segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O assassinato de Paul Black


Morador da província de Shaanxi, na China, um pai estava cansado de pedir para que seu filho jogasse menos videogame e fosse atrás de um trabalho. Como não obteve sucesso na conversa, o homem decidiu contratar um “assassino virtual” para que derrotasse sem parar o filho.

Fonte: Do G1, em São Paulo (04/01/2013)

Ping Li é um típico cidadão da segunda geração da revolução maoísta. Vida severa e comedida, quase sem lazer, resumida ao trabalho e sua dedicação à família. Permite-se uma aventurazinha num dos muitos restaurantes onde pode se deliciar com um bom cachorro preparado à moda chinesa. Verdade é que nem se dá conta do Estado que determina quase tudo em sua vida, mas a abertura econômica anuviou esta presença ostensiva. Não liga para a política, embora tenha a carteirinha do partido, pois é útil em muitas coisinhas nos escaninhos da burocracia chinesa. Também ajuda a encontrar trabalho e a provar militância de alguma maneira: confere algumas regalias.
Dentre as ambições que tinha, cumpriu quase todas. Ter trabalho. Ter uma casa. Casar e ter um filho. O primeiro e único – regra do partido – foi menino. Fez mandingas de todo tipo para garanti-lo. A mulher tomou muita beberagem esquisita e... deu certo. Feng teve crescimento normal como toda criança. Mas, diferente de seu pai, mal percebeu que vive num país comunista até o tutano e, como qualquer jovem pós-geração Y, seu mundo se divide entre o real e o virtual. Mais este que aquele.
Na escola, Feng sempre teve desempenho medíocre com várias ocasiões em que, por pouco, não tomou bomba. Ping Li, coitado, sempre desesperado com a performance raquítica do filho, tentou puni-lo, esconder celular, computador, negociar, chalerar, pedir ajuda aos ancestrais, enfim. Feng chegou ao final do ciclo médio aos trancos e barrancos. Universidade ficou em segundo plano, não dava para passar no Enem chinês. Aos cutucões do pai, era preciso arrumar trabalho. Esta parte foi fácil, mas Feng não parava em emprego nenhum por faltas, baixo desempenho, preguiça e até o puro e simples abandono.
A cabeça de Feng sempre esteve nos jogos, no Baidu – o Google chinês – e no mundo das redes sociais mandarinas onde tinha centenas de amizades e era só nesse. Mas nada de ganhar um centavo com ele, ao contrário. Era como se o Feng físico fosse mero suporte para o Feng virtual que, aliás, se chamava Paul Black. Havia uma clara competição entre os dois Fengs e o feito de bytes ganhava disparado do feito de carbono.
O Feng de bytes era campeão num jogo em primeira pessoa ao estilo do velho Doom. Em rede, não dava para ninguém: o Paul Black matava a todos. Ping Li estava cansado destes dois filhos, um peso duplo nas despesas da casa. Resolveu, desatinado, que um deles tinha que morrer. Após intensa pesquisa neste submundo, sabia exatamente o que fazer. Mas entre receber uma bala na cabeça ou prisão perpétua numa prisão chinesa – não sei se o trabalho nas minas de carvão por lá é menos penoso – melhor um assassinato virtual. Era preciso contratar um matador.
Feng vivia alheio a isso tudo. Em seu mundo, estava feliz e gozava a fama de exterminador implacável, o que compensava de longe sua falta de habilidade social e a escassez de amigos de carne e osso, dinheiro e namorada. Assumir o Paul era como se sentia vivo. Não era o jogo apenas, era o banho de dopamina no cérebro que causava enorme prazer. De repente, porém, Paul passou a ser insistentemente caçado e morto. Começava a jogar e logo aparecia um bruto qualquer que, sem a menor cerimônia, lhe metralhava, esfaqueava, explodia, atropelava. Sua fama acabou. As amizades escassearam e a vida que ele conhecia azedou. Jogar virou um suplício de humilhações recorrentes com mortes vergonhosas.
Disfarçou-se de um terceiro personagem, John Doe, e andou pesquisando. A perseguição implacável contra Paul Black tinha motivações suspeitas. Uma namorada insatisfeita? Não, nunca tivera namorada. Um coitado a quem matou várias vezes? Tampouco. Quem era o mafioso de uma figa? O tratante infeliz? Uma mensagem anônima deu a pista. Ping Li. Assim, lacônica.
Num rompante de coragem, confrontou o pai. Ping Li levantou os ombros como quem admite a culpa, mas disse que estava feliz porque seu filho estava de volta e Paul Black estava morto. Agora é assumir a sua vida, filho, falou carinhoso. Então sua face se transmuta e diz: Aviso-o, se você voltar a jogar, mato-o de novo.

