sábado, 26 de março de 2016

A grande aposta (The big short)

Remar contra a maré deve ser uma das coisas mais difíceis de fazer em qualquer sociedade ou grupo que tenha características de coesão, seja ela motivada pelo dinheiro ou por valores morais. O nível de energia emocional e psíquica exigidos na manutenção da posição quando todos ao redor estão cheios de certezas condicionadas por anos de prática é devastador: sempre foi assim; nunca aconteceu antes; a solidez das teorias estão provadas, etc.
Ao lançar o Titanic havia uma certeza arrogante de que nem Deus o afundaria. À parte das alusões religiosas que isso tenha, não foi o castigo de um Deus enfurecido em defesa de sua honra aviltada que afundou o navio na viagem inaugural, ele tinha fragilidades que simplesmente os engenheiros sequer pensaram e só o fizeram após o desastre. Onde há uma falha, o desastre está pedindo para acontecer, espera apenas a ocasião oportuna.
A dêbacle financeira de 2008 ainda pede muita história para ser contada. “A grande aposta” é um filme, baseado em fatos reais, que desvenda os bastidores de um pequeno grupo de homens que, quais profetas, anteviram a quebra do sistema. Talvez não agrade a muitos, mas há lições universais a serem aprendidas. As muitas de expressões e termos acessíveis apenas a iniciados do mundo das finanças são desvendados à pessoa comum de várias formas interessantes, algumas bem humoradas, sem escorregar para um didatismo aborrecido.
O diretor conseguiu, a meu ver, dar um tom de aventura numa história que seria tediosa dando-lhe ritmo, mostrando as questões pessoais de alguns dos protagonistas. A cruzada quase moral de Mark Baum (Steve Carell) passa honestidade, mesmo num mar revolto em que tubarões pensam somente em ganhar dinheiro – muitíssimo dinheiro – e gastar com mansões, mulheres, barcos e o que há de mais sofisticado. Mas tudo parece vazio e sem sentido. Há sempre um: e depois?
Numa cena importante, o personagem de Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso por desilusão com o sistema, acaba com a alegria de dois jovens que perceberam o problema e a quem ele, por alguma razão, resolve ajudar. A dupla está feliz porque estavam certos e anteviam o ganho de milhões de dólares em sua aposta contra o sistema. Em sua tola alegria festejam cantando e dançando, então Ben manda-os parar e lhes pergunta se eles percebiam que estarem certos representava a quebra de milhares de empresas, o desemprego em massa e a pobreza de milhões. Nós não tínhamos pensado nisso, dizem eles.
Claro que ganhar dinheiro é bom, mas qual é o limite? Até onde estaríamos dispostos a ir e o que aceitaremos sacrificar? Dinheiro tem moralidade e ética? Talvez não, mas as pessoas que ganham dinheiro deveriam ter. Como é que aqueles malandros jogadores dos bancos poderiam fazer o que fizeram colocando milhões de pessoas em risco de perda de emprego e na miséria sem sentir nada por isso? Parece que todos cinicamente estavam anestesiados. O cidadão comum tampouco estava se importando com o amanhã. Se o banco oferecia crédito lastreado em vento, ou permitia o cara fazer a hipoteca da hipoteca da hipoteca para comprar uma casa maior e mais confortável do que a que tinha, como um drogado que quer mais e mais da droga, que mais dá?
O filme termina com uma previsão sombria. A despeito da hecatombe financeira em que foram evaporados mais de 11 trilhões de dólares, parece que ninguém aprendeu a lição. Outra armadilha está formada. Parece que temos que apenas esperar o próximo desastre. Desta vez o Brasil, feito à imagem e semelhança do petismo ensandecido e irresponsável, não aguenta.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Toda sociedade precisa de uma Geni


