão húngara do título) ou “Son of Saul”, “O filho de Saul” em português.
Nos primeiros dois minutos, talvez, embora haja som, a imagem está desfocada. Já pensava em reclamar com o projetista, mas desconfiei que aquilo era proposital. Meus pés tateando o chão do cinema, imagens não nítidas pareciam confundir realidade e ficção. Então percebo que o foco começava a ganhar nitidez e o rosto macilento de um homem assoma à tela. Assim seria durante quase todo o filme. Era a estética escolhida pelo diretor. O rosto angustiado, taciturno, monossilábico, a imagem estreita, sufocante, claustrofóbica. O outro plano é apenas aquilo que vê o homem como se fosse o jogo Doom. A câmera alternará entre esses planos,  às vezes trêmula como se quem a segurasse sofresse de verdade as agruras da situação.
Ouvem-se ordens, falas, barulho das pessoas se deslocando saídas de um trecho de floresta. Imagens ao ar livre serão poucas. O homem as guia para certo local. Chama-se Saul e é membro de um Sonderkomando, lotado num dos crematórios de Auschwitz-Birkenau. Alguém anima o grupo com voz firme. Precisamos de todo tipo de profissional. Rápido. Tirem suas roupas, ponham no cabide, elas estarão aqui quando voltarem. O banho é para desinfecção. Depois a sopa. Rápido, vamos. A sopa vai esfriar. A voz com autoridade, as pessoas em movimento, borradas, o rosto de Saul que traduz medo, desespero, automação, distanciamento de tudo aquilo. Nem um músculo de seu rosto treme, mesmo quando as pessoas, desesperadas, tentam sair do “banho”, sufocadas pelo gás zyklon B, gritam e se debatem.
Quando o silêncio reina dentro da sala de banho, os corpos devem ser recolhidos. Automáticos, os Sonderkomando entram e arrastam os mortos. Essas cenas estão desfocadas e se tem a impressão de que eles trabalham num açougue gigantesco. Um barulho chama a atenção dos homens. Um jovem adolescente sobrevivera. Arqueja. Algo desperta Saul de seu torpor. Ele toma o corpo até uma enfermaria. Um oficial médico alemão avalia com o estetoscópio. O médico judeu diz: está vivo. O alemão apenas põe sua mão firmemente sobre a boca e o nariz do rapaz, sufocando-o. Limpa a mão com um lenço e ordena ao médico judeu que realize uma autópsia e devolva o corpo para o crematório. Saul assiste a tudo isso e pela primeira vez fala. Doutor, não corte o garoto. O médico se nega. Pergunta se era parente. Saul diz que era seu filho. Esta questão ficará mais ou menos clara ao longo do filme. Deixo que descubram.
Saul usará todos os seus precários recursos para realizar o enterro segundo a tradição judaica. Parece que esse ato singelo em meio à carnificina, ajudaria a dar sentido à sua existência no torvelinho daquela monstruosidade. Ele carrega sua solidão e desamparo, luta contra um meio cruel e insensível à sua vontade. Parece que todos sucumbiram e não conseguem entender a sua obstinação. É tão poderoso este movimento dentro de Saul, que ele pouco se importa com a fuga do Campo.
Ele vagará de um lado para o outro, consumido pela determinação de fazer o enterro. Está disposto a correr todos os riscos. Nem tem mais sua vida em conta. Era isso ou se tornar um zumbi embrutecido como seus companheiros. Talvez essa leitura de um momento histórico tão tenebroso reflita nossa dura realidade. Estamos emparedados pelas muitas exigências de ser e de pensar? O que faz sentido? Por quais coisas vale a pena lutar em total entrega? Qual o nível de controle de nossos destinos? O que determina nossas motivações? Estamos cercados de corpos mortos, pessoas para quem somos totalmente indiferentes, e nossos companheiros (vivos) são apenas autômatos como nós mesmos?
O filme pode ter muitas leituras. Assisti-lo é submeter-se a duas horas de sentimentos e sensações angustiantes que nos levam a questionar não só aqueles que perpetraram algo tão assombrosamente maligno, mas nosso próprio momento histórico. Estamos em outros (mais sutis) campos de concentração? Exagero?

