quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Enquanto isso, num botijão congelado...


O total de embriões congelados no país em 2011 passou de 26 mil, segundo relatório da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Retirados os descartados, utilizados e os enviados à pesquisa com células-tronco, a agência estima que o acumulado de embriões congelados chegue próximo de 60 mil.
Só em 2011, 1.322 foram doados para a pesquisa e 33,8 mil transferidos a mulheres.

Fonte: Folha de S. Paulo (Johanna Nublat, DE BRASÍLIA - 13/12/2012)

Que frio! Brrrr. É natal, esqueceu? Adoro esta época do ano. A neve caindo, as árvores branquinhas, as pessoas aconchegadas em casa diante da lareira tomando um bom vinho, comendo fondue. Olha gente, quero ganhar um gorro novo, viu? Os colegas ao redor olhavam abismados para aquele comentário. O outro continuava com aquele olhar de parvo, olhando para cima, embasbacado. Ô desorientado! Estamos no Brasil. Não tem nada disso no natal! É verão. Faz 40 graus. Acorda! Ah, é??? E como é que você explica este frio de lascar? Hein? Isso é nitrogênio líquido, sua anta! Os outros que ouviam aquele diálogo de surdo-mudo se enrolavam uns nos outros tremendo.
E quando é que o papai noel chega com o trenó e as renas? Dizem que pegar no nariz de uma delas dá muita sorte. Quem sabe não sou escolhido para virar um bebê. Não é possível! Este embrião é um completo desorientado. Quando é que você vai cair na real, meu filho? Não alucina! Estamos dentro de um botijão para guardar embriões descartados. Epa, tão sacudindo o botijão! Vão abrir, vão abrir! Todos estavam excitados. Esperavam ser escolhidos para ir para o descongelamento e depois, se tudo corresse bem, ser implantado num útero.
Os caras do fundo berravam para serem retirados. Aqui, aqui! Diziam em coro, abanando as mãozinhas. O pessoal de cima mandava que tivessem educação e modos. Havia que respeitar o direito dos de cima. É porque vocês são da classe A. Só querem se dar bem. E nós, aqui embaixo? Nunca vamos ter a chance de virar gente. Bobagem, resmungou alguém lá pelo meio. E quem disse que virar gente é lá grande coisa? Conta a lenda que é só problema. Imagine nove meses preso, com cada vez menos espaço na barriga de uma qualquer. No final, tem que sair espremido por uma passagem inacreditavelmente apertada. Isso só para começar.
E tem mais. Tem que torcer para ser uma sujeita cuidadosa. E se for uma maluca que come tudo quanto é porcaria, fuma, bebe e não para, balançando a gente pra lá e pra cá. Isso não é vida, colega. Alguém gritou: eu quero virar gente, mesmo assim. Tu vai dar um ser humano feio. Poupa o pobre desta infelicidade. Um pessimista reclamou: ô gente sem salvação! Não inventa dor de cabeça, 452. Eles se conheciam por número porque no botijão cabiam quinhentos embriões. Aliás, o pessoal de baixo vai fazer um amigo invisível, tá afim de ir? Vou não. Tenho azar de só ganhar presente furreca.
Ô 102, cadê aquela tua irmã bonitinha? Olha o respeito, rapaz! Eu soube que ela tá saindo com o 28. Rapaz, aquele cara lá é sem futuro. Não quer saber de nada. Vai acabar virando embrião de pesquisa. Eu, sim, tô cotado para ser escolhido para virar gente. Coisa fina. Falei aí com uns camaradinhas meus que tem contatos quentes e vai rolar. Se eu for, levo tua irmã comigo. Se ela desencantar daquele 28 desenxabido. 171, tu é um malandro. É só conversa fiada.
Dingobel, dingobel... De onde tá vindo esta música? Que música? Dingobel. É o 86 que acha que é cantor. Vive dizendo que é agente secreto. A mulher dele, a 99... Piteuzinho... Fala baixo, rapaz. Enfim, a  mulher dele é que o juízo do casal e – não sei o que ela vê nele, por que o bicho é mentiroso – já disse que ele está mais para um unipolar, do lado da mania, por isso só pensa grandeza. Coitada. Uma santa!
O botijão sacolejou forte. A luz entrou e houve uma gritaria. Dor na vista pelo clarão. Um rosto gigantesco se aproximou da boca do botijão, como se inspecionasse algo. Os quinhentos eram só olhos e silêncio, congelados pela expectativa. Mexe numa vareta, mexe noutra. Faz cara de que não achou o que queria e volta a fechar a tampa. Uma balbúrdia se seguiu. Xingamentos de baixo do meio e de cima se ouviu. Uma vozinha se destacou num breve silêncio que ocorreu. Eu não quero envelhecer aqui dentro, buááááááá. Vários outros choraram junto.
Alguém, com voz sepulcral, como se fosse a voz do Zé do Caixão, disse: está escrito. A profecia maia não mente. Dia 21 de dezembro o mundo vai se acabar e nós estamos sendo reservados para o fogo devorador e a hecatombe universal. Cala a boca sua besta, uma voz forte lá de cima, ordenou. Quem tá falando? Quis saber o agourento. É o espírito do Montezuma, Teacoatcxtal. Simmmm? Cala a boca, é só “cala a boca” ou quer que eu desenhe? Calarei, ó venerando espírito. Mas que horas o mundo vai acabar mesmo?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Deu a louca no Papai Noel