O apresentador Rodrigo Hilbert, que capitaneia o programa “O Tempero de família” está no centro de uma polêmica. Num de seus programas, ele mostrou desde a escolha até o abate de um cordeiro para fazer um churrasco. A maior parte das cenas foi exibida em seu programa com a naturalidade com que as pessoas no campo estão acostumadas para realizar este tipo de ação. Foi o estopim para um sem número de pessoas acessarem suas contas em redes sociais e, entre xingamentos e críticas ferozes, deplorarem as cenas explícitas da morte de um cordeiro.
A questão ganhou proporções exageradas como costuma acontecer neste mundo de manada de pessoas excessivamente sensíveis que defendem coisas sem atentar para o ridículo de suas posições. Ongs diversas, Sociedades protetoras de animais e toda uma fauna de gente delicada queria mostrar sua indignação. A crítica era por exibir as cenas cruas da retiradas das entranhas, a decapitação e a separação do couro do cordeirinho. Sobrou até para sua mulher, a também apresentadora Fernanda Lima. Os revoltados, impedidos de acessarem com novos posts a conta de Rodrigo, atacaram os perfis da apresentadora. A sanha por defender “sua causa” pedia sangue, fosse de quem fosse. Mesmo de quem nada tinha a ver com a história.
A coisa toda cheira a uma imposição desrespeitosa e ditatorial que é como essas pessoas agem. Elas estão certas e quem discorda será execrado em praça pública. Uma espécie de descarnamento e esquartejamento moral. Elas detêm a verdade. Encarnam os novos valores da sociedade que, frouxa e louca, perdeu todos os referenciais e quem mais grita na internete é o que tem o poder de fazer estas suas imposturas. Os outros seguem, fazem likes.
Está certo que nem todos estão aptos para ver as cenas. E nada tem que ver com as esdrúxulas posições do politicamente correto, mas por desgostar e isso não está ideologizado. Nem por isso recusam um bom churrasco de cordeiro ou deixam de se alimentar de carne.
A questão aqui não é, por suposto, as cenas que não se prestam para fazer juízo de valor sobre a pessoa de Rodrigo, mas que não impediu o apresentador de ser associado a um sádico ou coisa pior. Mas à imposição de posições ideológicas que devem ser aceitas por todos. Vivemos a era do constrangimento público – urbi et orbi. É claro que o apresentador correu para tirar as cenas dantescas de sua conta na rede. É claro que deve ter ensaiado alguma desculpa ou explicação para aplacar a fúria das sensibilidades de seus críticos. O programa precisa de audiência. Os patrocinadores ficariam menos entusiasmados com seu nome associado a um matador de cordeiros. A hipocrisia está na moda e elevada ao nível do paroxismo nos comportamentos reais e virtuais.
Há uma lógica no comportamento de manada. Que o digam os gnus correndo nas planícies do Serengueti. Evolutivamente faz todo sentido. Nos humanos é que vem o sentimento de pertença, o sentido de identidade, a segurança. Estes só se percebem como parte de seus iguais. Mimetizados uns nos outros como espelhos passivos da reprodução de imagens amordaçadas em ideias que se replicam como vírus.
Parece que tudo tem agora um tipo de valor moral/social. Ao mesmo tempo, todos os valores que nortearam esta mesma sociedade, dizendo que isso é certo e aquilo não, estão corroídos e vistos como, no mínimo, ameaças ao bem comum.  Pensar diferente não é mais o exercício da liberdade, mas a candidatura para sofrer patrulhamento, censura e perseguição na rede, lugar que oferece certo anonimato e que, por isso, instiga as mais abjetas intenções e covardias das pessoas.
As muitas fôrmas (abomino que tenham retirado os acentos diferenciais) são meras camisas de força. Forjam indivíduos apenas customizados, a essência é a mesma. Em toda sociedade, sempre houve um modelo aceitável de ser e se apresentar perante os outros, mas vive-se a robotização em massa. O pensamento único. Uma agenda determina o que se pode pensar e, claro, falar, sob pena de instantâneo julgamento. A coisa chegou num nível que já não se espera a cobrança, fazemos nós mesmos a autocensura. Tornamo-nos capatazes de nossa consciência e não me refiro ao superego.
Curioso. Ao mesmo tempo em que é de bom tom defender todo tipo de minoria, parece que algumas classes podem ser esculachadas e até há um apelo para que se faça. O cristianismo é um dos clássicos. Mas ser conservador – no sentido de Roger Scruton ou Theodore Dalrymple – também sofre o dedo em riste da manada de “modernos”. Toda sociedade precisa de uma Geni. Todo grupo precisa de seu bode expiatório. A questão é, você que pensa diferente quer se tornar este zumbi mutante que só pensa numa coisa: devorar o cérebro do outro?

