sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Biutiful


Biutiful não é um filme para se gostar. É um soco no estômago. É um autêntico Alejandro González Iñárritu. Os mesmos temas de Babel e 21 gramas são revisitados, mas com uma visceralidade muito maior, como se estes dois fossem um ensaio.
Se eu tivesse de lamentar por algo da experiência que é assistir Biutiful, é pela escuridão de Barcelona que é uma cidade iluminada. A história está inteira engolfada por uma luz indecisa, de modo que é difícil saber se amanhece ou se anoitece. Um único momento de luz, não sei se proposital, é quando os irmãos voltam do crematório onde foram cremar os restos mortais do pai que eles não conheceram sequer de vista.
Uxbal (Javier Bardem) é um ser perdido que tal como a penumbra que ambienta o filme, vive num limbo da ilegalidade. Ele é parte de uma cadeia de exploradores e explorados. Esta mistura monumental que a facilidade de deslocamento e comunicação do mundo globalizado produz, gera uma infinidade de apátridas, sobreviventes, seres subterrâneos que não existem para ninguém.
Sozinho, Uxbal sustenta dois filhos pequenos e faz o que é preciso para isso. Por esta causa, a sinopse nos induz a erro. O filme não trata apenas disso. Mas de muito temas e destinos que se entrelaçam de forma irremediável numa aridez de afeto, respeito e dignidade humana. Os chineses são os grandes fornecedores de qualquer coisa, inclusive de gente. Os africanos esgueiram-se entre a polícia que os persegue sem trégua, a vida pobre e a tenacidade de aguentar qualquer coisa pela sobrevivência tão somente porque na África que deixaram para trás é muito pior. Os europeus mediam os chineses e exploram os africanos. Os chineses exploram os seus como só eles sabem fazer.
A sensação é de um moto contínuo de vidas que acordam às 6:30 da manhã, trabalham 14, 16 horas por dia e voltam para seu calabouço para dormir. Sujeitam-se por causa do desamparo. Uxbal, que aparentemente é livre, guarda em algum lugar de si uma alma que, a seu modo, tenta cuidar daqueles dos quais sobrevive. Ele tem uma espécie de dom. Fala com mortos e cobra por isso. Uma possível leitura sugere que a espiritualidade, representada de forma mais plena por Bea, amiga de Uxbal, seja uma saída para humanizar o mundo. É dela a frase que um dom recebido de graça não pode ser cobrado. É contudo, uma espiritualidade sem Deus, sem céu, quer dizer, sem esperança de qualquer forma. Os mortos só precisam de ajuda na passagem, trabalho que Uxbal realiza umas poucas vezes e só.
Não há riso neste filme, tampopuco beleza, eis a ironia com o título, propositalmente escrito errado indicando uma não beleza, um vazio de formas e conteúdo porque as pessoas são como cascas andantes. A refeição do chinês que está no topo desta cadeia de devoradores não dá qualquer pista de família feliz. Ao contrário, comem como se fossem partir rápido. E no meio desta intimidade invade porta adentro seu amante, apenas mais um elemento desconexo, parasita do parasita.
Como tudo que está ruim pode piorar no mundo de Iñárritu, Uxbal descobre um câncer em estado terminal. Um homem que tem intimidade com a morte – dos outros – não quer morrer. Por nenhum motivo nobre, apenas sofre por não saber o destino dos filhos e de repetir o que sofreu com o pai ausente. Eis aí um salto minúsculo para uma eternidade que chama dentro de cada ser humano a despeito da desconstrução nanométrica a que somos submetidos. Novamente, a espiritualizada Bea tem uma frase de efeito: o universo cuidará deles. Não sem antes questionar a pretensão de Uxbal que julga ele cuidar dos filhos.
Biutiful mostra um mundo sem perdão, reconcliação e com escassas possibilidades de redenção. Uxbal, que se preocupa com o frio pelo qual passam seus explorados chineses, agora não mais escravos da máquina de costura, mas da construção civil, compra aquecedores. Um porão sem ventilação, um escapamento de gás e vinte e cinco mortos. De quem é a culpa? De ninguém e de todos. Se isto é possível.
O fim. Uxbal, que havia acolhido uma africana imigrante cujo marido fora deportado, tem nela sua tábua de salvação. Para cuidar de seus últimos dias e dos filhos, já que sua ex-esposa está internada em mais uma crise de loucura e drogas. Em seus momentos fatais, ele se vê numa família fruto deste grande acaso misturado às pequenas escolhas que fazemos. A africana imigrante ilegal será mãe de seus filhos e ele parte para encontrar seu pai que nunca conhecera. Parece que, para Iñárritu, apenas neste mundo improvável há alguma possibilidade de paz.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O arroto


