domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Equívoco de Scarlett Johansson

Desde sempre falas de celebridades causam impacto. Nelas estão projetadas tudo aquilo que o indivíduo comum gostaria de ser ou ter. Elas são, neste sentido, algo entre humanos e semideuses. A fantasia rasteira é a de que não sofrem das agruras banais da patuleia. Tem reconhecimento, dinheiro, amores e sua vida simula uma espécie de perfeição que aos pobres mortais sequer se pode imaginar.
Não admira que uma fala sobre banalidades ou sobre temas que tocam aos demais seres rastejantes também causem grande impacto. Então, quando Scarlett Johansson diz que “monogamia não é natural” ouvimos um Ohhhh! estupefato, admirados com tamanha ousadia, independência e, sim, todas as fantasias sexuais que isso evoca em nossos sonhos enlouquecidos por peyotes imaginários. Nem se fale nas projeções que as personagens que costuma encarnar, que esbanjam sensualidade. Ou alguém não gostaria de tirar uma casquinha com aquela Viúva Negra e seus cabelos vermelhos?
A apimentada atriz tem, vejam que coisa, dois casamentos no currículo. O último dos quais lhe nasceu um rebento, mas durou apenas dois anos. Estando recém-divorciada, dou-me a liberdade de crer que a declaração tem algo de chifre ou como diria alguém mais educado: algo de prática adulterina por parte do ex ou dela mesma.
A negação daquilo que se deseja é tão velha quanto Freud em suas primeiras incursões pela mente humana. Dispositivo de defesa óbvio como o resultado de dois mais dois. Como é óbvio também a reação das revistas de fofoca e tudo que lhe reverbera. Imaginem a contribuição para a sociologia humana este devaneio sócio-erótico-filosófico!
A agora senhorita Johansson é como a raposa que observa o cacho suculento e maduro de uvas, mas, muito alto e por resta razão impossibilitada de comê-lo, malgrado muitas tentativas, cansada e frustrada diz: estão verdes!
Como foi uma frase solta, ao sabor do momento, pelo visto, não há que se levar a sério? Sem recorrer a um possível ato falho da atriz, o fato é que, independente da cultura e do tempo, a outra opção à monogamia, a poligamia, sempre foi fonte de sofrimento, ciúmes, abandono afetivo e indiferença. A Bíblia é um catálogo de versões desastradas das multirrelações.
O que dona Scarlett não percebe em sua fala à toa, bem como todos os que com ela partilham desta fantasia patriarcal em seu pior momento, é que nossa inadequação a esta prática é de natureza. A natureza humana que é possessiva, exclusivista e tem preferências. Na prática, não se pode amar a dois senhores, pois há de se amar mais a um que outro. Os que insistem em quebrar esta regra se enchem e aos outros ainda mais de dores emocionais terríveis.
Que dona Scarlett desnaturalize a monogamia no contexto presente nada há de estranho. O que, pois, é natural em nós? Ou melhor, o que é não natural? A palavra cabe infinitas possibilidades de sentido, depende apenas da perspectiva. Mesmo uma parafilia que a ninguém incomode, nem cause sofrimento ao seu praticante, é natural. Veja-se o fetiche que muitos têm por pés, como já lembrava o Bruxo do Cosme Velho em seu A Pata da Gazela no século XIX.
Natural lhe parecerá se acostumado estiver. Natural será se culturalmente estiver definido para o grupo ao qual pertence. Seria natural dar nove vacas ao pai da noiva como dote ao pedi-la em casamento? Seria ridículo e bizarro entre nós, não em muitas comunidades na África em que é obrigatório ou já era a noiva.
Se não é natural a monogamia, seria então a poligamia? Ora, mas já é em muitos países. Se legalmente nos países ocidentais ainda há um interdito legal e cultural, mesmo que alguns mórmons ortodoxos insistam em quebrar a regra, em dezenas de países é tão comum quanto caminhar sobre os pés.
Sim, por aqui se fala em poliamor: muitas pessoas juntas tendo relações em todas as direções imaginadas – transversais, mão dupla, na contramão – mas que no raso mesmo é outro nome para suruba comportada e de amor mesmo nada tem. Fora da curiosidade sócio-sexológica, ninguém vê isso como um padrão que se estabelece, mas como moda, experimentação e tédio. Ah, um monte de gente junta num mesmo espaço diminui as contas pra caramba. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Fatos Alternativos

