Que neste Natal haja Paz e Alegria para todos. Desejo que o ano novo venha carregado de boas realizações e cada um tenha progresso profissional e pessoal.
Aqui falo sobre um monte coisas de meu universo de interesse. Filmes, livros, família, política, religião e psicologia. Também reproduzo textos publicados em jornais de São Luís (MA).
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
No Coração do Mar
Os dois homens
estão sentados à mesa. Um deles deseja ouvir uma história antiga e que se
tornou, com o tempo, uma espécie de tabu. Assim descreve o livro de Nathaniel
Philbrick, historiador e autor da obra “No Coração do Mar” que agora se tornou
filme. Os efeitos especiais são incríveis, mas nada como nossa imaginação.
De qualquer
modo, o filme é suficientemente fiel para dar ao espectador uma boa ideia da
fascinante aventura que foi vivida pela tripulação do Essex, navio baleeiro que
ousou ir longe demais na busca incansável pelo óleo de baleia, principal fonte
energética nas primeiras décadas do século XIX.
O personagem
Thomas Nickerson tinha apenas 14 anos quando começou sua vida de marinheiro. No
filme, ele é o contador da aventura a ninguém menos que Herman Melville que,
inspirado na história, criou sua obra universal Moby Dick. Esse detalhe é uma
especulação que o livro detalha, pois admite que Melville tomou conhecimento da
história para inspirar sua obra-prima.
Nickerson é um
homem velho e consumido pelo que chama de abominações que praticou, no caso, o
canibalismo de seus companheiros mortos. Nunca conseguiu contar para ninguém o
que viveu como se o restante de sua vida tivesse se transformado num transtorno
de stress pós-traumático eterno.
Por causa
disso, mergulhou no álcool para anestesiar sua angústia. Preferiu calar como
se, ao falar, seu segredo se transformasse num monstro que o devoraria.
Melville quer obter a história para seu próximo romance. O velho marinheiro
resiste até que, vencido por argumentos de sua mulher, decide enfrentar seu
demônio pessoal.
A certa altura
do relato, Nickerson parece que está a ponto de implodir e parar. Então o
personagem Melville diz: “O diabo adora segredos não revelados. É isso que
atormenta e adoece a alma.”
Milênios
antes, Davi, o rei, disse algo parecido. “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os
meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia.”
O silêncio alimenta o
mal. O calar faz a alma agonizar. Nickerson continua sua história e depois de
contar toda a verdade, numa catarse que esperou décadas para acontecer, ele se
transforma e tenta até devolver o dinheiro que receberia pela história.
Certos silêncios são
abrigos para escuridão. A alma precisa voar, vir à luz do sol das palavras para
se organizar, deixar o peso e passar a limpo o oculto. Eventos traumáticos e certos
segredos amortecem o vigor, apodrecem os ossos como bem diz Davi. Falar é
acertar contas com o inimigo íntimo. Enfrentar aqueles que nos fizeram mal,
coisas e gente. Por fim, é libertador.
O
filme é mais que um entretenimento, é um convite a uma viagem que pode ser a
nossa mesma.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Nietzsche, Paulo, daesh e as baboseiras do Contardo Calligaris
Vejam o que
uma sensação de futilidade não faz uma pessoa escrever. O
psicanalista Contardo Calligaris, autor da série PSI produzida pela HBO, estava
sob pressão para escrever um texto para sua coluna na Folha antes de partir e
entre outros muitos compromissos. Ao mesmo tempo, vivia um momento
particularmente importante em sua carreira. Sua série fora indicada para o
maior prêmio mundial do entretenimento televisivo, o EMMY Internacional,
concorrendo na categoria série dramática, além do que, o ator principal, Emílio
de Mello, também concorria ao prêmio de melhor ator dramático.
É nesse contexto, com as malas prontas, que Contardo é tomado
pela sensação de que tudo isso é fútil. Até diria mais. Do sem sentido de todo
o aparato, enquanto o mundo se convulsiona com o Isis (daesh) detonando etnias
– homens, mulheres e crianças indistintamente – em sua louca sanha religiosa.
