terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Não à cassação do registro de psicólogo do pastor Silas Malafaia


Esta é uma época em que uma forma particularmente agressiva e danosa de ver o mundo tem aproveitado a liberdade propiciada pela democracia ocidental para impor todo tipo de limitação às pessoas. Esta filosofia – chamo-a assim por falta de termo melhor –, a do politicamente correto, tornou-se verdadeira praga e jura que só defende direitos de minorias, mas como um cavalo de tróia também arquiteta comportamentos, fabrica falas e novas palavras eufemísticas, determina os assuntos que se pode falar e os novos tabus, engendra leis, modifica as relações humanas e torna a vida um cárcere de limites escorchantes à liberdade de qualquer um que discorde de seus valores que, quase sempre, são patrocinados por partidos políticos e ongs, alguns destes com existência e objetivos escusos.
        Ora, é do jogo democrático a disputa de opiniões divergentes, mas os partidários do politicamente correto não podem suportar a contradição. O espírito que lhes contradiz e que moldou nossa sociedade até agora se encontra nas palavras do iluminista Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.” Não à toa está em curso no país o debate do controle social das mídias que, traduzido do idioma da esquerda celerada petista, significa calar a boca de todos quantos discordam de suas opiniões. Ainda não prosperou, sejamos vigilantes.
        Feita esta introdução, vamos aos fatos. O pastor Silas Malafaia é bastante conhecido entre os evangélicos e tornou-se, nos últimos anos, personagem pública reconhecida por sua prática pastoral na tv e por opiniões viscerais sobre vários temas. Sua última entrevista à Marília Gabriela bateu recorde de visualizações no Youtube. Além de pastor, Silas é formado em psicologia – aqui volto ao tema desta coluna, leitores. Uma das suas principais posturas diz respeito ao movimento gay brasileiro, particularmente àquele político militante que tem no PT um de seus grandes aliados.
        Uma representação do site americano Avaaz no Brasil, supostamente dedicado a dar voz à sociedade através de abaixo assinados, sob forte influência do PT – é dirigido por um de seus servidores –, produziu uma lista (dia 8 deste mês) de assinaturas para cassar a licença do exercício da psicologia pelo pastor Silas Malafaia. A motivação se deu por suas opiniões quanto à recuperação – cura, se quiserem – de homossexuais por meio de tratamentos psicoterápicos e religiosos.
        A proposta, em si, é estapafúrdia, pois somente o Conselho Federal de Psicologia, mediante processo legal e por razões devidamente provadas e com amplo direito à defesa e ao contraditório, pode cassar a licença do exercício profissional de um psicólogo. Mas, considerando que qualquer um tem o direito de falar a asneira que queira e a internete é o paraíso do idiotas, admita-se a lista.