Um shopping de South Portland, no estado americano de Manie, precisou demitir um Papai Noel depois que crianças e pais reclamaram que o homem era rude, mal-humorado e que nem mesmo deixava as crianças sentarem em seu colo.

Fonte: G1 (Planeta Bizarro – 07/12/2012)

Parvuíno já havia feito de tudo. Ao longo de um ano, era capaz de trabalhar em mais tipos diferentes de empregos que uma pessoa com duas vidas consecutivas de um Matusalém. Aproveitava a onda de cada momento. Em seu último trabalho na agricultura, como gostava de falar, fora um espantalho. Sim, vestia-se como tal, mas movia-se com a mesma desenvoltura daquele seu colega do mundo de Oz. Também, acho, Parvuíno tinha palha dentro daquela cabeça. O serviço pedia apenas que espantasse as rolinhas e codornizes que vinham comer as sementes da plantação. Antes disso, fora um fazedor de sexo na flor do maracujá. Informem-se a respeito.
Mas a questão agora era simples. Candidatou-se a ser um Papai Noel. Incrivelmente, nunca tentara antes ser o tal bom velhinho. Havia que participar de um curso, disseram. Nada complicado. Apenas alguns modos que o Noel deve fazer para manter o personagem. Parvuíno achou aquilo tudo muito chato. Mas a grana prometia e por período curto. Ensaiar aquele arremedo de sorriso foi de lascar. Sua voz meio anasalada e sem graves robustos, aliás, sem grave nenhum, mal conseguiu o primeiro oh. Acho que pouco melhor que ele só o Spider (Anderson Silva).
Primeiro, ele e os outros tiveram que ouvir uma gravação da risada noelina: Oh, oh, oh, oh. Meia hora depois, não havia mais quem aguentasse. Agora era o pior. Cada qual devia repetir a gravação à risca. Ouviu-se de tudo. Na vez de Parvuíno veio aquela coisa caquética, esganiçada, sem força e vibração. Os papais noeis se entreolharam entre espanto e irritação, porque aquele riso estava mais para um freio de trem sobre trilhos com areia. Sem contar que dava uma vontade louca de rir. E eles riram e debocharam de Parvuíno que rebateu na lata que não era palhaço e, sim, papai noel. Eles riram ainda mais.
Com o humor azedado, Parvuíno foi escalado para a encenação propriamente dita. Vocês sabem. O velhinho entra com um cajado, afaga aqueles meninos e meninas chatinhos que ainda acreditam em papai noel. Senta no trono e aguenta umas boas três horas com  menino no colo, gritando, rindo, puxando a barba postiça ou não, arrancando o gorro, vomitando na árvore, grudando meleca na cadeira, chorando porque a mãe não lhe deu sorvete e quando decidiu fazê-lo foi sobre o papai noel. Malcriações, manhas, birras, fotos e flashes a não mais poder. Ah, tem as mães dementes que querem também tirar foto com o papai noel, sem contar alguns beliscões no traseiro de umas mais assanhadas.
Ao final de um turno de trabalho, Parvuíno estava completamente arrasado. No segundo dia, ele chegou sabendo o que o esperava. Achou, por momento, que até ia se dar bem com uma noelete de sainha curtinha que mais parecia um abajur com babados. Mas era arisca que nem uma rena voadora. Deu-lhe uma rebanada e disse que se gostasse de velho procuraria algo melhor num asilo. Aquilo doeu.
Então veio o primeiro menino. No colo, não, afastou Parvuíno. A fila esperava aflita. Meninos corriam por debaixo da árvore, esfolavam os presentes de mentira sem que os pais se importassem. A mãe deste primeiro saiu pisando duro. O segundo mal fez seu pedido de presente e ele mandou o menino pedir para o pai dele e ainda chamou o pobrezinho de feio. No terceiro, ele amedrontou a menina de tal forma que a garota correu e perdeu-se shopping adentro. Beliscou uns, empurrou outros, disse asneiras para pais e mães e recusou-se também a fazer o oh, oh, oh, oh. Em duas fotos mostrou o traseiro. Ainda vestido, leitores. A bunda, propriamente dita, apresentou depois de tomar umas doses numa garrafinha que trazia dentro do saco de presentes. Mas a esta altura já dera em cima de algumas mães, devolvendo os beliscões do dia anterior e mandou outras tantas darem educação aos seus filhos abusados e mimados.
Em pouco tempo havia uma horda de mães, principalmente, formalizando uma denúncia da falta de compostura do que chamavam de papai noel louco. A segurança do shopping veio de coturno e tudo para cima do Parvuíno que já havia tirado toda a roupa ridícula, debaixo da qual suava bicas e andava, despreocupadamente, apenas de cueca, botas e gorro (sem a barba falsa) apreciando os enfeites de natal.