A dor da perda


Em Brasília, o feirante tinha o rosto crispado de uma dor intraduzível nas palavras que saíam de sua boca em sibilos e entrecortadas. Uma das mãos, levada ao rosto, tentava esconder o sofrimento e choro contido enquanto tremia levemente. Não ousava levantar os olhos, enquanto a repórter o enchia de perguntas. “Era a chance de ficar rico”, disse, finalizando a fala.
Simultaneamente, a mil quilômetros de distância, em São Paulo, um taxista reproduzia exatamente a mesma cena diante da câmera. Como um tique nervoso, mexia nas folhas de apostas como se fosse um jogo de baralho, tentando desesperadamente entender sua desdita.
Os dois casos reproduzem a mesma perda. Ambos acertaram as seis dezenas da mega sena da virada que pagou mais de 240 milhões. Contudo, por razões também muito parecidas, eles não registraram os jogos. Restava lamentar-se. O primeiro, quedou-se inconsolável. O segundo, alegou vagamente à vontade de Deus, enquanto dizia que a quantia perdida resolveria sua vida.
O sofrimento da perda é algo da condição humana tão inevitável quanto a morte, certamente sua mais pungente tradução. Um dia, cada um de nós a enfrentará. Aos sintomas visíveis e invisíveis deste processo, chama-se luto. No caso do feirante, houve um quadro sindrômico que culminou com um desmaio, fato que o levou ao hospital.
Um dos efeitos terríveis da perda é a culpa. No processo de tentar entender, o sujeito especula mil formas que ora o joga para o futuro – tateando as consequências se tal coisa não tivesse acontecido –, ora está preso ao passado – mais este – indagando possibilidades de “se” tivesse feito tal coisa, “se” fulano não tivesse aparecido e outros milhões de “ses”, perdido que está num círculo vicioso consumidor. O peso da culpa pede um bode expiatório, posto que difícil entrar em contato com tal sentimento sozinho. Em grande parte das vezes, nenhum deles é suficientemente bom para expiar a angústia opressora.
Angústia é um dos principais componentes da perda/culpa. É fruto da irremediável impotência ante um momento que passou e ao qual é impossível retornar e fazer diferente. Abre um abismo entre o fato presente, consumado, e as suas possibilidades irreconciliáveis que agora existem apenas no mundo mental daquele que sofre. A palavra, em sua origem latina, significa estreitamento, apertamento que é a sensação que se sente no peito. Produz ansiedade, tristeza profunda, amplia a consciência da perda com a consequente sensação de incapacidade e percepção de desvalor. Produz também paratimia, que é a manifestação de emoções desencontradas com a realidade.
A perda e suas manifestações, contudo, tendem a passar, por mais que o tempo psicológico, nestas situações, deem a percepção de eternidade. Pode ser um processo longo ou não. A elaboração de toda esta energia psíquica, manifesta também em várias reações corporais, precisa encontrar um veio de significação. É uma experiência limite que deixará lições, cicatrizes. Superá-la é percebê-la sem os mesmos movimentos emocionais sentidos no momento do ocorrido. Ou senti-los muito atenuados, sem angústia.
Em se tratando de dinâmica psicoemocional, existem princípios de enfrentamento, não fórmulas iguais para todos. É certo, sem dúvida, que a cura pede a visita ao fenômeno tal qual ele ocorreu, muitas vezes se necessário, até que os sentidos sejam construídos, a aceitação do que não pode ser mudado se instale.
Ao feirante e ao taxista cabe agora um processo de superação desta infeliz experiência. O gosto amargo permanecerá por longo tempo, mas passará. A vida aos poucos voltará ao seu eixo, ainda que numa forma que eles não sonharam para si.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Tudo novo de novo