        Como o site é, em tese, público, o Sr. Ricardo Rocha criou uma petição contrária à cassação no dia 9 deste mês. Semana passada, o placar estava em 65.786 favoráveis à manutenção do registro de Malafaia contra 55.000 dos a favor. Naufragada a porca artimanha do gayzismo militante e de seus apoiadores em seu próprio jogo, eis que o site, numa atitude assombrosa, notificou o Sr. Rocha em carta oficial alegando que sua petição seria retirada do site por não atender à missão que dizem realizar e, pasmem leitores, por voto(?) de seus organizadores. Supostamente, haveria um conselho de vestais que diz o que pode ser defendido e o que não pode no tal site.
        Eis uma manobra vil, mentirosa e espúria que merece de todo cidadão consciente repúdio incondicional. É o que faço aqui. Não tenho mandato do pastor Malafaia para defendê-lo. De fato, discordo frontalmente de muitas de suas posições, inclusive, quanto a particularidades de suas opiniões sobre o tratamento dos homossexuais. Entretanto, o pedido de impedimento de seu registro profissional se baseia numa Resolução CFP Nº 1 de 22 de março de 1999 que não foi devidamente questionada pela classe de psicólogos e atenta contra a liberdade de qualquer um buscar ajuda à sua dor, sua inconsistência, seu desencontro, ainda que esta seja a homossexualidade. Atenta contra a relação entre terapeuta e cliente. Não avança no debate como seus idealizadores defendem e impõe uma camisa de força ao exercício profissional cuja quebra ou até a simples discordância implica em ameaças e punições graves, já sofridas por diversos psicólogos Brasil afora.
        Ainda, por ser uma afronta sobre vários aspectos ao bom exercício da prática psicológica, a petição que pede a cassação do registro do psicólogo Malafaia se baseia na Resolução que, por sua vez, se refere a posturas e opiniões no exercício da profissão, o que, nem de longe, Malafaia fez, pois tem se manifestado na qualidade de religioso e em foros diferentes do setting terapêutico ou da academia.
        A retirada da petição favorável ao pastor é mais uma das estratégias das forças do atraso, pois de seus contrários só admitem o silêncio, à força, se preciso. Assemelha-se ao caso Yoani Sánchez. As forças obscuras da intolerância protagonizaram um espetáculo triste e mal educado, sob o patrocínio do governo e seus asseclas, partidecos insignificantes e políticos que representam o que há de mais atrasado em ideias e relações humanas, impondo uma humilhação pública à blogueira cubana em visita ao país, cuja principal força são suas palavras contra um regime carcomido, opressor, nefasto e apoiado pelo atual governo petista sem aval do povo brasileiro.
        O Brasil tem leis, é regido por elas e pela forma de organização do Estado. Petições, abaixo assinados ou assemelhados, desta forma, tem apenas o condão de achincalhar a honra e denegrir a moral dos que são alvo delas. Não podem, sob nenhuma hipótese, substituir os canais apropriados e legais para qualquer um requerer direitos ou reclamar suas queixas. Nenhum cidadão brasileiro pode ser submetido a qualquer penalidade senão em virtude do que é previsto em lei, essa é a máxima do Direito Penal. E pelo grito de uma meia dúzia, nunca. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A praga dos sem noção


