domingo, 29 de novembro de 2009

Simples e Prudente: entre serpentes e pombas

Ovelhas e lobos, serpentes e pombas. Quatro animais numa frase cujo contexto revela uma inflexão na relação entre Jesus e os discípulos, mas também na ação daqueles. Da passividade de audientes, para a prática viva da pregação. O cenário não é animador. Ameaças e violências pontificam o que lhes espera no caminho e diante de tais situações há que se ter determinadas características. É isto ou a sucumbência ao vazio da irrelevância. A morte prematura da mensagem.
O discurso descreve uma ecologia do espaço da pregação. Os pregadores são presas (ovelhas), os religiosos, não necessariamente os ouvintes, são os predadores (lobos). Os ouvintes também se tornam lobos em situações especiais. Desde que os lobos alfa os manipulem com alguma destreza. Não existe neutralidade, o que há é uma mudança constante de papéis, porque, por antinatural que pareça, ovelhas também se tornam lobos. Nossa natureza é cambiante como as cores sob o efeito da luz.
Que quer dizer ser prudente e simples? Embora nos pareçam palavras distintas, em seu sentido aqui são termos que se tangenciam. Aristóteles considera a prudência a principal das virtudes. Para ele esta virtude se equilibra entre a falta, que é a moleza e o excesso, que é a ambição.
Para nós hoje a prudência está reduzida à simples cautela. Mas tanto em Aristóteles como no Evangelho o significado vai além. Para o filósofo, quer dizer tomar a decisão certa. Para o Evangelho, é ser sábio e inteligente. Alguém consciente de um único interesse. É neste ponto que prudência toca a simplicidade.
Ser simples tem a ver com não ser misturado. É puro como um vinho ou um metal depurado. Uma mente sem a mistura do mal. Evoca inocência. Unicidade. Novamente temos um predador e uma presa. Mas diferente da primeira dupla de opostos, onde apenas o conflito se destaca, aqui há um complemento de características.
Ocorre-me que a pureza sozinha num mundo caído é um ideal que nele não se cria sem que seja misturada há algo que lhe dê um esqueleto de sustentação, neste caso algo que na serpente nos parece algo intrinsecamente mal. A prudência na serpente é malícia, assim vemos. É ardil e sagacidade cujo único propósito é ferir. Na ovelha é uma arma de defesa.
A teoria se parece a algo predito no Tao te Ching (O Livro do caminho Perfeito), cuja principal representação para nós ocidentais é o círculo representativo do Yin e do Yang, as forças masculina e feminina, respectivamente. Refiro-me ao fato de que uma mesma coisa carregue seus opostos, cuja interação resulta num bem superior, segundo o Tao. Não sugiro, por evidente, que mal e bem são faces da mesma moeda, como diria o Raul, envolvidas num abraço astral. O evangelho, por sua vez, declara o bem ou o mal intrínseco dos atos, pois desacredita que uma mesma fonte borbulhe água amarga e doce ao mesmo tempo.
malícia da serpente, suponho, tem a ver com seu andar sinuoso que é sempre algo sutil e delicado. Os obstáculos são contornados com perícia envolvente. Ser sinuoso para nós é ser dúbio, astucioso, alguém cheio de subterfúgios. O ser sinuoso aqui tem característica dinâmica, aquele que se desvia. O mal reside na falta de flexibilidade. Em psicologia, tomada emprestado da física, chama-se resiliência, que conjuga adaptabilidade, capacidade de deformação elástica emocional e mental.
O evangelho, por suposto, distingue-se do Tao e chama o mal pelo nome, sem possibilidade de que nele habite qualquer bem. O que nos leva ao passo seguinte. Toda virtude numa natureza pervertida se perverte também. Subjaz à pratica da virtude, neste caso, um fim destrutivo ou interesseiro. Alguém lisonjeia, seu objetivo é disfarçar seu ódio (inveja) ou ainda tornar o outro favorável à sua demanda. A lisonja é o alimento da vaidade, mal que a todos nos toca.
Por fim, simplicidade e prudência, são filhas da sabedoria que reconhece o tempo e o modo das coisas. Desvenda as pessoas e situações de modo que, diante das muitas armadilhas que o viver nos apresenta, torna-o uma arte cuja principal arma é a verdade, alguém sem sombra ou variação de mudança. Isso soa a ser um pouco Deus.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Camelô mudo