Pelo menos foi esse tema que ele evocou. Haveria também um sentimento de culpa no
colunista? Dependendo da sensibilidade de cada um, nada mais normal. Embora,
suspeito, essa sensibilidade seja daquelas que causa leve comichão, enquanto se
assiste a notícia, mas encarapitado numa cobertura e tomando um vinho
importado. Ah, fazendo cara de nojinho, como diria Felipe Pondé.
Escrevo bem depois de o evento ter se realizado em Nova Iorque.
Depois das declarações de praxe: foi muito importante ter sido indicado, blá,
blá, blá. Não deu nem para o seriado nem para o ator. A essa altura, suponho
que a tal sensação de futilidade e o raciocínio destrambelhado do colunista
tenham voltado ao normal. Imagino que o sorriso amarelo e o travo na boca por
não ter ganhado o prêmio já tenha se extinguido.
Acertadamente, o colunista afirma que os fanáticos nos tomam a
todos por fúteis. O recente ataque a Paris foi, de maneira declarada, uma ação
premeditada contra o que julgam ser o suprassumo da frivolidade ocidental:
esporte, arte, shows, a diversão no barzinho. Os assassinatos foram um recado
ao que chamaram de algo como: um ataque à capital da prostituição mundial.
O texto sem verve até aí tem seu fio condutor e aponta numa
direção até interessante, a despeito da falta de inspiração. Então, nosso
colunista desanda. O texto já pedia consistência e então se torna num libelo
contra, pasmem, o cristianismo!!!
Se o texto já era raso, passou para o campo do nonsense. “No
campo cristão...” Daí pra frente o psicanalista se valerá da mais obtusa e
arcaica versão de certa variante teológica, portanto, construção intelectual de
um grupo ou vertente do cristianismo e a toma como verdade para desancar a
Paulo, a quem ironicamente diz ser um apóstolo autoproclamado que enveredou o
cristianismo numa cruzada, segundo ele, contra a futilidade e o prazer.
Calligaris coloca o daesh e Paulo exatamente no mesmo saco de gatos de
fanáticos em geral.
Quisera
Calligaris se contivesse por aí. O daesh foi literalmente esquecido, pelo menos
por momento. Primeiro, há uma ligeira digressão para mostrar a fala de um
filósofo que é, de certa forma, positiva a Paulo, mas apenas para discordar e
indicar seu herói, Nietzsche, aquele que anseia pela condição de super homem e
deplora tudo o que julga fraqueza humana, como o amor, por exemplo. Ao passo
que Paulo, segundo este sábio, odiava o humano que havia nele e incutiu o mesmo
ódio nos cristãos de todas as épocas. No que nisso Nietzsche é contraponto
positivo a Paulo, o articulista não diz.
Não sei se rio
ou choro ante tamanho despautério. Talvez Calligaris conheça Nietzsche, mas
certamente não conhece Paulo. Ou o sabe por terceiras mãos, leituras bissextas
ou ainda, como o filho do Lula, da Wikipedia. Calligaris vomita ignorância, mas
deve pegar bem ao seu público ou a certa intelligentsia da qual se julga
membro, em que usar a Bíblia para debochar da herança cristã que moldou o
ocidente é prática comum. Mas isso o Isis e assemelhados já fazem. Com um pouco
mais de ênfase, diga-se, pois metralham e explodem inocentes.
O homem estava
incontido. Não satisfeito, resolve até admitir que será irreverente – esta foi
a última coisa que conseguiu ser em seu texto – e aventurar-se em afirmações
para-históricas. Vá lá, uma piadinha tosca sobre a famosa queda do cavalo que
sofreu Saulo a caminho de Damasco. Calligaris não poderia ter sido mais
infeliz. Uma única leitura do livro de Atos e, se conseguisse entender,
descobriria que o evento e seus desdobramentos acontecem com o homem mais
improvável de todos.
Vá lá
Calligaris, leia Atos dos Apóstolos, pois ainda que o tome como literatura de
ficção, descobrirá que há um personagem e uma história que faz todo sentido e
nos força a concluir que Saulo, não tivesse vivido um extraordinário encontro
com Jesus Ressuscitado, jamais se tornaria Paulo.