Uma consultoria de recursos humanos dos Estados Unidos listou as piores perguntas que os gerentes de recursos humanos ouviram de candidatos a uma vaga durante as entrevistas de emprego. A pesquisa da Office Team, com sede na Califórnia, ouviu 650 gerentes de RH de empresas dos Estados Unidos e Canadá.

Fonte: G1 São Paulo (23/02/2013)

Gente sem noção é uma praga. Aposto que você está lembrando aquele amigo destrambelhado que vive aprontando e ainda se acha vítima da incompreensão alheia. Os sem noção estão entranhados nas mais diversas áreas da vida. Vivem à espreita e quando você menos espera, eles surgem e aprontam das suas.
Na escola ou faculdade eles pululam como enxames de mosquitos. O professor passa um trabalho, o sujeito (a) não contribui, falta e alega – quando o faz – razões como matar a avó –; às vezes esquecem e matam a pobre senhora várias vezes e ainda brigam se a nota não foi lá grande coisa. O cunhado que se abanca em sua casa, senta no seu lugar preferido, come seu iogurte activia, cutuca os pés na sala, até coça lá você sabe onde e isso tudo sem lavar as mãos.
Mas este espécime só vinga e se reproduz na nulidade de nosso constrangimento para confrontá-los e dar-lhes o que merecem. Ficamos cheios de não-me-toques porque usar nossa velha cara de pau custa energia e a tendência do ser humano é de conservá-la, fazer o caminho mais fácil e deixar para lá. Nada a ver com a lei física da conservação de energia que diz que a mesma não pode ser criada ou destruída, ela se transforma. A lei da conservação de energia no comportamento humano é mesmo preguiça, desleixo e cara dura.
        Uma instituição americana listou um monte de frases inacreditáveis dos sem noção quando, sabe-se lá porque razão, eles se candidataram a empregos. A mais original, para mim, e a definição acabada, o estado da arte de um verdadeiro sem noção é esta: “Eu tenho mesmo que vir trabalhar todos os dias?”. Desafio os leitores a criarem respostas adequadas a este primor de indagação. Em segundo neste ranking de maluquices tem aquele que questiona seu entrevistador: “O que é esse trabalho?” Como assim?
        Outra frase abusada é esta aqui: “Posso colocar minha mesa perto do cafezinho?”. Vejam com que candidez esta criatura pergunta algo, sem dúvida, altamente relevante para seu papel na empresa. Alerto aos leitores que as perguntas foram feitas quando estes seres ainda não estavam confirmados no trabalho. Era a primeira entrevista.
        Criativos como são – dizem que mente vazia... – eles superam uns aos outros com inesgotável cornucópia de aberrações. “Posso ter um adiantamento de salário?”. Vejam que o indivíduo nem sequer esquentou a cadeira de entrevistando. Uma zinha, em dificuldades, mostra seu QI com a singela pergunta: “Meu marido pode terminar este teste pra mim?”
        Nesta área da vida, há até classificação dos sem noção. Os que fazem as perguntas sem noção propriamente ditas. Não sabem nem o que estão fazendo lá. Uns passam cantadas no entrevistador (a). São os românticos. No meio da entrevista, tascam: “Gostaria de sair comigo?”
Os folgados tem o gene chamado “sem noção” no cromossomo “28”. É uma categoria que deveria procurar emprego como palhaços, só rindo. “Posso folgar todas as terças-feiras?”. Eu gostaria de saber a explicação para esta peculiaridade. E esta de fazer cair da cadeira: "Posso ter três semanas de folga a cada três meses para cuidar da minha carreira musical?" Claro que pode, traga sua banda para ensaiar aqui no escritório. Que tal?
Suspeito que eles fazem tudo isso de caso pensado. Sabem que chocarão e que causarão estranheza e, claro,  não serão admitidos, o que manterá sua razão e justificativa de que não conseguem nada porque são uns incompreendidos, estão acima da média e seu lugar ainda está por ser construído.
Então você já sabe. Na próxima vez que encontrar um sem noção, não importa em que circunstância, trate-o sem pena e sem dó. Vale reproduzir o slogan de uma campanha do governo Vargas e atribuída a várias pessoas, de Auguste Saint-Hilaire, um naturalista francês, a Monteiro Lobato: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.” Coloque no lugar da saúva a expressão “sem noção”.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A vida começa depois do carnaval