domingo, 13 de março de 2016

Fé não é mágica - Little Boy

E se de repente você descobrisse que é capaz de mover os objetos com o poder de sua fé (mente)? E se esta descoberta acontecesse numa idade em que fantasia e realidade se interpenetrem sendo difícil discernir em qual dos lados se está? Suponha que este grande evento, a descoberta deste “poder”, aconteça em meio à primeira grande crise de sua história como pessoa. Uma separação de alguém que você ama e com ela mantém uma belíssima amizade, uma cumplicidade, e que esta pessoa lhe seja companheira de aventuras imaginárias fantásticas.
Este é o enredo de Little boy, segundo longa do diretor mexicano Alejandro Monteverde. Pepper é um garoto de 8 anos cujo pai vai para a guerra. A separação é terrível, mas ele imediatamente busca uma forma de trazer o pai de volta. Mágica e fé em sua cabecinha são a mesma coisa. De um lado, seu heroi de quadrinhos, Ben Eagle, uma espécie de Mandrake. Quem lembra? De outro, o padre e sua homilia sobre mover montanhas com a fé: se você tiver a fé, mesmo do tamanho de uma semente de mostarda.
Pepper, o Little boy, leva as duas ideias ao pé da letra e tem-se uma história sobre fé e descrença. O diretor simula uma fábula inocente. O lugar é paradisíaco. A vila O’hare é idílica. Encravada no sopé de um belo monte e à frente a imensidão do oceano. O colorido das casas, a luz viva do sol sugere um lugar atemporal, embora a história se desenvolva no período da segunda guerra.
Entre a perseguição de garotos mais velhos e malvados e sua luta por cumprir as regras ancestrais – uma série de atos bons que lhe deu o padre, acrescido da missão de tornar-se amigo do único japonês existente no lugar – aumentaria a fé de Pepper e, em consequência, ele poderia trazer o pai de volta.
O padre é um homem bom e acolhedor, mas parece ter uma fé que tem dificuldade de ficar em pé. Principalmente diante de questionamentos do pequeno Pepper. Hashimoto, o japonês, é o cérebro, o homem que não tem fé. Mas mantém uma saudável relação com o padre com quem joga cartas de vez em quando. Chama Deus de “amigo imaginário” do padre, que nunca se sente ofendido.
A amizade entre Pepper, o garoto perseguido pelos outros, e um japonês residente nos EUA durante a segunda guerra, parece improvável, mas ambos são muito próximos na condição. A região e a casa do japonês, ao contrário das demais, é cinza e não há jardim. Ele é o inimigo. O mal. Só haverá luz do sol na casa dele no final do filme. O filme fala, portanto, de tolerância também.
Quanto à fé, o diretor a desconstrói com as falas do Hashimoto, com as equivocadas interpretações da comunidade que, pouco a pouco, vai notando em Pepper um garoto especial. Pepper tem a fé de uma criança. Ele crê de uma forma absolutamente concreta que se sua fé chegar ao tamanho do grão de mostarda, ele trará o pai de volta. A prova é mover a montanha logo atrás da cidade. Bem, este momento chega. A coincidência com um terremoto no momento exato leva a vila quase inteira a acreditar nos poderes do garoto.
Há incréus aqui e ali. Diferentes do Hashimoto, são apenas cínicos, confusos, ressentidos. O amigo do garoto que o aceita em sua infantilidade e que o ajuda a cumprir com as “regras ancestrais”, o respeita em sua infantilidade. Teme por sua fé mágica quando sugere ao padre que a decepção de um deus que não responde – não traria o pai do menino de volta – arrasaria com ele. O padre apenas responde que o “amigo imaginário” cuidaria dele.
Por fim, o diretor parece dizer que a fé é algo para gente simples de mente e crianças que não sabem separar o poder de um mágico e os acontecimentos que a fé produz. Cegos, tomam uma coincidência por resposta de Deus. Parece perguntar: para que serve mesmo mover uma montanha e lançá-la ao mar? Mas esta é apenas uma pergunta que Little boy (Pepper) faria.