Um estudante de 13 anos foi algemado e preso após ter arrotado na classe, em uma escola pública de Albuquerque, no Novo México (EUA), de acordo com um processo aberto, na última quarta-feira (30) contra o diretor do colégio, um professor e um policial.
Fonte: UOL Tabloide (Em São Paulo 02/12/2011 - 09h32)

Em terras de Vera Cruz, todo mundo sabe, a leniência com os criminosos é inacreditável. Estão aí todos os políticos pegos em flagrante gatunagem que não nos deixam mentir. Por aqui até o pulha que mata, esfola e diante das câmeras diz com a maior candidez que a culpa é da vítima que reagiu, recusou-se a dar ao meliante a carteira ou algo de valor que ele queria por que queria, ainda encontra quem ache que ele é vítima da sociedade e por isso reage assim.
O Lupi, pessoa de nome mais que adequado, com suas atitudes lupinas faz e acontece, com a trogloditez que lhe é característica até quando diz que ama a Dilma e, de novo, nada acontece.
A calhorda, bêbados feitos gambás atropelam, matam e sem que consigam dar dois passos em linha reta, ainda atinam para se recusar a soprar o bafômetro. Negam estar borrachos ainda que as câmeras mostrem sua dança estropiada. Alguns juízes tem tido a hombridade de dar-lhes multas milionárias, mas saem livres, afinal.
Mas há lugares, caros leitores, em que a coisa pega. Imagine que você tenha comido aquela feijoada e pela gula e o tempero, ficou meio empanzinado. No meio da aula, obviamente sem querer, solta um arroto tão grande que as cadeiras tremem. O máximo que aconteceria era a vergonha – não para todos porque tem gente que não se avexa nem quando solta um pum – e os muxoxos enojados das menininhas. De quebra, talvez ganhasse um apelido tipo boca de esgoto.
Em Albuquerque, Novo México (EUA), o negócio é mais embaixo. A aula transcorria normalmente. E pelo acontecido, menino que der um espirro vai para o calabouço. O pobre Bob, de treze anos, havia comido três hamburgueres e um daqueles baldes-copo de coca-cola que os americanos adoram. Estava completamente entupigaitado. A aula correndo e o pobre de vez em quando sentia que o arroto vinha e ele se segurava. Vejam bem, não era um traque daqueles equivalentes a carniça, mas um banal arroto.
O professor falava, mas a mente de Bob e todo o seu ser, antevendo um desastre de proporções épicas, com consequências imponderáveis, estavam concentrados em segurar o monstro que ameaçava se soltar. Mas a cada investida da fera, como um aríete enlouquecido que subia das profundezas garganta acima, ele sabia que mais cedo ou mais tarde se soltaria quem nem cachorro louco.
Olhava ao redor em busca de salvação, mas não havia porque a lei da escola era que eles haviam passado, e muito, da fase de controlar suas necessidades. Logo havia hora e tempo, cronometrado, para usar o banheiro. Durante a aula era algo simplesmente impossível sequer de cogitar.
Então veio o tsunami. Bob abriu a boca e o desvairado arroto saltou como um saci pererê de dentro do redemoinho. Vinte segundos seguidos de uma turbina de avião na decolagem no ouvido do sensível e afetado professor que, histérico, gritava para que Bob parasse com aquela indisciplina. Tente parar uma caminhão carregado, descendo uma ladeira e sem freios.
O barulho foi tanto que até o diretor, um sujeito branquelo que arrastava todas as frustrações do planeta nas costas e nunca superara os bullyngs sofridos na escola, pelo que se tornou um sádico altamente qualificado. Num segundo, o homem estava na sala, os alunos ainda tentavam entender o que acontecera. O dedo do professor, trêmulo e vermelho de raiva, apontava entre agastado e humilhado para o pobre Bob. Este apenas sentia alívio e, como que em transe, estava preparado até para a cadeira elétrica.
O segurança brutamontes, que era fanzoca do Stallone Cobra e viciado em CSI, pulou em cima de Bob, colocou o joelho em seu pescoço e o algemou. Bob via tudo passar em câmera lenta e até esboçou um leve sorriso de nervosismo, o que foi tido como um grande deboche agravante de sua pena. Foi preso e exilado da escola para nunca mais voltar.

domingo, 27 de novembro de 2011

O quê que o baiano tem


O ministro das Cidades, Mário Negromonte, disse nesta sexta-feira (25), em Salvador, que as denúncias de suposta fraude em parecer de obra de mobilidade urbana para a Copa de 2014 em Cuiabá (MT) tentam "enfraquecer a presidente Dilma".