Nenhum país vivencia o carnaval como nós. Isso você já sabe. Não me refiro especificamente ao despojar-se de muitos dos limites cotidianos, regras morais e sociais ao dançar nas ruas, travestir-se do que seja, refiro-me ao título. A sensação que se tem é que o mês de janeiro é um mero figurante no calendário. Ele espera fevereiro, mantém as coisas em banho- maria e mesmo o país se organiza para funcionar de verdade só depois do carnaval.
Suspende-se, por assim dizer, os compromissos mais sérios, os planos, ganha-se um tempo onde se pode esquecer ou nem tanto, anestesiar-se contra o real. Embora o carnaval seja parte de um contexto profano-religioso, no plano psicológico talvez atenda a nossa tendência aprendida em procrastinar. Fato que não é fruto de nossa brasileira e macunaímica forma de ser, atinge outros países também e certas categorias de pessoas mais que outras.
Procrastinar é adiar, delongar, prorrogar, postergar, pospor, protelar, prolongar, retardar, protrair, espaçar. Apesar de tanto sinônimo, rima com preguiça física e mental, mais esta que aquela. Deriva da palavra latina procrastinatus: pro- (à frente) e crastinus (de amanhã). Em português rasteiro significa empurrar com a barriga, faço depois, deixar para depois ou para a última hora.
A procrastinação pode ser uma negação, uma defesa, uma esquiva. De acordo com a necessidade, nós a usamos. O estudante é, talvez, o maior praticante deste comportamento. Todos sempre acham que não haverá tempo para estudar tanta matéria. Pedem sempre mais tempo para cumprir suas tarefas que eles desperdiçam, porque não querem ou não sabem usá-lo. Como estão mais preocupados com o desafio que em efetivamente enfrentá-lo, sentem ansiedade que se une à preguiça e então, postergam.
Nas relações, as pessoas adiam um desfecho que está patente, mas como fingem não ver, delongam. Por pena do outro, por mau caratismo, por dificuldade de lidar com a verdade que sempre pede uma postura assertiva - e esta exige energia emocional que a pessoa não tem ou não aprendeu a usar. Alguém sempre sai ferido nestas circunstâncias, sentindo-se traído. Todos preferem o desfecho, mesmo negativo, a uma vã esperança.
Não é engraçado que a gente vê mais gente gabando-se de que com ele ou ela a coisa é ali, na lata. Não deixa almoço pra janta. O que tem que dizer, diz e ponto final. Em grande parte das vezes, só consegue ser mal educado e confunde isso com assertividade. A maior parte do tempo é um procrastinador. Mandam para as calendas a arrumação do quarto ou escritório que ganhou uma cara de chiqueiro, mas diz que é o caos organizado, ali ele/ela se acha e sabe onde está cada camisa ou papel.   
A procrastinação revela um abismo entre o presente e o futuro. Mostra uma forma de funcionar. A pessoa está na frente, no sonho, ignora que para obtê-lo deverá atravessar dura jornada. Este descompasso é tremendamente gerador de culpa. Nem sempre expressa, pois envergonha e é a forma de dar de frente com o fracasso especialmente quando se vê comparado ou se comparando com outros.
O fracasso, por sua vez, pede responsáveis e nem sempre o incongruente quer ou pode enfrentar a realidade de que ele é o único responsável. Novamente, para fugir da verdade nua e crua, ele diz para si mesmo que realizará, o sonho é trazido para o presente e ele se conforta com a promessa que nunca cumprirá, de que se esforçará mais, planejará melhor, realizará cursos, treinamentos. Um círculo vicioso se instala. Esta é quaresma particular do procrastinador.
Postergar atende ao princípio do prazer. Voltar à vida comum com suas demandas diárias, realizar agora o que precisa ser feito atende ao princípio da realidade. Não há dúvida do que é melhor, mas somente o equilíbrio entre estes dois polos antagônicos pode gerar uma vida produtiva, realizada e significativa.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A coisa descartável


Pesquisadores japoneses vinham observando os hábitos de acasalamento inusitados da espécie Chromodoris reticulata, encontrada no Oceano Pacífico, há algum tempo. Agora, publicaram um estudo sobre o tema na Biology Letters, da Royal Society, relatando o registro pela primeira vez uma criatura que pode copular repetidas vezes com o que foi descrito com um "pênis descartável".

Fonte: BBC News (13/02/2013)