A mentira tem sempre a mesma natureza, ela pode ter muitas formas e nomes. Há uma recente que ganhou as mídias do mundo todo. Não é uma definição nova da mentira. É apenas a mentira com novo nome, quase bem ao gosto da sanha politicamente correta que vê em algumas palavras uma agressão ou discriminação ou preconceito e deve, por isso, ser substituídas por expressões amenizantes. A mentira agora é: “fatos alternativos”.
Convenhamos, assim parece algo simpática e inofensiva. A expressão foi cunhada pelo staff do presidente Trump ao defender seu porta-voz que teria dito mentiras rasteiras e descaradas sem pejo algum. Mario Quintana, o poeta, disse certa vez que “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Dito desta forma, entre a ironia e o chiste, somos tomados de simpatia, não pela mentira, mas pela verve do poeta. A trupe do Trump não tem essa leveza e molecagem. Eles alteram a verdade com as palavras, não importando quão nus sejam os fatos que desdizem.
Há uma verdade na mentira. Ela não consegue deixar de ser quem é. Travestida de qualquer cor, artimanha, aparência, ela sempre será, por natureza, algo que mimetiza a verdade, eis sua força. A mentira tem infinitas funções. Há quem queira acreditar na mentira, pois a verdade é muito dura ou lhe é aversiva. Como há aqueles que são simplesmente enganados por algo falso. Se for uma mentira óbvia, possivelmente o enganado é uma mente simplória ou deliberadamente preferiu a mentira à verdade.
A mentira encobre o mal feito. Por momento e até por um bom tempo. A mentira põe dúvida, o que é bastante para se tornar forte e com cara de verdade para os que querem crer. Pode ser por mero cinismo, neste caso, a mentira da qual se apropriou não o engana, ele é agora parte dela à qual se apega entusiasticamente.
Tem quem minta não com o propósito de enganar, mas de apenas colocar em contraste mesmo a verdade mais escancarada. Ele se afirma na mentira tal como é bípede. Pessoa assim pode ser movida por inúmeras coisas, uma delas é a arrogância de quem odeia perder. Pode ser uma brutal incapacidade de aceitar limites. Como pode ser também uma infeliz fraqueza de nunca conseguir ganhar nada e ao mentir se torna aquilo que não é. Os que estão em baixo e os que estão por cima, mentem. Cada qual com seu propósito.
A mentira confunde. Se for afirmada com suficiente energia, como o diria Goebbels, pode até ganhar status de verdade. É assim quando todos repetem a mesma coisa sem questionar. Todos veem o rei nu, mas ninguém tem coragem de dizer, pois temem perder algo. Até que alguém que não se dá conta destas contabilidades, que não se perde nos labirintos dos jogos de interesse, diz inocentemente: o rei está nu!
O tipo de mentira a qual me refiro no início do texto tem atrás de si um imenso poder, daí porque, paradoxalmente, não tem a pretensão de enganar a ninguém. O poder os faz desenganar a verdade, pois não pretendem que se acredite neles. Um tipo de pudor que me escapa os faz falar a mentira alternativa. É evidente que esta impudicícia pode ser a reles inescrupulosidade associada a um excesso de autoconfiança. É um modus vivendi. A mentira nesse tipo de gente é tão involuntária como o respirar, nos lembra Machado de Assis.
Os praticantes dos “fatos alternativos” não pretendem a crença no que dizem. Apenas ofertam uma versão dos fatos para aqueles que já desejam, por infindáveis razões, crer no que dizem. É apenas dizer aos tolos ou irados o que querem ouvir. O quadro é septicêmico. Os que têm ouvidos para ouvir os “fatos alternativos” se anestesiam com a suposição de que seus anseios serão, enfim, atendidos. Mas nada se lhes dará, exceto frustração e mais ira.  O diabo, se lhe convém, cita as Escrituras para seus propósitos.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Sobre o filme Beleza Oculta (spoiler)

