sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O banheiro unissex ou o WC mistão revolucionário

Leilane Neubarth é uma das grandes apresentadoras de telejornais no Brasil. Trabalha como âncora da edição das 18, na Globo News. Nesta sexta-feira, constrangida, não era para menos, apresentou uma notícia em que um sujeito atacou uma idosa de 83 anos para roubá-la. Uma câmera captou toda a violência e ela alertou aos espectadores sobre as cenas fortes que seriam mostradas. O mal-estar da apresentadora era visível. As cenas que em dado momento são congeladas, faziam jus ao desconforto da jornalista e ao de quem certamente, como eu, viu as imagens chocantes.
Então, em seguida, ela começa dizendo: agora vamos para uma notícia, (hesitou em busca de palavras) eu diria assim, moderna, nova e boa. Às vezes a gente consegue ver que o país está andando pra frente. Corta.
Não pensei nada em especial, mas aguardei o anúncio de uma tecnologia inovadora, uma medida do governo que facilitasse um pouco a vida das pessoas, sei lá, haveria muitas possibilidades. Mas a notícia extraordinária que, segundo a apresentadora “mostra que o país está andando pra frente” era, pasmem, um banheiro unissex instalado de forma revolucionária, incrível, pioneira, inédita nas dependências de uma faculdade.
A unidade da PUC em Perdizes, São Paulo, depois de uma reforma estrutural no prédio, uma comissão teve a ideia genial de criar este espaço democrático para o xixi e cocô.  A repórter que foi cobrir o banheiro diz pateticamente: estou em frente ao banheiro e a única diferença que tem é a mulher e homem... E lamenta: de 35 banheiros que tem na PUC só um é unissex.
De fato, os dois símbolos era de um homem e de uma mulher o que me deixou boquiaberto que não tenham inventado um símbolo igualmente dúbio, afinal estaria mais apropriado para este espaço misto.   
Entra a reitora. A mulher é pura satisfação. Regozija-se ante tamanho feito de sua gerência pedagógico-administrativa. Ou era satisfação por estar na Globo? Olha que uma reitora se prestar para dar entrevista sobre um banheiro unissex é de lascar!!
A repórter pergunta como surgiu a ideia. A reitora diz que é uma ideia que “corre o mundo” (Uau!!). Tem nos EUA, na Europa... Talvez seja a isso que a Leilane se referia de um país que “anda pra frente”. O banheiro unissex da PUC nos empurra em direção ao moderno e novo dos países do primeiro mundo! Putz!!! E esse tempo todo a gente sem saber que era tão simples.
Câmera na reitora. Blá, blá, blá, então resolvemos que deveria ter um banheiro que homens e mulheres pudessem usá-lo indistintamente e todos que se sentissem à vontade para usar este banheiro que não discrimina as pessoas pelo sexo de nascimento.
A imbecilidade humana não tem limite. Então os banheirinhos todos, coitados, que separam os pintos das perseguidas, prática que a civilidade criou para conforto e higiene adequada de ambos sexos, são uns discriminadores das pessoas pelo seu sexo de nascença? Eu morreria e não saberia que estes insuspeitos ambientes para alívio das necessidades fisiológicas são contumazes discriminadores. Ainda bem que a reitora nos consolou, nós os outros que gostamos de ir ao banheiro cada qual em seu quadrado, na PUC de Perdizes as pessoas poderiam usar os outros banheiros separados por sexo. Ufa, que alívio. Sem trocadilho.
A repórter indaga sobre uma suposta polêmica nas redes sociais. A reitora diz que na universidade a notícia do banheiro foi recebida como muita naturalidade. Claro, é um lugar moderno! Aí ela cita uma quantidade enorme de gente que apoiou o banheiro mistão e quem não gostou não era da comunidade universitária. Ah, bom! E você aí que não entendia porque é que o Brasil não dá certo, né?

