domingo, 21 de junho de 2015

Morto perfumado

Uma empresa francesa vai fabricar perfumes que recriam o odor de uma pessoa falecida a partir de roupas que ela usava.
Katia Apalategui, fundadora da pequena empresa Kalain (uma alusão à palavra calin ou "carinho", em francês) contou à BBC Brasil que a ideia surgiu há sete anos, quando seu pai faleceu por motivos de saúde.

Fonte: Daniela Fernandes De Paris para a BBC Brasil (18/06/2015)
Os franceses são especialistas em perfumes. Dizem as más línguas que esta habilidade foi elevada ao estado da arte, porque eles não são chegados a banho. Mas povo educado e sofisticado que é, sabe que não pega bem na convivência com outros os nossos cheiros naturais, ainda mais depois de dias longe de uma bucha, água e sabonete.
A mais nova invenção no mundo dos olores artificiais foi criada por uma mulher que, até então, nada entendia de perfumaria. Uma necessidade de sentir o cheiro do pai morto, desejo que percebeu na mãe também, que se dedicava a cheirar, de vez em quando, fronhas e roupas do falecido para matar a saudade. A partir destes objetos pessoais e alguma química, foi extraído um grupo de moléculas que era o cheiro do tal homem quando vivo. As duas se lambuzaram com o cheio do morto e... descobriram um nicho de mercado.
Esqueçam fotos, filmes, histórias, cartas e o que mais nos faz lembrar os nossos entes falecidos. Basta uma peça de roupa e o laboratório arrancará o odor de quem tiver partido. Não importa o tempo. A empresa não explica que tipo de roupa é mais conveniente a retirada do cheiro. Suponho que uma cueca ou calcinha dormida não seja indicado, embora há de ter quem queira esse cheiro mesmo. Vai se saber.
Os amantes experientes sabem que para uma relação dar certo é preciso cultivar muita coisa. Mas se seu nariz refuga o cheiro do ser amado, a situação fica difícil. Uma hora o amado ou a amada não poderá disfarçar seu cheiro característico que, dizem os especialistas, é função da comida, materiais de higiene pessoal e até doença que a criatura tenha. Uma boca mal cuidada, uma barriga desonerada aumentam substancialmente as variações de cheiros emitidos por seu docinho de côco. Tudo misturado, tem-se a assinatura olfativa inconfundível e, possivelmente, insuportável.
Mas de morto tudo se perdoa. A saudade bate, o luto aperreia e lá um se esquece que o pobre, agora defunto, fedia. E não se fala aqui do estado putrefacto em que se encontrará em dias post mortem. É que essa ressurreição olorífera pode criar problemas. O danado é que de tanto cheirar o falecido a pessoa jamais elabore o luto. Como é que as lembranças do defunto vão para o arquivo morto? Não corre o risco de virar um fantasma imorrível?
Se é possível extrair o cheiro escondido nas coisas do defunto, é também possível do cachorro falecido. Gente tudo bem, mas cachorro não fede tudo igual? Não exalam o cheiro inconteste de pano sujo molhado? Pois há candidatos a querer ressuscitar o cheiro do seu cachorro morto. Penso que bastava um cafungada no pano da cozinha e deixar a imaginação rolar. Mas a fantasia é mais foi forte que o real.
Um cadáver famoso, tipo artista muito importante, um Michael Jackson da vida, a família poderia ganhar milhões vendendo a catinga do dito cujo em frasquinhos tipo loló importada do Paraguai. É só tomar cuidado pra não ter overdose, o que poderia ocorrer se a cheirada fosse embalada por Thriller. Excesso de estímulo cerebral pode dar concussão.
É claro que se pode fazer o perfume de gente viva. Pensei em marinheiros que deixariam para trás um frasquinho com seu perfume para a mulher. Não sei se evitaria que a mulher cheirasse outros cheiros, mas valeria a tentativa. Acho a ideia ridícula, como acho a primeira mórbida, mas se há quem queira pagar, que mal tem? 

sábado, 13 de junho de 2015

Salvem as galinhas. Chamem as raposas.

Desde o início da análise da reforma política, foram aprovadas cinco mudanças na legislação: mudança do tempo de mandato, fim da reeleição, restrições de acesso de pequenos partidos ao fundo partidário, permissão de doações de empresas a legendas e alteração da idade mínima para concorrer ao Legislativo.