Tenho certa cisma com o Will Smith quando atua em papeis dramáticos. Ele esteve razoavelmente bem em “Em busca da felicidade” e em “Um homem entre gigantes”. Então nos primeiros quinze minutos de Beleza Oculta pensei que ele estacionaria numa expressão monocórdica que emenda as sobrancelhas e acha que passa desolação, tristeza e desamparo que era a tônica do personagem. O próprio filme parecia buscar um caminho ente as cenas que pediam uma concatenação mais suave.
Mas foi só o fatídico quarto de hora. Depois o filme embala e o próprio Howard (Smith) sai do marasmo e quase atua de verdade. A história é intrigante. O personagem de Smith tem uma perda pessoal devastadora. Esse luto não só se transforma em depressão profunda, como o mecanismo de defesa usado pelo personagem é uma negação em tal nível que ele aparentemente perde o contato com a realidade. Ele se transforma numa dor ambulante enorme. Um zumbi, se preferirem.
A agência de propaganda da qual é fundador e sócio majoritário está, por esta razão, à beira do desastre. A saída é vendê-la, mas seus sócios-amigos – difícil arrumar sócio que seja amigo – estão em busca de uma solução para que ele participe da única forma possível de salvá-la: vender a empresa. Mas como fazê-lo entrar na realidade para ser lógico e prático para tomar a decisão?
Aqui está a coisa mais interessante desse filme. Em um discurso célebre na empresa, Howard definiu quais eram os princípios fundamentais que moviam todas as ideias e criatividade de suas campanhas: o amor, o tempo e a morte. Estas três dimensões da vida se entrelaçam e definem a nossa existência e isso é tudo, não importa o que somos ou o que tenhamos, defendia. Todos estamos submetidos, para o bem ou para o mal, a estas três dimensões, assegurava.
Por pura casualidade, seu grande amigo se depara com uma trupe de três atores que ensaiam uma peça, mas não tem recursos para bancá-la. Ele promete dinheiro se estes três corporificassem aquelas dimensões que foram, em dado momento, a filosofia de vida de Howard. Talvez uma tentativa alucinada de trazê-lo para a lucidez.
A filha era o amor de sua vida, ao lado da esposa. A morte não a poupou, mesmo que ele tenha pedido a ela que não a levasse, portanto, não lhe dando tempo para crescer e se tornar uma mulher. Angustiado, escreve cartas para estas entidades. Desdenha da morte. Sente-se traído pelo amor. O tempo é um ladrão.
As cartas serão o suporte para a atuação dos personagens que, no filme, conseguem enganar Howard na tentativa de tirá-lo do abismo de autocomiseração e revolta em que afundou. A ideia é muito interessante, mas não funcionou. Faltou química na constelação de astros. Salva a ideia dos diálogos com a morte, o amor e o tempo, mesmo que, em dado momento, a farsa dos amigos seja tratada para nós espectadores como se os três atores fossem mesmo o disfarce perfeito daquelas entidades.
Apesar de atores de peso, com atuações muito boas em outros filmes, este filme não decola. Fica a questão de tratar do tema do luto, embora com tons excessivamente carregados que escorrega para o emocionalismo. Não foi dessa vez, Will Smith.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O que importa é a fome


Não quero a faca nem o queijo, eu quero a fome. Então, maturidade é isso, saber o que quer? Perceber entre milhões de possibilidades, as que nos ofertam, os quereres dos outros e suas expectativas, suas certezas e sensos estéticos, princípios morais que apontam direções que não viveram ou viveram e foram experiências desastrosas, porque não lhes cabia, eram histórias de outros.
De que adianta faca e queijo sem fome? Será que aprendemos a escolher entre o essencial e o supérfluo? A faca de prata e o queijo gourmet ante uma vontade de fome anoréxica são um acinte. Como a poetisa, também quero a fome. Ela, sim, é uma certeza brutal. É nua como uma katana pronta para a luta. Dispensa ornamentos, só o brilho da lua ou do sol que reflete em seu corpo esguio.
Rejeitar faca e queijo não é presunção ou fastio, é liberdade e segurança. É preciso insight profundo para escolher entre uns e outro. É preciso ter vivido uma revelação. Escolhas entre milhares de opções só nos entedia. Mesa cheia e decorada mata fomes conceituais. Resolve fastio de vidas pequenas. A fome é a certeza crua e feroz que desperta a sensação de estar vivo.
O que favorece e facilita, como a faca afiada, amolece, torna o viver monótono. Acostuma-se um à vida mecânica e facilitada. Vida mediada pela menos-valia de metais que são corroídos pela ferrugem. A fome dá sentido e inteireza. Razão e valor, ainda que por um naco de pão seco. Não se furta à clareza e verdade. É o que é. Tem olhos agudos e uma energia devoradora por mais.
Por que não escolher os três: faca, queijo e fome? A poucos se lhe dá a sorte desta abundância. De fato, os que têm os três estão mesmerizados em vidas sem significado, assim, não há escolha a ser feita, o que tem está dado desde sempre. A escolha vem das experiências viscerais que se vive. O valor de cada coisa tem que ser provado na vida, do contrário não se tem chão de escolha.
Só escolhe a fome os calejados de vivências testadas. Aprenderam em caminhos estreitos que viver é mais importante que comer e beber. A seguir Adélia, a fome que sente não é saciada com literais comidas, como aqueles cujo deus é o estômago. Eles transcendem facas e queijos, posto que os terrenos apetites não são mais suficientes.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Contentamento é plenitude, independente da circunstância