A gente morre e não vê tudo, disse. Tentava provocar uma conversa, chamar minha atenção. Eu que estava absorto sei lá com quê, não dei importância à admiração do meu velho amigo Ari. Inteligentíssimo, mas por desvios da vida, nunca chegou a lugar nenhum. Acho que faz inveja à Enciclopédia Britânica ou, modernamente, à Wikipedia. Mas para que serve este conhecimento enciclopédico? Para nada, digo, ele coleciona saberes por prazer. Tudo lhe chama a atenção. Talvez aí resida a pista de sua desdita. O mundo quer gente ultra especializada, cada qual no seu nicho.
Mas deixemos esta conversa desenxabida de lado. Por fim, voltei-me para ele que agora estava indiferente ao meu alheiamento inicial. Resolvi perguntar do que se tratava esta conversa fatalista de morte e conhecimento. Ele animou-se. Tu sabias que os japoneses descobriram uma lesma-do-mar que tem um órgão sexual descartável? Quero dizer, a parte masculina. Claro que eu não sabia. E porque deveria sabê-lo? Entre meus interesses, a vida sexual das lesmas está em trilhonésimo lugar, se não mais distante. Mas era, sim, uma curiosidade tautologicamente curiosa.
E daí? Perguntei. Ora, se a gente quer xingar uma pessoa dizemos que é uma lesma. Mas eis que as lesmas são bichos altamente sofisticados. Depois disso, se alguém quiser me chamar de lesma, tudo bem. Os nudibrânquios também são hermafroditas. Eles podem copular consigo mesmos, baita vantagem. Nudi o quê? Aquilo parecia mais uma ofensa, um insulto para alguém que queremos dizer burro, idiota, miolo mole e por aí vai. Experimente pensar só você mesmo sobre aquele desatinado que você conhece. Imagine-se dizendo. Seu nudibrânquio! E aí, gostou?
Tudo bem que o bicho seja hermafrodita, mas um pênis descartável?! Dei por mim com um cutucão do Ari. Um não, vários. E nós, já imaginou? Nós o quê, Ari? Imaginar o quê? Nem entendi como pode ser uma coisa dessas e você já está lá na frente pensando besteira. Não é nada disso que você pensou. Falo se nós homens fôssemos capazes de tal maravilha. Falhou? Descarta. O mecanismo elevatório vai mal? Descarta. Usou? Descarta.
Eu ainda não havia atinado naquilo direito e ele já emendou. Os japoneses disseram que um novo instrumento nasce em 24 horas depois de descartar o velho. Vixe! Você disse que os japoneses descobriram? E qual é a relevância científica? Eles são japoneses, sabe como é... Sei não, respondi logo. Os orientais tem a ferramenta pequenininha. Acho que eles querem compensar. Tudo bem ser pequeno, mas se conseguem fazer o troço descartável, eles vão ser os reis do pedaço. Cada vez que tiver um novo, créu! Pirou na batatinha, Ari, mas acho que estou entendendo.
Ah, você duvida? Será que os japas querem também se tornar hermafroditas? Como é que eu vou saber disso? Qual é a vantagem de uma coisa destrambelhada dessas? Os nudibrânquios... Dá para chamar de lesmas? Tudo bem. As lesmas – enfatizou, em tom de troça comigo – quando se encontram toda vez não tem conversa. Partem logo para os finalmentes e como tem as duas coisas, elas coisam as coisas cada qual no outro. Entendeu? Confesso, aquilo estava me dando voltas no juízo e agora, esta enrolação que o Ari falava por pudor de dizer as palavras nuas e cruas, piorou tudo. Mas ele, incansável com aquela ideia fixa: talvez a gente devesse aprender com elas. Nada de telefonar no dia seguinte, cada um para o seu lado, sem grilos, sem expectativas, mas todo mundo satisfeito... duas vezes... ao mesmo tempo.
Ari, você bebeu? Esqueceu de tomar os remedinhos? Deixa eu sonhar. Os gregos é que estavam certos. Eles inventaram esta história de hermafroditismo. Sabia que o Hermafrodito nasceu de um rala e rola entre Hermes e Afrodite e que... Chega, Ari. Daqui a pouco você me convence a ser hermafrodita, deus grego, nudibrânquio e sei lá que esquisitice... mas a história do descartável...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Voo


