terça-feira, 14 de março de 2017

O Selfie

O burburinho do restaurante não a perturbava. Estava totalmente absorvida. Eu que vagava os olhos ao redor fui distraidamente atraído para aquela mesa. Havia uma mulher de meia idade, cabelos pintados de um amarelo estridente, estava em seu mundo diante da telinha do celular. Descobri logo em seguida: embevecida – ou nem tanto – com a própria imagem que, aparentemente, teimava em não sair exatamente do jeito que sua imagem mental idealizada de si mesma queria.
As tentativas de encontrar o ângulo exato começou com o distanciamento do braço, o celular espremido entre o polegar e o médio e o indicador livre para clicar. A cabeça inclinava numa posição, noutra, ora séria, ora num riso estranho, posto que forçado. O que atrapalhava? Acho que era o cabelo que caía perturbando a paisagem do rosto, pois a todo momento os alisava e tentava colocar em alguma posição na qual, obediente, deveria ficar. Seguia-se o teste de qualidade da prova. Algo saiu errado. Voltava à tentativa de busca da aparência mítica. De repente sacou da bolsa um pau de selfie. Agora ela tinha, definitivamente, toda minha atenção. Que tenacidade!
Selfie foi a palavra do ano (em 2013) para o dicionário Oxford. É a abreviação de self-portrait. Em tradução literal: autorretrato. Inúmeros artigos, inclusive de profissionais da psicologia, viram aí um efeito secundário negativo da tecnologia. Apontavam para uma exacerbação do eu numa sociedade já suficientemente individualista. O fenômeno apenas refletia um comportamento frívolo. Ou perigoso. Não é difícil encontrar na internet imagens e até pequenos filmes de pessoas que ao fazer um selfie, morreram de forma absurda.
Teriam razão os articulistas ao condenarem este narcisismo exuberante? Seria o tédio da vida moderna ou o sem sentido destes tempos que se liquefazem ante nossos olhos como descreve Bauman? É uma sensação de futilidade que precisa ser substituída por aprovação contínua e muitos likes nas redes?
Uma pesquisa recente patrocinada pela Sony, sugere que o selfie pode dar dinheiro, ou melhor, já que as pessoas gostam tanto de “selfiar” isso pode ter uma função e impactar várias áreas. Pois foi o que a pesquisa rastreou. As áreas: saúde, entretenimento, finanças, relacionamentos, moda, comércio on-line, segurança pessoal e doméstica, robótica, esportes e, claro, relacionamentos amorosos.
Como um cachorro que precisa de um biscoito para registrar de forma positiva a experiência de dar a pata quando ordenado, grande parte das pessoas apenas tem um pouco de aprovação quando realizam alguma coisa, por simplória que seja – como cortar o cabelo – postar o selfie do novo look e receber elogios. Desde muito pequenos precisamos dessa aprovação, mas, à medida que crescemos, se isso acontece de maneira saudável, desenvolvemos um senso de segurança e identidade, auto aprovação que cria a autonomia pessoal, e isso alimenta a nós próprios.
Se acontece algo errado nesse processo: figuras afetivas importantes ausentes ou indiferentes, privação afetiva, abandono, violência emocional, então temos alguém sem o necessário suprimento interno que o sustentará na vida adulta e em relações livres e sem cobrança que levam as pessoas a fazerem as coisas não na lógica do custo-ganho, mas de fazer, por exemplo, porque é o certo. Agradar porque ama. Servir porque se realiza. Ajudar porque tem empatia pelo próximo. Fazer algo sempre na expectativa do ganho do biscoito emocional: alguma coisa está errada.
Haveria uma medida de quantidade de selfies que indica um distúrbio emocional? Desconheço. No adulto maduro, ainda que a imagem física tenha importância, a imagem mental medida pelo caráter, pela sensatez, por uma razão de sentido de existência, por um sentido de utilidade, são superiores à imagem estética ou àquela sustentam. O excesso de selfies, especulo, pode indicar uma substituição total da imagem composta apenas pela física. Então um fio de cabelo fora do lugar, conta. Um centímetro a mais na barriga, conta. No limite, são desastres.