domingo, 29 de maio de 2016

Queixa de Deus

Um israelense entrou com pedido na Justiça da cidade de Haifa para obter uma ordem de restrição exigindo distância de... Deus. De acordo com site The Times of Israel, o homem argumentou que o todo-poderoso estava sendo especialmente maldoso com ele.
Fonte: Veja (06/05/2016)
Uma cisma, um capricho, achar alguém uma ingrisia é parte de nossas nem sempre agradáveis convivências com as pessoas. Diria que uma leve misantropia é até saudável. Se um se enche de si mesmo, o que há de tão estranho em encher-se dos outros? Você acha alguém antipático porque sim. Por que tem que ter uma razão, oras?
Bom, está-se falando de gente concreta, gente bulindo de viva, não do Todo Poderoso, ainda que muita gente nutra desconfiança ou raiva mesmo do próprio. Mas há lá suas tortas razões. Na falta de alguém a quem culpar por seus azares, Deus se presta bem para receber a culpa. Mas longe da ideia vicária, esclareça-se, que o chateado com Deus não entende e nem quer entender. Um verdadeiro puto com Deus diria que não quer receber favor ou dádiva de qualquer espécie porque isso só O faria ficar bem na fita e ele, um mal agradecido. Ele bonachão, bom camarada, estende a mão e o outro é o enfezado infantil que bate o pé com sua zanga. Que dirão os outros? Vive-se um mundo de aparência, não pegaria bem ainda que, para a maioria, pouco se lhe dá o que Deus faz ou deixa de fazer.
De fato, a questão de Mordecai era um pouco mais grave. Onipresente, Deus simplesmente não saía de seu pé. Negou-se a dizer por que a presença divina tanto lhe incomodava. Apenas queria distância. Balbuciou algo como uma especial predileção que Deus tinha de lhe perturbar. Procurou palavras. Bullying!!! Disse alto, como se fosse o próprio Arquimedes gritando sua famosa Eureka. O Altíssimo estava sendo especialmente mau com ele. E sem mais, nada mais disse.
Não falou exatamente, estava na peça que perambulou por diversos advogados: os que toparam representá-lo, e que igualmente tentaram propor a ação numa vara qualquer. O juiz, estupefato, não sabia o que dizer. Riu-se do inusitado da coisa, de sua própria incompetência ante o disparate. É ridículo!, desabafou. Mas havia que conduzir a audiência, afinal, a lei tem a todos como iguais e se Deus está sendo demandado... sem contar com o princípio da inafastabilidade da jurisdição, prevista em todas as constituições de países ditos mais sérios, na qual o judiciário não pode se negar a apreciar qualquer demanda que lhe seja proposta.
Aliás, essa era outra queixa de Mordecai. Por três anos tentou ser ouvido e apenas mandavam uma patrulha policial até sua casa como se Deus fosse um delinquente comum. Como se fossem vizinhos em pé de guerra. E a polícia veio mais de dez vezes, convenhamos, uma tenacidade admirável, mas que adiantava? Deus simplesmente desaparecia e ele passava por louco. As autoridades precisavam se manifestar de maneira mais efetiva: uma ordem judicial.   
Quanto ao processo, havia três obstáculos: o Acusado não estava presente para se defender, o que tornava a audiência manca. Como fazer? Decretar a revelia? O meirinho não certificou de que o Acusado fora devidamente citado por viver em endereço incerto e não sabido. Convenhamos que “céu” é um tanto vago. Como citá-lo? Por meio eletrônico? Qual seria o seu email? Deus@... Por carta? Pessoalmente? Ou recorrer-se-ia às modalidades de citação ficta que incluem a citação por hora certa quando por duas vezes o citando oculta-se para não ser informado ou ainda por edital? Não se sabia como. Por fim, se se levasse o processo adiante e o autor conseguisse que fosse decretada alguma Medida Protetiva em seu favor, como fazer o réu obedecê-la? Mordecai não estava preocupado com isso, ele cria que Deus, criador de tantas leis e regras, obedeceria.
O juiz aconselhou ao autor buscar ajuda de especialistas na área, pois havia uma insanável dificuldade de abordar o problema proposto pelos meios legais e, para encerrar a bestagem toda, determinou que constasse na ata o não comparecimento do Acusado, ainda que pesasse a dúvida de como afirmar algo de Alguém de quem se diz ter a onipresença como atributo intrínseco a sua Pessoa.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Um anjo caiu do céu

Os habitantes de um vilarejo remoto da Indonésia encontraram uma boneca inflável em uma praia e acreditaram que o objeto era um 'anjo' que caiu do céu, informou a polícia local.
