segunda-feira, 19 de junho de 2017

Cidadão Ilustre

A frase emblemática neste filme é: Meus personagens não conseguem sair de Salas e eu nunca consegui voltar. Salas é a cidade de nascimento do personagem Daniel Mantovani (Oscar Martinez) que fez também Contos Selvagens, mas agora como personagem principal no filme Cidadão Ilustre.
Mantovani saiu de sua pequena cidade aos dezessete anos. Tornou-se um cidadão do mundo. Quarenta anos depois ele é um escritor premiado com o Nobel, está em crise criativa e, em vez de estar aproveitando os louros de tão grande realização, ele está deprimido.
Apesar da distinção que imortaliza a obra de um artista, ele percebe o prêmio como uma declaração de sua morte criativa. É o topo, daí para frente mais nada. Ele foi aceito, ele foi cooptado pelo estamento que diz que esta obra é boa e aquela outra não merece vencer.
O momento pós Nobel se torna um frenesi de convites e prêmios secundários, festas, Feiras de Internacionais de Livros, reconhecimento, ele recusa todos, pois é como se sua vida tivesse sido sequestrada. Mas entre as cartas de convites diversos, ele recebe uma de sua pequena de insignificante Salas. Recusa de imediato com um riso que expressa o absurdo que seria ir a até aquele lugarejo para receber o título de cidadão salense, inauguração de um busto e participar extensa programação cultural.
Eis o mote do roteiro que, de novo, dá de dez a zero no lixo filmográfico nacional que, cevados pelas burras públicas, continuam sugando o dinheiro suado do contribuinte para produzir irrelevâncias. O cinema nacional oscila entre o humor sem criatividade, pastelão e os pretensos filmes políticos, para defender posições de esquerda, e torná-lo mera propaganda das ridículas posições políticas de seus atores e diretor, veja-se o descartável Aquarius com Sonia Braga e trupe desqualificando o país nas amostras internacionais de que participaram gritando “Fora Temer” como se fossem estudantes desajuizados. Um detalhe, as viagens pagas com dinheiro público. Não é à toa que essa gente vive defendendo cotas nas grades das redes de cinema e tv para os filmes nacionais, ninguém quer ver, então eles se obrigam a serem vistos.
Num rompante, Mantonvani decide aceitar o convite da Prefeitura salense. Fantasmas do passado foram acordados e eles virão requerer seu direito de continuarem vivos. A namorada que deixou para trás, amigos, gente que ele nem conhece, com suas mentes prisioneiras de um jeito simplório de viver, com seus horizontes toscos, transformarão a estadia do escritor num inferno.
Eles estavam e pertenciam a dois mundos que não se tocavam. Um imerso num absurdo o outro vendo a vida de uma maior amplitude. Mantovani se coloca como ele é e no que acredita, mas, constrangido, negocia seus valores para se adequar aos primitivos habitantes do lugar. É claro que esta receita não funciona. Ele jamais será daquele lugar e eles, possivelmente, jamais conseguirão sair dali.
O filme é magistralmente bem dirigido, os atores dão um show, a história muito bem contada e talvez nos diga que reconhecer-se naquilo que se é, com pouquíssimas concessões, é nossa forma de ser inteiros e viver uma vida mais livre, pois não nos cabe tornar os outros no que somos e jamais aceitar nos mimetizar neles sem perder nossa essência, se você a tiver.

