segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Passeio ao passado: com ou sem dor?

As pessoas estão, de algum modo, familiarizadas com o fenômeno psíquico chamado déjà vu. Mas até recentemente era um enigma para os cientistas da mente. Talvez porque fosse difícil o estudo de algo que ocorre sem avisar e nas circunstâncias mais diversas. E não falta quem lhe dê ares místicos como se fosse reflexo de algo sobrenatural, quando não de um dom extrassensorial explicado pela parapsicologia.
Akira O’Connor, pesquisador da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, descobriu uma forma de reproduzir o déjà vu em laboratório. Mais ainda, foi capaz de “fotografar” o cérebro no exato momento em que as pessoas viviam a sensação perceptiva.
Segundo a pesquisa, o déjà vu é nada mais, nada menos que uma checagem do cérebro para verificar se uma memória está errada. Se há alguma incoerência entre aquilo que vivemos de fato e o que achamos que vivemos. Curiosamente, o centro principal de memória, o hipocampo, não participa desta checagem, mas a área de julgamento e escolhas, o córtex orbitofrontal.
Pessoas aprisionadas a lembranças traumáticas ou interpretadas como tal não vivem um déjà vu, esta simulação do cérebro, esta lembrança espelho. Elas têm aquela percepção particular sobre o evento passado como verdade, mesmo que seja só aumentada. Por angustiar, esta tal verdade aciona defesas que, aos poucos, se tornam parte daquilo que a pessoa é. Uma espécie de versão 2.0 (malévola) de si mesmo. Assim, no presente, a pessoa se torna quase fruto exclusivo das estratégias defensivas, das evitações e esquivas que lhe formataram a forma de viver.
As lembranças angustiantes passam a ditar a qualidade de vida. Determinam comportamentos, acuam as relações. O labirinto consiste em muitas perguntas que levam a becos sem saída. Quase sempre começam com um “e se...”. Sensações, emoções nascem destes circunlóquios mentais, aprisionando a pessoa numa teia quase infinita. Lutar contra o passado é seu presente. A pessoa se torna um D. Quixote: vendo dragões onde haveria moinhos.
Enquanto o déjà vu simula e produz, se muito, um ligeiro incômodo com uma quase certeza, as lembranças ruins chicoteiam, amarguram e desequilibram a vida. Caminha-se enviesado cumprindo a profecia do anjo torto drummoniano: “Vai, Carlos! ser gauche na vida.”
A pesquisa citada conclui que ter um déjà vu é um bom sinal de funcionamento do cérebro. As lembranças aprisionadoras fundadas em experiências verdadeiras ou não, é uma doença. Mas ninguém precisa ficar à mercê de seus devaneios, de um cérebro que parece ter vida própria, ou de um segundo eu que simula ser nosso carrasco e torturador. A boa notícia é que há ajuda disponível. O cérebro sempre trará à consciência milhões de coisas disparatadas e se não tiver objeto onde se ancorar, ele passeará por aí, vagabundo.
Não há nada de errado em vaguear mentalmente, às vezes é até necessário. Confabular consigo mesmo. Ter tempo sozinho. Sei, muita gente detesta a própria companhia. É um ilustre desconhecido de si. Ao menor silêncio, se enche de barulhos: tv, música, computador. Então comece devagar. Quem não se aguenta é péssima companhia para os outros.
O passado ameaçador precisa ser trazido à luz do presente tal como foi. Despido das fantasias que lhe agregamos. Real e sofrido como foi. Ser olhado de frente. Mesmo com medo, pois aquele que sofre sabe as emoções ruins que ele desperta. Olhá-lo, porém, no espaço seguro da ajuda, facilita superá-lo, permitir-se pacificar e se reintegrar. Somos colchas de retalhos, mas uma colcha não é o retalho sozinho, costurado centenas de pedaços ganhou função, aquecer e proteger o que nela se abriga.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Entre a profecia autorrealizável e o otimismo

Por que dizemos algo e, como que dotados de poderes proféticos, vemos aquilo se realizar? O que acontece quando alguém aceita um rótulo e age como se fosse aquilo que disseram dele ou dela?