sábado, 29 de julho de 2017

O princípio da insignificância

É mais uma das milhares de histórias fakes que enchem a internet diariamente e a agora, o whatsapp. O título da notícia “perdeu playboy, tá liberado para o roubo de celulares” causou grande celeuma e revolta, eu incluído.
Decisão do STF, que adora legislar ante a anomia do legislativo-bandido, determinaria doravante que roubos de celulares no valor de até R$500 não daria cadeia, ainda que o meliante fosse pego em flagrante.
O UOL (28/07/2017) resolveu investigar o que tinha de verdade nesta escandalosa notícia. Bem, a coisa não era assim. Então, que aconteceu? Um caso de furto se arrastava pelos meandros do judiciário. Um sujeito furtara um celular que teria custado “apenas” R$90 e fora absolvido pelo Tribunal de Minas Gerais baseado num tal “princípio da insignificância”.
Uma explicação de minha professora advogada particular define que o princípio aludido deve ser empregado nas seguintes circunstâncias: ausência de periculosidade; mínima ofensividade da conduta; reduzido grau de reprovabilidade e inexpressividade da lesão jurídica. Talvez você não entenda estes termos, mas tem que ver com baixo valor do objeto furtado, nenhum dano físico à pessoa furtada (e o dano psicológico???) e para a lei não representar gravidade na conduta.
Voltando. Depois de idas e vindas, condenações e liberações do ladrão, o caso chegou, absurdamente, ao STF!!! Entra em cena o Ricardo Lewandovski, aquele que se o Joaquim Barbosa não tivesse peitado, não haveria uma miserável condenação no Mensalão.
Pois esse ministro decidiu: “Ante a inexpressiva ofensa ao bem jurídico protegido e a desproporcionalidade da aplicação da lei penal ao caso concreto, deve ser reconhecida a tipicidade da conduta. Possibilidade da aplicação do princípio da insignificância.”
Trocando em miúdos. O Ministro liberou o bandido acobertado pelo famigerado princípio. O grande detalhe desta história é que, vá lá, e evocação do princípio deve ser para beneficiar um ladrão réu primário. NÃO se aplicava ao trambiqueiro em questão, posto que era praticante profissional de furto.
A pergunta, neste caso, é: o valor de R$90 é insignificante para quem? Um trabalhador que ganha um salário mínimo seria tungado em 10% de seu salário, o que certamente faria muita falta caso ele tivesse que comprar outro aparelho. Evidente que para um sujeito como o Lewandovski este valor é, sim, insignificante. Mas suponhamos que o furtado não fosse pobre, o que certamente leva à questão de que, possivelmente, não teria um celular de R$90. Mas que fosse. E o dano psicológico? Ou alguém ignora que o brasileiro urbano vive permanentemente num nível de estado de alerta altíssimo, o que leva ao estrese e ansiedade com a (in)segurança pública?
Será que o tal ministro já foi furtado ou roubado? Como se sentiu? A sensação de impotência, o medo, o desamparo, a condição comportamental de tensão ao andar na rua, será que já sentiu? Duvido.
Outra questão importante. A mensagem que uma decisão dessa passa é que o crime, sim, compensa. Bem, todos sabemos, mesmo com a Lava Jato, o crime compensa no Brasil. Os dedos-duros, às dezenas, roubaram tanto que, mesmo devolvendo milhões, terão ainda dinheiro para duas ou três vidas nababescas.
Do ladrão de galinhas ao mega ladrão tipo Sérgio Cabral e a gang do PT, verão nessa decisão infeliz uma mensagem: roubemos que a gente vai se dar bem. Ao cidadão comum que trabalha duro, acorda cedo, sustenta a família, paga impostos escorchantes, suporta a inflação, sofre com o desemprego, a falta de saúde e educação, anda em ruas esburacadas e às escuras, é roubado e furtado pelos ladrões profissionais, quando não agredido ou morto, a este cidadão a mensagem é: vocês são um bando de idiotas!!!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Cativar e se tornar responsável... tô fora!