Fonte: G1 (11/06/2015)

Às vezes o mundo parece um mar em calmaria para minha sensibilidade e o objetivo desta coluna. É uma roça achar algo que force minha mente a desconstruir as histórias que encontro, de tão insossas. Mas esta semana a coisa estava impossível. Meu dilema era o que fazer entre os sexshops kosher e o ungido, este dos evangélicos; a nudez dos turistas que, segundo o governo malaio, causou um terremoto que abalou uma montanha. Todos os assuntos deveras interessantes, mas voltarei a eles noutro momento.
Correndo por fora, veio com força a reforma política que os deputados e senadores, depois de anos de enrolação, resolveram botar a mão na massa e realizá-la... do jeito deles. Que maneira de se falar dessa reforma que os ilustres legisladores insistem em dizer que será a melhor para a sociedade?
A assembleia entre os bichos da fazenda havia começado. Sim, copio descaradamente a ideia do George Orwell em a Revolução dos Bichos. Façamo-lo à brasileira.
O problema é que o galinheiro sofrera vários ataques. Era um tal de Mensalão pra cá, Lava Jato pra lá, sem contar um monte de coisinhas igualmente nocivas, mas não tão famosas que, mesmo assim, consumiam tudo das penosas. As grades do galinheiro estavam furadas, a porta arrombada e sem conserto há anos. A casinha para as galinhas dormirem, construída na época do BNH, era só goteira. Mas havia quem cantasse “chão de estrelas” para disfarçar a penúria.
Um impasse: não havia verba para tanto reparo. As galinhas punham seus ovinhos ao relento. Alguém passava para recolher os ovos em dia e hora certa em ponto e não tinha moleza de diminuir a quantidade, parcelar os ovos, só aumentavam a cota. Não havia cloaca que aguentasse por tanto ovo e nem um unguentozinho para aliviar o esforço.
Eis que surgem umas raposas muito simpáticas e se ofereceram para arrumar o caos instalado. Tinham resposta para tudo e soluções idem. Tudo em favor da galinhada que, apesar de certa desconfiança a princípio, logo começaram a acreditar nas lorotas. Uma raposa prometeu diminuir a quantidade de ovos arrecadados. Outra sinalizou que a questão da segurança era com ela. E ainda outra disse que novas normas no galinheiro premiariam uma vida de esforço, se é que me entendem, na produção dos ovos. Ao final de tudo, nada de panela, essa coisa monstruosa e selvagem. Só milhinho mole e espaço para ciscar.

Que as galinhas deveriam votar nas raposas. Porque eram experientes, como entende o Pelé. Que continuaria o voto proporcional para dar chance aos Tiriricas. Que se manteria obrigatório este ato cívico. Que se mudaria a idade de novas raposinhas trabalharem feito escravas para as galinhas, mas é porque seus filhinhos ou apadrinhadinhos deveriam ralar em favor do galinheiro mais cedo. Só isso. Que se acabaria com esta marmota de reeleição para a gerência do galinheiro – que deveria ser sempre uma raposa, desde que ela fosse de cor diferente da anterior –, mas o mandato aumentaria.
As galinhas, com aquelas caras parvas, bico aberto, viravam a cabeça de um lado e outro como a assuntar para entender tudo com seu cérebro galináceo. As raposas contentes riram-se umas para as outras. Repetiram todas juntas que faziam tudo aquilo em favor das galinhas por puro amor a elas, em prejuízo pessoal. Já estava tudo acertado. Quem bancaria as eleições, que empresas fariam os trabalhos de reparo do galinheiro, tudo licitado nos conformes e que os recursos que financiariam a realização deste desenvolvimento ímpar, já estavam contabilizados e aprovados devidamente pelo TSE, TCU e o que mais ainda fosse criado para vigiá-las. Esse lugar é um paraíso(polis).

terça-feira, 9 de junho de 2015

Ai de ti, Brasil!*

Não pedi licença ao Arnaldo Jabor para reproduzir seu texto - publicado em O Globo -, creio que me perdoará. Eu o saúdo pelo profetismo de sua fala e foi proposital na forma e conteúdo. Eu o saúdo por dizer o que gostaria de ter dito, mas me faltaram as palavras exatas.

Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância

Ai de ti, Brasil, eu te mandei o sinal e não recebeste. Eu te avisei e me ignoraste, displicente e conivente com teus malfeitos e erros. Ai de ti, eu te analisei com fervor romântico durante os últimos 20 anos e riste de mim. Ai de ti, Brasil! Eu já vejo os sinais de tua perdição nos albores de uma tragédia anunciada para o presente do século XXI, que não terá mais futuro. Ai de ti, Brasil — já vejo também as sarças de fogo onde queimarás para sempre! Ai de ti, Brasil, que não fizeste reforma alguma e que deixaste os corruptos usar a democracia para destruí-la. Malditos os laranjas e as firmas sem porta.
Ai de ti, Miami, para onde fogem os ladrões que nadam em vossas piscinas em forma de vagina e corcoveiam em jet-skis, gargalhando de impunidade. Malditas as bermudas cor-de-rosa, barrigas arrogantes e carrões que valem o preço de uma escola. Maldita a cabeleira do Renan, os olhos cobiçosos de Cunha, malditos vós que ostentais cabelos acaju, gravatas de bolinhas e jaquetões cobertos de teflon, onde nada cola. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Brasília? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?
Ai de vós, celebridades cafajestes, que viveis como se estivésseis na corte de Luís XIV, entre bolsas Chanel, gargantilhas de pérola, tapetes de zebra e elefantes de prata. Portais em vosso peito diamantes em que se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis. Ai de vós, pois os miseráveis se desentocarão e seus trapos vão brilhar mais que vossos Rolex de ouro. Ai de ti, cascata de camarões!
Tu não viste o sinal, Brasil. Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância. Cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras e deste risadas ébrias e vãs no seio do Planalto. Ai de vós, intelectuais, porque tudo sabeis e nada denunciais, por medo ou vaidade. Ai de vós, acadêmicos que quereis manter a miséria “in vitro” para legitimar vossas teorias. Ai de vós, “bolivarianos” de galinheiro, que financiais países escrotos com juros baixos, mesmo sem grana para financiar reformas estruturais aqui dentro. Ai de ti, Brasil, porque os que se diziam a favor da moralidade desmancham hoje as tuas instituições, diante de nossos olhos impotentes. Ai de ti, que toleraste uma velha esquerda travestida de moderna. Malditos sejais, radicais de cervejaria, de enfermaria e de estrebaria — os bêbados, os loucos e os burros, que vos queixais do país e tomais vossos chopinhos com “boa consciência”. Ai de vós, “amantes do povo” — malditos os que usam esse falso “amor” para justificar suas apropriações indébitas e seus desfalques “revolucionários”.
Ai de vós, que dizeis que nada vistes e nada sabeis, com os crimes explodindo em vossas caras.
Ai de ti, que ignoraste meus sinais de perigo e só agora descobriste que há cartéis de empresas que predam o dinheiro público, com a conivência do próprio poder. Malditas sejam as empresas fantasmas em terrenos baldios, que fazem viadutos no ar, pontes para o nada, esgotos a céu aberto e rapinam os mínimos picuás dos miseráveis.
Malditos os fundos de pensão intocáveis e intocados, com bilhões perdidos na Bolsa, de propósito, para ocultar seus esbulhos e defraudações. Malditos também empresários das sombras. Malditos também os que acham que quanto pior, melhor.
A grande punição está a caminho. Ai de ti, Brasil, pois acreditaste no narcisismo deslumbrado de um demagogo que renegou tudo que falava antes, que destruiu a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises, para voltar um dia como “pai da pátria”. Maldito esse homem nefasto que te fez andar de marcha à ré.
Ai de ti Brasil, porque sempre te achaste à beira do abismo ou que tua vaca fora para o brejo. Esse pessimismo endêmico é uma armadilha em que caíste e que te paralisa, como disse alguém: és um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.
Ai de vós, advogados do diabo que conseguis liminares em chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca-do-boi de nossas prisões. Maldita seja a crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos. Malditos compradiços juízes, repulsivos desembargadores, vendilhões de sentenças para proteger sórdidos interesses políticos. Malditos sejam os que levam dólares nas meias e nas cuecas e mais ainda aqueles que levam os dólares para as Bahamas.
Ai de vós! A ira de Deus não vai tardar...
Sei que não adianta vos amaldiçoar, pois nunca mudareis a não ser pela morte, guerra ou catástrofe social que pode estar mais perto do que pensais. Mas mesmo assim, vos amaldiçoo.
Ai de ti, Brasil!
Já vejo as torres brancas de Brasília apontando sobre o mar de lama que inundará o cerrado. Já vejo São Paulo invadida pelas periferias, que cobrarão pedágio sobre vossas Mercedes. Escondidos atrás de cercas elétricas ou fugindo para Paris, vereis então o que fizestes com o país, com vossa persistente falta de vergonha. Malditos sejais, ó mentirosos, vigaristas, intrujões, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente. Ai de ti, Brasil, o dia final se aproxima.
Se vossos canalhas prevalecerem, virá a hidra de sete cabeças e dez chifres em cada cabeça e voltará o dragão da Inflação. E a prostituta do Atraso virá montada nele, segurando uma taça cheia de abominações. E ela estará bêbada com o sangue dos pobres e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país.” Ai de ti, Brasil! Canta tua ultima canção na boquinha da garrafa.
(*) Homenagem a Rubem Braga