“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.” A frase não é minha, é de Carlos Drummond de Andrade. Contar os dias, como continhas de quem monta um colar, não é ideia de um único indivíduo. Digamos que é uma produção coletiva de todos os povos, pois existem tantos calendários quantos povos existem. Alguns sofisticados, outros nem tanto. Uns se guiam pela lua, outros pelo sol, pelas estações. Nossa temporalidade e finitude, a percepção da passagem do tempo, portanto, das vivências do presente, passado e futuro, nos levam a organizá-lo de tal forma que dá um sentido à cotidianidade e à monotonia, sua filha legítima. Tem uma utilidade prática óbvia, tanto para os homens das cavernas, como para nós.
        Drummond de Andrade diz ainda que que o tal fatiador do tempo, “industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Esta palavra esperança está intimamente ligada à passagem de um ano. É nossa principal moeda, pois com ela negociamos os planos e projetos que acreditamos: se realizarão, ainda que muitos deles sejam repetições de outras tantas passagens, logo, nunca realizados, mas agora convenientemente esquecidos, se revestem de novo mesmo fedidos a mofo.
        Neste período, lançamo-nos ávidos a “fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta. Chorar arrependido pelas besteiras consumadas e parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudarão” (Carlos Drummond de Andrade). A lista é quase infinita. De fato, é o período propício para organizar nossas incongruências, harmonizar e diminuir a distância entre um eu real e um eu projetado. O primeiro, falho, esquecido e não cumpridor das promessas. Ele é quem está no controle na maior parte do tempo, valorizando o prazer, às vezes o dever, nem que seja como mera desculpa para se escusar de não realizar o que deveria fazer.
        O segundo é aquele que se gostaria de ser. Crédulo, motivado, alegre e com a maioria das qualidades que tanto apreciamos, inclusive físicas, mas que por razões que nos escapam, estão sempre a um passo de distância. Dependendo do ângulo, na frente ou atrás. Para emulá-lo, nos esclarece Jung, usamos máscaras, personas simuladas, não necessariamente falsas, para trabalhar, se relacionar, viver, enfim. Mas sabe-se o que são, exceto quando um adoece e a máscara, apegada à face, torna o personagem algo que suplanta o ser real.
        Talvez devamos nos perguntar por que falhamos em nossas promessas de ano novo? Uma razão é o distanciamento confortável entre o momento da afirmação e o momento fático da realização. Acreditamos que por artes mágicas o prometido se realizará, quase sem nosso esforço e suor. Outra razão é porque apagamos todos os problemas ligados à realização de um projeto. Não há custo e os planos são perfeitos.
Ainda com Drummond. Ele diz que ao final de doze meses, qualquer um está cansado e pronto para entregar os pontos, afinal, digo eu, fez-se uma baita viagem arrodeando o sol. É uma estrada de 930 milhões de quilômetros. Então estamos prontos, volto a Drummond, com “outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.” Acreditar é outra razão para fazermos promessas. Tomados de uma incrível fé em nós mesmos, não há qualquer dúvida que faremos isso e aquilo tal qual foi dito. Até que se é engolfado pela vida e suas urgências inadiáveis e então, como se tem ano à vontade pela frente, procastinamos.
Com as promessas é preciso parcimônia. Elas não devem ser tratadas como descartáveis. Simples motes de roda de conversa, pois logo se tornam autoenganos e estes hábitos de como driblar e sabotar a vida.

Outras histórias de 2012 que não contei


Fonte: UOL Tablóide (29/12/2012)