Ah, aquela mulher? Ela quedou-se naquele afã, naquela busca inglória por muito tempo. A cada foto, um turbilhão de julgamentos que vinham junto com as supostas falas negativas daqueles de quem esperava a aprovação. As contorções no rosto denunciavam este dilema. Ao passar ao seu lado, aparentemente, depois de muitas fotos descartadas, tinha desistido daquela imago perfeita. Por aquele momento...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Vingança Pornográfica

Vive-se o tempo da intimidade pública. Aquilo que era dito e feito na alcova, atende hoje a uma espécie de imposição de se tornar público. Mas não somente público, também notório. O acesso às mídias sociais que, em tese, são pessoais, quer dizer, são portas que só abrem para aqueles que privam desta proximidade, instigam a tentação de se expor num protagonismo reativo, numa forma de dizer existo, faço isso e aquilo, sou interessante, ousado e livre.
A nudez escapa “sem querer” para a rede. Acusam alguém de ter hackeado o celular, o computador, etc. Mas porque alguém precisa tirar fotos nuas ou até comprometedoras se não for, ao fim e ao cabo, para mostrar para alguém? Atende-se a um desejo narcísico mal disfarçado? Certo, pode não ser todo mundo, mas a que atende essa necessidade ainda que seja para mostrar a uma meia dúzia?
Casa é um arquétipo muito antigo para corpo. Religiões e filosofias muito antigas usaram este símbolo. Ainda usamos hoje em dia. O que me faz lembrar uma música para crianças de Vinícius que fala de uma casa que, se bem observarmos, casa não é. O poeta resolveu chamá-la assim, mas não tinha teto, não tinha chão, nem parede, nem penico. Se casa é um arquétipo de corpo – não somente a matéria – e, por derivação, de ser quem somos, nossa identidade com toda sua riqueza e feiúra, parece que há muitas casas-pessoas como essa do Vinícius.
Toda casa precisa de privacidade, pois é onde somos protegidos, alimentados, guardados das intempéries e da violência. A casa é o espaço do aprendizado afetivo, da lealdade e da convivência com aqueles que se tornam muito próximos num relacionamento exclusivo. Ela deixa de fora o intruso, o aproveitador, o salteador como lembra Jesus no Evangelho de João. Ali ele chama casa de aprisco, pois se referia a ovelhas. A relação que descreve é de profunda intimidade entre quem denomina “pastor” e “ovelhas”. E isso é expresso no reconhecimento da voz. No chamar pelo nome.
Mas se nossa nudez, nossos atos mais íntimos são publicados e se tem pouquíssimo pudor com a intimidade, torna-se casa sem portas e janelas. Disponível à bisbilhotagem do estranho, da invasão do solerte que mansamente me rouba de mim.
Um grupo de psicólogos da Universidade de Kent, Inglaterra, publicou um estudo cujo título é Revenge Porn. Vingança pornográfica em tradução literal. O título se autoexplica. Pessoas publicam fotos obtidas na relação íntima e espalham nas redes que é similar àquela ideia do travesseiro de penas aberto no alto de um prédio.
Os efeitos destes atos são devastadores. Não só pela consequência emocional e psíquica imediata e seus desdobramentos na vida prática, mas porque tem um tipo de eternidade na rede. E eles voltarão nos momentos menos esperados, como uma golfada de más notícias que exporão a pessoa vez trás vez.
Duas revelações do artigo. 1. As mulheres são as mais afetadas neste tipo de ato. 2. Aqueles que realizam este tipo de vingança foram correlacionados positivamente a graus de psicopatia e de ausência de empatia para com a pessoa agredida, o que é em si pródromo ou sintoma diagnóstico deste tipo de comportamento patológico.
A autonomia feminina precisa mesmo levar a uma exposição escancarada da vida? Será mesmo que esta liberdade da mulher precisa excluir o recato? A prudência? O comedimento?  Refiro-me a isso porque o artigo destaca e relaciona autonomia feminina como causa da hostilidade sofrida pelas mulheres. Será que demonstrar essa liberdade de certa maneira não passa de um tipo de autoafirmação? Ou aquela autonomia pode ser vivida de forma assertiva, sem necessidade de demonstrações apoteóticas dessa liberdade consigo mesma que precisa se expor de qualquer forma?
O corpo-casa precisa de cuidado e zelo. Isso inclui a proteção de si mesma. Manifestar a expressão da feminilidade, sim, mas atenta para quem e com quem ela se revela. Afinal, como bem colocou o artigo, aquele íntimo ou nem tanto – parece que muitas mulheres não se importam muito – pode ser um ser parasítico, um espírito perverso que, sim, sempre dá sinais de quem é, mesmo aqueles cuidadosos. Mas isso é tema para outro post.