Fonte: G1 (25/11/2011)

O ministro não parava de falar. Era uma técnica para impedir que alguém perguntasse algo. Uma tentativa de “secar” todas as possíveis fontes de perguntas constrangedoras. Convenhamos, é preciso ser extremamente habilidoso nesta questão. Falar demais diz-se o que não se quer. Mas ele era bicho passado na casca do alho, matraqueado, lá do jeito dele. Carregava no sotaque como forma de arrebanhar a solidariedade nordestina.
Assim, você leitor, ao ler a fala do ministro, ouça a melodia do sotaque nordestino. Suas várias reportagens, um misto de autodefesa, pedido de penico à presidenta e ataques melodramáticos, com direito a choro e tudo, foi aqui rigidamente decupado com a maior fidelidade, incluindo espirro, respiração ofegante e perdigotos. Nada escapou. Ah, não se preocupe em achar sentido em alguns trechos, não é erro da decupagem, é que é assim que o cara pensa. Lá vai.
É tudo culpa desta imprensa marronzista, diria o sábio conterrâneo baiano, patrono dos políticos do axé e meu inspirador, Odorico Paraguassu. Oxe, meu rei, eles querem é enfraquecer a presidenta Dilma. Mas não vão conseguir porque a mulher é macha. Quero dizer, forte, enfim, nada tenho que ver com o louco do Bolsonaro.
Não há nada de errado, garanto pela minha mãe mortinha. Se o guverno não tivesse trabalhando... mas tá trabalhando e muito. Tão dizendo que há um desvio de setecentos milhões naquele modalzinho do matrogrosso. Eu pergunto, o que é isso diante da mudernidade que o povo vai ganhar? Vão andar de trem em vez de ônibus que é coisa da pobreza de um Brasil que nós queremos esquecer.
Não tive conhecimento de nada, nem tenho posto o pé no ministério só rodando o país, trabalhando. Isto é gente insatisfeita com nossa administração séria e honesta. Querem me tirar do ministério porque não passei e nem vou passar a mão na cabeça de ninguém. Já mandei investigar. Se alguma coisa aconteceu, cabeças vão rolar.
De que eu falava mesmo? Ah, do trem. Não, da mudernidade. Mas o que fazem esta imprensa preconceituosa com um guverno que se dedica ao povo? Inventa desvio, isso e aquilo. Estão criando a república da discunfiança. Com isso, nós povo desta terra de encantos mil, não podemos concordar.
Eu não tô dizendo que é preconceito? Foi por causa da festa do bode. Para seu guverno, o bode é um orgulho nacional nordestino. O bode sustentou o povo na seca, deu carne, deu o couro, deu o chifre, quero dizer, o chifre não, o leite. Eu mesmo mamei na tetas de uma cabrita. Ahã, é que o leite de minha mãe era fraco, que Deus a tenha em bom lugar. Olhos marejados.
Se fosse uma festa da uva, da maçã, coisa destes sulistas estrangeiros, ninguém dizia nada, mas como é uma singela festa a um símbolo máximo da resistência de um povo, aí caem de pau com esta lenga lenga de usar dinheiro público. Ora, se a festa é para o povo como não havera de usar dinheiro público?
Recompõe-se. Não vou me agachar pra ninguém, não fico de joelho, isso eu deixo pro próximo ministro que cair na esparrela de fazer m... Se o Lupi diz que pra derrubá-lo só a bala, eu não fico de joelho, só diante do Senhor do Bonfim e São Jorge, meu santo de estimação. Não sou apegado ao cargo. Se a presidenta Dilma não me quiser mais, eu dou a ela... Ministro! O cargo, meu filho, o cargo de volta. Oxe!
Esta imprensa discriminidora de nordestino tá querendo é fazer campeonato de derrubança de ministro, mas eu não vou ser a bola da vez. Comigo não, violão! A presidenta já mandou um recado de que eu tô mais firme do que nunca. Eu e ela tamo assim (junta os dedos indicadores e esfrega). É como eu disse, a festa do bode e o trem leve são lados da mesma moeda, são para o benefício do povo, e estes papagaios ensaiados ficam se preocupando com mixaria. Vão se catar cambada de não tem o que fazer!