O pequeno príncipe de Antoine de Saint-Exupéry é uma das obras mais traduzidas do mundo – mais de 250 traduções. Até o ano passado havia vendido um número superior a 140 milhões de exemplares. Um feito grandioso para um livro que ao longo de seus setenta e quatro anos tem fascinado muitas gerações.
Algumas de suas frases têm sido repetidas e citadas um sem número de vezes nas mais diversas situações. Uma delas tornou-se um clássico: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. A fala é dita pela raposa. Ela explica que cativar é fazer com alguém se torne distinto e especial para nós. Cativar, segundo a raposa, é tornar alguém especial para si e ser o mesmo para o outro. O aforismo fecha diálogo.
A frase me veio à mente quase que automaticamente. Não recordo o que me fez relembrá-la. Algo deu um estalo em mim. Um incômodo. Como se ao ouvir uma música conhecida percebesse uma nota dissonante, ouvisse o cantor desafinar. O que seria?
Aviso, não sou do contra. A frase tem seu valor, mas... a responsabilidade que evoca está bem para além do razoável. Confesso que tentei salvar a frase para mim mesmo. Mas os senões se multiplicavam em minha cabeça. Ser responsável é se importar?
A maioria das pessoas entende o “aquilo” como outra pessoa, afinal uma cadeira ou um planetinha não pode ser cativado, o contexto do diálogo reforça a ideia. Então, ao cativar, encantar, seduzir, maravilhar alguém – não encantá-la no sentido de enfeitiçar –, você se torna responsável por mantê-la com a mesma opinião sobre você? Lembrando Raul. E se eu quiser dizer (ou fazer) o oposto do que eu disse (ou fiz) antes? Estarei amarrado à responsabilidade de conservar o outro ainda encantado comigo? Isso não cheira a uma armadilha?
A palavra “eternamente”, percebi, me dá urticária. Sim, eu dou o desconto da licença poética, mas continuo achando-a muito pesada para criaturas datadas e cheias de finitude como nós. O que quer dizer “responsável” na frase? Parece não haver saída que não admitir seu significado direto: alguém que é capaz de responder por seus próprios atos ou pelas ações de outras pessoas.
Responder por si, mesmo quando se quer desdizer o que se disse antes, é um belo desafio e um símbolo de autonomia e certa liberdade íntima. Ser responsável pelo o que os outros fazem, nem com procuração! É um peso grande demais.
Talvez Exupéry quisesse dizer que quando cativamos alguém, irmanamo-nos com ela. Essa quase identificação sugere mais uma responsabilidade nossa que do cativado. Ou queria dizer que devemos ser responsáveis por aquilo que fazemos e dizemos, pois cada um teria o poder de influenciar os outros. Imagine usar este poder para cativar pessoas e levá-las para o mau caminho. Por que elas iriam? Por que são criaturas de mentes simples e sem referencial. Talvez carentes como a raposa que está cansada da vida monótona que leva.
Haveria diferença entre cativar de propósito, donde a palavra seduzir estaria mais adequada, e cativar pelo jeito de ser, pelo carisma pessoal? O primeiro pode conduzir a um tipo de dominação, carrega uma intencionalidade nem sempre honesta. O segundo seria espontâneo, pois o cativado foi atraído porque nele mesmo já estaria a identificação com quem o cativou.
Você pode aceitar a frase sem prensar em suas sutis implicações, seus pedidos de explicação ou repensá-la assim: Sou responsável por aqueles que cativo, mas sou livre e os deixo livres para partir e buscarem outros encantos onde desejarem e não tenho obrigação de satisfazê-los em suas expectativas sobre mim. Sei, perdeu a poesia, encardiu-se de realidade, diminuiu o efeito encantador, talvez porque em plena guerra, Exupéry quisesse apenas que seus leitores sonhassem um pouco, a realidade era cruel demais para aguentar. Talvez ainda seja. 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