Todo final de ano tem um script parecido. Os jornais fazem retrospectivas, listas as mais diversas sobre temas tão variados, que é impossível elencá-los aqui e, claro, previsões: econômicas – neste item o Mantega, Ministro da Fazenda brasileiro, acerta tanto quanto a mãe Diná –, políticas, catástroficas, sobre celebridades ou você, mesmo que os agoureiros nunca lhe tenham visto na vida.
As listas são divertidas, especialmente quando relatam histórias estranhas. Dizer estranhas é pouco, são bizarras e inacreditáveis, seja pela burrice dos protagonistas, pelo azar, loucura. 
Histórias esquisitas tem sido a principal fonte para escrever esta coluna dominical. As fontes sempre são verdadeiras, aqui apenas ganham, às vezes, um personagem com um nome e uma contextualização ainda mais tosca que o próprio fato que a gerou. Tomo emprestado algumas delas para finalizar este ano que foi pródigo em esquisitices, incluindo aí um fim de mundo pela previsão maia que, para tristeza de muitos, não aconteceu. Digo apenas o que ficou mais popular. Não incluo a tara de seitas religiosas que também cismaram com 2012 e anunciaram uns três fins de mundo frustrados. Mas aqui estamos.
No topo da lista, Maria Verônica Vieira, 25, que enganou até o próprio marido com uma gravidez de quadrigêmeos. A barriga descomunal – feita de silicone e pano – desfilou pela tv por quase um mês. Eu acreditar e você também, vá lá, mas o cara mais crente nesta história foi o próprio marido. Como assim, cara pálida?
  Todo mundo sabe que o sistema público de saúde vai mal das pernas e entre notícias trágicas que tanto nos entristecem, há lugar para as inusitadas também. Dona Adriana Santos, que estava gordinha, procurou um médico em Salvador para se consultar sobre complicações desta situação e saber como emagrecer. O médico, entre um humor ácido e incompetência, passou Cadialina. Ao perguntar sobre o remédio, o médico explicou: passe num ferreiro (?) e compre seis cadeados: para a boca, para a geladeira, para o armário, para o freezer (a mulher é pobre não tem freezer), para o congelador e, finalmente para o cofre da casa. Cofre?    
Eis uma história de burro. Não o animal, ao qual peço desculpas, mas de gente mesmo. Ricardo Sérgio Freire de Barros foi preso dentro de uma agência bancária no Recife. Em tempos de crédito farto, pretendia arrumar algum. O gerente desconfiou dos documentos do 171. Ignorante em cinema, tascou a foto do Jack Nicholson (ator americano, lembram?) na carteira de identidade. Por que o louco não colocou a própria foto? Vá se entender! Foi preso em flagrante.
Duas histórias de peitos. Fundo-as numa só. A brasileira que se diz modelo, residente no Texas (EUA), sofreu um pequeno acidente automobilístico. Estava sem cinto de segurança, mas havia instalado dois enormes air bags no lugar dos peitos e estes, disse ela, a salvaram. Levou-os à funilaria e promete aumentá-los e consequentemente, a freguesia. A outra, sua colega alemã, devaneava há muito como seria matar um homem após o coito com seus dois peitos enormes. O namorado foi atraído para uma noite de amor e no final, exausto, viu-se aplastrado sobre o peso da mulher que é avantajada e sendo sufocado pelos seus peitos. Já azul por falta de ar, a custo conseguiu desvencilhar-se da sujeita, fugiu e deu parte na delegacia. Quis saber depois porque ela quis assassiná-lo e ela candidamente disse apenas que queria tornar sua morte mais confortável. Foi o único cara que a quis em anos e ela tenta matá-lo. Esta a gente classifica na sessão loucura.
Que 2013 venha com todas as suas histórias e, para vocês leitores e leitoras, seja um ano pródigo em realizações, sempre sob o manto da paz e da saúde. Obrigado pela companhia.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