domingo, 28 de maio de 2017

Negação


“Na guerra, a primeira vítima é a verdade.” Não deve soar entranho, então, que até a guerra precise de regra. Depois da Primeira Guerra Mundial vários acordos internacionais tentaram estabelecer ordem na selvageria, o problema é que, como no caso recente da Síria, em que mais de uma vez gás venenoso foi usado contra a população indefesa, seguir uma regra é uma questão de caráter e escolha pessoal. As leis internacionais preveem punições, mas neste mundo multipolar em que um assassino como Assad escapa com a proteção da Rússia, pode-se virtualmente tudo.
Este parágrafo é apenas para ilustrar o que o livro “Negação” explora. A obra virou filme em 2005. Os judeus têm sido, ao longo dos séculos, saco de pancada verbal, ideológico ou real de muita gente e países. Os dentes dos racistas e antissemitas continuam afiados, mas exploram outras áreas.
Os “Protocolos dos Sábios de Sião” foram desmascarados e é, virtualmente, insustentável hoje usá-los como prova de que está ou esteve em curso uma trama judaica para dominar o mundo. Mas, conquanto tolices como essas sejam repetidas, haverá sempre um público ignorante consumidor novo, como o barbeiro com quem corto o cabelo de vez em quando que mistura Iluminatis, cristianismo apocalíptico – o anticristo incluído – e a velha trama da dominação judaica que, segundo ele, é dona do banco central brasileiro e de todos os outros segundo sua fonte. Ele não é louco, antes que alguém ria disso. 
Durante alguns anos proliferou no mundo acadêmico na área historiográfica várias versões históricas sobre o Holocausto. Entre elas uma que ficou conhecida como Negacionista. Isto porque o grupo de acadêmicos que, por desonestidade intelectual ou antissemitismo, quando não as duas coisas juntas, defendiam que o extermínio judeu pelos nazistas não passou de ficção. Se muito, admitiam que morreram poucos e não por uma política deliberada dos nazistas.
A história do livro relata que um dos mais notórios negacionistas, o inglês David Irving, estrela acadêmica, agressivo contendor, cujos livros vendiam milhares de cópias entre o público racista e antissemita e também entre aqueles que eram meros curiosos, resolveu processar Debora Lipstadt por causa de sua obra “Um estudo acadêmico sobre o negacionismo do Holocausto”. Em seu livro ela apontava Irving como um partidário de Hitler. Um escritor que manipulava e distorcia documentos históricos, omitia evidências contrárias às suas teses. Irving ganhava muito dinheiro com livros e palestras disseminando suas teses nos EUA e Europa. Por esta razão sentiu-se lesado em sua honra como historiador de reputação mundial e isto o levou ao pedido de reparação por danos à sua imagem, por calúnia e difamação.
O mais nosense dessa história é que, a despeito de Lipstadt ter feito um trabalho irretocável do ponto de vista histórico e usando seu direito à liberdade de expressão, em seu país, os EUA, ela possivelmente não seria processada. Mas como a editora inglesa, Penguim, publicou o livro na Inglaterra, ela foi sujeita a um sistema jurídico em que o acusado é que deve provar sua inocência e não o acusador deve provar que foi lesado.
O livro conta uma batalha jurídica emocionante. Uma saga que uniu pessoas em três continentes em favor da verdade. A equipe realizou uma epopeia de pesquisa que custou mais de dois milhões de dólares à acusada, mas que recebeu imensa solidariedade e o pagamento foi realizado com doações de pessoas de vários lugares.
A leitura de Negação é educativa e nos mostra algo aterrador. A verdade, às vezes, não basta a si mesma. Não é óbvia ou evidente por seus próprios méritos, ela precisa de uma guerra em sua defesa. As mentiras de Irving, sua obra nefasta e enganadora, seu cinismo e arrogância, foram expostos de maneira devastadora, mas sua obra, como cabe no ocidente democrático e livre, continua viva, seus livros mesmo agora, possivelmente não editados por editoras sérias, não entraram para um índex ou receberam uma fátua que os destinaram a uma fogueira. Seu veneno potencial está ativo e ao alcance de qualquer um. Eles têm um verniz de seriedade e de pesquisa científica, mas são mentira assim mesmo.
Ler Negação é entender que a mentira pode ser tremendamente convincente, passar anos despercebida como se verdade fosse, ou pelo menos uma versão contrária admissível da verdade mais aceita. Ela continuará sua sanha até que algo se lhe imponha a verdadeira máscara. É o que acontece a David Irving e seus admiradores nesta incrível história. Mas certamente eles ou seus filhotes atingidos no âmago de suas ideias falsas, talvez estejam apenas como esporos, aguardando condições adequadas para germinar outra vez.

sábado, 20 de maio de 2017

Silêncio

(contém spoiler)