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Recusa em esquecer: medo de perder a identidade



Este filme passou longe das salas de cinema que só exibem blockbusters. A moda agora nos cinemas, inclusive, é banir filme legendado. Os cinemas de dois shoppings de São Luís só passam agora filmes dublados. Estão em regiões de classe média baixa – nem sei se existe. O povo não gosta. Não consegue ler e assistir ao filme ao mesmo tempo. O mercado alimenta a mediocridade e se alimenta dela.
Enfim, vamos ao que interessa. The World Made Straight (2015), sem tradução em português, é um daqueles filmes que se fica pensando tempos depois. Parece que, como diz o personagem Leonard, mas falava ele a respeito do tempo, é feito em camadas.
Começa com a execução sumária de um grupo de pessoas por soldados confederados. Cem anos depois, como o mundo daquela gente é feito em linha reta, a execução ainda produz seus efeitos. O jovem Travis Shelton é descendente daqueles que foram executados. O professor Leonard descende dos executores. Aparentemente uma briga de família. Os Shelton eram menos confederados, o que significava ser ianque, do que desejavam seus vizinhos.
A fotografia do filme é muito bonita, mas melancólica. Ela serpenteia o rio que passa espremido pelas montanhas Apalache. Não há cidade. As casas estão distantes umas das outras, o que reforça um ar de hostilidade e solidão. É frio o tempo inteiro. Sombrio. A vida está paralisada. Ela não corre como o rio.
O jovem Travis não tem futuro, largou a escola. Busca um lugar, enquanto convive perigosamente com a marginalidade. Tem uma relação conturbada com o pai que, há muito, deixou de ser referência de qualquer coisa. O pai não facilita. Eles vivem a um triz da agressão física.
O professor é um homem desiludido, em busca de redenção, se ela aparecer. Vive num treiler com a drogada Dena. Enquanto isso, trafica pra um sujeito que canta gospel na igreja. Ele está ali porque perdeu seu lugar na comunidade por que um aluno, com quem teve um problema, acusou-o falsamente de ser traficante na escola. Em seu carro, foram encontradas as drogas. Ele foi preso. A mulher o abandonou e levou a filha do casal.
O destino envolve o professor e Travis. A amizade entre os dois dá ao professor um filho e ao jovem, um pai. O professor tem muito documento da guerra. O jovem se encanta e se torna meio obsessivo com o massacre de seus parentes. O professor se identifica com seu tataravô, médico, que discordava da execução, mas nada fez e nunca se perdoou. Travis se identifica com o jovem David Shelton que, à época do assassinato, tinha apenas 12 anos.
O filme ganha volume e mais dinâmica e, entre algumas reviravoltas em que verdades velhas vêm à tona, as rixas e tensões também aparecem em dois planos: o passado e o presente. O traficante, a drogada Dena, o professor e Travis formam a trama de uma história antiga que mantém sua força, porque as pessoas não se permitem esquecer, pois seria como perder suas identidades.  
O professor, por causa da história de seus familiares, recusa-se a ser violento, ainda que seja exímio atirador e traficante por um tempo. As armas, porém, diz ele, são mais para intimidar e impor respeito aos usuários e ao traficante de quem compra a droga.
Em certo momento, o professor diz a Travis: Deus me pegou muito cedo. Ele sondava se o jovem percebia o mundo espiritual ainda vivo, no lugar onde ocorreu o massacre. Travis não faz ideia. Ele ainda está embrutecido das dores passadas, contadas repetidamente a fortalecer a versão que sustenta o ódio e a desconfiança entre as pessoas no presente.
Leonard estimula Travis a retomar os estudos. O jovem havia achado um rumo sem volta. O professor, diferente de seu ancestral que morre entre dores físicas por causa de um tiro na barriga, recusando-se a tomar qualquer remédio que aliviasse como forma de autopunição pela sua participação no massacre, tem sua chance de redenção. 
Sua defesa intransigente pela paz. Sua recusa de nunca atirar em alguém o leva a escolhas crísticas. Sem intenção, ele faz o a papel de salvador para Dena e Travis. Sem perceber, sua caminhada o fazia ser o profeta Ozéas, a quem foi pedido que se casasse com uma mulher de prostituições numa das passagens mais bizarras da Bíblia. Ela o traía, voltava e ele a recebia. Curava suas feridas, abrigava e outra vez a amava, como se seu amor por alguém perdido saneasse sua alma negra dos pecados seus e dos antepassados. O mundo não segue em linha reta. Tem andar de Bêbado.