Ele tinha um ar blasé. Sentado em seu tamborete alto, olhava os passantes. Esperava. De vez em quando, cutucava a unha do mindinho. A porta de rolo levantada a meia altura dava lugar na entrada a duas minúsculas bancas de camelô. O prédio tinha um ar decadente pelos azulejos verdes gastos, quebrados e as molduras das portas rachadas e descoloridas. O lugar fora uma farmácia durante muito tempo, agora estava vazio, exceto pelo homem. Perdeu espaço e clientes para as megastores farmacêuticas que vendem tudo, inclusive remédio.
Ele, um homem amulatado, resultado destas misturas brasileiras, andava aí pelos seus sessenta e poucos anos. Sobre as bancas de seu negócio havia de tudo um pouco destas quinquilharias chinesas: uns lampiõezinhos coloridos à pilha, relógios de mostradores fosforescentes, prendedores de cabelos, canetas. De minha posição, eu não havia notado, vendia óculos de grau também.
Como o olhara demoradamente pelo tédio da espera no carro, percebi que havia sobre uma das bancas um destes novos testamentos dados pelos gideões. Ocorreu-me naquele instante, não que fosse religioso, mas que matasse o tempo com uma leitura ligeira do evangelho.
Chega um freguês. De onde estava, não podia ouvir o que diziam, daí que recrio pelas ações o que foi falado. Tem óculos? O velho camelô balança a cabeça afirmativamente. Torce para o outro lado um palito que carregava num dos cantos da boca. Remexe numa caixa embaixo da banca. Num pequeno saco, retira uns óculos de lentes brancas e aros finos. O homem pega meio desajeitado, pois carregava uma sacola pequena de compras numa das mãos. Põe no rosto, ajusta, e olha para um lado e outro. Em silêncio, o vendedor que se movia com calma zen, pega o novo testamento e dá ao homem para que experimente com a leitura se os óculos servem.
O homem abre o pequeno livro ao meio e o aproxima dos olhos. Devagar, estende o braço para testar sua acuidade à distância. Faz o movimento uma,  duas vezes e balança a cabeça negativamente. O vendedor dá-lhe outro par, depois de verificar na lente a medida do grau. Novamente o mesmo processo. O freguês aproxima e estica o braço, mas como o outro, não lhe serve. Balança a cabeça num não. A esta altura, percebi um ligeiro enfado no vendedor como que a dizer: este cara não se decide.
Um terceiro óculos é  retirado, agora de outro saco. Os aros brilharam ao sol. O freguês experimenta, havia esquecido o novo testamento sobre a banca, ao que o vendedor rapidamente lhe devolve. Depois de “ler”, pergunta: Quanto é? O vendedor: dez real. O homem põe a mão no bolso de detrás da bermuda e com dificuldade retira dali uns trocados embolados, separa um dez amarfanhado e o dá ao vendedor que, sem olhar para o dinheiro, apenas coloca-o o no bolso. Sem mais palavras, o freguês se retira e vai tomar uma água de côco com o que restou de suas compras naquela manhã. Como as vendas iam de vento em popa, o vendedor animou-se e se presenteou com uma água de côco também. Assim o mundo gira.