sexta-feira, 3 de março de 2017

São tantas emoções...

Uma vez evocada, uma emoção fica atuante apenas por inércia até que algo a desvie ou sua energia se dissipe. As emoções, que mobilizam grande parte da fisiologia são despertadas, basicamente, por eventos ou memórias. Uma vez acionadas, não é possível impedi-las de seguir seu curso. Sim, a pessoa pode impedir um choro (ou tentar), ou qualquer manifestação evidente da emoção, mas não sem um custo e um desgaste.
Emoção é como um fluxo de água, cuja força está associada à topografia por onde passa. A água seguirá seu fluxo acumulando energia em remansos e lugares profundos, andando rápida em lugares mais rasos e com obstáculos sempre, contudo, em determinada direção.
Pode-se usar essa energia de várias maneiras e energia gera movimento e neste propósito acaba se transformando em outra coisa, mas afinal, cumpriu um objetivo. A energia emocional precisa ser gasta, consumida naquilo que é: uma reação à vida. Deixá-la fazer seu curso em nós, reconhecendo-a como aquilo que é. Isto é parte da maneira correta de gerir uma emoção.
Viver uma emoção, em especial aquelas às quais se atribui um viés negativo, pede um tipo de educação, que se entenda, um tipo de conhecimento triplo: reconhecer a emoção em si mesmo, no outro e sua manifestação pública de acordo com a cultura do lugar.
Por que aquele conhecimento é necessário? Por que cada sociedade estabelece regras do que pode ou não ser manifesto em público. Porque por leis não escritas, certas emoções são tidas como vergonhosas, então é preciso conhecimento de si e coragem para vivê-la se couber. Um exemplo? A tristeza, venha de onde vier. Uma pessoa triste é um incômodo. O que fazer com ela e sua carga triste? O que dizer? Então logo pedimos que a pessoa sorria ou procure se divertir. É menos porque a queremos alegre e mais porque nos incomoda a tristeza alheia.
A raiva quase sempre é vista como extremamente negativa. Há quem defenda que não se deve senti-la. Mas a raiva que não encontra seu caminho, não é elaborada ou canalizada, se torna uma espécie de tumor que um dia gritará numa forma somática. Na prática, todas as emoções o fazem. Inclusive a alegria, pois pessoas muito contidas até na alegria também o são em outras manifestações emocionais. Uma raiva bem instrumentalizada pode gerar uma agressividade positiva que proverá energia para fazer algo desafiador.
Por fim, para não me delongar mais neste post. Toda emoção só se alimenta dela mesma. Raiva de raiva. Tristeza de tristeza e assim por diante. Que isso quer dizer? Que cada pessoa deve se dar conta disso e perceber o que faz, por exemplo, uma raiva se perpetuar? Um evento aconteceu em seu início, mas se as condições objetivas que a sustentam não existem mais, que pensamentos e sentimentos a alimentam? Não tem coisa mais disparatada e sem sentido que uma emoção fora do lugar, como objeto errado e no momento errado.
Ainda pensando neste deslocamento, lembro de Paulo que recomenda: “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram.” (Romanos 12:15). A empatia faz-nos adequar e dar congruência a nossas emoções na relação com os outros. Se rio com o triste, demonstro indiferença e se choro com o alegre, pareço invejoso. Há outras possibilidades, mas estas são suficientes. Emoções desencontradas em nós e no contexto pode sinalizar uma alma adoecida.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Equívoco de Scarlett Johansson

Desde sempre falas de celebridades causam impacto. Nelas estão projetadas tudo aquilo que o indivíduo comum gostaria de ser ou ter. Elas são, neste sentido, algo entre humanos e semideuses. A fantasia rasteira é a de que não sofrem das agruras banais da patuleia. Tem reconhecimento, dinheiro, amores e sua vida simula uma espécie de perfeição que aos pobres mortais sequer se pode imaginar.