Século XVII, Japão feudal. Durante alguns anos a evangelização católica foi bem sucedida. Mas por razões nacionalistas o país, temeroso de uma desvirtuação de seus valores, deu uma guinada severa em sua abertura aos jesuítas que realizavam a implantação do cristianismo e passou a persegui-los e a todos aqueles que demonstrassem a fé cristã publicamente.
Dois jovens jesuítas defendem junto ao seu superior em Portugal, que deveriam ir ao Japão em busca de seu mentor, padre Ferreira, que ali desaparecera depois de ter conseguido algum sucesso como missionário. Em sua última carta havia indícios perturbadores de que algo estava errado. O filme “Silêncio” de Martin Scorcese é um projeto que o Diretor acalentava desde 2002, ano em que lançou o “Gangs de Nova York”.
O elenco principal conta com Andrew Garfield (pe. Sebastião Rodrigues) – fez o homem aranha –, Liam Neeson (pe. Cristovão Ferreira) – dispensa comentários –, e um ator emergente em Hollywood, Adam Driver (Frei Francisco) – fez o neto de Dart Vader em O despertar da força na saga Stars Wars.
Os dois jovens padres viverão uma verdadeira epopeia na busca por seu professor e amigo. Descobrirão que a fé, a despeito da perseguição, resistia nas vilas pobres e nos pequenos grupos escondidos nas montanhas. Seu guia, um sujeito inconfiável, era cristão com uma história pessoal de sofrimento por causa da perseguição religiosa.
Os dois religiosos logo encontram um grupo de cristãos que os recebem com grande alegria. Durante algum tempo, em quanto se aclimatam e entendem aquele país tão diferente, experimentam as perseguições e mortes cruéis a que são submetidos aqueles que se negam a deixar a fé cristã.
Todo este sofrimento vai num crescendo. A busca pelo amigo desaparecido de quem se ouve alguma outra esparsa notícia, mas nada palpável. O homem que os ajudou a entrar clandestinos, fora cristão, volta-se para fé novamente. Pede batismo, mas numa alusão à traição sofrida pelo próprio Cristo, pe. Rodrigues será traído por ele várias vezes, sempre por dinheiro, e logo após o arrependimento e em cada vez o padre o perdoará.
Em torturas diversas, psicológicas e físicas, pe. Rodrigues será levado ao limite de sua fé. Verá a morte de várias de suas ovelhas, resistindo em sua fé a Jesus. Seu torturador não demonstra raiva, apenas deseja que ele renegue a fé. Pisar na imagem do Cristo crucificado é uma das formas de demonstrar sua negação.
Ele se volta para Deus, pede socorro, mas os céus estão em silêncio. Ele sucumbirá para salvar os que criam. Verá seu amigo morrer para salvar uma garota. Sua alma será dilacerada em seus últimos recursos.
Por fim, encontra o que fora seu amigo, confessor e mestre. Tornara-se um japonês. Foi lhe dada uma mulher. Aqui aparecem as sutilezas. Aquele que homem que fala como se tivesse repudiado a fé cristã, parece guardá-la em algum lugar de si mesmo.
Pe. Rodrigues seguirá o mesmo caminho. Igualmente, como parte da cultura local, ele receberá uma mulher que enviuvara. Ele seguirá os rituais que lhe imporão. Negará a fé repetidas vezes para satisfazer aos seus captores pisando a imagem do Cristo crucificado. Ele sabe agora que aquele ato nada é, quando o Cristo continua vivo dentro dele.
Em sua morte, os rituais externos da religião Xintoísta foram elaborados e milimetricamente obedecidos. Então a surpresa, sua esposa, sua alma íntima que com ele se convertera, sabia que ele calou, mas aquilo que creu jamais se morreu nele. Entre suas mãos, a cruz repousava delicadamente que ela amorosamente colocou.