"No" ofenda a ninguém

“No ofenda a ninguém” Ignoro se a frase era uma tradução ruim do espanhol ou se foi um erro que os danados destes corretores costumam fazer nos pregando peças.
Era um videozinho destes que se distribui pelo whatsapp e – você pode ver aqui nesta postagem –, convenhamos, enchem a paciência com suas mensagens açucaradas de autoajuda.
Acontece que este tinha um quê de recomendações pseudofilosóficas e subpsicológicas com as quais a maioria das pessoas concorda sem pensar. O vídeo contém aquele tipo de afirmação que se pretende um tipo de verdade autoexplicativa. Discordar do que diz é caminhar sob os cenhos franzidos de reprovação das pessoas.
Mas vamos lá! O “no ofenda a ninguém” está ok, mas isto é o título. O problema está na frase que explica porque “no” se deve ofender o próximo. Neste primeiro, a razão dada é porque há pessoas que não podem falar e não podem se defender. Como? Não “falo” Libras, mas sei que se pode falar e muito, inclusive xingar, por suposto, se defender. Não se deve ofender, porque devemos respeitar quem quer que seja. Ponto.
O segundo quadro não melhora. “não reclame do gosto da comida”. A razão? Algumas pessoas não tem nada para comer. Como assim? A comida tá um grude, coma? A comida queimou, coma? No máximo não reclamo por constrangimento, a famosa vergonha alheia, só!
Adiante. “não reclame de seu companheiro” e conclui de forma fantástica: alguém enterrou seu companheiro ontem. É o cúmulo! Milhões enterraram alguém seu ontem, hoje e vão enterrar amanhã. O que isso tem a ver com reclamar de um preguiçoso, irresponsável e desleal...? 
A bobagem segue. “não reclame de sua casa: algumas pessoas não têm onde dormir.” Outra vez milhões estão nesta condição. É uma tragédia, sem dúvida, mas não tem relação com reclamar da goteira ou meramente desejar uma casa maior porque a sua está pequena para suas necessidades.
Agora uma punhalada na lógica. “não reclame de seus filhos: algumas pessoas nunca poderão ser pais.” Pois que adotem! Não discipline seu filho, não dê a ele regras e normas de educação com peninha porque ao fazê-lo, se lembrará que existe um monte por aí que não tem filhos. Eles continuarão sem filhos e você, com sorte, com um mandrião dependente; com azar, com um bandido para visitar no presídio.
Esta é para você, aposto. “Não reclame de seu trabalho: algumas pessoas lutam para encontrar um.” Este é o cúmulo da idiotice. Acorda! No Brasil são doze milhões de desempregados. Ter um pouco de ambição e desejar crescer profissionalmente não fere a condição catastrófica do desempregado. Trabalhe com responsabilidade, mas reclame se lhe exploram, se lhe assediam moral ou sexualmente, se lhe dão condições desastrosas para cumprir suas tarefas. Que coisa!
E com essa eu concordo: “não amaldiçoe a sua vida...” a conclusão ou a razão para não fazê-lo, no entanto, é ridícula. “algumas pessoas são jovens e tem doenças incuráveis.” É triste, sim, mas não se deve se autoamaldiçoar porque é melhor amarmo-nos a nós mesmos, não de forma narcisista, autocentrada, mas porque devemos cuidar de nós mesmos, pois quem não se ama, possivelmente, está em depressão severa ou tem outro transtorno mental. Quem não se ama precisa de terapia e um psiquiatra e não pode amar aos outros.
Uma coisa desta fede a socialismo bolivariano. Não é tolerância, é coitadismo. Não é respeito pelo outro, é um tipo de glorificação da miséria. É um igualitarismo doentio. Desrespeita as diferenças que a vida impõe e a de cada um. Podemos ser solidários, empáticos, compassivos, o videozinho estimula a pena pelos outros que é o mesmo que anulá-las. Pior, nos anula junto.
Enfim, detesto estas coisinhas que são distribuídas como se fossem o suprassumo da sabedoria pratica para a vida e não passam de tolice rematada que vai devorar a memória do celular. Eu deleto tudo.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Cidadão Ilustre