As aventuras de PI (Life of Pi) – 2012


Exceção ao diretor Ang Lee, que tem entre sucessos “O Tigre e o Dragão” e “O Segredo de Brokeback Mountain”, você não terá qualquer dos atores consagrados de Hollywood neste filme. Nem por isso as interpretações são menos convincentes. A marca registrada deste diretor, as imagens belíssimas, oníricas, uma fusão da boa utilização da computação gráfica com cenas reais de grande beleza, estão presentes.
O mote que convida a assistir ao filme é frágil. A frase diz: acredite no extraordinário. Ao contrário. A obra até pode explorar a fantasia e o faz com maestria, mas nem de longe se refere a algo mítico ou imaginosamente impossível. Fala da realidade de cada um de nós e de como nos expressamos para o transcendente.
Talvez seguindo seu ecletismo nos temas de cada filme que faz, Lee nos leva a uma incrível aventura em forma de parábola sobre uma questão fundamental para todas as pessoas, crentes ou não. O filme tem como tema principal a fé em Deus. Abstraindo uma possível tentativa do diretor de dizer que Deus é igual, independente da religião, ou que é possível, afinal, uni-las todas ao redor do que, supostamente, partilham os mesmos ideais, a discussão proposta é estimulante, inteligente e de extremo bom gosto.
Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo, Budismo e Judaísmo aparecem representando as grandes manifestações religiosas do mundo. Nenhuma é colocada superior à outra. Cada qual é vista com respeito e tolerância na figura do personagem principal, o ainda garoto Pi Patel. Pi é hindu e hinduísta de nascimento. Aos 12 anos conhece o cristianismo e se fascina com a figura de Cristo. Logo a seguir, diz ele, Deus se apresenta novamente, agora na forma de Alá. Adulto, se torna professor de Cabala na universidade. Ele decide seguir as três religiões ao mesmo tempo. Seu pai, um provável agnóstico, defende que é impossível seguir três religiões e que pode acabar sem seguir nenhuma. Defende que ele busque na razão os fundamentos da verdade. A razão da descrença do pai é que num leito, com pólio e ainda criança, pediu a cura a Deus e este não o atendeu. Ele foi curado pela medicina ocidental, afirma o personagem, embora tenha ficado a sequela na perna adoecida.
Concordo com Lee com o fato de que Deus não necessita explicação para a sua existência. Se tomamos a perspectiva judaico-cristã, ele diz de si que ele é aquele que é. Sem começo ou fim. Autoexistente. Eterno. Embora, ainda pela visão cristã, Jesus seja a forma de nós nos relacionarmos e conhecê-lo. Assim diz o padre com quem Pi conversa na igrejinha encravada nas montanhas plantas de chá.
Lee defende pelo personagem Pi Patel que no final das contas, a versão da aventura não importa. Duas histórias são contadas por Pi em sua desventura, escolha a que melhor lhe agrada. A razão por que o navio afundou talvez nunca tenha uma explicação – e nenhuma da histórias de Pi explicam –, importam as vidas que nele estavam e foram perdidas, o drama pessoal do personagem, ou o que ele, como único sobrevivente fez com a sua vida. Ele se revoltará contra Deus que lhe inflingiu tanto mal com o naufrágio, ele o encontrará e entenderá?
O navio metaforiza Deus e o mundo. Somos todos viajantes nele. Em meio às borrascas do mar, sempre há várias possibilidades: chegar ao destino, morrer na tentativa ou sobreviver ao fundamento do navio. A vida é uma aventura incrível. Não sabemos o que nos espera, mesmo que racionalmente tomemos decisões abalizadas e bem planejadas e façamos ainda com a melhor das intenções. Nós simplesmente não temos controle. Deus tem.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Quero um fim do mundo pra chamar de meu


Pequenos povoados com fama de místicos despertaram neste mês um interesse fora do comum ao redor do mundo. Eles estão recebendo um número de visitantes muito maior do que de costume, que acreditam na profecia maia de que o mundo acabará no dia  21 de dezembro de 2012 - e no poder que essas localidades possuem de protegê-los de uma catástrofe iminente.

Fonte: G1 (19/12/2012)