O contentamento tem um problema, por assim dizer: como ele se relaciona com o aspecto temporal. A felicidade tem um traço mais moderno de efemeridade e, portanto, de vacuidade. O contentamento é moldado a cada momento, a cada experiência.
O contentamento não necessita de um aprendizado anterior ou de adquirir qualquer qualidade específica, ele apenas é vivido no momento presente. Sem dúvida, praticar o contentamento exige, no mínimo, alguém que aprende com a vida. Que tenha a postura de olhá-la de frente, pois os que se esquivam ou fogem jamais o alcançarão. Nesse sentido, o contentamento faz com que viver a vida seja algo cada vez mais natural, quer dizer, há alegria pelo novo, mas não espanto.
Algumas coisas que o contentamento não é:
1.   Indiferença. Os estóicos ensinavam que a indiferença era o caminho para viver contente. Ante as experiências, em particular as negativas, a pessoa simplesmente daria de ombros: não me importo, deveria dizer.
2.   Pensar positivo (o jogo do contente da Pollyanna). Parece ser uma variante epicurista, porém menos realista. A pessoa decide acreditar e esperar o melhor do pior que pode acontecer.  A origem cristã dessa ideia, infelizmente, foi distorcida ou mal compreendida.
3.   Desistência/resignação. Aqui há uma interface com os estóicos. A desistência, no entanto, deixa um rastro de insatisfação. Produz sofrimento pela perda, pois é essa a sensação presente naquele que desiste, além de se perceber impotente.
4.   Renúncia. Ainda que a o indivíduo esteja no controle ao renunciar a algo, não faz jus ao contentamento porque este não se furta a enfrentar o que for.
O contentamento, diferente da felicidade, é dinâmico. Não espera a chegada num lugar, mas existe e se modela enquanto se caminha. Quanto mais experiência, mais ele se fortalece. A variedade de experiências propicia mais contentamento. O contentamento persiste no agora. Ele faz parte de um continuum de vida que aceita cada dia com seu próprio desafio.
No âmago do contentamento está a aceitação. Esta forma de postura torna o indivíduo resiliente. A aceitação tem duas dimensões: a postura que nos faz voltar a atenção para fora e aquela que nos faz perceber o dentro de nós. Ambas tem a característica cognitiva-emocional. Perceber, sentir, avaliar, relacionar com o real, validar a experiência. Na aceitação não se admite qualquer distorção cognitiva. Ele vê a experiência tal como é.
A aceitação abraça o diferente, o novo. Ela é curiosa, não julgadora, o que não quer dizer que não se posicione, pois cada um tem seus valores. O que a aceitação não faz é oprimir o outro com seu valor. No tocante a nós mesmos ela é o exercício da autocompaixão. Ela admite nossos limites. Quem se aceita, jamais sofrerá de inveja.
O contentamento não permite que a pessoa fique cheia de chateação porque não foi lembrada ou ajudada, ou servida como queria. Ele não sofre de despeito.
O contentamento torna a pessoa independente dos humores, da boa vontade alheia e das circunstâncias, mas se alegra com a bondade de que é alvo.
O contentamento manifesta confiança na providência divina, em si e nos outros, ainda que neste caso, não seja ingênuo.
Apenas se deixe viver cada coisa. Você sofrerá com as dores que lhe tocarem em seu caminhar, ficará alegre com as coisas felizes. Que ninguém entenda que contentamento é como se alguém vivesse à mercê de um destino incerto. No contentamento há ação, interação com a realidade, resolução dos problemas, apenas não foge da vida.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A felicidade é uma miragem