A frase emblemática neste filme é: Meus personagens não conseguem sair de Salas e eu nunca consegui voltar. Salas é a cidade de nascimento do personagem Daniel Mantovani (Oscar Martinez) que fez também Contos Selvagens, mas agora como personagem principal no filme Cidadão Ilustre.
Mantovani saiu de sua pequena cidade aos dezessete anos. Tornou-se um cidadão do mundo. Quarenta anos depois ele é um escritor premiado com o Nobel, está em crise criativa e, em vez de estar aproveitando os louros de tão grande realização, ele está deprimido.
Apesar da distinção que imortaliza a obra de um artista, ele percebe o prêmio como uma declaração de sua morte criativa. É o topo, daí para frente mais nada. Ele foi aceito, ele foi cooptado pelo estamento que diz que esta obra é boa e aquela outra não merece vencer.
O momento pós Nobel se torna um frenesi de convites e prêmios secundários, festas, Feiras de Internacionais de Livros, reconhecimento, ele recusa todos, pois é como se sua vida tivesse sido sequestrada. Mas entre as cartas de convites diversos, ele recebe uma de sua pequena de insignificante Salas. Recusa de imediato com um riso que expressa o absurdo que seria ir a até aquele lugarejo para receber o título de cidadão salense, inauguração de um busto e participar extensa programação cultural.
Eis o mote do roteiro que, de novo, dá de dez a zero no lixo filmográfico nacional que, cevados pelas burras públicas, continuam sugando o dinheiro suado do contribuinte para produzir irrelevâncias. O cinema nacional oscila entre o humor sem criatividade, pastelão e os pretensos filmes políticos, para defender posições de esquerda, e torná-lo mera propaganda das ridículas posições políticas de seus atores e diretor, veja-se o descartável Aquarius com Sonia Braga e trupe desqualificando o país nas amostras internacionais de que participaram gritando “Fora Temer” como se fossem estudantes desajuizados. Um detalhe, as viagens pagas com dinheiro público. Não é à toa que essa gente vive defendendo cotas nas grades das redes de cinema e tv para os filmes nacionais, ninguém quer ver, então eles se obrigam a serem vistos.
Num rompante, Mantonvani decide aceitar o convite da Prefeitura salense. Fantasmas do passado foram acordados e eles virão requerer seu direito de continuarem vivos. A namorada que deixou para trás, amigos, gente que ele nem conhece, com suas mentes prisioneiras de um jeito simplório de viver, com seus horizontes toscos, transformarão a estadia do escritor num inferno.
Eles estavam e pertenciam a dois mundos que não se tocavam. Um imerso num absurdo o outro vendo a vida de uma maior amplitude. Mantovani se coloca como ele é e no que acredita, mas, constrangido, negocia seus valores para se adequar aos primitivos habitantes do lugar. É claro que esta receita não funciona. Ele jamais será daquele lugar e eles, possivelmente, jamais conseguirão sair dali.
O filme é magistralmente bem dirigido, os atores dão um show, a história muito bem contada e talvez nos diga que reconhecer-se naquilo que se é, com pouquíssimas concessões, é nossa forma de ser inteiros e viver uma vida mais livre, pois não nos cabe tornar os outros no que somos e jamais aceitar nos mimetizar neles sem perder nossa essência, se você a tiver.