Deus da Carnificina


Um grupo de crianças brinca num parque. A cena, propositadamente, é distante, como se olhássemos de um segundo andar de um prédio próximo. De repente, dois dos garotos começam a se empurrar e um deles, que aparentemente segura um galho, agride o outro no rosto. Corta.
A cena seguinte, em primeiro plano, um computador e vozes que se alternam decidindo qual melhor palavra se adequa para compor o que parece ser um termo de acordo. À medida que a câmera abre o plano, surgem dois casais. Logo se percebe que são os pais dos garotos brigões. Um casal aparenta melhor condição financeira e o que recebe em sua casa tem uma vida mais modesta.
Terminado o texto do acordo, os pais do garoto agressor se preparam para sair. O outro casal os seguem até à porta. A conversa gira em torno da agressão, naturalmente. O clima é de cordialidade desconfortável, mas dentro dos padrões de respeito e educação. Os pais do agressor concordam que o filho passou dos limites e a mãe do agredido, o tempo inteiro, faz questão de reforçar os dois dentes molares perdidos, o nariz quebrado do filho. O pai minimiza. A tensão é grande, mas toda entremeada por sorrisos. Além de tentarem selar a paz, planejam que os dois garotos se encontrem para os pedidos de desculpa protocolares.
A certa altura, percebendo que a conversa pede um pouco mais de tempo, o pai anfitrião sugere que o outro casal entre novamente para um café. Com a esposa, na cozinha, comenta que o casal do garoto agressor é simpático. Na sala, o casal convidado repete o mesmo comentário.
Nancy e Alan (Kate Winslet e Chistoph Waltz, ambos condecorados com um Oscar) fazem os pais do garoto agressor. Penelope e Michael (Jodie Foster – também já recebeu um Oscar – e Jonh Reilly) fazem os pais do agredido.
Nancy é rica, educada e bem vestida. Alan é advogado de uma multinacional de medicamentos. Penelope é escritora e trabalha com arte. Michael é vendedor de utilidades para casa. Entre xícaras de café e pedaços de torta, os diálogos vão se desenvolvendo e todo o verniz de civilidade, educação e bons modos vão se deteriorando. Piora tudo quando Michael, homem que tenta o tempo inteiro compor um tipo mais polido e agradar à esposa, decide ser ele mesmo e expor seu desconforto. Ele é rude, desinteressado e distante.
Todo o tempo, pelo celular, Alan orienta pessoas da farmacêutica a respeito de um remédio que tem causado efeitos colaterais muito mais severos, mas faturaram milhões de dólares mesmo sabendo disso. Alan é um cínico profissional por trás do homem ocupado e profissional bem sucedido. Sua esposa é superficial e cega aos maus feitos do filho, a quem o pai chama de marginal. Passa mais tempo tentando controlar o marido e suas atitudes desrespeitosas e arrogantes que ele nunca disfarça. É de uma fala sua que se houve o título do filme. Ênio vem a ser da deusa da carnificina. Segue Ares, deus da guerra, ao lado de outros deuses igualmente aterradores: Éris, deusa da discórdia; Deimos, deus do pânico e Fobos, deus do medo.
Penélope é uma mulher rígida, afeita a valores e normas os quais devem ser seguidos à risca sem qualquer concessão. Adepta do politicamente correto, escorrega em sua própria intransigência. A situação degringola de vez quando Michael resolve beber, no que é seguido por Alan e depois pelas mulheres, que cobram seu direito nisso também. A bebida desinibe e despe os últimos vestígios de controle e os personagens dão vazão às suas verdadeiras opiniões uns sobre os outros e sobre o episódio.
Vômitos, gritos histéricos, palavrões e deboche tomam lugar das palavras bem postas e rapapés da educação burguesa. Os casais alternam acusações entre si no que desmontam as aparências de cada qual, expondo suas contradições. Ao mesmo tempo se voltam uns contra os outros revelando as fissuras de cada relação. Algumas vezes as mulheres farão uma aliança contra os homens e vice versa.
Os quatro atores estão soberbos e na medida certa de cada personagem. Desconto para Jodie Foster que, quando representa a sua personagem quase bêbada, parece exagerada e uma representação forçada.  
Levantado o véu e mostrada a crua hipocrisia que se carrega não como fardo, mas como disfarce, instrumento de relações, ninguém é normal  visto de perto. Nós todos, para aguentar até aqueles que dizemos amar, temos que fazer de conta, não poucas vezes, que eles são aquele modelo que só existe em nossa fantasia. O amor, talvez, faça com que nosso olhar seja compreensivo e tolerante e o desamor é quando olhamos o outro sem qualquer filtro. Ele/ela é aquela coisa asquerosa e vil que detestamos sem qualquer vestígio de empatia. Nisto estamos empatados com todos, exceto quando encontramos aquele/aquela que, por alguma forma de coincidência, aceita nossos defeitos. Ou porque os tem em igual intensidade e forma ou porque, sei lá, foi tocado por uma de nossas parcas virtudes.
A cena final com os casais termina de forma abrupta e, como no início, corta para o parque. Lá os garotos, provavelmente alheios aos pais e seus valores, cobranças e necessidade de justiça, estão conversando amigavelmente e novamente reunidos aos amigos.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