Se vocês estão lendo este texto é porque, acho, o mundo não acabou. Pelo menos o seu. Como é de se supor, escrevo antes do fim. Não exatamente atormentado, pois me falta a crença no fato. Vejo-o distante, mas tampouco tenho qualquer garantia de que em dois dias um vagalhão gigantesco afunde a ilha com tudo dentro. Tenho andado ocupado procurando meios de escapar e cogito, sim, alguma forma, pois não sou fatalista como o personagem do Raul, que se esforça para ser um sujeito normal e entre as normalidades está aquela de sentar no sofá da sala com a boca escancarada, cheia de dentes (menos mal), esperando a morte chegar. Meus dentes ainda estão no lugar, mas não quero mostrá-los por aí.
Não meus caros leitores e leitoras, quero escapar. Como vocês também, suponho. Busco alguma brecha na própria profecia, mas descubro que ela é tão enigmática que continuarei na ignorância. Esperava descobrir um descuido nas contas que jogasse a data láááááá pra frente. Ou quem sabe, alguma mandinga, uma manha qualquer que agradasse aos deuses. Mas existe deus nesta história? Me escapa esta parte. Aparentemente, as coisas acabarão porque acabarão, ora pois!
Desisti do erro profético. Resolvi que seguir a manada talvez seja mais fácil. Uma nave espacial que nos leve ali na curva da via láctea é uma ótima ideia, só que a única disponível ainda não voou com ninguém, tem fila de espera e eu precisaria desenbolsar a bagatela de duzentos mil dólares aproximadamente. Final de ano, contas e contas para pagar, fora a escola que está nos tirando o couro. Ah, a nave só sobe uns cem quilômetros e desce rapidinho. Quer dizer, bem no meio do freje. Qual freje? Eu ignoro. Cometa, meteoro, tsunamis, tornados, terremotos, o sol fritar a terra. Que mais dá?
Tem um monte de gente indo para cidades místicas que teriam, sei lá, uma espécie de proteção qualquer contra hecatombes. Olhei as fotos de umas e fora a beleza natural, acho que vai ser uma roubada. São pequenas, não tem onde acolher todo mundo, vai ser uma loucura ir ao banheiro. As previsões de chegada de gente fugindo do fim nestes quase povoados são apocalípticas. É só oportunismo puro das agências de viagem. Contei os trocados e dava mal – de ônibus – para chegar em Alto Paraíso, Goiás. Sem contar que, se chegasse, teria que morar debaixo de uma mangueira. Aluguel por lá está pela hora da morte.
Vi que estava ficando sem opções. Ainda estou. Não sei o que você pensará ao ler este registro desesperado. Se não passo na escrita quão desesperado estou, é porque quero mostrar certa dignidade no fim. Sabe aquelas cenas de filmes. Vem uma onda monstruosa levando até arranha-céus de eito e o sujeito ali, incólume em atitude zen, enfrentando sua desgraça. Se fosse de verdade, a razão deste enfrentamento seria paralisia de medo. Câmera num ângulo abaixo e se veria o sujeito borrado ou molhado.
Sabe que, de tanto pensar em fugir, acabo descobrindo que o fim do mundo tem lá suas vantagens. Poucas, é verdade. Não tenho mais que pagar contas. A gente escapa do saco que são as festividades forçadas do natal, mandar cartões (alguém ainda faz isso?), inclusive dos chatos almoços em família que acabam em briga e resmungos. Sou mal amado, você pensa. Nada. Se o mundo acaba, você tem seu décimo terceiro só pra você, besta, e se não acabasse teria que gastar comprando presentinhos até para o cachorro, sem contar o cartão de crédito que vai gerar dívidas pro resto dos anos que virão. Já está dizendo: tomara que acabe, né?
Faltam só 48 horas. Ai! Estou tentado a chutar o balde e seguir sugestões da música “Último dia” do Paulinho Moska. A primeira parte da música está fora. Nem almoço, nem esperar ninguém em minha minúscula sala vazia. Ir pro shopping está fora de questão pelas condições monetárias que já falei. Pensei em andar pelado na chuva, mas falta chuva. Entrar de roupa no mar, pode ser, pego doença, mas não dá tempo dela se manifestar. Já fazer sem camisinha, prefiro ser pudico nesta parte e dela nada falo. Mesmo com o fim do mundo, sim! Abrir a porta do hospício parece bom e trancar a delegacia, melhor. Especialmente naquela em que estará o Zé Dirceu e sua gangue. Adorei dinamitar o próprio carro, só que isso não é necessário para parar nosso trânsito. Ainda estou estudando opções.
Que mais? Abrigo subterrâneo. Como não pensei nisso antes? Desde que eu não leve tão a sério o termo “fim do mundo”. O tal abrigo está no mundo, logo... menos nas cidadezinhas místicas, pessoal. O que diabos elas tem que São Luís não tem? Políticos fuleiros? Praias em que se nada em sopa de coliformes fecais? Escolas e hospitais que não funcionam? Trânsito caótico? Um Natal comercial chifrim? Ô gente, nós temos tudo isso. Somos até Patrimônio da Humanidade. Custa incluir uma banda da ilha, pelo menos, entre os pedacinhos de terra protegidos?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Enquanto isso, num botijão congelado...


O total de embriões congelados no país em 2011 passou de 26 mil, segundo relatório da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Retirados os descartados, utilizados e os enviados à pesquisa com células-tronco, a agência estima que o acumulado de embriões congelados chegue próximo de 60 mil.
Só em 2011, 1.322 foram doados para a pesquisa e 33,8 mil transferidos a mulheres.