domingo, 28 de maio de 2017

Negação


“Na guerra, a primeira vítima é a verdade.” Não deve soar entranho, então, que até a guerra precise de regra. Depois da Primeira Guerra Mundial vários acordos internacionais tentaram estabelecer ordem na selvageria, o problema é que, como no caso recente da Síria, em que mais de uma vez gás venenoso foi usado contra a população indefesa, seguir uma regra é uma questão de caráter e escolha pessoal. As leis internacionais preveem punições, mas neste mundo multipolar em que um assassino como Assad escapa com a proteção da Rússia, pode-se virtualmente tudo.
Este parágrafo é apenas para ilustrar o que o livro “Negação” explora. A obra virou filme em 2005. Os judeus têm sido, ao longo dos séculos, saco de pancada verbal, ideológico ou real de muita gente e países. Os dentes dos racistas e antissemitas continuam afiados, mas exploram outras áreas.
Os “Protocolos dos Sábios de Sião” foram desmascarados e é, virtualmente, insustentável hoje usá-los como prova de que está ou esteve em curso uma trama judaica para dominar o mundo. Mas, conquanto tolices como essas sejam repetidas, haverá sempre um público ignorante consumidor novo, como o barbeiro com quem corto o cabelo de vez em quando que mistura Iluminatis, cristianismo apocalíptico – o anticristo incluído – e a velha trama da dominação judaica que, segundo ele, é dona do banco central brasileiro e de todos os outros segundo sua fonte. Ele não é louco, antes que alguém ria disso. 
Durante alguns anos proliferou no mundo acadêmico na área historiográfica várias versões históricas sobre o Holocausto. Entre elas uma que ficou conhecida como Negacionista. Isto porque o grupo de acadêmicos que, por desonestidade intelectual ou antissemitismo, quando não as duas coisas juntas, defendiam que o extermínio judeu pelos nazistas não passou de ficção. Se muito, admitiam que morreram poucos e não por uma política deliberada dos nazistas.
A história do livro relata que um dos mais notórios negacionistas, o inglês David Irving, estrela acadêmica, agressivo contendor, cujos livros vendiam milhares de cópias entre o público racista e antissemita e também entre aqueles que eram meros curiosos, resolveu processar Debora Lipstadt por causa de sua obra “Um estudo acadêmico sobre o negacionismo do Holocausto”. Em seu livro ela apontava Irving como um partidário de Hitler. Um escritor que manipulava e distorcia documentos históricos, omitia evidências contrárias às suas teses. Irving ganhava muito dinheiro com livros e palestras disseminando suas teses nos EUA e Europa. Por esta razão sentiu-se lesado em sua honra como historiador de reputação mundial e isto o levou ao pedido de reparação por danos à sua imagem, por calúnia e difamação.
O mais nosense dessa história é que, a despeito de Lipstadt ter feito um trabalho irretocável do ponto de vista histórico e usando seu direito à liberdade de expressão, em seu país, os EUA, ela possivelmente não seria processada. Mas como a editora inglesa, Penguim, publicou o livro na Inglaterra, ela foi sujeita a um sistema jurídico em que o acusado é que deve provar sua inocência e não o acusador deve provar que foi lesado.
O livro conta uma batalha jurídica emocionante. Uma saga que uniu pessoas em três continentes em favor da verdade. A equipe realizou uma epopeia de pesquisa que custou mais de dois milhões de dólares à acusada, mas que recebeu imensa solidariedade e o pagamento foi realizado com doações de pessoas de vários lugares.
A leitura de Negação é educativa e nos mostra algo aterrador. A verdade, às vezes, não basta a si mesma. Não é óbvia ou evidente por seus próprios méritos, ela precisa de uma guerra em sua defesa. As mentiras de Irving, sua obra nefasta e enganadora, seu cinismo e arrogância, foram expostos de maneira devastadora, mas sua obra, como cabe no ocidente democrático e livre, continua viva, seus livros mesmo agora, possivelmente não editados por editoras sérias, não entraram para um índex ou receberam uma fátua que os destinaram a uma fogueira. Seu veneno potencial está ativo e ao alcance de qualquer um. Eles têm um verniz de seriedade e de pesquisa científica, mas são mentira assim mesmo.
Ler Negação é entender que a mentira pode ser tremendamente convincente, passar anos despercebida como se verdade fosse, ou pelo menos uma versão contrária admissível da verdade mais aceita. Ela continuará sua sanha até que algo se lhe imponha a verdadeira máscara. É o que acontece a David Irving e seus admiradores nesta incrível história. Mas certamente eles ou seus filhotes atingidos no âmago de suas ideias falsas, talvez estejam apenas como esporos, aguardando condições adequadas para germinar outra vez.