HOMENS E DEUSES – o filme


Nas montanhas do Atlas, no Magreb argelino – Tibhirine, uma pequena comunidade vive seu ritmo tranquilo e em paz. Um mosteiro de monges trapistas arrodeada de muçulmanos a quem servem de muitos modos: assistência médica, vestimenta, trabalho. Uma fórmula estranha quase borra a fronteira entre as duas religiões. Descubro que a tal fórmula é o amor e seus frutos de respeito e tolerância.
        De repente, rumores de que fanáticos islamitas, motivados pela fé distorcida e o desejo pelo poder, começam a agir em vários lugares do país. Atacam covardemente pessoas indefesas, homens e mulheres que se vestem de forma diferente, são estrangeiros ou não professam sua mesma visão de mundo. Decapitações e degolas são modos sinistro de infundirem o medo.
        Aos poucos, a comunidade ao redor do mosteiro é tomada de assalto pelo medo e preocupação. Os monges são colocados em cheque: deixar o lugar e voltar para a França ou esperar e enfrentar o inimigo ao lado de “seu povo”? Cada um dos oitos monges terá que enfrentar seus terrores, sua escolha de fé. Angústia, dúvida, medo da morte (sacrifício, martirização), se apoderam deles como demônios que os açoitam questionando suas escolhas de vida.
        Um dos vários momentos bonitos deste filme, Christian, líder do mosteiro e mais dois, conversam com o líder da comunidade mulçumana. Analisam as possibilidades. Este último defende que fiquem, lembra o início do mosteiro e o abrigo que ele sempre representou para eles. Um dos monges diz que são pássaros sem galho para pousar. A mulher do líder muçulmano intervém e diz: nós é que somos pássaros e vocês são os galhos.
        O título do filme, extraído da passagem de Salmos (82.6) – “Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.” – vai se tecendo nos diálogos em que a fragilidade humana se apresenta mais clara. Deixar-se morrer pela mão de loucos fanáticos ou tentar preservar a vida? A significação do salmo se constrói não na autoalegação de grandeza, orgulho, mas no apequenamento, na entrega. São deuses porque, a despeito de tanta fragilidade, ousam seguir o caminho de Jesus e fazer o que ele fez. Ele sim, a face humanizada de Deus, único  modelo e forma de percebermos AquEle.
        O mosteiro é, por fim, visitado pelo inimigo três vezes. Numa delas, o chefe mujadin pede ajuda médica e remédios. Na segunda vez, eles trazem um ferido que é cuidado. Na terceira, os monges são sequestrados e mortos.
        Não há lógica humana que explique manter-se ao lado da paz quando lhe apontam um fuzil e lhe ameaçam a vida. Não há sentido humano possível em morrer quando se faz o bem ou o que é justo é subvertido em nome de Deus. É uma frase lembrada no filme. Em nenhuma situação os homens fazem o mal com tanto ardor e dedicação, quando o fazem em nome da religião ou de Deus (Pascal). 
Esta história verdadeira e trágica, em meio à insanidade das guerras religiosas de hoje, dá-nos o verdadeiro sentido de Cristo e do amor que Paulo canta em 1 Coríntios 13.

“O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba;”