sábado, 6 de maio de 2017

Mãe de pet também é mãe

Desde os anos 1990 o politicamente correto – que não assola apenas as relações entre as pessoas –, por uma espécie de efeito colateral, invadiu também a cultura, seja religiosa ou mundana. Por exemplo, nos EUA as grandes redes de lojas passaram a adotar a expressão Happy Hollidays para fazer suas campanhas de Natal, em vez do tradicional Merry Christmas que definia com mais exatidão o período da festa cristã. A razão desta insanidade é que a sociedade americana, como ademais toda sociedade democrática, é diversa religiosamente e o fato da loja destacar uma religião em particular estaria, por extensão, discriminando quem era de outra religião. A razão verdadeira é que travestido de respeito à diversidade religiosa, o capital quer vender para o maior número de pessoas e o “feliz feriado” insípido e neutro atrairá qualquer um. O capital não tem preconceito com dinheiro de quem seja, desde que os cofres continuem enchendo.
Pela perspectiva religiosa-cultural, a falácia do raciocínio é chocante. Ainda mais quando é fácil constatar: a sociedade e cultura americanas são definidas fundamentalmente pelo seu cristianismo, especialmente o protestante. Um exemplo? Sem os negro espirituals, não haveria jazz nem blues.
Como é fácil perceber, o que o politicamente correto tenta é dar uma igualdade a todas as coisas, de tal modo que o contraditório, a discordância ou a menor diferença sejam como que extintas e as pessoas, em tese, seriam mais respeitosas umas com as outras. É como se vivêssemos na barbárie, no estado de natureza como afirmou Hobbes, e o politicamente correto nos salvou.
O resultado, porém, é uma sociedade de patrulhadores comportamentais, gente enfatuada, assomada de direitos, e os demais pisando em ovos por puro medo de falar algo inoportuno e que ferirá, certamente, alguma minoria que eles sequer conhecem. Outro efeito que percebo é a infantilização das pessoas que, incapazes de se sustentar para se defender ou se colocar assertivamente em seus pontos de vista, por exemplo, recorrem à muleta do politicamente correto que tem seu próprio cânon de regras e leis a dizer os “podes” e os “não podes”. Temos uma sociedade menos espontânea, superficial, materialista e totalmente contingenciada pelo labirinto de comportamentos que se deve ter em público para atender as minúcias da infindável lista de palavras, ideias e, claro, comportamentos, que foram inseridos no índex do politicamente correto.
Antes que um desavisado ou maldoso infira que discordo da proteção social a grupos que realmente precisam de ajuda, afirmo que não é isso, mas se por sua realidade, verdadeira ou suposta, qualquer grupo é elevado ao status de onipotência e a uma posição tal que não pode ser contestado, como se sua condição lhe desse o condão de ser puro e infalível, sim, me oponho.
O politicamente correto distorce valores, recria castas, regride as pessoas emocionalmente e lhes dá uma posição de verdade e absolutização de suas ideias e posições políticas. Atender às suas demandas quase sempre estão associadas às ideias de justiça, reparação e igualdade, termos que, convenhamos, têm poder por si mesmos, pois quem será contra realizar estas coisas? A questão, porém, é que no agir destes minoritários estes pressupostos são usados como fatores de constrangimento e inculcação de culpa em quem nada tem que ver com isso, especialmente se o que reclamam aconteceu num passado longínquo, mas é culpado ou porque tem posses ou tem uma cor específica.
É tal a contaminação desta forma de ver a vida que tanto faz o que for, desde que a maioria de minorias aprovem. Eu que tenho o azar de não ser parte de nenhuma minoria – nem desejo – estou virtualmente num limbo. Estou com todos os outros quase sempre vistos em oposição às centenas de minorias com suas razões imaculadas. E eu só preciso ser diferente deles.
Assim me deparo com a campanha do dia das mães da Potiguar/Terra Zoo, cuja frase é um primor desta filosofia que aqui deploro: Mãe de pet também é mãe. Vejam, não contradigo qualquer valor afetivo ou utilidade de se ter um animal em casa, até mesmo como efeito terapêutico, como afastar a solidão. De fato, existem estudos que indicam o benefício de se ter um bicho de estimação entre idosos, crianças e pessoas com algum problema de saúde. Mas este não é o ponto, mas a elevação das relações afetivas entre pessoas e animais ao nível das relações inter-humanas. A foto icônica que define aquela campanha das empresas co-irmãs é um cachorro lambendo o rosto de uma jovem mulher e a palavra “mãe” cobrindo quase toda a foto.
O que acontece aqui nesta foto “inocente”? As mães foram rebaixadas ou o cachorro foi elevado? Se é certo que muitas pessoas, chamam cachorros especialmente de “filhos”, a questão não é só semântica, como se pudéssemos usar as palavras como bem entendermos. No caso aqui, define uma realidade repetida à exaustão que neste texto não é possível avaliar. Para quem fala é ipsi literis o sentido de um filho, gerado nas entranhas, embora o tal bicho desconheça, por óbvio, que aquela pessoa seja sua mãe de verdade, mas reage ao ser tratado com cuidado. É um animal meramente condicionado, sem desmerecer o fato.
É tal a situação horrenda gerada pelo politicamente correto que um caso recente, mesmo tendo sido no Supremo Tribunal Federal, que se gaba de não ouvir a voz roucas das ruas, mas apenas as leis ou a Constituição – uma mentira –, teve lugar no imbróglio da proibição da vaquejada. Pouco antes daquela decisão, o juiz contrário mais aguerrido conta a vaquejada, sua excelência Luís Barroso, avançou para além da Constituição que deve defender, a despeito de suas ideologias pessoais, e decidiu que um feto até o terceiro mês pode ser perfeitamente abortado, sem que nem médico que pratica o aborto, nem a mãe incorram em crime. O Código Penal diz que abortar é crime. Li a piada em algum lugar que o ministro dá mais valor ao rabo de um boi do que a um ser humano.
A única forma de enfrentar o politicamente correto é com a verdade e a defesa do direito de todos igualmente. É acusar o coitadismo que esta forma de pensar cria; é substituindo o elemento pena pela compaixão nas relações humanas; é afirmar o valor de princípios que são perenes contra a lei do vale tudo que deseja forjar um tipo de igualdade burra.