A felicidade é um produto. Há um mercado que, parece, é imune à crise, por razões que suponho óbvias. De fato, tanto pior a situação, mais a felicidade vende. E um monte de gente se lança nessa busca frenética a vida inteira e se torna cada vez mais infeliz porque a felicidade-miragem que lhe vendem é medida em coisas que possa ter. O candidato a felicidade está sempre no vácuo dos vencedores, quase nunca no pódio.
O curioso é que ela é um produto versátil e que tem múltiplas fontes de definição e fornecimento. A indústria da autoajuda, especialistas de todo tipo imaginável – quase todos hoje levam o prenome coach –, as próprias pessoas umas para outras ofertam formuletas de como ser feliz. A diferença é que não cobram.
Para sobreviver aos felizes das redes sociais e propagandas que esbanjam a imagem dos agraciados e que se comportam como se vivessem uma Shangrilá particular, muitos aceitam uma felicidadezinha menos tunada. É isso ou a consumição de comparar-se o tempo todo e perder de goleada como num Brasil x Alemanha.
A felicidade como estado imutável, um espaço de plenitude que, uma vez alcançada, não acaba, é um mito. Uma utopia que continua a ser explorada por tudo quanto é corrente filosófica, por correntes políticas – especialmente as populistas – e religiosas que continuam a apontar o paraíso por aqui mesmo. Eis uma mentira difícil de nos livrar.
Há razões porque esta felicidade é impossível.
1.        Nós temos um mecanismo chamado “habituação” que depois de um tempo aquilo – coisas, lugares e dinheiro disponível – se torna banal e produz tédio.
2.        Nosso mecanismo fisiológico do humor varia naturalmente. Às vezes estamos mais borocochôs, às vezes mais alegres. Isso independe de quanto você tem.
3.        As circunstâncias da vida tem em seu seio uma coisa chamada “imponderável”. Uma hora algo de ruim acontece, mesmo no paraíso que criamos.
A felicidade é um lugar estático. Um ponto de chegada. Um final de uma caminhada, quase sempre antecedido apenas por dor, esforço, cansaço e, às vezes, muitas tentativas fracassadas. Parece depender da sorte. Alguns sugerem que pode ser adquirida, que há uma fórmula que, naturalmente, é vendida. Precisa de um tipo de iniciação, também paga.
A felicidade saudável teima em não se encaixar nos “para sempre” humanos. É feita de momentos e estados que duram um tempo e logo se desfazem acossadas pelas circunstâncias cambiantes. Quem quer isso ante a felicidade fosforescente e gorda de alegrias com que nos acenam?
E se em vez de buscarmos a felicidade que é fugaz, fluida por natureza, impermanente, desenvolvêssemos a atitude interior de contentamento? R. C. Sproul diz que contentamento é o remédio de Deus para a frustração. Embora seu artigo seja mais amplo, reduzir o contentamento a mero contraforte à frustração é torná-lo o que não é. A palavra autarkeia usada por Paulo em Filipenses 4.11 é traduzida por estado de espírito ou percepção de plenitude ou contentamento com o que se tem ou se vive. Contentamento, assim entendido, está mais próximo de uma filosofia de vida, um princípio existencial.
 Em termos psicológicos, pode-se dizer que o contentamento advém do encontro consigo e da aceitação que equivale a um autoconhecimento mais profundo. Um verdadeiro encontro consigo mesmo é o que diz Martim Bubber: “O ser humano se torna eu pela relação com o você, à medida que me torno eu, digo você. Todo viver real é encontro.” (do livro Eu e Tu)
Entre os gregos, quem mais se aproxima do conceito contentamento é Aristóteles e sua eudaimonia, que é definida como um estado de plenitude do ser. Outras duas correntes filosóficas gregas também ofereceram suas versões de uma vida boa e feliz: o estoicismo e o epicurismo.
Os estóicos defendiam que a indiferença era o caminho mais adequado para vencer a impotência em relação ao destino sobre o qual não se tem controle algum. Esta imperturbabilidade seria o lugar da paz e da superação sobre os eventos externos e, portanto, a chave para a felicidade.
Os epicuristas, por sua vez, ensinavam que se deveria minimizar a dor e maximizar o prazer, só assim se alcançaria a felicidade. Embora, advertia Epicuro, o prazer não deveria ser buscado de maneira indiscriminada, pois poderia resultar em dor. A própria dor não deveria ser evitada, pois poderia gerar prazer.  
Tenho a sensação de que vivemos num mundo de epicuristas – apenas a parte da busca do prazer –, pois tudo ao redor funciona no afã de mascarar, esconder, medicalizar e reprimir toda tristeza e dor. Esta é uma das razões porque muita gente prefere o caminho rápido de um ansiolítico, por exemplo, à jornada de aprendizado e crescimento que a terapia psicológica pode proporcionar.
Os epicuristas modernos tem algo que seus congêneres há mais dois mil anos não tinham: eles são marcados pela instantaneidade. Não suportam o processo, todos anseiam pelo resultado antes até de ter feito alguma ação ou qualquer esforço que lhe produza.