Acho que sou um saudosista. Ainda me sinto desconfortável em escrever “voo” sem o circunflexo e todos os acentos diferenciais, os agudos e ah... o trema.
Desculpem-me, leitores, o desabafo. O tema hoje passa longe das firulas de nossa língua e dos burocratas da mudança ortográfica. Assisti ao filme “O Voo” (Fligt, 2013) com Denzel Washington, que faz o comandante Whip Whitaker de um jato de voos regionais nos EUA. Durante um de seus voos, que começa com uma tempestade e termina com um desastre aéreo e que só não resultou na morte de todos – havia 102 passageiros a bordo, 3 tripulantes, piloto e co-piloto –, por causa da incrível manobra que é feita pelo comandante que consegue “pousar” o avião num descampado. Quatro passageiros e duas comissárias de bordo morrem.
As primeiras investigações parecem apontar para um herói. Realizou uma façanha com perícia tal que nenhum piloto conseguiu repetir, mesmo em simulação. Uma mancha, porém, surge. Exames de sangue do comandante registram grande quantidade de álcool e cocaína. O advogado anula o relatório. Mas ainda faltava explicar duas garrafinhas de vodca que somente os tripulantes tinham acesso. Elas haviam sido bebidas por Whip durante o voo.
A vida deste piloto é um desastre. Solidão, muita bebida e cocaína para administrar uma separação e a vida corrida que leva. Como todo dependente, Whip disfarça a adicção e se recusa a admiti-la. Enquanto as investigações prosseguem, o herói periga cada vez mais se transformar num beberão irresponsável. Vício que Whip, sob pressão das investigações, perde completamente o controle. Eis o enredo, não conto mais para não estragar a surpresa de quem quiser assistir.
Confrontado por amigos, ex-esposa, a nova companheira, Whip mente e nega qualquer dependência. Este é um padrão clássico. Instala-se uma brutal incongruência, segundo Rogers, entre aquilo que a pessoa imagina que é ou gostaria de ser/estar e a realidade: desagregação psíquica e emocional causada pela droga. As causas da drogadição são tão numerosas quanto dependentes existem. Em todo caso, a droga, seja ela qual for, torna-se uma fuga diante de questões com as quais o indivíduo se sente inábil, incapaz ou sofre para enfrentá-las. Mas tudo pode ter começado por uma “inocente” escolha por curiosidade ou diversão.
No caso do personagem, aparentemente a separação e o excesso de trabalho concorrem juntos para levá-lo ao estado em que se encontra. A mentira e a negação servem como suporte porque, inicialmente, a pessoa acredita que está no controle. Logo, este comportamento não é fruto de uma sem-vergonhice e mau caratismo simplesmente. Em vários momentos, Whip afirma que pode parar sozinho.
A fase em que se nega e não se vê necessidade de ajuda, denomina-se pré-contemplação. Argumentos racionais tem pouco efeito no convencimento, não que não devam ser utilizados. A dúvida para o dependente começa a parecer quando eventos desastrosos acontecem. Um acidente, gasto excessivo, mal estar, violência. Whip passa por esta fase, chamada contemplação. De fato, até consegue ficar dias sem beber. A reviravolta acontece diante da comissão de investigação. Cansado, desesperado, assume sua condição publicamente.
Neste fenômeno, ocorre algo ainda mais grave. Familiares e amigos costumam se tornar o que se chama de co-dependentes. Trata-se dos efeitos na vida do dependente afetando seu círculo de relações, tanto do ponto de vista físico – diversas doenças, especialmente mentais, se instalam pelo estrago da droga – ou legais – prisões –, econômicos e sociais. Nunca existe dependência isolada.
As demais fases no tratamento são: determinação: o pedido de ajuda; Ação: o dependente para de tomar droga; Manutenção: a parada se conserva, obviamente por meio de estratégias de tratamento psicoterápico, medicamentoso, ocupacionais, etc; Deslize e recaída: são duas condições distintas, com níveis de gravidade diferentes. Na primeira, usa a droga, mas por força do tratamento, consegue retornar à manutenção. A segunda refere-se ao retorno ao uso de drogas de forma pesada.
O personagem do filme consegue se redimir, numa mensagem de esperança a todos os que precisam de recuperação. A luta é sem trégua e poucos, muito poucos, conseguem.

Até que o teste conjugal nos separe


Um exercício que demora apenas 21 minutos por ano é o bastante para evitar a queda da felicidade conjugal. Essa é a proposta de um estudo realizado pela Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, que será publicado em breve no periódico Psychological Science. De acordo com a pesquisa, um simples exercício de escrita imparcial sobre as desavenças do casal, a ser realizado três vezes ao ano, pode ajudar a manter a satisfação em relação ao casamento.