Não admira que uma fala sobre banalidades ou sobre temas que tocam aos demais seres rastejantes também causem grande impacto. Então, quando Scarlett Johansson diz que “monogamia não é natural” ouvimos um Ohhhh! estupefato, admirados com tamanha ousadia, independência e, sim, todas as fantasias sexuais que isso evoca em nossos sonhos enlouquecidos por peyotes imaginários. Nem se fale nas projeções que as personagens que costuma encarnar, que esbanjam sensualidade. Ou alguém não gostaria de tirar uma casquinha com aquela Viúva Negra e seus cabelos vermelhos?
A apimentada atriz tem, vejam que coisa, dois casamentos no currículo. O último dos quais lhe nasceu um rebento, mas durou apenas dois anos. Estando recém-divorciada, dou-me a liberdade de crer que a declaração tem algo de chifre ou como diria alguém mais educado: algo de prática adulterina por parte do ex ou dela mesma.
A negação daquilo que se deseja é tão velha quanto Freud em suas primeiras incursões pela mente humana. Dispositivo de defesa óbvio como o resultado de dois mais dois. Como é óbvio também a reação das revistas de fofoca e tudo que lhe reverbera. Imaginem a contribuição para a sociologia humana este devaneio sócio-erótico-filosófico!
A agora senhorita Johansson é como a raposa que observa o cacho suculento e maduro de uvas, mas, muito alto e por resta razão impossibilitada de comê-lo, malgrado muitas tentativas, cansada e frustrada diz: estão verdes!
Como foi uma frase solta, ao sabor do momento, pelo visto, não há que se levar a sério? Sem recorrer a um possível ato falho da atriz, o fato é que, independente da cultura e do tempo, a outra opção à monogamia, a poligamia, sempre foi fonte de sofrimento, ciúmes, abandono afetivo e indiferença. A Bíblia é um catálogo de versões desastradas das multirrelações.
O que dona Scarlett não percebe em sua fala à toa, bem como todos os que com ela partilham desta fantasia patriarcal em seu pior momento, é que nossa inadequação a esta prática é de natureza. A natureza humana que é possessiva, exclusivista e tem preferências. Na prática, não se pode amar a dois senhores, pois há de se amar mais a um que outro. Os que insistem em quebrar esta regra se enchem e aos outros ainda mais de dores emocionais terríveis.
Que dona Scarlett desnaturalize a monogamia no contexto presente nada há de estranho. O que, pois, é natural em nós? Ou melhor, o que é não natural? A palavra cabe infinitas possibilidades de sentido, depende apenas da perspectiva. Mesmo uma parafilia que a ninguém incomode, nem cause sofrimento ao seu praticante, é natural. Veja-se o fetiche que muitos têm por pés, como já lembrava o Bruxo do Cosme Velho em seu A Pata da Gazela no século XIX.
Natural lhe parecerá se acostumado estiver. Natural será se culturalmente estiver definido para o grupo ao qual pertence. Seria natural dar nove vacas ao pai da noiva como dote ao pedi-la em casamento? Seria ridículo e bizarro entre nós, não em muitas comunidades na África em que é obrigatório ou já era a noiva.
Se não é natural a monogamia, seria então a poligamia? Ora, mas já é em muitos países. Se legalmente nos países ocidentais ainda há um interdito legal e cultural, mesmo que alguns mórmons ortodoxos insistam em quebrar a regra, em dezenas de países é tão comum quanto caminhar sobre os pés.
Sim, por aqui se fala em poliamor: muitas pessoas juntas tendo relações em todas as direções imaginadas – transversais, mão dupla, na contramão – mas que no raso mesmo é outro nome para suruba comportada e de amor mesmo nada tem. Fora da curiosidade sócio-sexológica, ninguém vê isso como um padrão que se estabelece, mas como moda, experimentação e tédio. Ah, um monte de gente junta num mesmo espaço diminui as contas pra caramba. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Fatos Alternativos

A mentira tem sempre a mesma natureza, ela pode ter muitas formas e nomes. Há uma recente que ganhou as mídias do mundo todo. Não é uma definição nova da mentira. É apenas a mentira com novo nome, quase bem ao gosto da sanha politicamente correta que vê em algumas palavras uma agressão ou discriminação ou preconceito e deve, por isso, ser substituídas por expressões amenizantes. A mentira agora é: “fatos alternativos”.
Convenhamos, assim parece algo simpática e inofensiva. A expressão foi cunhada pelo staff do presidente Trump ao defender seu porta-voz que teria dito mentiras rasteiras e descaradas sem pejo algum. Mario Quintana, o poeta, disse certa vez que “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Dito desta forma, entre a ironia e o chiste, somos tomados de simpatia, não pela mentira, mas pela verve do poeta. A trupe do Trump não tem essa leveza e molecagem. Eles alteram a verdade com as palavras, não importando quão nus sejam os fatos que desdizem.