Leia a parte B deste artigo em “Contentamento é plenitude independente da circunstância”

sábado, 31 de dezembro de 2016

Um segundo é tudo que precisamos?

E lá vamos nós outra vez! O ano que se vai deixa um rastro de perplexidade, o que o tornará inesquecível. A lista de eventos é exagerada para um ano só. Tenho a sensação que vivemos vários anos em um. Como se vive um continuum e as demarcações temporais são meras ficções, os desdobramentos que virão em 2017 podem ser ainda mais assustadores. Não agouro. Prefiro manter a porta aberta para o que for.
Outra curiosidade deste ano excepcional. Ele ganhou um segundo a mais. Ajuste de rotina realizado pela instituição Tempo Atômico Internacional. A explicação é que é curiosa. Caso não fosse acrescentado este segundo, estaríamos mais rápidos que a rotação terrestre. É como se você estivesse dentro de veículo e chegasse ao destino antes do próprio que lhe carrega. Uma bizarrice, convenhamos.
Talvez fosse este mesmo o desejo de todos nós. Sair o quanto antes de um ano que nos descabelou de preocupação e sustos. Minha percepção é que a ordem das coisas que estava mais ou menos segura, a duras penas certamente, sofreu severo abalo e ainda ameaça uma desconjuntura no ano que chega, donde me pergunto se a pressa para sair do convulsionado 2016 nos levará a algo melhor, para além de nossos desejos protocolares.
Acho que todos temos este sentimento de um ano que se arrasta e como cada segundo dele nos deu eventos horrendos aos borbotões, como se a cada curva de seu tortuoso caminhar um desastre iminente nos espreitasse. Pergunto-me se lhe dar um segundo a mais não é uma temeridade. Sei das consequências para satélites, posicionamento global do transporte, a economia, enfim. E daí?
Que mais dá tudo isso quando parece que num segundo se repetirão as mortes aos milhares de afogados no Mediterrâneo, nos atentados terroristas cada vez mais brutos e diversificados, nas convulsões políticas – e nós que o digamos –, na ampliação da tentacular Lava Jato com suas centenas de delações premiadas que de tanta corrupção começa a se tornar banal, nas quedas de aviões por ganância ou falta de manutenção, nos fenômenos climáticos cada vez mais perturbadores.
Um segundo a mais e países inteiros se desfarão como vimos acontecer, exceção para a Venezuela que insanos e marginais estão destruindo devagarzinho, um segundo após o outro, com método, loucura e insensibilidade. Um segundo é tudo que se precisa para uma escolha desastrada... ou não. É de se perguntar por que a terra atrasou ou nós nos adiantamos. Como conseguimos este feito? Ocorre-me uma explicação mais simplória: nossos relógios enlouqueceram. Contaram tempo a mais e deixaram a terra para trás. Então nos demos conta que durante um ano inteiro apressamos acontecimentos, precipitamo-nos adiante no futuro sem estarmos preparados ou resolvidos no básico.
Entre nós e a terra ficou um espaço vazio que precisamos encher com um segundo, nos tornar mais pesados nessa carreira desabalada para um sem rumo que é como as coisas parecem estar. O atraso, quem sabe, nos poupe de outros desastres, pois na hora exata de seu acontecer ainda não teremos chegado ao local e momentos fatídicos.  O segundo a mais talvez nos faça refletir sobre nossa brutalidade, alheiamento, desumanização.
Em um segundo, a terra caminha ao redor de si 465 m, parece pouco, mas é a essa distância que estaremos do ano próximo quando a hora da mudança chegar. Caminharemos todo um segundo como quem atravessa uma fronteira em terra de ninguém. Voltaremos a caminhar como bípedes, um metro por segundo, um passo de cada vez. Talvez nos demos as mãos. Talvez olhemos para o outro que está ao lado. Quem sabe percebamos o caminho e a paisagem e, na contemplação, descubramos nossa verdadeira dimensão: grãos de pó com síndrome de onipotência carregados de hubris.

PS. Obrigado pela companhia. Desejo a todos um novo ano em que aprendamos a ser melhores. Isso nunca vem sem dor, sem luta, sem esforço. Que Deus tenha misericórdia de nós.