Quem se comunica se trumbica


Ganha um Ignóbil quem encontrar alguém que, tendo um celular, nunca tenha sofrido o diabo nas mãos das operadoras. Não à toa elas são campeãs em reclamação dos órgãos de defesa do consumidor. Acho que eles se orgulham disso. Deve ser alguma espécie de campeonato às avessas.
Claro que o país melhorou neste quesito. Saímos do monopólio estatal ineficiente, burro e caro. Hoje temos a opção de escolher entre várias ruins. A diversidade é grande: Ai, Morto, Tum, Escuro, que mais podemos querer?
Pois foi dos arquivos de uma dessas agências de proteção às vítimas (consumidores) que retirei estas histórias rocambolescas que de tão esquisitas parecerão irreais ao leitor, mas afirmo, são verdadeiras.
Ah, tive que escolher um tema, imaginem, tantas são as variedades de coisas sem-pé-nem-cabeça com que um se depara. Digite 1 para telefone que não fala ou dá choque. Digite 2 para cobranças irregulares ou fones explosivos. Digite 3 para serviço porco ou namoro com a secretária eletrônica. Era algo assim. Uma lista a perder de ouvido. Escolhi comunicação por torpedo.
Biluzão e Biluzinho, dois ladrões pé de chinelo, mas que tinham ares de mafiosos da Cosa Nostra – sem a inteligência e a maldade daqueles –, viviam fazendo planos mirabolantes. A ideia era um roubo definitivo e a aposentadoria. Entre um furto, um conto do vigário, viram no jornal que a moda era roubar caixa eletrônico. Biluzão, o cérebro, montou um plano infalível. Contrataram dois a toas iguais a eles e foram ao ato.
Para dar um ar de sofisticação tudo seria combinado via torpedo. Não sabiam eles que aí estava seu calcanhar de Aquiles. Nestas coisas a precisão é tudo, como se sabe. Havia um tempo mínimo entre a passagem da ronda policial e a virada da câmera móvel. De seu posto de observação, Biluzão mandaria o sinal para a ação. A senha era “vai”. Tudo pronto. Patrulha passou, a câmera olhou para o outro lado. Biluzinho e os comparsas esperavam. Biluzão manda a mensagem. Na tela do celular: “Sua mensagem não pôde ser enviada.” Droga, eu botei crédito! Um não pode nem confiar na operadora Ai para fazer seu trabalho.
Enquanto isso, Biluzinho aguarda. Dez minutos depois, no celular de Biluzão: “Sua mensagem foi enviada com sucesso”. Era uma ironia. Biluzinho sai em desabalada e mal começa a arrancar o caixa, a patrulha volta e os pega.
O casal brigou. O motivo foi uma destas coisas mesquinhas que se cultiva de vez em quando. Desta vez, porém, havia um ar de definitivo. A mulher se recusava a ir embora para outro lugar onde se casariam e viveriam. Se eu entrar naquele avião nunca mais terá volta, disse o namorado e saiu. Pode ir, disse a mulher dando de ombros. Os minutos foram passando e uma angústia terrível se instalou nela. Arrependimento. Burra, dizia, um cara como Beflágio vai ser difícil encontrar. Mas não queria dar o braço a torcer. Orgulho, certamente. Mando um torpedo, se ele não responder, pelo menos não passo vergonha, pensou. Bé – assim ela o chamava quando queria acarinhá-lo – não vai, eu quero você.
Segundos depois a mensagem maldita da Escuro: “Sua mensagem não pôde ser enviada”. O voo era às 14h. Às 14:23 outra mensagem na tela. “Sua mensagem foi enviada com sucesso”. Bé nem recebeu porque já estava a nove mil pés de altura, por coincidência, sentado ao lado de uma bela morena que, pela conversa, prometia.
A chave só deve ser ligada quando eu mandar, disse o chefe da obra. Vamos combinar. Eu mando um torpedo com a palavra “liga”. Assim de simples. Perfeito chefe. Olha lá, hein! Faltou combinar com o serviço de telefonia móvel da Tum.
O cabo que alimentava o parque de diversões apresentou um defeito justo na hora em que centenas de pessoas usavam os brinquedos. Uma parte dos operários retirariam as pessoas que estivessem mais à mão. Os outros tentariam o conserto do cabo. E o trabalho do Zé era esperar a ordem e ligar a chave geral.
Os enganchados na roda gigante, montanha russa e qualquer outra coisa que deixasse as pessoas nas alturas ficariam para quando a energia fosse restabelecida.
O cabo foi consertado. O chefe manda a mensagem para o Zé: “liga”. Ato contínuo a tela se ilumina com uma contramensagem: “Não foi possível enviar sua mensagem”. O chefe se exaspera. Todos esperavam que o Zé ligasse a chave. O chefe até berrou, mas Zé, com fone de ouvidos, ouvia à toda uma destas músicas bate estaca.
Cansados de esperar a equipe de resgate volta a retirar as pessoas que estavam mais aflitas. Então, o celular do chefe recebe a boa notícia: “Sua mensagem foi enviada com sucesso”. Zé liga a chave, os brinquedos rodam. Enquanto despencam pedaços de gente trucidados pelas engrenagens, Zé, satisfeito com seu trabalho, balança o esqueleto.