domingo, 20 de novembro de 2011

Praga humana


O mundo chegou aos sete bilhões de almas viventes. Haja comida, casa, trabalho e água potável para tanta gente. Agora lascou. Dizem que ainda não precisaremos viver todos em quitinetes à moda japonesa, mas chegaremos lá. A sensação que tenho, entretanto, é que já me falta um tantinho assim de ar. Nem consigo mais comer sem cutucar alguém do lado com meu cotovelo. De repente, sou acossado pela quase certeza de que sou vizinho de toda essa gente. Mas não me refiro às babaquices românticas dos ecochatos de que habitamos a mesma nave mãe e blá, blá, blá. Tô falando do barulho, do mau cheiro, dos maus modos, dos malas e chatos. Ah, meus caros leitores, estes vão se replicar como bactérias.
Faça um exercício simples do seu presente-futuro. Imagine fila de banheiro agora. Novos inquilinos terão que pedir senha antes de nascer para dar as caras. Terá que haver rodízio de quem come. Sair na rua ou até dentro de casa, também rodízio. Números de posição de nascimento pares: segunda, quarta e sexta. Ímpares: terça, quinta e sábado. Domingo é para a galera que nasceu em 29 de fevereiro.
Evidentemente nem todos estão contribuindo de forma igual nesta competição em que nos reproduzimos como ratos. Alguns países estão especialmente empenhados. Os países mulçumanos em geral por que querem afogar a civilização judaico-cristã-ocidental com suas barbas, turbantes e burcas reprodutoras de Mohameds. Os hindus porque inventaram o kama sutra e, como dizia a Zezé Macedo em seu personagem na Escolinha do Professor Raimundo, só pensam naquilo. Os chineses porque querem ter um mercado comprador dentro de casa e dominar o mundo como segundo plano.
Nós no Brasil estamos encolhendo. A mulherada diminuiu ainda mais sua taxa de fertilidade, diz o IBGE. Em 2010, as brasileiras tiveram apenas 1,86 filho por mulher. Não se assuste, não nasceu ninguém 0,86 gente. É só uma abstração estatístico-epidemiológica. Claro, isto tem um lado bom. Teremos mais espaço que os outros, mas faltará braço quando tivermos que nos defender das invasões das hordas famintas. Perguntem aos bolivianos se não é verdade.
O site da BBC Brasil comemorou esta incrível façanha reprodutora humana criando um dispositivo em que você digita a data de seu nascimento e voilá, o sistema diz qual é o seu número entre os sete bilhões. Outro número, este monstruosamente grande, diz qual é sua posição entre todos os seres humanos que existiram na terra até hoje.
No dia do meu nascimento eu ocupei a mastodôntica posição 3.334.470.205... Ufa! Por posição eu deveria lê-lo na forma ordinal, mas como minha matemática nunca passou do elementar, não sei ler isto. Assumo, sou analfabeto em tal assunto. Mas a coisa piorou. De todos os terráqueos vivos e mortos que palmilharam este solitário planeta eu sou o 77.242.526.004. Bom, aí nem na forma arábica me atrevo a ler.
A pergunta que corrói o juízo é como sabem que viveram este mundo de gente até hoje desde os primórdios? Por exemplo: inclui o primeiro cara que um dia, cansado de ser um piteco qualquer da vida, desceu da árvore e caminhou sobre as duas patas anteriores? Ou, para agradar aos religiosos, inclui nosso velho conhecido Adão e, por suposto, sua bela Eva? Exclui a serpente? Certo, não consta que fosse humana, embora, a seu modo, nos tenha legado coisas hoje demasiadamente humanas.
O que significa tudo isso? Não tenho a menor ideia. Divago. Outro exemplo. Qual é o número fatal em que haverá tanta gente que estarão escapulindo para o espaço sideral pelas beiradas? Há várias projeções, ninguém se entende nesse particular. Mas uma coisa chegar aos sete bilhões rendeu. As aves do agouro, leia-se apocalípticos de todo quilate, estão mais vivos do que nunca. Não destituídos de toda razão, convenhamos. Afinal, se pensarmos bem, nem precisaremos de bombas e outros telecotecos para nos acabar. Nós seremos nossa própria bomba. Com tanta gente por aí, uma hora vai faltar bolsa Vuitton pra todo mundo, embora os chineses não descansem dia e noite produzindo cópias populares. Nem se fale no filezinho com fritas. Apartamento de cobertura, então, vai ficar pela hora da morte. Vai ser o fim.