Estamos falando de duas coisas entrelaçadas. A profecia autorrealizável, um termo cunhado em 1948 pelo sociólogo Robert Merton, e o estereótipo. A primeira tem a ver com uma afirmação, na maioria dos casos não verdadeira, que é capaz de estimular comportamentos que induzem as pessoas a se tornarem ou a contribuir com aquilo que desejam... ou não.
O estereótipo é uma crença arraigada sobre uma situação ou pessoa(s) capaz(es) de modelar seus comportamentos de forma que acabam cumprindo aquilo que é dito a seu respeito. Em ambos os sentidos: positivo e negativo.
Tali Sharot, em seu livro O Viés Otimista, cita um experimento em que alunos, de uma escola primária, foram aleatoriamente escolhidos por um psicólogo e deles se disse que estavam num ponto de significativo desenvolvimento intelectual. A informação era falsa, mas os professores não sabiam. Ao final do ano, a previsão se concretizou: não só os alunos tiraram melhores notas que os demais, de quem em nada se diferenciavam em termos intelectuais, como obtiveram melhor pontuação em testes de QI. Qual foi a mágica?
Os professores, acreditando que lidavam com pessoas especiais, lhes deram mais atenção, mais retorno sobre seu desempenho e maior estímulo à participação nas aulas. Resultado: eles se tornaram de fato especiais. A conclusão do estudo é que as pessoas são enormemente afetadas pelo que se espera delas.
Isso vale para o estereótipo. Aquele que aprendeu a ser menor, inferior, menos capaz, agirá como tal. Acredita nisso, tem cérebro domesticado. Experiências provaram que os considerados superiores se mostram mais confiantes, e os inferiores assustadiços, e realizam atividades com pior desempenho. A boa notícia é que, tão logo o estereótipo é desconstruído, os inferiores demonstram tanta capacidade e habilidade quanto qualquer um. Cidadãos indianos da casta dos párias  vivendo nos EUA costumam demonstrar desenvoltura e serem bem sucedidos, ao passo que seus iguais na Índia vivem empobrecidos e nos estratos inferiores da sociedade. O estereótipo é uma profecia autorrealizável.
Pensar de uma determinada maneira ou acreditar em algo desencadeia uma miríade de “pequenas” ações, às vezes inconscientes, que terminarão por favorecer ou criar a situação propícia à realização de objetivos. Uma boa dose de otimismo é fundamental. O otimismo, por si, nada realiza. Mas ele motiva a se andar em determinada direção e fazer aquilo que nos cabe ou está ao nosso alcance na expectativa de que o bom se realize. Se o otimismo falha em sua previsão, ele bate a poeira, identifica o erro, aprende com ele e tenta outra vez.
O pessimista é um fatalista. Para ele, o mundo está determinado e nada há o que fazer ou, se condescende, até aceita que deve haver algo bom pelo que esperar, mas nada sabe a respeito disso e provavelmente não vale a pena. O pessimista tem um quê de perfeccionista, pois tende a transformar o menor revés na pior catástrofe, caso não ocorra na exatidão matemática que espera. Ele atrai o mal, não porque seja um destinado a cumprir uma sina ruim, mas porque trabalha para ele com sua negação a tudo.
O otimista não tem compromisso com a infalibilidade. Ele atrai o bem porque o persegue. Compreende que o mal é contingente, aceita que é parte do processo apenas, mas seu alvo e busca está nas coisas boas e nelas se concentra. Quando vê um abismo, pensa logo em como construir uma ponte; o pessimista continua caminhando em sua direção porque desacredita que pode parar, se quiser.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O tropeço do Papa

O papa tropeçou na Polônia. A imagem foi reproduzida milhões de vezes e por mais de um ângulo. Ele rezava uma missa no encontro mundial da juventude, que aconteceu naquele país. Aproveitou uma folga e visitou o mais icônico de todos os campos de concentração nazistas: Auschwitz-Birkenau.