domingo, 15 de novembro de 2009

Paixão virtual é uma roubada

Uma mulher no norte da França foi presa por ter "sequestrado" em sua casa um homem que ela conheceu em um site na internet e que se recusou a ter relações sexuais com ela, após tê-la encontrado pessoalmente.
Eles se conheceram no site Yes! Messenger, com forte conotação sexual, que promete "encontros rápidos, tórridos e sem complexos", informa nesta terça-feira o jornal Le Parisien.
Fonte: De Paris para a BBC Brasil
Agenor é um solteirão convicto. Nem sempre foi assim. Ele não diz, mas quem o conhece conta que esta decisão quase religiosa, é fruto de uma decepção amorosa na juventude. Não que ele seja um eunuco, ao contrário. Sem namorada fixa, Agenor faz o que tem que fazer. Bem, vocês podem imaginar, as opções são quase infinitas. E ele trata do assunto apenas como necessidade fisiológica. Se alguém diz que é meio animalesco, ele dá de ombros.
A descoberta da internete mudou a vida de Agenor. Se as opções eram muitas para aquilo, vocês sabem o quê, agora se elevou aos píncaros. Feio, assim, desproporcionado, ele não é, embora precise vestir-se melhor e fazer a barba com mais frequência, além de não esquecer o desodorante. Lapsos, sem dúvida.
Gasta as noites fuçando por muitos saites e, se bate a necessidade, descamba para chats impróprios para menores. Entre uma conversa picante e outra, sempre descola um sexo virtual. Taí uma coisa incrível neste mundo de bits, um pode ser o que quiser, de Brad Pitt pra frente, tudo é possível. Quem se importa?
Apesar de sua decisão irretratável e irrenunciável, como diria o Mercadante, ninguém está imune às armadilhas do amor. Agenor conheceu uma tal Arlinda. O nome já dizia muito, mas ela era muuuuuito mais que isso, pelo menos, perguntada indiscretamente sobre suas medidas – Agenor é um tanto direto –, era coisa de botar qualquer mulata globeleza no chão. Por sua vez, embora não tenha mentido, digamos que suavizou em muito suas qualificações estéticas.
Agenor era só love. Semanas naquilo, até que ela o convidou a ir a seu apartamento. No dia acertado, lá estava Agenor na melhor roupa, um buquê mirrado de flores na mão. Era todo nervosismo. A porta se abre. Você é o Agenor? Sim, Arlinda está? Claro, está lhe esperando. Um momento. Sai a mulher e volta... a mesma, já preparada para matar, fantasiada de mulher maravilha e que logo tratou de desmontar-se.
Agenor teve um sobressalto. Mas, mas... Eu sou a Arlinda. Você é lindo. Agenor estava lívido. Aquilo não era exatamente uma mulher, era qualquer coisa entre um barril flácido e um bode. Sem mais delongas, Arlinda partiu para os finalmente. Agenor tentou se explicar que havia um engano, mas comido de beijos úmidos e doces de muito vinho, estava difícil falar. Sem contar os aprochegos que ela fazia com tal gana que lhe doía a velha escoliose.
Tentou se safar, mas a mulher se atracou que lhe sufocava. Vem cá, Agenor, não seja tímido. Num golpe de sorte, conseguiu safar-se por momento. Tentou sair, mas Arlinda, cambaleante, postou-se como barreira humana à porta. Deu-lhe um ultimato: ele só sairia depois de lhe dar sexo. Foi o tempo para ele ligar para a polícia. Por sorte, uma viatura passava no lugar. Ao ouvir a sirene, Agenor começou a gritar que havia sido sequestrado. A mulher, enfezada e quase possessa, lhe atirava coisas.  Você me iludiu, Agenor. A polícia bateu na porta. Os vizinhos amontoavam-se no corredor. A mulher berrava: daqui ele só sai depois de cumprir sua função de homem.
Sem mais o que fazer, nenhum argumento demoveu Arlinda de sua sanha, arrombaram a porta. A cena era dantesca. Agenor mais amarfanhado que de costume, Arlinda nua implorando por aquilo. Ao ver os policias disse: Agenor, seu safado, por que não disse que teríamos mais gente em nossa festinha?