Fonte: Folha de S. Paulo (Johanna Nublat, DE BRASÍLIA - 13/12/2012)

Que frio! Brrrr. É natal, esqueceu? Adoro esta época do ano. A neve caindo, as árvores branquinhas, as pessoas aconchegadas em casa diante da lareira tomando um bom vinho, comendo fondue. Olha gente, quero ganhar um gorro novo, viu? Os colegas ao redor olhavam abismados para aquele comentário. O outro continuava com aquele olhar de parvo, olhando para cima, embasbacado. Ô desorientado! Estamos no Brasil. Não tem nada disso no natal! É verão. Faz 40 graus. Acorda! Ah, é??? E como é que você explica este frio de lascar? Hein? Isso é nitrogênio líquido, sua anta! Os outros que ouviam aquele diálogo de surdo-mudo se enrolavam uns nos outros tremendo.
E quando é que o papai noel chega com o trenó e as renas? Dizem que pegar no nariz de uma delas dá muita sorte. Quem sabe não sou escolhido para virar um bebê. Não é possível! Este embrião é um completo desorientado. Quando é que você vai cair na real, meu filho? Não alucina! Estamos dentro de um botijão para guardar embriões descartados. Epa, tão sacudindo o botijão! Vão abrir, vão abrir! Todos estavam excitados. Esperavam ser escolhidos para ir para o descongelamento e depois, se tudo corresse bem, ser implantado num útero.
Os caras do fundo berravam para serem retirados. Aqui, aqui! Diziam em coro, abanando as mãozinhas. O pessoal de cima mandava que tivessem educação e modos. Havia que respeitar o direito dos de cima. É porque vocês são da classe A. Só querem se dar bem. E nós, aqui embaixo? Nunca vamos ter a chance de virar gente. Bobagem, resmungou alguém lá pelo meio. E quem disse que virar gente é lá grande coisa? Conta a lenda que é só problema. Imagine nove meses preso, com cada vez menos espaço na barriga de uma qualquer. No final, tem que sair espremido por uma passagem inacreditavelmente apertada. Isso só para começar.
E tem mais. Tem que torcer para ser uma sujeita cuidadosa. E se for uma maluca que come tudo quanto é porcaria, fuma, bebe e não para, balançando a gente pra lá e pra cá. Isso não é vida, colega. Alguém gritou: eu quero virar gente, mesmo assim. Tu vai dar um ser humano feio. Poupa o pobre desta infelicidade. Um pessimista reclamou: ô gente sem salvação! Não inventa dor de cabeça, 452. Eles se conheciam por número porque no botijão cabiam quinhentos embriões. Aliás, o pessoal de baixo vai fazer um amigo invisível, tá afim de ir? Vou não. Tenho azar de só ganhar presente furreca.
Ô 102, cadê aquela tua irmã bonitinha? Olha o respeito, rapaz! Eu soube que ela tá saindo com o 28. Rapaz, aquele cara lá é sem futuro. Não quer saber de nada. Vai acabar virando embrião de pesquisa. Eu, sim, tô cotado para ser escolhido para virar gente. Coisa fina. Falei aí com uns camaradinhas meus que tem contatos quentes e vai rolar. Se eu for, levo tua irmã comigo. Se ela desencantar daquele 28 desenxabido. 171, tu é um malandro. É só conversa fiada.
Dingobel, dingobel... De onde tá vindo esta música? Que música? Dingobel. É o 86 que acha que é cantor. Vive dizendo que é agente secreto. A mulher dele, a 99... Piteuzinho... Fala baixo, rapaz. Enfim, a  mulher dele é que o juízo do casal e – não sei o que ela vê nele, por que o bicho é mentiroso – já disse que ele está mais para um unipolar, do lado da mania, por isso só pensa grandeza. Coitada. Uma santa!
O botijão sacolejou forte. A luz entrou e houve uma gritaria. Dor na vista pelo clarão. Um rosto gigantesco se aproximou da boca do botijão, como se inspecionasse algo. Os quinhentos eram só olhos e silêncio, congelados pela expectativa. Mexe numa vareta, mexe noutra. Faz cara de que não achou o que queria e volta a fechar a tampa. Uma balbúrdia se seguiu. Xingamentos de baixo do meio e de cima se ouviu. Uma vozinha se destacou num breve silêncio que ocorreu. Eu não quero envelhecer aqui dentro, buááááááá. Vários outros choraram junto.
Alguém, com voz sepulcral, como se fosse a voz do Zé do Caixão, disse: está escrito. A profecia maia não mente. Dia 21 de dezembro o mundo vai se acabar e nós estamos sendo reservados para o fogo devorador e a hecatombe universal. Cala a boca sua besta, uma voz forte lá de cima, ordenou. Quem tá falando? Quis saber o agourento. É o espírito do Montezuma, Teacoatcxtal. Simmmm? Cala a boca, é só “cala a boca” ou quer que eu desenhe? Calarei, ó venerando espírito. Mas que horas o mundo vai acabar mesmo?