sábado, 12 de março de 2016

Essa tal felicidade.

Síndrome de Takotsubo e síndrome do coração partido são a mesma coisa. É um fenômeno cardíaco. Esse velho coração e suas surpresas.  Cito textualmente a reportagem: “A doença é caracterizada por uma fraqueza temporária dos músculos do coração que leva a uma deformação do ventrículo esquerdo e provoca dores no peito, perda de fôlego e, até mesmo, morte.” Como se poderia suspeitar, isso acontece, em mais de 90% das vezes, em momento de tristeza extrema. Perdas irreparáveis. Amargores dilacerantes que nos espreitam na vida. Faz sentido, não é?
A pesquisa publicada no European Heart Journal revela, porém, uma surpresa. Cerca de 4% dos quase dois mil pesquisados tiveram o coração estraçalhado por alegrias. Felicidades incontidas. Felicidades, quase êxtases. A conclusão é que nosso cérebro significa coisas diferentes por mecanismos muito parecidos, se não iguais em sua fisiologia. É assim quando sentimos certos prazeres. O circuito de recompensa é o mesmo. O neurotransmissor é o mesmo, quase sempre a dopamina. O cérebro não separa o que provoca esta efervescência. Para ele, tanto faz se é uma pedra de crack, sexo ou uma comida divina.
As mulheres parecem ter ligeira desvantagem em relação aos homens. Isso parece reforçar aquilo que se fala popularmente: as mulheres são mais coração e os homens, cérebro. Mulheres de coração partido. Isso soa familiar? A idade mais provecta parece também contribuir para que a síndrome se manifeste. Ora vejam, nossos corações se exaurem de tanta emoção. Ressoar os sons da alma tem limite.
A reportagem tinha um título sensacionalista: “Felicidade extrema pode fazer mal ao coração”. Lembrei que quase todos buscamos este estado de alma. Exceto os doentes, coitados, que ficaram viciados em tristeza e dissabores. Por estranho que pareça, tem gente assim aos montes. Mas eles mesmos, talvez, apenas suspeitem de sua entortadura emocional.
Aristóteles chama a alma enlevada de eudaimonia, que literalmente significa o estado de ter um bom espírito residente, um bom gênio. É mais traduzida por felicidade, que resulta desta boa condição do espírito ou plenitude. Parece que a diversidade de vivências e o comedimento são os caminhos para se alcançar este estado, ensina o filósofo. Mas vivemos um tempo de exageros. Urgências. Instantaneidades. Mesmo a religião cristã em sua versão protestante (palavra que ficou fora de moda e nem mais corresponderia ao sentido original) viver a fé é ter direito à felicidade, aqui e agora, e esta pode ser comprada porque a prosperidade financeira a que o fiel tem direito e, consequentemente, material, favorecerá sua manifestação.
Um pequeno país encravado no Himalaia, Butão, determinou por decreto real a busca da felicidade como um valor semelhante ao PIB. Seria o FIB. O âmago desta política é que bem-estar é mais importante que desenvolvimento e dinheiro. O rei ainda está às voltas com essa missão impossível. Parece que nossas vidas teimam em descarrilhar por motivos mínimos. Sentimos inveja e culpa por não sermos felizes como os outros, na concepção de que todos os outros o sejam. Quase sempre é esta a nossa percepção.
Aristóteles ou Jesus (não os coloco em pé de igualdade), Gandhi ou Martim Luther King, ou quem você quiser, nunca deram formuletas de felicidade. Todos eles entenderam que a felicidade não é sequer um ideal a ser alcançado, porque aquelas dos contos de fada, que mimam nossas vãs aspirações, são uma aberração à vida. São infantis. Tolas. Miragens. Haverá quem defenda que temos que sonhar e essa é uma das frases mais bobas que existe. Quando sugere este sentido equivalente a viver bem. Não temos que sonhar. Temos que viver. Viver, diz o poeta, é melhor que sonhar (Belchior). E viver, os experimentados ensinam desde remotos tempos: “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” (Oscar Wilde).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Interestelar