No Campo, pediu misericórdia a Deus para “seu povo” e que perdoasse “tanta crueldade”. Clóvis Rossi – e muitíssimos outros antes dele – se espoletou. Em artigo cujo título é, por si, uma declaração de (não) fé, “O papa, Auschwitz e a omissão de Deus” (29/07/2016 – Folha de São Paulo), ele se expressou assim: “O problema, acho eu, não é só perdoar, mas acima de tudo entender como Deus, se é misericordioso, pôde permitir tamanho horror.”
Elie Wiesel, escritor e único sobrevivente de sua família de prisões em guetos e do campo de Buchenwald, fez a pergunta mais direta em sua obra e há quem diga que toda ela a reflete: “onde estava Deus em Auschwitz?” Nesta terrível experiência, Wiesel perdeu a fé: “Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que transformou minha vida numa longa noite, sete vezes maldita e sete vezes selada. Nunca esquecerei aquela fumaça. Nunca esquecerei os pequenos rostos das crianças, cujos corpos vi tornados em coroas de fumaça sob um céu azul em silêncio. Nunca esquecerei aquelas chamas que consumiram minha fé para sempre.” (Do livro A Noite)
Um anônimo judeu prisioneiro escreveu com carvão nas paredes de sua cela: “Se existe um Deus, ele terá que implorar meu perdão.” Esta frase é razoável? Sim, é. Quem pode julgar o homem nas condições a que foi submetido? Sugiro o filme “O filho de Saul” para avivar a memória. No sofrimento, perdemos a perspectiva. Embrutecemos. A fé se esvai como numa hemorragia. A vida perde sentido. Nosso cérebro busca desesperado uma explicação, uma razão, para entender o inominável. Sem resposta, quase sempre Deus se torna o bode expiatório.
As pessoas se sentem traídas em sua visão de um Deus bondoso e a fé que lhe dedicaram e o que consideram uma falha fragorosa no ser Deus. Essa crença que chamam de fé é nada mais que racionalização com um relacionamento distante. A fé, certamente, não abdica de pensar, mas é um erro quando apenas com isso se confunde. O salmista Asafe tentou encaixar o mal na vida e concluiu: “Quando busquei compreender tudo isso, reconheci que estava diante de uma tarefa muito acima das minhas forças.” (Salmo 73.16). Rubem Alves caiu nessa armadilha, muito depois de ter escrito um texto que recomendo: “Por que alguns sofrem e outros não?” Está seu livro “Se eu pudesse viver minha vida novamente”. Inspirado, ele encerra o artigo: ”Sofrerei sem revolta, sabendo que Deus é inocente.”
De fato, as expectativas humanas é que são frustradas, pois o conhecimento que se tem de Deus diz que Ele deve agir de determinada forma. Acontece uma dissonância cognitiva quando Ele, aparentemente, se esconde, se omite, silencia. A ideia exposta por Bento XVI em 2010, quando visitou Auschwitz, depois que perguntou retoricamente onde Deus estava, aponta uma reflexão: “não podemos perscrutar os desígnios de Deus... e nos enganamos quando queremos converter-nos em juízes de Deus e da história”.
Para muitos, este tipo de resposta sugere uma capitulação, uma forma de passar a mão na cabeça de Deus e abdicar de nosso lugar entronizado no ego, cheios de humanos direitos. Nosso princípio de justiça clama. Nossa sede por vingança reivindica uma punição. No entanto, o mal segue sem impedimento e cumpre sua sina bestial, deixando-nos impotentes no caminho. Os salmistas sabiam dessa dor. Não poucas vezes a sofreram ao ver o homem mal prosperar em seus intentos malignos. Asafe diz que esteve a ponto de resvalar o pé e cair da fé e só compreendeu tudo ao entrar na Casa de Deus e entender a perspectiva humana e temporal do mal, a partir de Deus: “Tu os colocas em terreno escorregadio e os fazes cair na destruição.” (Salmo 73.18)
Rossi, Wiesel, Alves e tantos outros não puderam ver por este ângulo, quedaram-se em redemoinhos de consumição sem resposta. Ainda que admitam a responsabilidade exclusiva do homem no feito horrendo, mas sempre retornam ao ponto: Deus deveria ter feito algo.