domingo, 7 de junho de 2015

Bicho também é (quase) gente



Pesquisa do IBGE revela que, no Brasil, o número de famílias que criam cachorros já é maior do que o de famílias que têm crianças. Causas demográficas e econômicas mostram que o fenômeno, similar ao de países ricos, vai se acentuar daqui para a frente.

Fonte: Veja (Cecilia Ritto e Bianca Alvarenga - 04/06/2015)

Eles são fofos. Comem comida gourmet. Vão ao salão pelo menos uma vez por semana. Vestem roupinhas transadas. Ganham brinquedos de aniversário. São levados para passear. Ficam em hotéis especialmente pensados para eles e que tem uma bela programação de entretenimento, com direito a muita brincadeira, piscina e até massagem. Tem planos de saúde. São acarinhados e recebem todo tipo de mimo.
Os cachorros e gatos estão com tudo. O IBGE disse que há mais bichos de estimação – que os metidos adoram chamar de pets – que crianças no Brasil. Que estamos parecidos a países ricos como o Japão. Ninguém fala quão longe estamos da qualidade de vida que os japoneses – gente, não bicho – levam. Já um monte de estudiosos sociais se debruçou a procurar explicações para o fenômeno, pois que é a onda do momento.
Dizem que o povo agora arruma as trouxas muito tarde. Que demoram a sair de casa. Que houve aumento da população idosa e que, sozinhos, adotam bichos, que chamam de bebês. Um desavisado cai facilmente na esparrela de pensar que os petófilos quando falam de certa pessoa – às vezes eles têm nome de gente também – não é de gente mesmo que falam. Até descobrir, meio consternados, que o tal Bob é um desses cachorrinhos da moda. Sim, tem moda de cachorro. Tem época que ter uma raça é o must da vida. Sou do tempo do pequinês. Ainda existem?
Ai de você se, depois que o fulano bicho foi incluído na rede de amizades – isso inclui as redes sociais, por suposto – esquecer o aniversário do – me desculpem – animal. Bem esta falta ainda encontra perdão, mas se não for ao mensário ou festa do aniversário do dito, ganhará um inimigo figadal pela desfeita. Seus pais/donos adoram chamá-los de filhos. Acostume-se.
Mico mesmo é quando se encontra o tal mimado em carne e osso. Aguente firme as lambidas babadas, o sem modos da saudação. É de bom tom passar a mão na cabeça do bicho e caso ele abocanhe sua mão, apenas ria e tente, pedindo desculpa aos pais, retirar a mão da bocarra com jeitinho para que o coitado não tenha um ataque de birra. Tudo isso acontecerá sob o riso condescendente deles. Ele quis fazer sua perna de parque de diversão sexual? Faça piada e não perca a pose. Piada politicamente correta, claro.
Ligou para o amigo ou amiga e, por puro descuido, esqueceu de perguntar como anda o Bob. Vai ouvir em tom de lamúria ou de cobrança: pô, fulano e você nem pergunta pelo Bob? Ah, sim, e o Bob, como está? O pai/mãe todo pimpão: está ótimo. Você não sabe da última. E lá vai deitar falação da inteligência, das traquinagens do Bob. Só falta falar, dizem quase sem se conter. Bizarro! E você lá com cara de nhô zé ouvindo com aquele sorriso amarelo na boca em tom de aprovação, pois não é louco de não dar este sinal corporal.
Quer ser aceito e festejado, minta descaradamente sobre gostar de bichinhos de estimação. Rem3endo. Filhinhos, babies, lindinhos. Defenda status de gente para eles, pois como dizia o filósofo canastrão abestado Magri – procurem no Google – cachorro também é gente. Se não fizer, vai perder emprego, não vai conseguir se reposicionar no mercado. Quer ser da hora? Ponha umas fotos de cachorro no perfil do facebook. De preferência, aquelas típicas de sacos de ração: uma praia ou campo verdejante, você correndo e o bicho morto de feliz ao seu lado. Morto é só figura de linguagem, não me entendam mal, não há qualquer sugestão terrorista implícita.
Pega bem pra caramba ser membro, mesmo que seja fictícia, de uma sociedade protetora, nem que seja das baratas cascudas ou dos coelhos cotós. Quando foi a última vez que você encheu o saco dos passantes para pedir dinheiro para os vira-latas que não sabem balançar o rabo? Erro crasso se quiser ter assunto nas rodas. Uma tardezinha no semáforo já para compensar o desleixo com a causa! 
Criança? Pra que criança? Essa coisa esquisita que só dá trabalho. Você se mata de trabalhar para dar tudo, ainda carrega nove meses na barriga, crescem, abandonam a gente, não dão a mínima. Nunca reconhecem seu sacrifício. Quando aparecem é para pedir e são um posso de mal agradecimento. Eu hein?!!