“E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia.” (Irmãos Karamazov - Fiódor Dostoiévski)

sábado, 22 de abril de 2017

A Baleia Azul

Eu soube do fenômeno Baleia Azul pelos jornais, mas logo em seguida os grupos dos quais participo no whats foram engolfados – não é uma figura de retórica – numa verdadeira histeria de imagens – algumas terríveis e nem se sabe se são de pessoas ligadas ao problema – e textos que iam do pavor e fala apocalíptica à piada ridícula e sem graça, algumas religiosas. Como se as vítimas dessa horrenda “brincadeira” fossem meros idiotas que não tem o que fazer ou que lhes faltam disciplina e religiosidade.
Acho que chego atrasado. Um jovem youtuber, que tem coisa de 10 milhões de seguidores, postou um vídeo que teve quase 5 milhões de visualizações até o momento em que escrevo este texto – não sei se foi orientado por um profissional – que fala algo quase óbvio: meninos e meninas emocionalmente saudáveis estão vacinados contra essa demência coletiva. Em resumo foi isso que disse.
Mas claro! Pessoas se tornam pessoas quando aprendem a lidar com suas emoções. Este aprendizado quase sempre vem de uma família que, a despeito de suas idiossincrasias – toda família tem –, se importam uns com os outros, se afagam, são afetivamente atuantes, conversam entre si e criam com isso um ambiente propício à liberdade, à tolerância, à empatia.
A nefasta Baleia Azul é um ser parasítico. Quem a conduz e organiza, são seres miseráveis e nefastos, mas não aquele comum cujo maior mal que faz é a si mesmo. É um tipo maligno de mal, aquele que goza com o domínio, o controle, a manipulação emocional e cognitiva dos mais fracos. Os que estão por trás desta Baleia Azul assassina, se alimentam da miséria alheia, são comedores de tristeza e desamparo. Eles são atraídos pela dor e como tubarões famintos são capazes de cheirar sangue a quilômetros de distancia. Eles usam iscas que simulam algo grande, transcendente para almas fracas e abandonadas, estas viciadas em suas próprias dores porque apenas conhecem do mundo – alguns muito cedo – o que há de pior na raça humana. Ou adoeceram, tem anemia emocional, um sistema afetivo imune debilitado.
A Baleia Azul parecerá às pessoas saudáveis um exotismo que não lhes atrairão, pois gostam de luz, não de trevas como os milhões de jovens depressivos, melancólicos, afetivamente abandonados, violados em sua inocência e que não receberam uma gota de aprovação de pessoas que os apreciassem pelo que são. O buraco da grande falta precisa de algo do tamanho de uma Baleia para tapar. Que importa se é uma Baleia-demônio, que importa sua cor, que importa se ao final de uma lista de tarefas está a morte – eles já se percebem mortos em algum grau –, basta que prometa que seu vazio, de alguma maneira insólita, será preenchido. A dor física como caminho que acaba com a angústia nada é, a morte também não.
Dizem que a discussão e os alertas devem ser sobre suicídio, infelizmente um problema que tem aumentado. O aumento de pessoas deprimidas está diretamente relacionado. O Brasil é o terceiro país mais deprimido do mundo, atrás dos EUA e França. Cerca de 5,8% da população brasileira tem depressão. Aqueles que são diagnosticados que, seguramente é uma parcela menor, pois não é raro que a doença castigue alguém por anos até que seja tratada. Entre os deprimidos, ao redor de 15% tentam o suicídio, alguns conseguem. Todo deprimido tem ideação suicida. A morte parece ao deprimido a libertação suprema, pois qualquer coisa é melhor do que o vazio abismal que abriga no peito. Uma pessoa desesperada não tem medo.
Nenhum ser humano é pra baixo por natureza. Nenhuma pessoa é triste sem causa. Ela o será por contingência ou por doença. Mudanças de comportamentos que permanecem por mais de duas semanas, isolamento, desmotivação, semblante permanentemente fechado como um céu que se prepara para uma tempestade, apetite e sono descontrolado – para mais ou para menos –, pessimismo, falta de energia, desprazer em coisas que antes eram prazerosas, são sinais fáceis de perceber. Ajuda especializada deve ser procurada.