Queda por
imperícia como cavaleiro? Usar isso como desculpa para forjar um suposto
encontro com Deus? Às tolas afirmações, Calligaris tenta dar um toque
psicanalítico de boteco: toda a experiência de Paulo foi um mecanismo
projetivo, afirma. O diagnóstico é de tal disparate que me pergunto se
Calligaris andou lendo outro Freud, de outra dimensão em que projeção não seja
uma identificação artificial com coisa ou pessoa, mas surto em que o sujeito se
torna naquilo que odeia. No caso de Paulo, se tornar cristão.
A projeção
desembestou numa versão de um cristianismo sombrio, na crença do próprio Paulo,
categoriza Calligaris. Como um Cavaleiro da Triste Figura que lutava contra
moinhos, Paulo é reduzido a um jacobino quem sabe, pervertido, que perseguindo
aos pecadores, ele mesmo aplacaria seus desejos carnais.
Calligaris, do
alto de sua sapiência, conclui: desta impostura religiosa paulina deriva toda
nossa culpa ao sentir o prazer, mesmo os inocentes. Paulo nos chicoteia com seu
desvario religioso que nos força a ter que pensar o tempo inteiro, diz o
psicanalista, e nos preocuparmos tão somente com o divino e o absoluto e ai de
nós se não for assim.
Não sei se o
Calligaris sofreu algum trauma numa escola católica pré Vaticano II ou se
sofreu sevícias – não necessariamente físicas – inconfessas de algum grupo
terrorista islamita, ou tão somente é fruto de uma intelectualidade frouxa que
se vale da liberdade que tem para proclamar besteiras sobre o cristianismo.
Esse tipo de gente é desonesta, pois é incapaz de reconhecer que a Bíblia
forjou tão profundamente os valores da liberdade e democracia dos quais goza e
que são, afinal, a essência de tudo que defendemos no ocidente, mesmo
pós-cristão.
Hoje
direi o que o roteirista de Psi reclamou que alguém deveria ter dito a Paulo.
Get a life, Calligaris! Vá viver sua vida! A salada que fez de jihadistas,
Paulo, seu avô morto e seu quase prêmio, não faz sentido nenhum.
domingo, 29 de novembro de 2015
A tara
O TJ (Tribunal de Justiça) de São
Paulo absolveu, em decisão publicada na segunda quinzena de novembro, um homem
que admitiu ter furtado mais de 20 calcinhas do varal de sua vizinha em
Piracaia, cerca de 100 km da capital.
Fonte: Eduardo Schiavoni. Colaboração
para o UOL, em Ribeirão Preto (25/11/2015)
Era réu
confesso. Que fazer? Havia sido pego com a mão enfiada na botija. Todo o
mistério do sumiço das calcinhas fora desvendado por reles câmera que hoje
qualquer camelô chinfrim vende na esquina. Só não está pior que o Delcídio e
sua versão de ajuda humanitária a um delator que podia lhe causar um buraco
gigante na sua reputação. Preso, não mentiu ao delegado, embora tenha como que
acordado do transe e sentido um pouco de vergonha. Confessou tudo, num arroubo
de sinceridade suicida.
Por bom tempo,
aquilo fora um segredo daqueles que se vive o antegozo de quando se é o único a
saber. Ouvir as fofocas da vizinhança, a sensação de estranheza das pessoas, o
disse-me-disse sobre o suposto autor, quando se está ali, ao alcance da mão,
dentro de um elevador, ou partilhando o balcão da padaria da esquina. Isso dá
ao criminoso uma sensação de poder, de superioridade, de distinção ante seus
próprios olhos. Era assim que se sentia o Silva.
Passada a
surpresa dos vizinhos, a coisa já corria de boca em boca, a despeito de a
vítima ter tentado manter os furtos sob sigilo, pois provavelmente se sentia
envergonhada com a exposição. Pensava nas piadas de que poderia ser vítima. Temia
ser vista como uma mulher que desperta a tara alheia.
Há coisas
incoercíveis dentro de nós. Estão adormecidas. Parece que se fingem de mortas.
Aguardam sorrateiras o momento oportuno para se manifestar como gatunas de
nossa vontade. Uma vez manifestas, nem que seja por leve sugestão, crescerão
como a mistura de fermento com bromato no pão. Infladas, elas nos carregarão
para as profundezas das taras que açulam.