Outro judeu, sobrevivente de Auschwitz, pensa diferente. Viktor Frankl, psiquiatra, criador da Logoterapia. Em seu livro “A busca de Deus e Questionamentos sobre o Sentido”, na verdade, um diálogo entre Frankl e Pinchas Lapide – outro sobrevivente do Holocasuto –, ele afirma:

“Eu questiono energicamente que seja possível negociar, dizer: Querido Deus, preste atenção, até 526.000 judeus mortos na câmara de gás eu mantenho minha fé em você, mas eu não permito mais nenhum único. Porque você deixou que morressem cinco ou seis milhões – por causa disso eu retiro a minha fé. A gente não pode negociar. E veja, a fé, a verdadeira fé continua a existir. Muitas pessoas dizem que em Auschwitz a maioria das pessoas perdeu certamente sua fé em Deus! Mas isso não é absolutamente correto. Eu não tenho nenhuma estatística, mas, segundo minhas impressões, meu sentimento, é de que mais pessoas em Auschwitz readquiriram sua crença e que em mais pessoas em Auschwitz a fé foi fortalecida – e isto significa apesar de Auschwitz – do que aquelas que a perderam lá.” (p. 83, 84)
Adiante, em outro momento do diálogo, Frankl completa:
“Eu acredito poder dizer que a crença frágil foi extinta no campo de concentração, mas a crença forte, a verdadeira fé, podemos até mesmo dizer que ela apenas se tornou mais forte. A verdadeira fé se tornou mais forte, a fé enfraquecida foi extinta.” (p. 117)
Apenas temos que dar a Frankl o crédito por estas palavras por duas razões: ele era um observador preparado e atento aos reveses que a alma humana sofria nos campos e ele mesmo era um prisioneiro. Não cabe julgamento àqueles que, por razões do imenso sofrimento, se tornaram, nem digo ateus, mas atormentados com uma fé que não podiam negar totalmente, tampouco segui-la.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Os caçadores de Pokemon

Todas as palavras sobre o Pokemon Go são superlativas. Brasileiros aficionados a jogos não veem a hora de se sair por aí catando, melhor dizendo, caçando os bichinhos virtuais esquisitos. Considerando que as pessoas nas ruas e ao volante dos carros já andam que nem autistas, alheios ao mundo com a cara enfiada nas telas dos celulares, o que não acontecerá com a operação definitiva dos servidores da Nintendo, que já estão em teste no país?
Talvez eu seja apenas um old fashion. Quem sabe, por razões um tanto desconhecidas para mim, tenha feito uma viagem no tempo, apenas me deixando ficar no século passado e este que aqui está não passa de um holograma que vê estas coisas com curiosidade, quase cientificamente interessado nos comportamentos estranhos que eventos como esse despertam nas pessoas.
A vantagem é que, parece, os bichos podem ser caçados e não correm o risco de extinção. As reportagens mostram magotes de pessoas reunidas, mas não necessariamente em contato entre si, em praças e parques ou mesmo nas ruas, realizando movimentos estereotipados, rindo sozinhos com a captura ou demonstrando frustração porque o bicho ladino escapou. E se fazem algum contato visual com um alienígena transeunte, demonstram constrangimento pela derrota.
Em meio à onda pokemoniana, há quem se ofereça para segurar o cachorro que foi levado para passear, para que seu dono possa caçar os animalitos tranquilo. Outros se oferecem, por módica quantia, para dirigir enquanto o dono do carro se torna um caçador virtual. Um irlandês não quis saber, entrou na contramão e por pouco não causou um acidente. Multado e repreendido pela autoridade de trânsito, explicou cândido que um Pokemon havia entrado na rua de mão proibida.