A depressão é insidiosa às vezes. Não importa o seu grau, ela causa estragos emocionais, sociais e, se não tratada, produz consequências nefastas. O jogo baleia azul é apenas um carniceiro que se aproveita de uma fragilidade que já existe. O remédio contra ele é o cuidado de nossos jovens.  

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Não sou tão ruim assim, sou vítima do machismo

A história teve enorme repercussão. Começou como fogo em monturo: é quente, há fumaça, mas não há labareda. Bem, até achar um combustível mais incendiário. No caso em questão foi a realidade que se impõe de novas e necessárias relações entre homens e mulheres, mas também pelo escândalo em que a coisa se tornou. Um ano antes, a moça fez uma reclamação no RH e nada.
“E agora José?” O primeiro movimento do ator José Mayer foi clássico quando alguém é pego em flagrante delito, mas que a ficha ainda não caiu. Institivamente, o sujeito nega que tenha praticado uma versão bruta do teste do sofá. Tenta, como ele, vender-se acima do bem e do mal evocando seu lugar de homem público que se coaduna com as boas relações de respeito às colegas. Neste momento a ferramenta é a dissonância cognitiva, afinal a fera só atacava nos bastidores. A versão pública era a estrela. Em seguida clama por suas relações familiares, que é sempre um bom salvo conduto de toda canalhice.
Derramado o leite, sem saída, encalacrado com a mão na botija, a esquerda, literalmente, exposto pela investigação, suspenso, a saída, única possível em tais circunstâncias: confessar. O caminho da redenção sempre começa com a confissão e possível reparação. Uma carta aberta, que tal?
Mas, refeito do susto, com algum grau de controle de si, despertado para a perda gigantesca de credibilidade, o que implica em perda financeira também, está atordoado. O sujeito não está disposto também à autoimolação no altar do sacrifício ante a plateia do “mexeu com uma, mexeu com todas”, a opinião pública que brada por uma fogueira em praça. Então é preciso uma saída em que se admita o mal feito, mas também que, de algum modo, se é vitima, o que relativiza a culpa.
Aqui está o X da questão na carta. Talvez a única coisa que escape em toda ela é a frase com duas palavras: “Eu errei.” Todo o resto é dispensável. Exceto aquilo que não está lá: peço perdão. A segunda frase, embora ratifique o “eu errei”, prepara o terreno para o mais importante: sou vítima. Gozei, aproveitei, me esbaldei nesta condição por sessenta anos, mas exposto, digo que aprendi e estou em reforma, mas não teria aprendido se não fosse pego, porque era bom e sempre deu certo.
A vitimização pela cultura machista é uma boa estratégia, mas não funciona. É razoável crer que um ator com toda esta cancha, dezenas de papeis de galã e mocinho, sequer desconfiasse que, no quesito em que falhou, já não se admite? O pessoal tem cisma do fiufiu, que dizer da mão boba? Ou ele tinha toda a confiança de que poderia fazê-lo sempre sem nada dar errado?
Condenar o machismo porco chauvinista é ótimo – mesmo que admita ser um, momentaneamente, por 60 anos – para a plateia feminista e o povo do politicamente correto. Mas será mesmo que os “Zecas Bordoadas” são os culpados? Ou a empáfia, o senso de onipotência cevado em papeis que o galgaram ao lugar de astro e no qual, parece, ele acreditava piamente? A sensação de segurança por morar no Olimpo global para quem uma mulher jamais diria não? A decrepitude que ameaça na esquina, afinal o sujeito vive de aparência e agarrar uma donzela talvez funcione como um antídoto? O exercício de uma virilidade capenga, de um garanhão ameaçado por outros machos candidatos ao posto alfa? Ter a doce, inebriante e perigosa sensação de poder sobre um outro inferior? Dar vazão ao seu narcisismo rapinante?
O singelo palavrão com que alcunhou a vítima – Vaca – revela um homem tomado de frustração, um homem cheio de soberba, que se percebe no controle, mas que o vê desafiado por uma “reles” figurinista que, por razão que lhe escapa, não cede aos seus arroubos chinfrins. O que ela pensa que é?
Explorar a versão de um homem em processo de reestruturação é uma boa sacada, mas também não funciona quando se coloca no lugar de mártir, o primeiro de uma raça livre daquele vírus chamado machismo. Sua nova persona, refeita, refinada no que chama de “dolorosa necessidade de mudança”, se torna um exemplo e um convite para tantos que pensavam e agiam como outrora foi: que mudem!
É uma versão sofisticada do mantra tristemente consagrado pelo petismo: todos fazem... e na cabeça do público um pensamento, ele espera, complementa a frase: então não sou tão ruim assim. Mas isso é só cinismo.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Smartsexo