terça-feira, 2 de junho de 2015

Pense como um Freak (bleagh!)



Quando a dupla Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner – o primeiro, professor de economia e o
segundo, um jornalista – lançaram Freakcnonomics (2005) causaram grande impacto pela originalidade da ideia. Eles se dedicaram a coletar dados e fazer análises estatísticas, digamos, bizarras, para chegar a conclusões fora do pensamento comum. Mas não sem muitas ressalvas que eles faziam questão de dizer. O exemplo mais vistoso, no meu ponto de vista, é sobre a relação entre criminalidade e aborto.
A lei que autorizou a prática do aborto nos EUA nasceu de uma briga judicial que foi parar na Suprema Corte, o caso Roe vs Wade em 1973. Desde então, quase todos os estados americanos autorizam a interrupção da gravidez. Pois bem, desde aquela data cerca de 50 milhões abortos foram praticados. A maioria deles, segundo mostram os dados de Freakconomics, em famílias de baixa renda, negros que, possivelmente, engrossariam o exército de marginais. Como não nasceram, um efeito benéfico, segundo concluem, foi a redução da criminalidade.
Claro que concluir algo assim a partir de dados sem considerar as implicações morais e éticas deste raciocínio é o grande problema, ainda mais que Jane Roe, a litigante em favor do aborto, mentiu para ganhar a causa. Mas é por isso que a ideia é freak ou aberrante. Freakconomics vendeu milhões de exemplares.
A dupla resolveu fazer disso um meio de vida. Analisar aberrações estatísticas. A editora da dupla e eles mesmos, claro, viram um filão onde poderiam ganhar milhões. Palestras, cursos e mais livros explorando o tema. Daí nasceu um filhote que chamaram de “Pense como um freak”. O terceiro da série. Entre ele e o primeiro foi lançado “Superfreakconomics”. Eis o problema. A fonte secou.
O “Pense como um freak” ensaia ensinar uma forma de pensar que seria inteligente. Fora da caixa, como se diz. Mas produz uma estrovenga, um frank (de Frankestein), pois o livro não consegue fazer ninguém pensar por um ângulo inusual e, na ideia deles, mais inteligente, pois levaria a pessoa a perceber os problemas de forma diferente e, imaginam, achar soluções inovadoras. A verve do livro original acabou, definitivamente. Não, você não pensa de forma mais inteligente depois do livro.
Eles requentam um monte de coisa do livro de sucesso e o leitor – eu – fica com sensação de ter sido enganado. Repetem ideias a título de exemplo, mas é porque não sabem o que fazer para melhorar o livro ruim que colocaram nas prateleiras das livrarias. O primeiro livro chega a ser divertido. É curioso. Este último é um lixo. O leitor deveria ser ressarcido pela perda de tempo.