Peguei o filme pela metade, mas como o assisti assim que estreou, não havia problema, estava situado na história. Mas uma segunda vista em Interestelar me cutucou ideias novas.
Uma das coisas mais instigantes para mim é a questão do tempo que o filme trabalha à luz dos limites de nosso conhecimento da física. Outros temas como velocidade da luz, a singularidade produzida pelos buracos negros, buracos de minhoca, outros universos passeiam pelo filme. O enredo conta a aventura de um grupo enviado numa missão para investigar a possibilidade de achar um planeta viável para nós, pois a Terra está morrendo.
A Terra se esfarela numa multiplicidade de fenômenos meteorológicos extremos. Está exaurida. A nave é enviada às cercanias de Saturno numa viagem sem volta – mas eles não sabem – para visitar e entrar num “buraco de minhoca” que, supostamente, foi plantado ali por seres alienígenas que se penalizaram de nossa condição agonizante no planeta azul.
Em sua busca, avaliam um planeta, entre os doze que eles tinham como opção, que está à beira de um monstruoso buraco negro. Essa proximidade, num planeta onde não há um único torrão de terra seca, causa um tipo de distorção temporal que a cada hora ali, equivale a sete anos para o companheiro que ficou na nave mãe.
        Algo, porém, salta aos olhos e sei lá se essa foi a intenção do diretor/roteirista.  Cooper (Matthew McConaughey) é um Moisés que se lança num caminho sem volta em busca da terra prometida. Com a diferença que deixa os filhos para trás. Muitas reviravoltas temporais e aquilo que se imaginava ser a ação solidária de seres alienígenas evoluídos, somos nós mesmos que no futuro criamos a saída. Se pensarmos um pouco, a coisa é circular e ficará acontecendo eternidade afora.
        O filme engrandece o gênio humano. Seria bom se assim fosse. Fronteiras fechadas, pessoas morrendo afogadas às centenas numa viagem sem volta em busca de uma terra. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Mas sofrêssemos nós no Brasil uma invasão desse tipo, seríamos solidários? Se bem que nem os sírios, com uma pequena exceção, querem vir pra cá. 
Um ligeiro olhar ao redor e trombamos com toda sorte de ameaça que por nada pode nos levar à extinção. Ver pessoas se explodindo em nome da religião – fosse uma autoimolação sem levar ninguém junto, vá lá –, por valores nacionais e territoriais, pela ideologia que se tornou um deus. Assim, tudo o mais é relativizado, inclusive nossa própria sobrevivência como espécie. Somos primitivos.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Fetiche

Um homem na cidade de York, noroeste da Inglaterra, recebeu uma ordem judicial que determina que ele precisa avisar à polícia com 24 horas de antecedência quando quiser ter relações sexuais.
Fonte: BBC (25/01/2016)