Fonte: Veja (Comportamento 07/02/2013)

O casamento de Matilda estava por um fio. Nem boda de papel eles haviam completado. Aparentemente eles se gostavam, mas picuinhas, maus bofes e pirraças que trocavam de parte a parte estavam afundando o matrimônio. Peledrônio cutucava as unhas no sofá. Tirava meleca do nariz e grudava onde lhe desse na telha. Tinha também o péssimo hábito de cutucar os dentes com palito em qualquer lugar (como sinal de boa educação, ele colocava a mão em concha para esconder) e mastigava. Matilda deixava calcinha escorrendo no varal da toalha de rosto. Esmagava a pasta como se quisesse torturá-la e ainda deixava sem a tampa. Cada pequeno detalhe era motivo para desavença e dias sem se falar e sem mais nada, se me entendem.
A cama era um espaço de guerra particularmente acirrado. Disputavam o lado mais conveniente para cada qual. Roubavam o travesseiro de estimação do outro, se espalhavam de forma desembestada e os dois roncavam, mas culpavam um ao outro. Ele também falava mal da mãe dela e dos cunhados. Ela desancava a mãe dele como metida e excessivamente maternal com o filhinho da mainha. Nos dias de maior inspiração na maldade, ela sugeria até um suposto trejeito afeminado. Era o que mais tirava Peledrônio do sério, machista até a raiz dos cabelos e orgulhoso de sua macheza rocambolesca.
Matilda ficou sabendo de uma fórmula quase mágica para salvar aquele desastre ambulante no que se transformou seu casamento. Para sua surpresa, Pelé (apelido caseiro do indivíduo) topou. O especialista explicaria o que deveriam fazer numa reunião exploratória. Quer dizer, ali se estabeleceria o reconhecimento dos atritos, das querelas e o que mais fosse.
Diante do especialista, compenetrados, aguardavam as instruções. Havia quase um certo carinho entre eles. Muito bem, é tudo muito simples. A palavra “simples” despertou logo uma desconfiança nos dois, mas já que estavam ali... Basta uma folha de papel, uma caneta e vinte e um minutos... por ano. Sete minutos de cada vez. Cada um escreverá nesta folha sua visão, olhando como se fosse um estranho que quer o melhor para o casal. Pronto. O resultado deste exercício empático será a harmonia da família.
Descrever desavença era perigoso, no caso deles. Atiçava brigas velhas, algumas com cheiro de mofo, mas que Matilda sempre achava uma maneira de relembrar com a memória invejável que as mulheres têm para estes detalhes. Lembrem-se, alertou o especialista, descrevam como se fosse um casal amigo que querem ajudar.
Matilda começou a escrever com uma voracidade que dava medo. Pelé ficou olhando o papel e virando de um lado para o outro. A ansiedade começou porque o silêncio aumentava o barulho do cronômetro que tiquetaqueava como um cavalo trotando dentro de sua cabeça. Como um raio o tempo se fora, segundos diminuíam agora no mostrador. Matilda escrevia, escrevia. Rabiscava as últimas linhas do anverso da folha. Pelé, distraído, entregue a sua incapacidade de pensar qualquer coisa, rabiscou garatujas, escreveu o próprio nome, por fim, desenhou um bonequinho enforcado para retratar vividamente sua incapacidade.
Era hora de mostrar cada qual sua produção. Trocariam os papeis. Matilda, que estivera alheia ao drama do marido, tomou o papel dele nas mãos, ávida para ler. Antes que pensasse qualquer coisa, foi interpelada por Pelé que pedia os óculos para ler aquela letra horrível e minúscula, disse. Ela se voltou para o papel dele e nada vendo de significativo, deparou-se com o boneco enforcado. Ele espremia os olhos para ler. Ora afastava, ora aproximava da vista, já impaciente, mas entretido, pois esperava os óculos e resmungava que levaria três dias para ler aquilo tudo.
Ela explodiu. Que óculos? Sou tua mãe para andar te servindo? Tenho cara de ótica? E que desenho é este? Éééééé... Ele tentou explicar. Então é assim que tu te sentes em nosso casamento, enforcado? Rasgando o papel com ódio nos olhos. Pois olha aqui, estou cortando tua corda. Vai te assanhar com tuas galinhas no carnaval. Acabou a sessão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O sequestro


Na Espanha, um garoto de 11 anos fingiu seu sequestro para evitar que os pais comparecessem a uma reunião escolar. A farsa envolveu cerca de cem guardas civis e durou duas horas, segundo o jornal espanhol "La Voz de Galicia". O incidente aconteceu no município de Xinzo de Limia, na província de Ourense. Para que os pais não descobrissem suas notas baixas, o menino decidiu criar uma história.