Há uma verdade na mentira. Ela não consegue deixar de ser quem é. Travestida de qualquer cor, artimanha, aparência, ela sempre será, por natureza, algo que mimetiza a verdade, eis sua força. A mentira tem infinitas funções. Há quem queira acreditar na mentira, pois a verdade é muito dura ou lhe é aversiva. Como há aqueles que são simplesmente enganados por algo falso. Se for uma mentira óbvia, possivelmente o enganado é uma mente simplória ou deliberadamente preferiu a mentira à verdade.
A mentira encobre o mal feito. Por momento e até por um bom tempo. A mentira põe dúvida, o que é bastante para se tornar forte e com cara de verdade para os que querem crer. Pode ser por mero cinismo, neste caso, a mentira da qual se apropriou não o engana, ele é agora parte dela à qual se apega entusiasticamente.
Tem quem minta não com o propósito de enganar, mas de apenas colocar em contraste mesmo a verdade mais escancarada. Ele se afirma na mentira tal como é bípede. Pessoa assim pode ser movida por inúmeras coisas, uma delas é a arrogância de quem odeia perder. Pode ser uma brutal incapacidade de aceitar limites. Como pode ser também uma infeliz fraqueza de nunca conseguir ganhar nada e ao mentir se torna aquilo que não é. Os que estão em baixo e os que estão por cima, mentem. Cada qual com seu propósito.
A mentira confunde. Se for afirmada com suficiente energia, como o diria Goebbels, pode até ganhar status de verdade. É assim quando todos repetem a mesma coisa sem questionar. Todos veem o rei nu, mas ninguém tem coragem de dizer, pois temem perder algo. Até que alguém que não se dá conta destas contabilidades, que não se perde nos labirintos dos jogos de interesse, diz inocentemente: o rei está nu!
O tipo de mentira a qual me refiro no início do texto tem atrás de si um imenso poder, daí porque, paradoxalmente, não tem a pretensão de enganar a ninguém. O poder os faz desenganar a verdade, pois não pretendem que se acredite neles. Um tipo de pudor que me escapa os faz falar a mentira alternativa. É evidente que esta impudicícia pode ser a reles inescrupulosidade associada a um excesso de autoconfiança. É um modus vivendi. A mentira nesse tipo de gente é tão involuntária como o respirar, nos lembra Machado de Assis.
Os praticantes dos “fatos alternativos” não pretendem a crença no que dizem. Apenas ofertam uma versão dos fatos para aqueles que já desejam, por infindáveis razões, crer no que dizem. É apenas dizer aos tolos ou irados o que querem ouvir. O quadro é septicêmico. Os que têm ouvidos para ouvir os “fatos alternativos” se anestesiam com a suposição de que seus anseios serão, enfim, atendidos. Mas nada se lhes dará, exceto frustração e mais ira.  O diabo, se lhe convém, cita as Escrituras para seus propósitos.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Sobre o filme Beleza Oculta (spoiler)

Tenho certa cisma com o Will Smith quando atua em papeis dramáticos. Ele esteve razoavelmente bem em “Em busca da felicidade” e em “Um homem entre gigantes”. Então nos primeiros quinze minutos de Beleza Oculta pensei que ele estacionaria numa expressão monocórdica que emenda as sobrancelhas e acha que passa desolação, tristeza e desamparo que era a tônica do personagem. O próprio filme parecia buscar um caminho ente as cenas que pediam uma concatenação mais suave.
Mas foi só o fatídico quarto de hora. Depois o filme embala e o próprio Howard (Smith) sai do marasmo e quase atua de verdade. A história é intrigante. O personagem de Smith tem uma perda pessoal devastadora. Esse luto não só se transforma em depressão profunda, como o mecanismo de defesa usado pelo personagem é uma negação em tal nível que ele aparentemente perde o contato com a realidade. Ele se transforma numa dor ambulante enorme. Um zumbi, se preferirem.
A agência de propaganda da qual é fundador e sócio majoritário está, por esta razão, à beira do desastre. A saída é vendê-la, mas seus sócios-amigos – difícil arrumar sócio que seja amigo – estão em busca de uma solução para que ele participe da única forma possível de salvá-la: vender a empresa. Mas como fazê-lo entrar na realidade para ser lógico e prático para tomar a decisão?