Todo mundo tem seus dias de inferno astral, eu estou morando num, uma cobertura com vista para o lago de fogo e enxofre. Não fosse aquela louca feminista, rata chauvinista, eu não estaria nesta encrenca. Levar o sexo consentido ao limite de ter que se perguntar por cada ação realizada – não vou tecer detalhes, vocês que imaginem em suas mentes pervertidas – é o máximo do ridículo que o politicamente correto pode impor à vida das pessoas. Mas foi isso, apenas isso. A certa altura, fiz algo que no calor da refrega ninguém lembra de perguntar. Coisinha de somenos, nada nem parecido com ato diverso da conjunção carnal ou uma felação no olho. Pois deu um escândalo. Subiu nas tamancas. Como é que eu ia saber que aquela era dessas xiitas dos direitos femininos? Não estava escrito na testa.
Embora tenha sido absolvido de coisa pior, recebi uma OPRS. Traduzo aos leigos: ordem provisória de risco sexual. O que significa? Ao pé da letra, nada. Mas quer dizer que devo informar ao juiz toda vez que eu planejar ter sexo. E devo informar com 24 horas de antecedência. Que preciso informar o nome da mulher, endereço, telefone, cpf, identidade e, eles frisaram, data de nascimento, mas já estará num destes documentos, pois não?
Vejam vocês a que ponto do ridículo chegamos! Se pintar uma possibilidade de afogar o ganso devo indagar tudo isso da dita fulana. Imagine a cara de espanto dela porque é óbvio que vai perguntar por que diabos eu quero saber estas informações. Vai pensar que quero dar um golpe financeiro, ou ainda pior, roubar sua identidade como se tivesse um fetiche e quisesse me trans qualquer coisa.
Perceberam o prazo? E se aparecer uma transa fortuita, ocasional? Uma destas antigas namoradas pode dar o ar da graça e bater aquela saudade. E se nós quisermos conferir antigas brincadeirinhas? Olha lá o que vocês estão pensando... é a segunda vez que me preocupo com isso. Acho que estou ficando paranoico. A coisa pegando fogo e eu: você topa adiar este momento para daqui a 24 horas? Diante da cara perplexa: é que tenho que avisar ao juiz. E se não avisar, pego cinco anos de cana. Preso, pelo menos não terei mais que me preocupar com essa loucura.
Ah, vocês pensam que isso é bastante para a justiça? A OPRS avança até numa possível escapadela virtual. A internet tem milhares de mulheres vendendo sexo, pois imaginem que eu queira aliviar a situação por este meio. Também estou sujeito às regras draconianas. Tenho que avisar o site, a bunda que vi, seu endereço virtual, etc e tal. Celular a mesma coisa. Se eu tiver uma conferência mais picante com alguém, também devo avisar. Eles querem checar com a pobre mulher se eu fiz algo bizarro ou disse, né? pois fazer, convenhamos, por pior que seja, no máximo causaria engulhos nela.
Todo esse calvário apenas porque não perguntei se era hora de colocar aquilo naquilo. Pareceu à louca um estupro ou algo pior. Estou no limbo. Não tenho uma condenação, aguardo julgamento, vivo sob essa ordem que escarafuncha até meus pensamentos mais secretos. Um olhar errado e vou direto para a cadeia. Um assobio para uma mulher na rua e me enquadram.
Se for absolvido levarei a marca do medo. O que devo fazer e como numa relação que não afete os melindres da pessoa com quem estiver? Quer dizer, devo adivinhar? Tenho que fazer uma anamnese, uma entrevista? E se a pessoa esconder algo por pudor, mas que no meio do rala e rola, baixadas as censuras, ela se lembre que isso, para ela, é um tabu, um interdito? E se eu comprar uma boneca inflável?
Posso escolher que, livre, terei sexo só comigo mesmo. Mas se eu tiver algo escondido, um limite qualquer e eu fizer algo comigo mesmo que não goste? E se meu eu interior se revelar sensível e excessivamente pudico com certas práticas e me denunciar de mim mesmo? Acho que tentarei o suicídio...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Perdão, saúde para alma