domingo, 13 de novembro de 2011

Dirigir, comer e rezar... é uma marretada


Jennifer Coll estava dirigindo em uma estrada rural, na cidade de Loveland, quando teve o carro atingido por uma marreta, que quebrou o para-brisa do carro e atingiu a motorista de 60 anos em cheio no rosto. 
Jennifer sobreviveu apenas com o rosto machucado. Para ela, foi um milagre. No momento em que seu carro foi “atropelado” pela marreta voadora, a motorista estava rezando.
Fonte: Do UOL Tabloide (Em São Paulo - 09/11/2011)

Dirigir em São Luís é um saco. Fossem apenas as péssimas condições das vias vá lá, pior ou igual a isso é a vasta fauna de antas, burros e cérebros de minhoca que sentam no lugar dos motoristas e, pasmem, conseguem tirar o carro do lugar. Não sem consequências. A eles nunca lhes foi apresentado a pequena alavanca, logo abaixo da direção que serve, entre outras coisas, para acionar as lanternas sinalizadoras. Mais ainda. Invadem faixas, andam na contramão, avançam sinais. Como pebas ensandecidos, cavam qualquer brecha e enfiam o carro lá, pra cima de você que, tentando ser civilizado, ocupa seu justo lugar à espera de que o trânsito ande.
Mas não se tem notícia de que um motorista tenha sido atropelado por uma marreta. Você leu corretamente. Aquele treco com que trabalham denodados peões para demolir coisas ou cravar estacas onde se lhes mandam. A simpática Jennifer viajava tranquilamente por uma boa estrada americana quando BUM. Uma marreta atravessou o parabrisa e acertou no meio do seu frontispício.
Conseguiu parar o carro e pedir ajuda. Foi socorrida por um atônito transeunte que só a custo acreditou na história porque jazia no bando do carona a marreta assassina que, como se vida tivesse, voou por aí e, sem brevê, sapecou-se na pobre mulher.
A autoridade policial queria porque queria saber se a digna senhora teria algum inimigo. O suspeito natural seria algum pedreiro mal pago ou com quem tivesse dívida. Mas dona Jennifer negou e eis a surpresa. Não tem inimigos. Leva vida simples e frugal. Mulher religiosa e boa vizinha. Quem teria interesse em matá-la de forma tão inusitada? Ninguém, por suposto. Porém, em meio ao relato, dona Jennifer diz que na hora do acontecido estava rezando.
O experiente policial de Loveland sacou na hora que aí estava a charada de todo o imbróglio. Sim, porque homem destemido e dedicado à sua profissão não deixaria acontecer uma coisa tão relevante em sua cidade sem que esclarecesse tudo, tintim por tintim.
Quis saber sobre o que rezava dona Jennifer. Ela retrucou que sobre nada, apenas rezava. Quantas vezes a senhora reza por dia? Quis saber. Não sei, toda hora, até dirigindo. Está explicado. A única forma de uma marreta voar e atropelar a senhora é um ato divino. Pois, como se sabe, ela violou a lei da gravidade. É um milagre, disse dona Jennifer. Deus estava comigo e me salvou.
É aí que senhora se engana. A senhora ignorou que a paciência divina também tem limite. Permita-me adverti-la, o Senhor não estava num bom dia certamente e justo por perturbá-lo dia e noite, ele como que deixou escapulir a marreta. Não para matá-la evidentemente, afinal ele controlou a intensidade, a velocidade e, como pode tudo, subverteu as leis da física, apenas para alertá-la que hoje não era um bom dia para ladainhas. A senhora não tem amigos ou parentes com quem conversar?
O senhor está louco. Onde já se viu falar uma heresia dessas sobre o Senhor? A paciência DEle é infinita, se o senhor quer saber. Eu sempre converso com Ele quando dirijo. Taí a explicação de suas multas, retorquiu o policial. Dona Jennifer, não vamos ficar aqui discutindo o que o Senhor acha ou deixa de achar, a prova está na sua cara e me desculpe, mas penso que o Senhor até se divertiu com esta traquinagem e de lambuja, ainda manteve a senhora mais crente do que nunca, pois insiste em dizer que Ele a salvou.
Para um policial, o senhor está excedendo suas funções. Não preciso de conselhos sobre a paciência celestial. Tudo bem, mas só por preocupação, da próxima vez que a senhora for rezar e dirigir use um capacete e não é garantia de nada. Olha só o que aconteceu com aquele piloto brasileiro. Mas aí não teve nada a ver com o Senhor, foi o Barrichello que ainda não aprendeu a dirigir.