Aqui está a coisa mais interessante desse filme. Em um discurso célebre na empresa, Howard definiu quais eram os princípios fundamentais que moviam todas as ideias e criatividade de suas campanhas: o amor, o tempo e a morte. Estas três dimensões da vida se entrelaçam e definem a nossa existência e isso é tudo, não importa o que somos ou o que tenhamos, defendia. Todos estamos submetidos, para o bem ou para o mal, a estas três dimensões, assegurava.
Por pura casualidade, seu grande amigo se depara com uma trupe de três atores que ensaiam uma peça, mas não tem recursos para bancá-la. Ele promete dinheiro se estes três corporificassem aquelas dimensões que foram, em dado momento, a filosofia de vida de Howard. Talvez uma tentativa alucinada de trazê-lo para a lucidez.
A filha era o amor de sua vida, ao lado da esposa. A morte não a poupou, mesmo que ele tenha pedido a ela que não a levasse, portanto, não lhe dando tempo para crescer e se tornar uma mulher. Angustiado, escreve cartas para estas entidades. Desdenha da morte. Sente-se traído pelo amor. O tempo é um ladrão.
As cartas serão o suporte para a atuação dos personagens que, no filme, conseguem enganar Howard na tentativa de tirá-lo do abismo de autocomiseração e revolta em que afundou. A ideia é muito interessante, mas não funcionou. Faltou química na constelação de astros. Salva a ideia dos diálogos com a morte, o amor e o tempo, mesmo que, em dado momento, a farsa dos amigos seja tratada para nós espectadores como se os três atores fossem mesmo o disfarce perfeito daquelas entidades.
Apesar de atores de peso, com atuações muito boas em outros filmes, este filme não decola. Fica a questão de tratar do tema do luto, embora com tons excessivamente carregados que escorrega para o emocionalismo. Não foi dessa vez, Will Smith.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O que importa é a fome


Não quero a faca nem o queijo, eu quero a fome. Então, maturidade é isso, saber o que quer? Perceber entre milhões de possibilidades, as que nos ofertam, os quereres dos outros e suas expectativas, suas certezas e sensos estéticos, princípios morais que apontam direções que não viveram ou viveram e foram experiências desastrosas, porque não lhes cabia, eram histórias de outros.
De que adianta faca e queijo sem fome? Será que aprendemos a escolher entre o essencial e o supérfluo? A faca de prata e o queijo gourmet ante uma vontade de fome anoréxica são um acinte. Como a poetisa, também quero a fome. Ela, sim, é uma certeza brutal. É nua como uma katana pronta para a luta. Dispensa ornamentos, só o brilho da lua ou do sol que reflete em seu corpo esguio.
Rejeitar faca e queijo não é presunção ou fastio, é liberdade e segurança. É preciso insight profundo para escolher entre uns e outro. É preciso ter vivido uma revelação. Escolhas entre milhares de opções só nos entedia. Mesa cheia e decorada mata fomes conceituais. Resolve fastio de vidas pequenas. A fome é a certeza crua e feroz que desperta a sensação de estar vivo.
O que favorece e facilita, como a faca afiada, amolece, torna o viver monótono. Acostuma-se um à vida mecânica e facilitada. Vida mediada pela menos-valia de metais que são corroídos pela ferrugem. A fome dá sentido e inteireza. Razão e valor, ainda que por um naco de pão seco. Não se furta à clareza e verdade. É o que é. Tem olhos agudos e uma energia devoradora por mais.
Por que não escolher os três: faca, queijo e fome? A poucos se lhe dá a sorte desta abundância. De fato, os que têm os três estão mesmerizados em vidas sem significado, assim, não há escolha a ser feita, o que tem está dado desde sempre. A escolha vem das experiências viscerais que se vive. O valor de cada coisa tem que ser provado na vida, do contrário não se tem chão de escolha.
Só escolhe a fome os calejados de vivências testadas. Aprenderam em caminhos estreitos que viver é mais importante que comer e beber. A seguir Adélia, a fome que sente não é saciada com literais comidas, como aqueles cujo deus é o estômago. Eles transcendem facas e queijos, posto que os terrenos apetites não são mais suficientes.