E de nada
adianta pensamento positivo. Os chicoteios da culpa moral. A consciência
berrará feito louca, e logo se dará uma luta sangrenta entre a compulsão da
vontade e os, a essa altura, frágeis interditos que nos pespegaram o juízo e
deram num castelinho de crenças, agora minadas pelo desejo que escoiceia como
cavalo louco.
Dirão alguns,
pelo visto de nada temos culpa, somos todos vítimas de nossas mazelas ocultas.
Sim e não. A resposta é difícil. Veja o caso de Silva. Sujeito que se via
normal. Um trabalho simples, vidinha besta como diria Drummond. Mas um dia a
Besta dentro dele acordou. Foi só um olhar furtivo na calcinha que, como
bandeira a tremular feromônios, espargia suas más intenções. Silva sentiu um
calafrio que lhe subiu pela espinha e instantâneo o desejo surgiu.
Pequenininha, arteira, travessa, buliçosa balançava suave à brisa da tarde.
Um plano louco
se lhe tomou a mente. Tentou ver tv, comer, olhar o face, nada. Cada minuto o
plano ia e vinha. Voltar e pegar calcinha. Sua mente perturbada via a mulher
dos sonhos dentro dela. Todo tipo de pensamento veio como matilha de
demoniozinhos a sugerir coisas das mais românticas até as mais assanhadas
fantasias sexuais.
Cedeu ao
primeiro ímpeto e então se tornou preso ao vício. Não eram só as calcinhas e os
prazeres que elas proporcionavam. E toda a adrenalina de pensar planos para
furtar o objeto do irrefreado desejo? O medo de ser pego? Não havia mais
limite. A coleção foi aumentando, o rumor da vizinhança também. A fantasia
assomou em vertiginosa rapidez e já não eram suficientes as horas de homenagem
solitária, passou a vesti-las. Ia ao trabalho com elas, porque a fantasia
estava descontrolada. Deu muitos bons dias à vítima vestido em sua calcinha,
conversou com pessoas próximas até na tentativa de adivinhar quem era o tarado,
enquanto gozava o prazer do seu segredo.
O
que era prazer tornou-se logo um sofrimento, uma escravidão. Ficou cada vez
mais ousado, pois a dose de perigo precisava ser aumentada para satisfazer ao
vício. Sabia que seria pego. Mas vestido em três calcinhas? Foi um alívio! O
chato agora é que virou meme. Sua foto de tanguinha vermelha foi usada até em
propaganda de sex shop para um natal apimentado. Existe louco pra tudo.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
De jumento a commodity
Durante
missão na China, a ministra
da Agricultura, Kátia Abreu, recebeu uma demanda inusitada de um empresário. O
investidor disse ter interesse em importar 1 milhão de jumentos por ano. A
história foi relatada pela própria ministra, pelo microblog Twitter.
Fonte: estadão Conteúdo (18/11/2015)
Juntar
jumentos e chineses num mesmo texto é um desafio. Então, vamos lá. A ministra
da Agricultura, Kátia Abreu, está na China. Diz que fazendo negócios para o
Brasil. Estava ela no convescote, a provar dos exotismos culinários do Império
do Meio, o passeio na Praça da Paz Celestial. De repente, ao caminhar pela
icônica Muralha, saído do nada, um empresário chinês propôs à queima roupa: tem
jumento pra vender? Tô precisando de um milhão por ano, por aí. A ministra riu,
incrédula. Teve que perguntar ao tradutor o que diabos dizia aquele chinês. O
tradutor assegurou que havia dito corretamente: o homem queria comprar
jumentos.
A ispilicute
ministra que, parece, voltaria contando mundos e fundos, mas de sério necas,
abriu um sorriso desse tamanho. Voltou-se para o tradutor: pois diga ao nobre
empresário que temos jumento pra vender. Jumentos made in Brazil. Quantos ele
quer? Havia dois cifrões nos olhos da ministra. Em sua cabeça, as ideias
passavam rápido. Uma frase saltou entre todas: era a libertação do nordeste de
séculos de miséria que o jumento representava tão bem. Isso trabalhado por um
marketeiro dava uma vaga na disputa pra presidenta. Lembrou que outro dia um Promotor
recomendou churrasco de jumento como forma de dar um destino aos abandonados
animais em estradas e pelo desemprego cavalar em que estão eles e nós. Povo
pouco apegado às tradições, os nordestinos substituíram os jumentos por motos
sem cerimônia. Um disparate!