sábado, 29 de outubro de 2011

Defuntos caloteiros


A prefeitura da cidade espanhola de Zaragoza lançou uma campanha para alertar familiares inadimplentes que quem não saldar dívidas com cemitérios locais terá os restos mortais de seus entes exumados.
Aproveitando a chegada do dia de Finados - que na Espanha é celebrado no dia 1º de novembro - a prefeitura colocou adesivos nas lápides advertindo que a sepultura está com pagamento vencido e que os familiares tem 15 dias para saldar suas dívidas, em geral ligadas a taxas de manutenção dos cemitérios. relacionadas a taxas.
Fonte: Anelise Infante (De Madri para a BBC Brasil - 28 de outubro, 2011)

A família chegou ao cemitério com as dores distantes, as lembranças frescas e, por que não dizer, com certa alegria em, digamos, rever os parentes enterrados no jazigo familiar. As crianças faziam perguntas inoportunas e enchiam a paciência porque não entendiam a razão de visitar um cemitério, ainda por cima “ver” pessoas que elas nunca conheceram.
O pai, empertigado, disse que era um dever familiar visitar os parentes, afinal, era uma vez só no ano e eles, coitados, passavam os outros 364 dias sozinhos. Era também um dever cristão, sem contar que relembravam boas coisas e riam de episódios que só o cemitério mesmo para fazê-los voltar no tempo.
Estavam ali, quase displicentes naquela fresca manhã de finados, quando viram de longe, circundando a base da estrutura, uma faixa que dizia “Jazigo vencido” em letras vermelhas garrafais. Sobre o túmulo, um estranho amontoado de ossos, formando um quebra cabeça asqueroso. Ainda estavam em choque, aquilo só poderia ser uma brincadeira de mau gosto. Não era. O filho mais novo, num segundo, já havia pegado um fêmur e começou a bater no irmão mais velho que abriu um berreiro. A mãe, atarantada, tentou impedir que o outro filho fosse nocauteado e acabou derrubando um dos crânios que rolou rua abaixo com a boca escancarada num sorriso apavorante.
O marido deu um berro de pavor e indignação e agora, quem era quem? Somente naquela sepultura havia umas três gerações da família e estavam misturados. Procurou a direção do cemitério, exigiria explicações. Mais que isso, pediria uma indenização por falta de respeito com sua família.
O gerente do cemitério disse que enviou mais de dez correspondências aos mortos cobrando anos de taxas não pagas. Ou ele pensava que só porque estavam mortos não teriam que pagar para ficar ali? Aliás, disse ele, a inadimplência havia chegado ao cúmulo que pensavam até em falir o cemitério. Mas nem todos são salafras, olhe aqui seu Euzébio, paga direitinho. Mas para cada pagante há dezenas de defuntos caloteiros.
Ele não sabia o que dizer e falou o que lhe veio à mente. Quem sabe eles não tivessem recebido a correspondência, afinal o correio vive em greve. Ele mesmo, em várias conversas com eles, nunca soube de dívida nenhuma. Como assim, conversas com eles, quis saber o gerente do cemitério. Só você que é um desalmado que não fala com seus mortos. Mas o que ele queria saber era como é que iam montar os corpos novamente. Eu não quero nem pensar no que o vovô vai dizer quando se perceber com uma anca da tia Gertrudes, logo ele que sempre foi machão. E tia Quina, com a cabeça do primo Ernesto.
Desculpe, senhor, mas estamos numa crise severa e o senhor não vai acreditar na quantidade de defunto velhaco que temos aqui e olha que avisamos com antecedência. A ordem aqui é de despejo para quem não pagar. Eles se valem de sua condição, querem que tenhamos pena deles, mas e as taxas atrasadas e os vivos que trabalham, não comem? Não quero saber de suas razões. Processarei este cemitério, no mínimo, por vilipêndio dos corpos e covas, quem sabe não cabe aí uma brecha legal no estatuto do idoso.
Ao voltar à cova, o pai encontra a esposa em estado de choque. Pega um crânio: vovó, é a senhora? Solta, pega um braço que se esfacela: desculpe tia Quina, é que a senhora está tão magrinha. Primo Ernesto! Os meninos, já reconciliados, faziam embaixadinhas com a cabeça do tio para total desespero dos pais.   