C. S. Lewis, autor de Crônicas de Nárnia, mas excepcional autor teológico, catedrático do estudo de inglês medieval e renascentista de Cambridge, em seu livro “Lendo os Salmos”, afirma algo incrível baseado na pergunta feita a Jesus por certo discípulo. A pergunta era sobre quantas vezes se deve perdoar. Se apenas sete vezes. Lewis comenta a resposta de Jesus: “precisamos perdoar nosso irmão setenta vezes sete não por ele nos ter ofendido 490 vezes, mas por tê-lo feito uma única vez.”
Lewis fala do perdão realizado, cujo ressentimento submergiu e em certas circunstâncias retorna com a mesma força como se nada tivesse sido feito a respeito dele. Ali, naquele instante, devemos perdoar outra vez.
Schopenhauer, em “Aforismos para a sabedoria de vida”, diz que não. De fato, o velho filósofo ranzinza ensina que é até possível relevar o que uma pessoa nos faz de mal. Agir assim, ele recomenda, apenas se a pessoa tem algum valor afetivo. Mas adverte, sombrio, você deverá saber que a pessoa errará outra vez. É como se dissesse: você foi avisado.
Caso aquele que se mostrou desagradável não tenha qualquer valor afetivo, ele advoga, não esquecer significa agir rápido e demitir a pessoa se for um funcionário, porém se for um “amigo”, deve-se romper relações incontinenti e sem mais.
Schopenhauer não acredita em mudanças de comportamentos. Para ele, o “caráter é absolutamente incorrigível e todas as ações humanas brotam de um princípio íntimo” que levará o sujeito a agir de forma igual quando a situação se fizer propícia. Ele afirma: ainda que as pessoas sejam sinceras em seu pedido de perdão, elas cometerão o mesmo erro ou algo parecido e que reconciliar-se é apenas um sinal de fraqueza do qual nos arrependeremos.  
Qualquer um de nós que tenhamos passado da adolescência carregamos alguma história de ter sido magoado, traído, ignorado. A lista pode ser um pouco mais extensa que isso. Então sabemos que perdoar não é fácil. Muita gente segue os conselhos do velho pessimista – há quem diga que esse apelido é injusto –, outros carregam a dor da ofensa remoendo-a sem parar. Não raro estes voltam, sem perceber, a dor contra si mesmos: eu merecia, não sou digno, porque fizeram isso comigo?, o que eu fiz de errado?
O perdão pode ser visto como coisa de gente fraca, sem tutano ou que tem sangue de barata num mundo de relações amaras ou como pensa o filósofo rabugento. Um livro escrito em 1984 (Forgive and Forget – Healing the Hurts We Don’t Deserve), que em tradução livre significa: “Perdoar e esquecer – curando as feridas que não merecemos”, escrito pelo teólogo Lewis B. Smedes, desencadeou vários estudos na área psicológica abrindo um campo inteiro de pesquisas com centenas de artigos que avaliam o fenômeno psicoafetivo envolvido no processo do perdão. Conclusão: perdoar é um bom caminho para a saúde mental.
Smedes destaca ao longo de livro que o aguilhão mais terrível é o ressentimento. Sentir de novo a dor que lhe foi infligida. É a lembrança cutucando, tornando-se profunda, enraizada. É até possível um tipo de esquecimento, como forma de sobrevivência ou defesa, mas apenas se reprimiu o mal. Ele estará lá à espreita, como que invisível, disfarçado de boa vontade, talvez.
A psicologia ensina que há duas dimensões no perdão: a decisional e a emocional. A primeira é racional, muda a atitude em relação ao ofensor, permite reenquadrar a ofensa, evita a vingança. O perdão emocional é lento, processual. Nele estão as armadilhas da mágoa, da vitimização que levam o ofendido a ser controlado pelo ofensor.
Perdoar, no sentido psicológico, é reconhecer a realidade da ofensa e a responsabilidade do ofensor. Não se confunde com absolvição, indulto, justiça, conceitos da esfera jurídica. Tampouco se trata de desculpar, esquecer, negar. O perdão interpessoal requer empatia de forma deliberada. O perdão livra o que perdoa de stress, noites insones, depressão, do ódio crônico que agrava fatores cardiovasculares. Perdoar é saúde e liberdade.