Fonte: AFP Jacarta. (03/05/2016)
Adélia Prado diz que o homem é religioso como é bípede. Lembrei que Aristóteles disse que a natureza abomina o vazio. Você deve se perguntar: o que uma coisa tem a ver com a outra? Eis a história. Em uma das milhares de ilhas indonésias, há um pequeno vilarejo. O sudeste asiático não só tem uma das maiores concentrações populacionais do planeta como, por esta mesma razão, os mares ao redor são cortados por um número incontável de barcos, grandes e pequenos.
Singram por aquelas águas cargueiros, barcos de passeio, de pesca, de piratas, de gente, membros de minorias religiosas escorraçadas de seus países e que, diferente dos sírios, afegãos e africanos que morrem aos montes no Mediterrâneo, estes recebem menor atenção da mídia mundial, mas também navegam maltrapilhos e morrem afogados e de inanição nos barcos imundos que navegam.
O que mais carregarão esta miríade de barcos para lá e para cá? Bem, no caso aqui descrito, uma tara e uma briga de amor, de casal, como queiram. Que, como os dramas fatais shakespeareanos, terminou de forma trágica. Ela, em vida, foi uma linda boneca inflável. Um sujeito caiu de amores por ela e a comprou. Planejou um tórrido romance que se daria entre aquelas ilhas paradisíacas, mares cristalinos e azuis, coqueiros, areias brancas que doem na vista, um chalé com comodidades básicas, mas funcional.
Num belo dia de sol, saíram a navegar. Entre um mergulho e outro, sexo desenfreado, uma ponta de ciúme toldou a mente do amante. Ela teria olhado para outro, dado mole para um bronzeado surfista? Mas não havia ninguém ali, consolou-se o amante. Mas o ciúme tem ardis misteriosos Teria sido no passado? Quem poderia garantir? Todos tem um passado indizível e secreto. O demônio dos olhos verdes lhe tomou a alma completamente. No barco a discussão aumentou de temperatura, mesmo que ela, recatada e silenciosa como uma gueixa, nada tenha retrucado. Num acesso de loucura, o amante lançou seu amor ao mar. A correnteza furiosa os afastou e foi tudo silêncio.
Pela manhã, um morador do vilarejo voltava fatigado de uma madrugada de pescaria quando deu com ela presa entre umas pedras. Pensou ser uma sereia, mas não, era um ser celeste. Parecia dar um grito mudo por socorro. Era branca como a areia. Por alguma razão estava nua como veio ao mundo. Ele se compadeceu. Lembrou-se que no dia anterior acontecera um eclipse do sol que afetara gravemente sua noite de pesca. Um fenômeno tão espetacular é porque os mundos espirituais estavam em guerra entre si. Aquele ser não era outra pessoa que não um anjo caído.
Rapidamente, retirou sua camisa em molambos e envolveu delicadamente o anjo. Pediu desculpas por ver suas partes íntimas. Ela deixou-se quieta em seus braços. Ele se comoveu com seu silêncio e abandono em seu colo. Estava exausta do fragor da batalha e do mar. As pernas e braços meio bambos pendiam como que exaurida. O pescador correu até o vilarejo a anunciou a boa nova. Um anjo caiu do céu justo em sua ilha que doravante seria abençoada.
A notícia correu de ilha em ilha até a capital do país. O governo, entre cético e crente, enviou um batalhão de especialistas, teólogos islâmicos, feiticeiros e incréus.  A procissão de barcos que se formava em direção à ilha já causava um enorme engarrafamento no mar. Quem poderia imaginar o que resultaria dessa queda de anjo? Numa montanha, os ilhéus haviam construído uma pequena cabana onde jazia o anjo. E que prova maior havia de sua anjice? Seu corpo não se deteriorava, nem fedia da podridão que acomete os reles mortais. Os enviados da capital, ao ver o anjo se quedaram embasbacados. Tiraram fotos e amostras para estudo e ao povo disseram que o levariam para cuidados e reenvio para o céu que era seu lugar. Não queriam retirar-lhes a fé pura.