O duplo


Entre tantos aforismos que preenchem o livro bíblico de Provérbios (15.13), deparamo-nos com um que diz assim: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate.” Esta é a versão Almeida Revista e Atualizada. Outras versões enriquecem o texto como se fossem outros ângulos de uma mesma pedra preciosa. A Edição Pastoral, da Editora Paulus, diz ligeiramente diferente: “Coração contente alegra o rosto, mas coração aflito deprime o espírito.” A Nova Tradução na Linguagem de Hoje não usa a palavra coração, é mais direta e simples: “A alegria embeleza o rosto, mas a tristeza deixa a pessoa abatida.” Por fim, a Nova Versão Internacional colore a mensagem com esta forma: “A alegria do coração transparece no rosto, mas o coração angustiado oprime o espírito.”
        Que coração é este de que fala o escritor? A versão Hebraica da Bíblia abarca vários sentidos e é muito mais direta quando trata do tema, pois o que para nós é metáfora, isto é, coração igual a mente, sentimentos, para eles pode ser homem interior, mente, consciência, vontade, sede moral, dos apetites, das emoções e paixões. Resumamos: para este momento, todos estes significados como o conjunto do que compõe o que chamamos de homem interior. É o mesmo sentido em que Paulo usa esta expressão em Romanos (7.22), 2 Co (4.16) e Ef (3.16). A leitura dos três textos nos faz perceber que aí reside o verdadeiro eu de cada um de nós.
        Mas onde está este eu? Carl Rogers, psicólogo humanista, argumenta que uma das nossas fontes de desencontro interno é viver em luta entre um eu ideal – existente na mente, projetado como um sonho, aquilo que eu gostaria de ser – e o eu real – apequenado, disforme, desencaixado, habitante do cotidiano duro e seco. Romanos 7, Paulo encontra-se numa luta interna entre estes dois eus. Diz ele: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero, isso não faço, mas o que aborreço isso faço.” 
(7:15) Um eu alegra-se na “lei de Deus”; o  outro, nos prazeres da carne. É um mesmo homem. Ambivalente. Incontrolável. Sem saída, apela como que a esmo para quem pode livrá-lo desta morte em vida: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (7:24).
        Rogers chama esta situação terrível de incongruência. Traduzindo: a incongruência é o processo  em que o autoconceito não corresponde às experiências reais. Penso de mim isto e aquilo, mas vejo outro de mim agindo e existindo, distante do que penso ser.
        Mas voltemos ao escritor proverbiano. O homem interior que assumiu o desafio de ser íntegro, coerente, funcionará de forma organizada. A experiência de vida corresponde ao que é internamente. Neste aspecto, a descoberta de Paulo pode nos ajudar. No versículo 25 ele descobre – pela graça de Deus e por Jesus Cristo – que este homem interior – com seu entendimento – serve à “lei de Deus” e o homem exterior – carnal – serve à lei do pecado. Curioso, não? O que Paulo argumenta em dois terços do livro é que agora, ele e os que creem, estão mortos para a lei do pecado, nascidos sob a graça, mediante a fé, são agora de outro reino. Lei do pecado era a lei que determinava a condição de ser humano caído, separado de Deus.
Por outro lado, o homem interior (coração) triste, sofrido, afligido, dorido, destroi o espírito. Sim, espírito significa o hálito de vida, o sopro da vida. A centelha da existência estará, literal e irremediavelmente perdida ou sem o alento que anima o corpo. O homem interior desconjuntado, incoerente produz semblante triste. E não há como ser diferente. O rosto é o espelho da alma. Dizem que os os olhos o são, mas eles, certamente, desenham todo o resto.
Uma das coisas que produzem esta tristeza é viver em conflito sem buscar saída. Ou nem tanto. Alguns estão tão anestesiados que não sabem quem são. Contentam-se em refletir os outros. Quero ser aquilo que não sou. Visto-me da melhor forma. Uso palavras e modos que agradam aos outros. Esforço-me por ser igual aos demais. Sigo a moda. Renato Russo cantou em “Quase sem Querer” que mentir para si mesmo é sempre a pior mentira. A música fala de alguém que vive pelo padrão alheio. Quer agradar a todos e nesse intento infeliz se faz em mil pedaços, desperdiçando muitas boas chances porque estava ocupado demais tentando provar para todo mundo que não precisava provar nada para ninguém.
Mário Quintana, poeta gaúcho, reflete em “O Velho do Espelho”: “Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse /
Que me olha e é tão mais velho do que eu?” Amanhã você se olhará no espelho. Aquele(a) que você verá, quem é?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Elefante papagaio


Um elefante da Coreia do Sul tem surpreendido os visitantes do Everland Zoo por conseguir imitar a fala humana. O animal diz palavras em coreano que são facilmente compreendidas por quem entende a língua. Para tornar o fenômeno ainda mais incomum, Koshik vocaliza com a tromba em sua boca.