Já dá prafazer sexo pelo smartphone”. É claro que o título mais provocativo que real – depois percebi – me chamou a atenção. Não, não estava pensando em aderir à prática. Estava curioso. Era a humana curiosidade, aguçada pelo psicólogo que sou. Vai que aparece alguém no consultório adicto do tecnosexo – ou smartsexo, parece que o nome está em aberto. Podem usar qualquer desses termos de minha lavra, apenas me deem o crédito. – sem o qual não pode ter prazer
Eis um primeiro desafio. Para chamar de sexo a nova invenção, seria interessante mudar o conceito de sexo ou ampliá-lo a um ponto que nem as parafilias em sua insanidade conseguiram criar.
Uma empresa criou um app que se baixado no celular transforma-o em uma máquina de sexo. Não se diz se é preciso usar camisinha no dito, a bula do app ignora, mas em tempos tão doidos, melhor usar, pois vai que...
Mas vamos com calma. Explicando. O aplicativo, uma vez instalado, reage às lambidas sexuais – importantíssima esta segunda palavra aqui – que um praticante dá na tela do celular e cria padrões de vibração que, por bluetooth, é capturada por um vibrador e este reproduz os padrões. Sei, está cada vez mais estranho.
Primeiro, é preciso definir o que é lambida sexual. Aparentemente o app identifica uma lambida sexual de uma, digamos, similar àquela dada num picolé. Existe um vazio de informação aqui. O vibrador reagirá a qualquer lambida ou não?
Você está acompanhando? Caso ainda não tenha se perdido e, heroicamente, continua neste texto, ainda há mais. É como ouvir a propaganda de loja virtual que vende traquitana imprestável: mas espere, não somente isso! Na loja do aplicativo você pode escolher até doze, sim, uma dúzia de tipos de orgasmos. Todos disponíveis para download. “Ficando Loco (Getting Loco)”, “Banho Sensual (Sensual Bath)” e “Nuvem de Marshmallows (Mushrooms clouds)” são alguns dos nomes criados pela empresa. Acho que as pessoas têm orgasmos de tanto rir. Imagina a cena: meu amor, você gostaria que eu lhe desse um Mushrooms clouds? Em português ou inglês é absolutamente broxante.
Recapitulando. Você baixa um aplicativo de sexo. Por meio de lambidas sexuais – e só estas servem – o seu celular enlouquecido emite ondas enviadas pelo bluetooth que encontram um ansioso vibrador que dispara padrões que darão orgasmos com nomes tão estranhos quanto a proposta de sexo que vendem. 
Sabe o que é louco nisso tudo? Há mercado. Fazer smartsexo custa cem dólares. Agora me ocorre que a língua é que deve receber a camisinha. Imagina onde você passou o dedo apenas num dia e esfregou na tela do celular. É lá que terá que colocar a língua. Seu celular é à prova d’água?