domingo, 8 de novembro de 2009

Quero ser o Zé do Caixão

O pedreiro Ademir Jorge Gonçalves, 59 anos, foi dado como morto após um acidente na BR-153, em Santo Antônio da Platina (PR), na noite deste domingo (1º). Familiares e amigos reconheceram o corpo no necrotério e o sepultamento foi providenciado como de praxe. O detalhe é que Ademir, conhecido como Tufão, apareceu vivo no próprio velório, às 8h desta segunda-feira (2), feriado de Dia de Finados.

Fonte: O Globo
A história saiu assim, sem mais. Ele me olhou, puxou conversa. O bafo de cachaça quase me fez levantar do lugar, mas não estava bêbado. Certamente era ressaca. E foi assim que começou.
Tem coisa que contando ninguém acredita, mas foi comigo, sim, senhor. Morri e nem sabia. Aqui mesmo neste bar vieram me dizer que minha família estava no meu velório. Eu tinha saído de casa uns dois dias antes. Briga de marido e mulher. Eu queria dar uma lição na Cotinha. Aquela mulher quando tira pra atazanar um...
Pois olhe, como eu dizia, estava aqui mesmo. Chega Borracha e me diz: Tufão, corre lá na tua casa que vão te enterrar. Olhe, aquilo me deu uma tristura que só vendo. Perguntei. Como é que eu vou ser enterrado Borracha, se tô aqui bebendo minha pinguinha? Não sei. Só sei que tu morreu e teu povo vai te enterrar. Corre que se não te enterram antes de tu chegar lá.
Ô moço, aquilo num era notícia que se dê. Corri lá pra casa, fui tirar a história a limpo. De longe se ouvia o berreiro. Cá comigo, agora penso que era só agá. Ô povo sem coração, esse meu! Cheguei lá desacorçoado. E o senhor acredita que entrei e ninguém me reconheceu? Estavam mais satisfeitos comigo, lá, morto. Só minha sobrinha me reconheceu: é o tio Tufão! E o povo olhando pra dentro do caixão. E eu: sou eu gente, tô morto não. Minha mãe, coitada, teve um passamento. A diaba da Cotinha, o senhor acredita, nem uma lágrima.
O fuzuê foi grande. Teve gente que correu com medo. Eu tava parecendo uma visagem, mesmo. Perguntei. Como foi que eu morri, gente? Disseram que fui atropelado. E o senhor acredita que eles me reconheceram no necrotério? Atestaram e assinaram, sim, senhor. Foi assim que me disse seu Honorato da funerária. Como é que ele ia saber que o morto num era eu se minha própria família disse que era? Meus irmãos, meus sobrinhos, me desconheceram. Teve parente que teimou comigo que eu não era eu. A Cotinha eu até entendo. Mas minha família?
O pior o senhor não sabe. Sei lá porquê, pra num guardar lembrança do morto que era eu, tocaram fogo no meu colchão e nas minhas roupas. Disseram que agoura guardar as coisas do morto. Tô só com a roupa do corpo.
De qualquer maneira, esclarecido o caso, fomos pra casa. Seu Honorato da funerária quis saber quem ia pagar o enterro. Queria que eu pagasse. Como? Pergunto ao senhor. Disse ele que serviu chá, café, bolacha durante 24 horas. Sem contar o caixão. Velaram isso tudo? Duvido. Ora, mas eu não morri e nem inventei que tinha morrido. Disse a ele que se entendesse com o morto de verdade ou então que cobrasse de quem disse que eu morri, num tô certo? Aliás, ninguém sabia quem era o desinfeliz do morto.
A polícia quis saber o motivo da confusão do reconhecimento. Mas o delegado logo entendeu que minha família era um bando sem eira nem beira. Descobriram que o morto tinha nome e família e era da cidade vizinha aqui perto. E o senhor pensa que pagaram seu Honorato? Nada. O coitado engoliu o prejuízo. Pra mais de mil reais, dizia toda hora. Mas pelo menos entendeu que eu não tinha que pagar. Se estou vivinho da silva, o serviço não me serviu.
Mas o senhor sabe o que dói mais neste caso? Não se faz mais velório como antigamente. É tudo ligeiro. No meu tinha choro, mas pouco. Eu fui um defunto de pouco choro, essa é que a verdade, por aí o senhor tira. Fora isso, num tenho mais sossego, toda hora tem um querendo saber a história e não gosto nada deste apelido de morto-vivo. Já que tô famoso, preferia Zé do Caixão, é mais importante, né não?