O tal
churrasco jumentício causou manifestações estridentes contra e a favor. O
brasileiro, nordestino, ainda olha para o jumento com pena, como seu parente
esquecido. Tudo bem ignorá-lo, largá-lo nas ruas e BRs, mas comê-lo, aí só numa
seca braba daquelas de querer comer couro de tamborete. Estão quase chegando lá
com o novo El niño que veio endiabrado dessa vez e a transposição do São
Francisco que ficará para o próximo milênio.
Ainda em
devaneios, a ministrete teve o semblante obnubilado por ligeira preocupação.
Não correria o risco de, por engano, exportar os jumentos do governo, a começar
pela presidenta jumenta? valha-nos! Seria um baita escândalo diplomático. Nesse
governo pode acontecer de tudo. Ela queria se referir à jumentisse,
naturalmente no sentido figurado, conotativo, pois não? Os jumentos emprestaram
seu nome ao epíteto desinteligente pelas caras de parvos que têm. Eles,
propriamente, podem ser acusados de razinzas, teimosos, empacadores, birrentos,
lerdos até, mas não de retardados. Refiro-me à pessoa do jumento.
Auxiliares que
souberam da alvíssara notícia, ainda que, convenhamos, um tanto despautérica,
perguntaram à ministrete para que fim o chinês queria tanto jumento. Os
chineses teriam descoberto um filão de ouro com nossos jumentos, o que nos
colocaria, de novo-velho, na condição de meros fornecedores de matéria prima? A
ministrete leu esse pensamento. Os jumentos seriam os novos insumos da cadeia
produtiva de... do quê mesmo? Ela mesma estava disposta a ser garota propaganda
mundo afora das maravilhas que só nossos jumentos têm. Eles seriam o mais novo
ramo do agronegócio exportador. A commodity que seria negociada nas principais
bolsas do mundo. Aliás, era só botar o pé no país e proporia a criação imediata
da BFJ – Bolsa Futura de Jumentos medida pelo índice zurrotech. Se duvidar,
acredita ela, teremos o equivalente a uma nova era da cana-de-açúcar ou
pau-brasil.
E se os
chineses quiserem falsificar carne? Vender jumento passando-se por boi, não vai
prejudicar nossa exportação bovina? Cala a boca, meu filho! Nós aqui ante a
conquista da China e tu pensando pequeno! A venda de jumentos livra o Nordeste
dessa peste. Tu sabes que jumento virou peste, né? Gera divisas pro Brasil. A
essa altura ela contava nos dedinhos cheios de aneizinhos. Alimenta a chinesada
e, quem sabe, o mundo. Ah, vai dar emprego aos nordestinos.
A
caravana ministerial com quatrocentos e cinquenta assessores, fora maquiadores
e puxas-saco – a ministrete não tem saco, sei, sei – estavam em estado de
graça. Dilma já convocava a imprensa para uma coletiva em que diria que, sim,
deu com os burros n’água, mas achou a saída nos jumentos. Sabe lá o que é
descobrir a salvação do Brasil?
domingo, 15 de novembro de 2015
Nelson Rodrigues
Acho que eu o
folheei algumas vezes. Ia à livraria, me deparava com aquele calhamaço, um livro
robusto com a foto do Nelson numa camisa quadriculada e numa postura de,
parece-me, tristeza, pois está cabisbaixo e a mão entre os olhos, como se
meditasse ou aguentasse uma notícia daquelas abaladoras. Detestei o design da
capa do livro. Um amarelo mortiço, com detalhes em preto. Encimando a capa, o
nome Nelson Rodrigues no tal amarelo anêmico e abaixo, o título: O reacionário:
memórias e confissões.
O que me
detinha era o preço. Livro no Brasil é pela hora da morte de tão caro. Eu tinha
dúvida sobre comprá-lo e ter que transformá-lo em calço de mesa ou peso pra
segurar porta. Nos lugares mais civilizados do mundo, claro que tem livro caro,
mas há sempre as opções mais em conta. Talvez a concorrência, a massa crítica
de leitores, políticas econômicas que favoreçam as publicações, sei lá. O fato
é que livro por aqui é artigo de luxo e num país de poucos leitores e uma
grande massa de analfabetos funcionais, as editoras parecem que vão muito bem,
obrigado, e pouco se importam. Talvez dirão as velhas desculpas de sempre: a
culpa é dos impostos e da alta carga dos encargos trabalhistas. Sim, porque o
autor mesmo ganha uma merreca. João Ubaldo dizia e ele não era qualquer um.