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Minhas amigas, as piranhas.


Usando microfones subaquáticos, a equipe da Universidade de Liège, na Bélgica, gravou os sons emitidos pelos peixes quando se confrontavam.
Em artigo publicado na revista científica Journal of Experimental Biology, a equipe disse ter identificado três tipos de sons, cada um contendo uma "mensagem" específica.

Fonte: Victoria Gill (Repórter de Ciência e Natureza, BBC News – 13/10/2011)

Zé do Oim recebeu este nome pela simples razão de que seus olhos eram, de fato, olhinhos, espremidos assim como se estivesse permanentemente encarando o sol. Tinha lá um quê oriental que ele dizia, não sem certo orgulho, que era devido a uma longínqua tataravó. Segundo sua lenda familiar, tinha sido a pobre mulher capturada pelo seu tataravô. Numa caçada, o homem ouviu os cachorros latindo em sinal de ter acuado uma fera. Mas eis a surpresa dele, ao chegar ao local a fera era uma indiazinha por quem caiu de amores. 
Oim é um tanto parvo, mas tem lá sua esperteza curtida na vida. Fica danado mesmo é com a insinuação de que é filho de chinês. Que chinês o quê! E lá conta a saga da índia, sua avó pré-histórica.
Soube esta semana que uns gringos no estrangeiro descobriram que piranha late. Primeiro se confundiu. Não que chame aquelas moças de piranhas, acha isso falta de respeito com as duas, a mulher e o peixe. Acredita que piranha só tem uma, o peixe. E não vê como é que a outras se parecem de alguma forma com o hidrológico animal. Será que é porque agora também chamam as mulheres damas de cachorras? Não sabe responder.
Explicaram a Zé do Oim que a pesquisa se realizou com piranhas mesmo, isso para grande admiração e espanto dele. E só descobriram isso agora? O informante ficou um tanto desconcertado. Como assim, só agora? Zé do Oim, nascido à beira do Mearim, pescador desde criança, acostumado a chupar cabeça de cascudo, balancou a cabeça em sinal de enfado. Ô gente mais besta! Gastaram dinheiro com isso?
O interlocutor tentou dar ares de importância à pesquisa. Disse que descobrir que as piranhas latem para se comunicar era uma forma de conhecer mais estes animais e até ajudar aos pescadores a melhor época para pescar e outros blá blá blás. Zé permaneceu com seu ar superior. As piranhas da beira do rio onde pesco não só latem como miam, imitam passarinho e, não conto história de trancoso, tem uma lá que canta igual a Alcione. Eu mesmo ensinei as bichinhas a vigiar minhas galinhas e explicou – tem muita raposa por lá.
Vou contar como peguei amizade com as piranhas. Estava eu pescando e ouvi um rosnado. Olhei prum lado, olhei pro outro e nada. Já pensava em dar uma pedrada no cachorro que, fazendo zoada, ia espantar os peixes, mas não vi nem um. De novo, rosnado e latido. E não é que tinha umas três piranhas tentando espantar uma onça que estava pendurada num pau de olho em mim. Aí sim, foi um susto grande. A bicha ia pular bem no meu cangote. Mas com tanto latido, fugiu.
Joguei as iscas para minhas amigas cachorras, quero dizer, piranhas. Nossa relação mudou totalmente: agora eu cuido delas é com leite ninho e coca-cola para arrotar. Ô bichinhas que aprendem coisa. Se você for lá, eu mostro. Dão saltinhos, rolam, dão as barbatanazinhas e buscam um pedaço de pau quando jogo lá no meio do rio. Agora tem uma coisa, são sestrosas. Gente de fora elas ficam meio envergonhadas e dão no máximo um rosnado. Acho que comigo é porque pegaram gosto da minha pessoa.