sábado, 7 de novembro de 2009

Estudante expulsa da universidade



Nem bem postei o texto abaixo e deparei-me com a notícia de que a garota da minissaia foi expulsa pela universidade que frequentava. A diretoria alega que a moça sempre se vestia de forma não apropriada, apresentava comportamento incompatível com o ambiente universitário - a ser explicado o que seja "comportamento incompatível" - e gostava de provocar os rapazes com andares e cruzadas de pernas pra lá de provocantes. Além disso, alega a universidade, no dia do tumulto, a moça, supostamente, levantou a já diminuta minissaia de modo que se podia ver suas partes íntimas, sem contar que entrou em sala de aula que não era sua, pois, segundo consta, queria conhecer um rapaz que estava interessado nela.
Postas as razões da universidade, fica ainda o espanto diante da reação dos alunos que, por pouco, não atacaram fisicamente a moça. Permanece mal explicado como é que alguém, conforme foram expostas as razões da universidade, tem comportamento não recomendado durante todo um tempo sem que nenhuma medida tenha sido tomada. Ora, se a moça perturbava a tal ponto os rapazes, talvez impedindo até que aprendessem, ou ainda atrapalhava as aulas com suas performances sensuais, é responsabilidade da instituição de ensino conter este tipo de abuso. 
A emenda agora parece pior que o soneto. É mais fácil chutar a mulher para a rua do que repensar o evento que revela e muito do ambiente da universidade e mais ainda das pessoas que ali estudam.


Acima, foto da moça envergando o malfadado vestido.