sábado, 20 de maio de 2017

Silêncio

(contém spoiler)

Século XVII, Japão feudal. Durante alguns anos a evangelização católica foi bem sucedida. Mas por razões nacionalistas o país, temeroso de uma desvirtuação de seus valores, deu uma guinada severa em sua abertura aos jesuítas que realizavam a implantação do cristianismo e passou a persegui-los e a todos aqueles que demonstrassem a fé cristã publicamente.
Dois jovens jesuítas defendem junto ao seu superior em Portugal, que deveriam ir ao Japão em busca de seu mentor, padre Ferreira, que ali desaparecera depois de ter conseguido algum sucesso como missionário. Em sua última carta havia indícios perturbadores de que algo estava errado. O filme “Silêncio” de Martin Scorcese é um projeto que o Diretor acalentava desde 2002, ano em que lançou o “Gangs de Nova York”.
O elenco principal conta com Andrew Garfield (pe. Sebastião Rodrigues) – fez o homem aranha –, Liam Neeson (pe. Cristovão Ferreira) – dispensa comentários –, e um ator emergente em Hollywood, Adam Driver (Frei Francisco) – fez o neto de Dart Vader em O despertar da força na saga Stars Wars.
Os dois jovens padres viverão uma verdadeira epopeia na busca por seu professor e amigo. Descobrirão que a fé, a despeito da perseguição, resistia nas vilas pobres e nos pequenos grupos escondidos nas montanhas. Seu guia, um sujeito inconfiável, era cristão com uma história pessoal de sofrimento por causa da perseguição religiosa.
Os dois religiosos logo encontram um grupo de cristãos que os recebem com grande alegria. Durante algum tempo, em quanto se aclimatam e entendem aquele país tão diferente, experimentam as perseguições e mortes cruéis a que são submetidos aqueles que se negam a deixar a fé cristã.
Todo este sofrimento vai num crescendo. A busca pelo amigo desaparecido de quem se ouve alguma outra esparsa notícia, mas nada palpável. O homem que os ajudou a entrar clandestinos, fora cristão, volta-se para fé novamente. Pede batismo, mas numa alusão à traição sofrida pelo próprio Cristo, pe. Rodrigues será traído por ele várias vezes, sempre por dinheiro, e logo após o arrependimento e em cada vez o padre o perdoará.
Em torturas diversas, psicológicas e físicas, pe. Rodrigues será levado ao limite de sua fé. Verá a morte de várias de suas ovelhas, resistindo em sua fé a Jesus. Seu torturador não demonstra raiva, apenas deseja que ele renegue a fé. Pisar na imagem do Cristo crucificado é uma das formas de demonstrar sua negação.
Ele se volta para Deus, pede socorro, mas os céus estão em silêncio. Ele sucumbirá para salvar os que criam. Verá seu amigo morrer para salvar uma garota. Sua alma será dilacerada em seus últimos recursos.
Por fim, encontra o que fora seu amigo, confessor e mestre. Tornara-se um japonês. Foi lhe dada uma mulher. Aqui aparecem as sutilezas. Aquele que homem que fala como se tivesse repudiado a fé cristã, parece guardá-la em algum lugar de si mesmo.
Pe. Rodrigues seguirá o mesmo caminho. Igualmente, como parte da cultura local, ele receberá uma mulher que enviuvara. Ele seguirá os rituais que lhe imporão. Negará a fé repetidas vezes para satisfazer aos seus captores pisando a imagem do Cristo crucificado. Ele sabe agora que aquele ato nada é, quando o Cristo continua vivo dentro dele.
Em sua morte, os rituais externos da religião Xintoísta foram elaborados e milimetricamente obedecidos. Então a surpresa, sua esposa, sua alma íntima que com ele se convertera, sabia que ele calou, mas aquilo que creu jamais se morreu nele. Entre suas mãos, a cruz repousava delicadamente que ela amorosamente colocou.