Eis mais uma forma de se anestesiar, de se deixar absorver e consumir. O mundo real é aborrecido e parece ter uma propensão especial para negar nossos doces sonhos. Que mais dá se a nova moda, com seu efeito manada, propõe caçar seres virtuais, contanto que se consiga inundar o cérebro de dopamina, não importa. Ademais, se pode “conhecer” outros caçadores e, quais homens primitivos, sentar ao redor da fogueira e contar em tons épicos as muitas aventuras de caçadas na selva urbana.
Que sensação de vitória e realização convidar alguns inexperientes caçadores para visitar a sala de jantar e lhes mostrar, entre orgulhoso e encantado consigo mesmo e cheio de autocongratulação, a parede de troféus, com suas indefectíveis cabeças empalhadas dos mais exóticos animais que se tem notícia. Quem sabe, num arroubo culinário, explicar em detalhes de fazer inveja ao Master Chef, os acepipes e formas sofisticadas de comê-los. Não inteiros, mas partes específicas como fígados de ganso engordados com manteiga.
Não se admire se encontrar pessoas desfilando nas ruas com peles-imitação dos bichos caçados, ou ainda colares feitos com dentes ou chifres mágicos, anéis com olhos envidrados como símbolo de um desses novos e fugazes status: caçador de Pokemon.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Whats-Constrangimento

“De repente, não mais que de repente...” Sei, emprego a frase de “Soneto da separação” em contexto diverso de seu sentido, mas o faço de propósito. Leitor, retome a frase do Poetinha. Você se dá conta de que faz parte de pelo menos cinco grupos de whatsapp com os quais se relaciona quase como múmia: não esboça nem um bocejo sequer, não fala, e não coloca um único e escasso emoji sorridente para as piadas e/ou imagens esquisitas que as pessoas adoram compartilhar. Não raro, de mau gosto, pois todo grupo parece ter um espírito de porco. Por indiferença às postagens cornucópicas, tampouco tecla o famigerado kkkkk para não deixar a fala de um zinho qualquer no vácuo. Na verdade, você fantasia – e acha ótimo – a imagem dele(a) se contorcendo por causa do silêncio de todos.
Se você é daqueles que, sei lá porque razão, não usa o dispositivo “silencioso”, vai acabar percebendo que está a ponto de ter um surto, pois a cada dois segundos seu celular emite um som. Saiba, isso também inferniza a vida de quem está por perto. São as pessoas postando freneticamente. Ao olhar as mensagens nos grupos, descobre: são centenas de postagens tolas, repetitivas, engraçadinhas ou brigas, digamos, verbais, pelos motivos mais ridículos e que você não tem a mínima vontade de apartar: que se matem... verbalmente.
A certa altura, você tem uma sensação de estranhamento. O que eu tenho de comum com estas pessoas? Se alucinar um pouco mais, se perguntará: quem são essas pessoas? Precisa relembrar que foram da escola, são do trabalho, da igreja, do condomínio... Os grupos escolares viraram moda. São enormes. Vivem numa espiral nostálgica que abusa como quando se come mel além da conta. Entre os membros, alguns tentam ressuscitar brincadeiras adolescentes, outros suspiram o tempo inteiro pelos velhos e incríveis tempos e ali se torna uma bolha que oferece um parêntese entre os desacertos, os fracassos, os desastres e tudo aquilo que a vida lhes fez. Pode ser um espelho da rainha má a dizer quão errado deram aqueles seus planos de ser alguém na vida, já que alguns dos colegas chegaram lá e você, não.