Sem mais
lamúrias. O reacionário foi uma grata surpresa. Não que não conhecesse o
Nelson. Conhecia muitas de suas frases antológicas, suas peças que viraram
filmes ou minisséries na Globo, mas nada como ler o autor em sua fonte. Foi
engraçado me deparar com certas expressões que só fazem sentido nos anos 1970.
Bater máquina? Telegrama? Bater um telefonema?
Nelson tinha
uma aguda visão de sua época, mais que isso, da humanidade. Neste sentido, ele
se mantém ainda válido e atualíssimo. Era quase visionário sobre o pensamento
dos intolerantes, da esquerda – aqui um pleonasmo – que em seu tempo fazia a
festa nos círculos intelectuais, entre os artistas e da classe universitária em
geral. Eu mesmo posso me dizer culpado em meus verdes anos de faculdade, em
pleno período de redemocratização. Mas aí, em meu favor, há que se dizer: nasci
durante o período da ditadura e cresci nela, fazia todo sentido querer votar,
participar da vida sócio-política do país, não querer a censura, etc. Os
esquerdistas, de certo modo, fizeram do discurso da redemocratização um
latifúndio seu. Até o Ulisses, personagem sobre a qual ainda falta o devido
reconhecimento, a nós nos parecia suspeito. Que tolos!
Entre os
autores brasileiros, Nelson deveria ser leitura obrigatória como forma de nos
alfabetizar em Brasil. Sobre a esquerda brasileira daquele tempo, ele já
percebia as incongruências, os disparates, o ridículo das ideias apenas por
observar o mundo onde a ideologia esquerdista vingou – quase sempre pela ponta
das baionetas e pisões dos coturnos, mas sempre pelo bem da população à qual
logo em seguida submeteriam à fome, tortura e à mais abjeta miséria –, para
desgraça dos habitantes dos países que foram tomados por eles. Isso num tempo
em que Cuba era (ainda é para o delinquente PT) o paraíso caribenho. Engraçado,
poucos dos exilados esquerdistas escolheram Cuba para se homiziar. Uns sem
coerência e maus caráteres ainda dizem que Nelson defendia a ditadura, era um
reacionário. Sim, ele se manifestou a favor do status quo, mas foi igualmente
censurado em sua obra, coisa que o deixou possesso. Quisera tivéssemos mais
reacionários como ele hoje.
O livro, uma coletânea
de textos entre 1967 e 1974, foi organizado pelo próprio autor que, num ato de
extremo bom humor, intitulou de reacionário de tanto que assim era chamado. Sua
implicância com Alceu Amoroso Lima é hilária. Sua forma de escrever que dialoga
com o leitor numa imitação de conversa, é estimulante. É um recurso que torna o
texto a verdadeira crônica. Ao mesmo tempo, é de tal sofisticação que aquilo
que era datado ganha contornos de permanência.
Ah, o texto
rodrigueano pródigo em adjetivos precisos, bordões que ele mesmo admitia
repetitivos, mas que lhe dava, de fato, a marca registrada. O olhar para além
das aparências óbvias ululantes. A capacidade de rastrear os contrafatores que
ele demolia dizendo que eram só pose. Um homem com especial habilidade de ver o
absurdo onde ele estava e que miseravelmente produz tanto autoengano. Ler
Nelson é, de certa forma, aprender a ver.
Nelson foi um
frasista incomparável. Sua ironia fina tornava seu humor elegante e ainda mais
ácido. O pensamento é de uma lógica e argúcia que não tem como o leitor não se
encantar. Ele tinha cisma com os psicanalistas, com os críticos de quem dizia
que “ou o sujeito é crítico ou é inteligente”, com a esquerda, com a burrice.
Amava futebol e a seleção, a qual chamava a “pátria de chuteiras”.