domingo, 31 de maio de 2015

Amor pesa



Muito romantismo pesa: a prefeitura de Paris irá retirar na próxima segunda-feira centenas de milhares de "cadeados do amor" presos à famosa Pont des Arts.
Fonte: Da France Press (G1) (29/05/2015)
A cigana que ele resolveu consultar ensinou: não precisa achar a chave que você jogou no rio, mas encontre o cadeado que colocou na ponte e esfregue entre as mãos até arder. Marion vai voltar. Pierre, meio desconfiado, indagou: só isso? A cigana, ainda em transe, disse em voz gutural: siiimmm.
Ele lembrava exatamente o local onde colocara o cadeado no gradeado da ponte naquele dia feliz em que Marion aceitou dividir a vida com ele. Ah, Marion! Que linda, que diaba de mulher que agora o deixou desacorçoado e tudo por causa daquele brasileiro cheio de malandragem e sabe lá o quê mais.
Noutro lugar da cidade. Prefeito, a ponte está entortando. Está selada, disse outro auxiliar, que mostrou uma foto em que se via a ponte nitidamente empenada. É o peso dos cadeados. Alguém estimou que deve ter um milhão deles e pesar umas 45 toneladas. Se não mandar tirar, a ponte vai cair. A proibição não adiantou. Os apaixonados driblam os fiscais, corrompem, fazem de tudo para colocar os cadeados.
O prefeito balançou a cabeça, desanimado com o problema. Amor pesa, disse como se falasse consigo mesmo. Outro assistente ainda tentou ponderar que botar cadeado na ponte era uma das grandes atrações de Paris. Que vinha gente de tudo quanto era lugar do mundo só para amarrar seu amor naquela ponte. Pois que ponham cadeado nas pontes de suas cidades. Vão derrubar nosso patrimônio histórico e matar um monte de gente. O coitado se calou.
Tem mais. A Sociedade Protetora dos Animais anda nos rondando por causa do aumento de peixes mortos engasgados com as chaves que os enamorados jogam no rio. Tem até o caso de alguém que pescou uma piaba, foi comer frita e também se engasgou com um molho de chaves. Tudo isso dentro de uma piaba! Mas esse foi fácil, tomou laxante e se resolveu. Não sei como foi que a chave saiu! Pergunta besta!
Chamem nosso chefe de jornalismo. Ponham agora a determinação de que vamos arrancar todos os cadeados. Não interessa se vai desempregar gente e fechar lojas da região que só vendem cadeado. Agora vai ser cadeado virtual. A ponte vai ter telas de alta definição no lugar das grades, o casal paga módica quantia, escolhe o cadeado do amor entre zilhões de modelos e a imagem vai ficar ali por um tempo, tudo integrado com celular, tablete, redes sociais, satélite, gps, o escambau.
Pierre tomava café, comia sua baguete e se preparava para esfregar as mãos no cadeado que ele e sua amada colocaram em doces momentos pregressos. Ao ler o jornal, viu a notícia nefasta. Prefeito ordena a retirada dos cadeados do amor e quer fundi-los para fazer tampas de bueiros e postes. Aquilo foi uma facada. Engasgou. Largou o café por tomar e saiu em desabalada carreira em direção à Pont des Arts.
Ao chegar, os cadeados no lado que colocou estavam em cima da caçamba de um caminhão. Gritou, esperneou, chorou desesperado. Que queria seu cadeado. Que os desalmados o fariam perder a Marion pra sempre. Logo apareceram turistas, transeuntes, mal humorados moradores da cidade que, num ato de solidariedade surpreendente, pularam na caçamba a fim de achar o cadeado e salvar uma história de amor. Pierre, meio enlouquecido, havia se algemado à grade da ponte. 
O caos havia se instalado. Ninguém se entendia. Chamaram a polícia, que resolveu jogar duro. Deram choques com tasers, tacaram spray de pimenta e bombas de efeito moral – o que o barulho tem que ver com a moralidade dos protestantes? –, gás lacrimogêneo e não houve no mundo o que fizesse Pierre largar a ponte. Por fim, deram um cadeado que ele alucinou que era o dele. Esfregou, esfregou e entre um sorriso com olhos injetados e esbugalhados: agora é só esperar Marion voltar e deu uma gargalhada sinistra.