Algo une todos esses grupos: você sente uma vontade enorme de sair simplesmente batendo a porta e pronto. Então, um fenômeno sinistro: desconfia que está preso por teias invisíveis que lhe impedem de sair. Pensa um pouco e nomeia algumas das armadilhas, pois são o que são. Vergonha. Culpa. Pensa: o que dirão se eu sair assim? Falarão mal de mim. E, mais horrendo, pensarão mal de mim. E se corrói com o dilema: que desculpa dar?
Descobre que apagar as mensagens e imagens sem lê-las é como uma pequena vingança. Uma forma de dizer para si mesmo: olha o que faço com vocês e suas tolices rematadas! A vontade de sair, porém, não acaba. Mas um constrangimento avassalador lhe toma de assalto, aquele que é seu e o que lhe incutem. Ao final constata: o grupo virou uma prisão. Sair é mais que ousadia, é uma traição aos demais. Eles se parecem a uma... Coreia do Norte.
Assim estava minha amiga que encontrei à porta do elevador. Subimos alguns andares juntos. Você ainda está no grupo tal? Afirmei que sim, mas que iria sair. Ela aproveitou: Como tu vai fazer isso? Há tempos quero sair e não consigo! Já marquei data e tudo e na hora faltou coragem. Respondi: Direi que foi legal, desejarei algo de bom e tchau. Faça assim, aconselhei. Então, desolada, ela perguntou: Mas se eles me colocarem de volta no grupo?

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O mal da complacência

Por puro tédio deixei-me levar por um destes programas em que o apresentador viaja a lugares para nos mostrar. Vi “Pedro pelo mundo”. Talvez porque falasse de um país que admiro: Cingapura. Pedro fez o óbvio, andou por lugares batidos, nadou na piscina sem fim mais alta do mundo, mas uma conversa com um “nativo” me fez pensar. O sr. Lee qualquer coisa dizia que a explicação para o sucesso da cidade-estado estava alicerçado em duas coisas: meritocracia e não complacência. Pensei: no primeiro caso, com as exceções de praxe, somos escassos; no segundo, se retirarmos o “não”, temos em abundância, como no Maranhão o babaçu abunda.
O homem poderia ter explicado com palavras mais concretas – não que aquelas duas não tenham concretude. Dizer da tecnologia, da educação, nível de saúde, a localização geográfica estratégica, a multiplicidade étnica, o ambiente para negócio. Não. Um cidadão comum atribuía o êxito de seu país a termos que dificilmente usaríamos para descrever nosso ufanístico sucesso brasilis, agora em miserável baixa.
A complacência é um estado d’alma. Alma doente. Como dizia Riobaldo: viver é muito difícil. A vida, ao que me parece, pede arrojo, determinação, o que o complacente não consegue ser, pois está amarrado a uma pedra que afunda chamada indulgência consigo ou com os outros. Complacência é outro nome para a preguiça, pecado capital definido no catecismo católico. Nossa cultura, no entanto, transformou a preguiça em algo alegre e prazenteiro. Dorival Caymmi é seu patrono a modorrar em sua rede condescendente eternamente à beira da praia, sob coqueiros balouçantes.
Os Provérbios bíblicos tratam do tema. O complacente age como o preguiçoso: “um pouco para dormir, um pouco para toscanejar, um pouco para cruzar as mãos em repouso; assim te sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade como um homem armado.” (Pv 6.10,11). Nossos sambas exaltam essa condição: “Quero sombra e água fresca / Eu quero na minha rede balançar / Brasil, meu Brasil!.” (Samba enredo da Viradouro: Os sete pecados capitais.
Um dicionário diz que o complacente é aquele que tem “inclinação para concordar frequentemente com outra pessoa com a intenção de satisfazer a mesma ou de ser agradável”. É o sem opinião. É o maria-vai-com-as-outras. É um nulo. Em nosso tempo, muitas opiniões nulas. O medo de desagradar aprisionam pessoas assim. Elas agradam porque recebem escassa aprovação da qual se alimentam como migalhas catadas no chão. São servis. Os pais os chamam de obedientes. Os amigos de pessoas boas sempre prontas pra ajudar, mas ai de quem não agradece: ficam emburrecidos, fazem pirraça. O mundo os vê como bestas e, por evidente, se aproveitam.
