
Fonte: Eduardo Schiavoni. Colaboração
para o UOL, em Ribeirão Preto (25/11/2015)
Era réu
confesso. Que fazer? Havia sido pego com a mão enfiada na botija. Todo o
mistério do sumiço das calcinhas fora desvendado por reles câmera que hoje
qualquer camelô chinfrim vende na esquina. Só não está pior que o Delcídio e
sua versão de ajuda humanitária a um delator que podia lhe causar um buraco
gigante na sua reputação. Preso, não mentiu ao delegado, embora tenha como que
acordado do transe e sentido um pouco de vergonha. Confessou tudo, num arroubo
de sinceridade suicida.
Por bom tempo,
aquilo fora um segredo daqueles que se vive o antegozo de quando se é o único a
saber. Ouvir as fofocas da vizinhança, a sensação de estranheza das pessoas, o
disse-me-disse sobre o suposto autor, quando se está ali, ao alcance da mão,
dentro de um elevador, ou partilhando o balcão da padaria da esquina. Isso dá
ao criminoso uma sensação de poder, de superioridade, de distinção ante seus
próprios olhos. Era assim que se sentia o Silva.
Passada a
surpresa dos vizinhos, a coisa já corria de boca em boca, a despeito de a
vítima ter tentado manter os furtos sob sigilo, pois provavelmente se sentia
envergonhada com a exposição. Pensava nas piadas de que poderia ser vítima. Temia
ser vista como uma mulher que desperta a tara alheia.
Há coisas
incoercíveis dentro de nós. Estão adormecidas. Parece que se fingem de mortas.
Aguardam sorrateiras o momento oportuno para se manifestar como gatunas de
nossa vontade. Uma vez manifestas, nem que seja por leve sugestão, crescerão
como a mistura de fermento com bromato no pão. Infladas, elas nos carregarão
para as profundezas das taras que açulam.
E de nada
adianta pensamento positivo. Os chicoteios da culpa moral. A consciência
berrará feito louca, e logo se dará uma luta sangrenta entre a compulsão da
vontade e os, a essa altura, frágeis interditos que nos pespegaram o juízo e
deram num castelinho de crenças, agora minadas pelo desejo que escoiceia como
cavalo louco.
Dirão alguns,
pelo visto de nada temos culpa, somos todos vítimas de nossas mazelas ocultas.
Sim e não. A resposta é difícil. Veja o caso de Silva. Sujeito que se via
normal. Um trabalho simples, vidinha besta como diria Drummond. Mas um dia a
Besta dentro dele acordou. Foi só um olhar furtivo na calcinha que, como
bandeira a tremular feromônios, espargia suas más intenções. Silva sentiu um
calafrio que lhe subiu pela espinha e instantâneo o desejo surgiu.
Pequenininha, arteira, travessa, buliçosa balançava suave à brisa da tarde.
Um plano louco
se lhe tomou a mente. Tentou ver tv, comer, olhar o face, nada. Cada minuto o
plano ia e vinha. Voltar e pegar calcinha. Sua mente perturbada via a mulher
dos sonhos dentro dela. Todo tipo de pensamento veio como matilha de
demoniozinhos a sugerir coisas das mais românticas até as mais assanhadas
fantasias sexuais.
Cedeu ao
primeiro ímpeto e então se tornou preso ao vício. Não eram só as calcinhas e os
prazeres que elas proporcionavam. E toda a adrenalina de pensar planos para
furtar o objeto do irrefreado desejo? O medo de ser pego? Não havia mais
limite. A coleção foi aumentando, o rumor da vizinhança também. A fantasia
assomou em vertiginosa rapidez e já não eram suficientes as horas de homenagem
solitária, passou a vesti-las. Ia ao trabalho com elas, porque a fantasia
estava descontrolada. Deu muitos bons dias à vítima vestido em sua calcinha,
conversou com pessoas próximas até na tentativa de adivinhar quem era o tarado,
enquanto gozava o prazer do seu segredo.
O
que era prazer tornou-se logo um sofrimento, uma escravidão. Ficou cada vez
mais ousado, pois a dose de perigo precisava ser aumentada para satisfazer ao
vício. Sabia que seria pego. Mas vestido em três calcinhas? Foi um alívio! O
chato agora é que virou meme. Sua foto de tanguinha vermelha foi usada até em
propaganda de sex shop para um natal apimentado. Existe louco pra tudo.
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