Talvez explicando a fala de Aristóteles. Também na fé, como na natureza, o vazio de sentido e explicação sempre será preenchido pela primeira loucura que o conhecimento religioso subjacente puder construir.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Quero uma certeza pra chamar de minha

“Ser ou não ser, eis a questão” (To be or not to be, that’s the question).  Até mesmo quem nunca ouviu falar de William Shakespeare, deve ter ouvido esta frase alguma vez. Ela inicia o monólogo do príncipe Hamlet no Ato 3, cena 1. Na sequência daquela frase – na tradução de Millôr Fernandes – Hamlet expressa sua dúvida: “Será mais nobre sofrer na alma / Pedradas e flechadas do destino feroz / Ou pegar em armas contra o mar de angústias / E, combatendo-o, dar-lhe fim?”
Dormir e morrer são possibilidades de fuga que o personagem avalia como forma de enfrentamento daquelas mazelas. Mas a dúvida o corrói entre aguentar os males que nos cabem nesta vida e o medo do que se encontrará do outro lado da morte. Isso fala tão de perto a tantos de nós que, como ele, acossados, quedamo-nos paralisados entre “suportar os males que já temos, a fugirmos para outro que desconhecemos”.
Esse drama de profundidade abismal atinge a todos e se manifesta de uma forma quase banal nas entrelinhas de nossas corriqueiras vidinhas. Todos ansiamos ardentemente por certezas. Queremos garantias. Cercamo-nos de toda sorte de coisas e atos a fim de dar a nós mesmos o descanso de que tudo ocorrerá como esperamos. Lidamos mal com a probabilidade e ainda pior com seu filho dileto, o imponderável.
Em minha atividade, muitas vezes observo o comportamento das pessoas – algumas nada demonstram, o que não quer dizer que nada sintam – no momento em que se repassa informações sobre uma cirurgia, por exemplo. Elas devem assinar um documento em que autorizam o procedimento. Ali se lê que os riscos com anestesia, intercorrências, etc estão ao redor, quase sempre, de 1%. Você leu corretamente, mas ali está o ponto de desequilíbrio. Nós queremos ouvir em tal hora que tudo será 100%, pois a incerteza transformará aquela chance minúscula de algo dar errado num monstro, se não conseguirmos lograr compensar com outros pensamentos e disposição emocional.
A certeza consola, dá segurança. Mas é escassa como o mais raro metal. Refiro-me apenas às certezas na vida, não àquelas atribuídas a Benjamin Franklin: “Há apenas duas certezas na vida: a morte e os impostos”. O humor brasileiro retirou o termo “os impostos” e em seu lugar colocou o show de final de ano do Roberto Carlos.
Se despendemos energia, tempo e esforço mental em busca de certezas para cada coisa, seremos engolfados por uma espiral de preocupações e comportamentos que rapidamente entrarão no campo patológico, não raro com expressões místicas, manias, necessidades de ordem onde poderia haver alguma bagunça. Tornamos nossa vida infernal e a dos outros também.  
Todas as áreas da vida podem ser maculadas por esta ânsia por certezas. Há pessoas que estão demandando aprovação o tempo inteiro por coisas mínimas que fazem. O outro o valida em sua insegurança de ser bom em algo ou lhe empresta o senso de que tem algum valor em si mesmo. O(a) amante fustigará seu amado(a) com exigências de provas de seu amor, ainda mais quando possuído pelo “demônio de olhos verdes”. O pai demandará a atenção e amor do filho como forma de uma gratidão que deve ser manifesta vida afora. O patrão exigirá de seu funcionário desempenho tal que entrará na pura e simples exploração e sabe-se com que armas o fará. De si para si, aquele que busca a certeza, nunca terá autoconfiança e deplorará até seu mais incrível feito.
Michel de Montaigne afirma em um de seus ensaios quando defende que tipo de educação se deveria dar às crianças: “Tudo se submeterá ao exame da criança [e dos jovens] e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio, de Aristóteles, dos estoicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresentem-se-lhes todos em sua diversidade e que ele escolha se puder. E se não o puder fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta de sua opinião.”
A dúvida é para os mentalmente sãos. É para os maduros. É para os experimentados que podem lidar com ela sem desespero. É para os que alcançaram algum nível de resolução interna e nem falo que tenham feito anos de terapia, bastam as lides da vida e os sofrimentos que ela impõe. Embora, verdade seja dita, a terapia seja ferramenta maravilhosa naquele mister.