E
finalizo, repetindo uma de suas frases inigualáveis. É de 1968, mas tive a nítida
sensação que a li no jornal na manhã de hoje: “Em nossa época, ninguém faz
nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos”. Os
desesperados por curtidas (likes) se contorceriam.
sábado, 14 de novembro de 2015
O rato mula
Policiais civis que faziam uma revista no presídio Barra do
Grota, em Araguaína, no norte do Tocantins, se depararam com um rato treinado para transportar drogas e
até cartas de jogo de um pavilhão para outro. O roedor tinha uma linha de
crochê amarrada ao rabo.
Fonte: Estadão (04/11/2015)
É muito difícil
conseguir relatos desse tipo em primeira pessoa. Óbvias razões explicam. Há que
se vencer a barreira linguística. Não se encontra falantes em ratês em qualquer
esquina. É mais fácil achar um fluente em uma língua morta. Ademais, tem a
burocracia do sistema. Entenda “sistema” como esse ente kafkiano, que resulta de
um emaranhado de leis, normas, costumes, jeitinhos e todo tipo de malandragem
que empesteia as instituições brasileiras.
De qualquer
modo, o meliante foi liberado para essa entrevista. O que se segue é sua fala,
com uma ou outra edição, pois houve momentos de exaltação ou por efeito de
drogas – ele agora se diz viciado – ou porque não quisesse ser explícito. Vai
se saber.
Fui obrigado. Ou fazia o trabalho ou eles me
dariam prum gato seboso que vivia pelas redondezas e que era meu inimigo
figadal. Aprendi a palavra com o delegado. Sofri o diabo. Menos mal que não me
transformaram na garota deles, se me entendem. Mas ser mula, traficante, não é
menos pior. Tenho calo no rabo pelo nó do cordão que eles amarraram. Coisa totalmente
humilhante. Nas vezes que me recusei a fazer o serviço fui puxado, digo,
arrastado pela cauda por vários pavilhões. Então eu ia fazer o quê?
O pior é que a polícia, que se fingia de
morta com essa zoeira acontecendo, me expôs publicamente na tv como chefe da
quadrilha. Faziam cafuné em mim e ainda diziam que eu gostava. Como gostar?
Acusado injustamente, cercado de meganhas armados por todos os lados... Cafuné
foi na frente dos repórteres no quartinho dos fundos – ainda bem que não me
fizeram de garota deles, se é que me entendem – me colocaram no pau de arara. Me
deram choques nas partes íntimas. No segundo choque, eu entreguei até o que não
sabia.
Como é que eu vim parar no presídio? Por puro
acaso. Errei de prédio. Espantei-me já nas mãos dos facínoras que me propuseram
carregar os produtos pra lá e pra cá. Agora olha meu tamanho carregando um
quilo de coisas: celulares, trouxinhas de maconha, crack. Só de ficar perto eu
ficava lombrado. Um dia errei o caminho quase fui parar na sala do diretor do
presídio. Mas se tivesse ocorrido, tudo bem, ele é nosso chapa.
Tão dizendo que sou rato treinado. Que treinado
o quê! Fui o-b-r-i-g-a-d-o. Não sei como, mas contrabandearam uns queijinhos de
Minas e até da Suiça. Era sentir o cheiro e disparar pro pavilhão A. Depois era
arrastado de volta. Vergonhoso. Mas um se acostuma com tudo. Principalmente nesse
mundo cão que é a cadeia. Menos mal que eles não me fizeram de garota deles, se
é que me entendem.
Agora, digo com verdade, pela alma da minha mãe que morreu envenenada
com chumbinho: o interrogatório foi muito pior. Convenhamos que um presídio que
tem sistema delivery de produtos proibidos pega um pouco mal pra polícia, ou
não? Pior ainda se um rato gerencia o negócio.
Como fiz delação premiada, vou sair já, já. Um xará meu entende pra
caramba como burlar a tornezeleira eletrônica. Tamo pensando em botar num rabo
de um gato que é bicho lerdo, fica só dormindo, eles vão pensar que estou
congelado num só lugar, sacou?
Quero me endireitar. Constituir família. Quem sabe
entrar numa igreja de crente. Qual é a boa dessas aí? Com a experiência que
ganhei aqui tô pensando em colocar um serviço de entregas. Qualquer coisa! Tô entendido
no ramo que você nem imagina.
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