Fonte: Do UOL Educação, em São Paulo (22/01/2013)

Paco estava aterrorizado. Naquela escola moderna os garotos recebiam o boletim, analisavam as notas se boas ou ruins e discutiam em classe as razões. Só que seu boletim parecia uma hemorragia de tantas notas vermelhas. A vista escureceu, tal seu choque. Passou as mãos nos olhos como que para limpar aquela nuvem de areia que se apegou às suas órbitas, cegando-o. O documento era um borrão vermelho de garatujas indistinguíveis.
Os colegas falavam animadamente, inclusive alguns que, como ele, não tinham ido tão bem nas notas. Mas aquilo era, para ele, o dia 21 de dezembro que não aconteceu. Maias burros, nem um calendário sabiam fazer! Sua hecatombe esperou a antevéspera do carnaval para desabar sobre sua pobre vida. E ele que pensava que primeiro vinha a farra e só depois a quaresma e suas penitências pelos excessos. No seu caso, nunca havia muito pelo que pagar.
A professora perguntava um por um aos alunos. Paco não sabia o que era moderno naquela pedagogia. Suspeitava que o método não passava de uma espécie de caças às bruxas. A professora não parecia se intimidar em mostrar publicamente seu regozijo diante do desastre de alguns. Ele havia percebido uma baba no canto da boca da mestra quando Dolores disse que havia tirado zero em matemática? Sim, ela havia se deliciado. Então, a tal pedagogia do desoprimido era uma desculpa para gozar o desespero alheio. Aquela mulher era uma espécie de vampira de emoções. Só que ela sugava medo e angústia dos outros.
Para sorte de Paco, ela não estava perguntando em ordem alfabética, mas pelos que sentavam nas primeiras fileiras até as últimas. Os fracassados teriam seus nomes escritos num mural. Os pais seriam chamados e, com pompa e circunstância, o boletim seria dado com ênfase no fracasso, mas disfarçado de bons modos e de muitas sugestões de como aquele menino ou menina poderiam melhorar. Os pais, envergonhados, pediriam desculpas, diriam que tudo iria melhorar e tal, enquanto engoliam em seco sua vergonha.
Os pais de Paco eram especialmente zelosos com suas notas. Na Espanha, nem com boas notas se consegue trabalho, imagine com ruins. Seja um bom aluno, emigre para os EUA ou Brasil e ganhe dinheiro e saia desta miséria de país. Você já perdeu sua oportunidade de ser um bom jogador com estas pernas tortas de sua mãe. Com elas, nem Garrincha conseguiria jogar. Assim discursava o pai de Paco.
O fato é que, quando chegou sua vez, nada disse. Aguentou calado a docente louca tripudiar com refino e classe. Ironizando, sendo sarcástica, mas tudo com delicadeza, que é quando mais dói. Foi para casa, arrasado, desconcertado e pensando na desgraça que se abateu e seus desdobramentos.
O que fazer? Fugir? Forjar um boletim falso? Pedir o boletim emprestado do colega cdf? Pensava em desespero. Mas cada ideia era menos convincente que outra. Um sequestro! Diria que um etarra o sequestrou, mesmo que estes estejam pedindo penico ao governo. Se esconderia por um tempo. Mandaria torpedos, ligaria aos gritos, ainda pareceria forte e destemido com sua resistência ao sequestro. Seria lembrado até o fim do século, se tornaria herói. Quem lembraria daquele boletim nefasto? A esta altura, Paco já estava no domínio do delírio. O desespero nunca é bom conselheiro.