Entre a minissaia e a Marcha para Jesus

O país inteiro assistiu surpreso ao que aconteceu na Uniban, uma universidade particular em S. Paulo. Uma aluna, Geyse, 20, foi assistir aula com uma microssaia, se assim preferirem. Não se sabe como, a peça de roupa detonou – a palavra aqui tem que evocar algo explosivo – uma onda de fanatismo, intolerância, hostilidade que envolveu, segundo contam, professores, cerca de 700 alunos e até os seguranças da instituição de ensino.
O episódio é revelador do comportamento idiossincrático das pessoas nesta sociedade que se gaba de ser liberal, sem preconceito e outros epítetos com que as pessoas gostam de se intitular. Só para constar. A faculdade referida não faz parte de um complexo religioso fundamentalista. É laica, dizem.
A sociologia e a psicologia explicam. Como uma manada estourada, não há mais razão porque correm, nem para onde, apenas correm. Há um efeito tipo “siga o líder”. Um véu se instala no centro de processamento do raciocínio e de escolhas, os lobos frontais. Uma afirmação dita ganha peso de verdade incontestável, faz todo sentido naquela circunstância, daí para a ação pertinente, violenta ou não, é um pulo.
A notícia circulou rapidamente e logo todos acreditavam que a minissaia era, sim, uma das maiores afrontas morais, sexuais, um atentado à dignidade humana, feita às pessoas naquele lugar. Os nossos preconceitos, por mais descolados que sejamos, estão todos debaixo do rabo. Aqui numa alusão à nossa condição primitiva. A todo o momento pedem para sair, mas as convenções sociais, morais, educacionais, nos impedem, se temos tempo suficiente para pensar. Do contrário, um centro de ensino superior, lugar do cultivo de coisas elevadas, se torna num piscar de olhos, em algo próximo de um campo de reeducação chinesa, um gulag ou, no limite, num campo de concentração.
Pensar o contrário da turba exige uma quantidade de energia incomensurável. Pede esforço hercúleo. Subjaz a este tipo de oposição, crescimento pessoal, firmeza de caráter e opinião, espiritualidade sensível, empatia pelo outro, coisa de cultivo pessoal ao longo de anos e nem isso garante nada. A história está cheia de casos assim, cujo exemplo mais eloquente e verdadeiro laboratório é a Alemanha no período do 3º Reich. Toda a sociedade foi colocada em cheque. A igreja cantava Glória a Deus sob o manto do estandarte nazista. A maioria absoluta delegou a outros sua capacidade de pensar, julgar, comparar e escolher. Daí porque se ouviu muitas vezes nos tribunais: Eu só fiz o que me mandaram.
Ninguém escreveu melhor sobre isso do que Hannah Arendt. Ela cunhou a frase lapidar: a banalidade do mal. Noutras palavras: o demônio, devidamente maquiado, não é tão feio. Ainda mais se se ganha algo em troca. O filme “Um homem bom” tenta explorar esta vertente que “O Leitor” logra demonstrar de uma forma quase chocante, pois nos coloca o dilema de que a pessoa acusada não sabia ler e era uma simplória.
A despeito da recente Marcha para Jesus, patrocinada pela Igreja Renascer, cujo casal de líderes saiu recentemente de prisões americanas, por tentar entrar no país com dinheiro não declarado, inclusive dentro da Bíblia. O tema da Marcha era a derrubada de gigantes, que seus patrocinadores habilmente manipularam para comparar ao preconceito e perseguição que eles, supostamente, alegam sofrer. Trago este tema à baila porque um estudante da Uniban comparou a turba enlouquecida a, em suas próprias palavras: "Parecia uma igreja evangélica cheia de fanáticos. A hipocrisia era igual." Os promotores da Marcha queriam também combater o que eles julgam ser uma visão distorcida dos evangélicos no país. Parece que precisarão de muito mais que Marchas ufanistas.
Jesus também enfrentou fanáticos de sua própria Uniban judaísta. A turba, composta de jovens e velhos, exigia que ele julgasse uma mulher pega em flagrante adultério. Atirada ao chão, jazia a mulher. Eles, pedras nas mãos. Estavam certos que a lei seria obedecida de forma irrestrita. Quem poderia resistir à Lei sagrada que mandava apedrejar este tipo de escória? Era uma armadilha para Jesus, mas também os carrascos precisavam aquietar suas consciências com a aprovação do Rabi. A Lei era a verdade, mas se vivia tempos estranhos, verdades concorrentes, misticismo, política e religião abraçadas como se fossem irmãs siamesas; dinheiro e venalidade religiosa praticada à luz do dia sob mantos sagrados; ignorância e fanatismo cultivados como escorpiões nos corações das massas sempre prestes a fazer qualquer coisa, bastando que alguém dissesse “isca”.
Os preconceitos e, acrescento, pecados, estão debaixo do rabo, lembram? Precisam que se lhes chamem pelo nome, se lhes exponham para serem exorcizados à luz da verdade. Senhores, quem não tem pecado dentre vós que atire a primeira pedra. Mãos tremeram, lábios crisparam, as pedras foram apertadas com força. Era o impacto do confronto com as palavras de Jesus. O mundo deu uma volta com eles, como um carrossel. Os músculos retesados afrouxaram, as pedras caíram rente ao corpo das mãos inertes. Os pés hesitaram por momento para sair, por vergonha, muitos estavam absortos em seus pecados que lhes vinha à mente como ondas.
Mas eles sempre voltam com suas pecadoras. Acusam, escondem suas misérias sempre lustradas, debaixo de roupas vistosas e cabelos impecavelmente ensebados. Autenticam sua fúria, anônimos na turba. Adoram as luzes dos holofotes, são, diria Judas, recifes submersos à espreita de navios desavisados. Agora já não acusam tanto, porque alargaram a porta e pecador é só aquele que não lhe presta culto, de preferência em forma de dinheiro.