Fonte: Globo Ciência 1/11/2012

         Papagaios, periquitos, corvos, cacatuas e até araras, falam. Isso todo mundo sabe. Então, foi uma surpresa “descobrir” que um elefante falava. Coreano, mais precisamente. Não seria inglês, coisa que qualquer um hoje fala. Português, com sua sonorização melódica. Não, meus caros, o bicharoco fala uma língua gutural, cheia de nuances que basta uma pequena mudança de entonação e o sentido muda radicalmente. É como a piada do fanho.
        Vá lá que a eloquência de Koshik não seja das melhores. Diz cinco palavras, que se sabe. Mas, dizem, tem discurso escrito e treina atualmente para entrar na política. Aqui no Brasil. Pois na Coreia políticos que pisam na bola costumam cair em tal desgraça que alguns, por vergonha extrema, se suicidam. Não senhoras e senhores, o costume ainda não pegou por aqui e, pelo visto, nem com o mensalão pegará.
        Dr. Doolitle 1 e 2 já sabia que os bichos são uns faladores. Mais recentemente, “O Zelador Animal”, outro filme babaca, um sujeito conversa com os animais para resolver suas pendengas de vida chifrins. Neste caso, o bobão precisa de conselhos amorosos e, compadecidos por tamanha antice, os animais resolvem dar-lhe umas boas dicas de como reconquistar a menina, coisa que só fizeram por que ele lhes tratava bem. Antes deste lançaram os horrorosos “Alvin e os esquilos” 1,  2 e, arre égua, 3. Mas eles ameaçam seguir indefinidamente. Não é pelos esquilos falarem, a música destes e a atuação dos atores humanos é que é uma lástima.
        Estudiosos desacreditados afirmam desde sempre o que você suspeitava e mais que isso, tinha certeza. Afinal, horas e horas conversando com seu cachorro nunca foi novidade. Especialmente – parafraseando Drummond – naqueles dias em que talvez pelo efeito da lua, solidão, o conhaque tenha lhe deixado comovido como o diabo.
        Você se acha anormal porque conversa com seu gato ou cachorro? Duvido. Não vale incluir aquela sua tia solteirona que sempre conversou com suas samambaias e ainda dizia que o segredo do viço das plantinhas eram as horas dedicadas a conversas só para saber da vida. Claro que as plantas tinham muito a dizer, defendia ela. Ou você acha que só quem tem neurose é você? Desafiava a tia. Mas fora alguns experimentos esquisitos em que as plantas emitem um zumbido contínuo, ainda não se provou fala nenhuma, daí que sua tia pode estar simplesmente alucinando. Mas nada perturbador. Botemos na conta da excentricidade.
        A literatura e o cinema sempre usaram o recurso da fala nos animais porque desde que o mundo é mundo os bichos falam, sim, senhor e senhora! Ninguém viu nem notou, mas um desenho perturbador – “O Segredo dos Animais” – revela o que o George Orwell, em “A Revolução dos Bichos” tirava o véu de mistério. O primeiro inspirou-se, certamente, no segundo. Com a diferença clássica, os porcos comunistas orwellianos são, no Brasil, petistas. A metamorfose se explica por si só. Eles chegaram ao poder. Logo, tucanos ou quaisquer outros animais politizados se transformam em porcos arrogantes, gulosos, cínicos e indiferentes. Bom mesmo só o bacon e as costelinhas fritas... deles, por suposto.
        Voltando ao vocabulário de Koshik. O que alguém faz com apenas: olá, sente-se, não, deite-se e bom? Imagine você reduzido a isto? Curiosamente, o pobre paquiderme só fala aquilo que faz parte do circo em que trabalha por um pouco de palha. Não sei se ele troca a ordem das palavras. Quero dizer, emprega na hora errada. Quer comer Koshik? Olá. Tá apertado? Bom. Mas a descoberta não revela que o elefante seja burro. É só monoglota pentavocabular.  A expressão não existe, inventei.
        Não nos esqueçamos do grilo falante. É um sábio! Dá conselhos incríveis ao Pinóquio cabeça de pau, ainda por cima mentiroso. Sugiro, inclusive, que o grilo se torne figura arquetípica do mundo falante animal.
        Não sei vocês, mas prefiro, muitas vezes, a fala animal  do que de certas pessoas. Lembraram daquele(a) amigo(a) chato(a) que não para de falar um único minuto, não é? Tem gente compulsiva, quando se trata de falar. Metralhadoras. Falam assim sem pensar e porque não querem pensar.
Vão contando uma história após outra, todas banais. Ou simplesmente são narcisistas ao extremo e só eles tem o que dizer. Você é só plateia. E se indignam se você, abusado e zonzo de tanto lero-lero, vira a cabeça distraído. E você ali, esperando o infeliz respirar para cortar a conversa e ele: patati, patatá, blá-blá-blá. Ô gente de fôlego comprido! Será que já tentaram mergulho em apnéia? Tenho certeza que ganhariam o campeonato mundial fácil.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Aconchegadora Profissional


Jackie Samuel, 29, uma moça Rochester, Nova York, tornou-se “Cuddler Professional”. Resolveu abraçar, dormir e acalentar pessoas por dinheiro para pagar seus estudos. Ela recebe em torno de R$ 525 por dia (cobra US$ 60 a hora), e “dorme” com até 30 pessoas por semana, incluindo mulheres, aposentados, veteranos de guerra, ou seja lá quem estiver carente.

Fonte: Site Vírgula (05/11/2012)

A palavra mais próxima que encontro, em nordestinês, é chamego. A moça chamegava os outros e só. Este “e só” ela fazia questão de enfatizar. Como aquelas meninas bonitinhas em festa de São João que vendem beijos em barraquinhas, Kate vendia chamego.
Aconchegava quem pagasse, preço que ela cobrava por hora. Não importava o sexo. A condição era ter carência, posto que, é de se entender, apenas gente solitária e carente recorreria aos serviços aconcheguísticos oferecidos pela profissional.
Mas ninguém se mete em, digamos, tal profissão sem percalços. Como separar o necessitado de aconchego de outras intenções não confessadas na hora da contratação do serviço? Esta e outras questões faziam parte do curso de chamenguento profissional que Kate iria ministrar.
Primeiro, ela explicou por que se tornou aconchegadora. A necessidade faz a invenção. No seu caso, duas necessidades. A sua e a dos outros. Queria entrar para a faculdade e percebeu a enorme quantidade de gente sozinha e carente. Pronto, estava aberto mais um mercado de serviços de relacionamento humano. Embora, lembrou Kate, lá no início, tenha aconchegado um cachorro de uma ricaça que não dormia sem a dona.
Regra um. O contratante não toca nas partes cobertas do corpo do aconchegador. Kate atende de pijamas, que deixa à mostra apenas mãos, pescoço/cabeça e mocotó. Houve um fetichista que quis ficar íntimo de seu pé, mas não rolou. Regra dois. O cliente não pode ficar nu. Regra três. Explicar na contratação que não se trata de prostituição e que pela manhã, acabou o relacionamento.
Derivada da terceira regra, a regra quatro limita o número de encontros para o relacionamento comercial não desandar. É que o povo se acostuma fácil. Mas, passados quinze dias, pode-se voltar a aconchegar o cliente novamente. Assim, não gera dependência, do que já falaremos.
Kate abriu um pequeno parêntese para contar que já existe gente viciada em chamego pago. Ela foi pioneira do serviço, mas aberto este ramo de trabalho, um monte de gente agora sobrevive embalando os outros. Recentemente foi aberto o AA – aconchegados anônimos – para tratar deste mal moderno.
Regra cinco. Importantíssima. O aconchegador aconchega em forma de conchinha. Seja para dormir – fatura-se mais, pois são mais horas – ou apenas para dar este calor por alguns poucos momentos. Futuros chamegadores! Nunca. Ouviram? Nunca mesmo, um aconchegador fica na frente de alguém do sexo masculino. Quer saber? Nem feminino também. Precisa explicar? Aprendi isso, disse ela, a duras penas, para não dizer outra coisa.
Uma atenta estudante quis saber. E se rolar um clima de parte a parte? Aí cruzamos a linha fatal que transformaria nosso serviço em prostituição. Mas se há sentimento, não é prostituição, insistiu a impertinente. Case-se ou vá morar junto com o cliente. Num instante o clima acaba. Respondeu Kate, enfurecida.
Regra seis. Aprenda a identificar os adictos do aconchegamento. Querem repetir o serviço várias vezes. Oferecem valores acima do permitido pelo sindicato. Dão presentes. São infiéis. Quero dizer, se agarram a qualquer um aconchegador. Parecem cachorros pequinês no cio. Identificou o viciado – não chamem assim por aí, eles agora se dizem uma minoria e pode-se incorrer em discriminação – encaminhem para o serviço público ou algum AA.
Um último alerta. O mercado está inflado de gente que se diz aconchegador, mas não é. Por isso a colega aqui foi confundida com uma moça da vida fácil. Há bairros chamados agora de aconchegolândias, tomados de viciados que atacam as pessoas implorando por aconchego. Isso no meio da rua e em pleno dia. Setores da cidade acumulam montes de pessoas aconchegando-se umas às outras sem o menor pudor. Um drama de saúde pública e de segurança. Passem na secretaria de recebam suas carteirinhas.