Conheço muita gente que quase sente dores físicas quando tem que dizer um “não”. Alheiam-se de si mesmos. Delegam suas vidas a outros que os carregam entre o sentimento de fardo e o tesão por terem uma vida sob seu domínio. O Brasil é um país de complacentes. Nossa história passada e presente é uma fieira de acontecimentos – com raras exceções – de atitudes movidas por pura torta benevolência. Assim tratamos nossos pobres. Assim definimos quem precisa de cota. Desta forma criamos uma casta de coitados cheios de fúria merecedora de todo o favor. Precisamos cantar e reler “Vozes da Seca” de Luís Gonzaga: “Mas doutô uma esmola a um homem qui é são / Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.
Obra de MC Escher - Relativity (1953)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A roda grande correndo dentro da pequena

Você lembra a última vez que pensou em postar algo ou falar num grupo de amigos, mas na hora agá percebeu o ímpeto que vinha de dentro de você, algo difuso e confuso que, você suspeitou, era uma autocensura? De repente você estava perdido entre pensamentos, em luta feroz entre falar e não falar, então percebeu aliviado que o timing passou e já nem fazia sentido fazer/dizer qualquer coisa.
Vamos a outro cenário. Por puro ato falho, deixou escapar uma fala e bem antes que se desse conta, já havia sido atropelado por uma enxurrada de puxões de orelha, alguns simulando humor, outros ameaçadores com algo parecido ao fogo do inferno que as redes sociais e as patrulhas do politicamente correto e ainda o que todo o estamento governamental pode alegremente proporcionar à sua vidinha besta.
Nada disso tem que ver com a urbanidade necessária nas relações sociais. Acontece um processo de desindividuação, uma mentalidade de insetos sociais, um efeito manada permanente. Uma erosão na liberdade pessoal, pois não há prisão pior do que aquela autoimposta.
Você se policia dia e noite para não deixar escapar uma daquelas palavras que se tornou maldita e faz parte de um índex oral. Pisa em ovos, porque uma escorregadela verbal e o mundo desaba sobre você. Este é um medo preventivo que nos sufoca e definha, diz João Pereira Coutinho em “As mulheres de Henrique VIII”, a quem recomendo a quantos desejam ainda um pouco de sanidade intelectual, outro nome do velho bom senso.
O mundo está ameaçador não só porque há sempre um demente à espreita e disposto a se explodir ou fuzilar aqueles que são “os outros” e que não são santos ou puros como eles. A ameaça é mais insidiosa. É sub-reptícia. Sonsa. Dissimulada. Está ao alcance do onipresente whats. Quantas brigas fratricidas e desamizades por palavras mal interpretadas!
E o whats é essa coisa em que as palavras não são suficientes. Elas são esquálidas. Ficam espremidas, reduzidas, subvertidas de sua gramática natural. E não adianta colocar uma profusão de emojis. Há pessoas viciadas neles. Sua linguagem é rudemente pictórica, dispensa palavras como se estivéssemos envoltos num mundo de silêncio. O app pode sempre proporcionar a fala gravada, mas não é a isso que refiro aqui.
O intérprete da sua fala só o faz segundo a estreiteza de seu pensar e sempre com um único significado possível, aquele que lhe desconstrói como ator social, como pessoa. As palavras estão prisioneiras e amordaçadas por um bando de débeis que as usam como aríetes para declarar a libertação e o direito de novos hebreus cativos e espoliados. Mas estes não tem Deus ao seu lado, menos um Moisés. Eles são vítimas supremas o que lhes dá o direito quase divino e lhes gera o que a arrogância mais abjeta pode produzir: que é ignorar e massacrar todos os que apelidaram de opressores. Para ser opressor basta não navegar em suas águas turvas.
Os protagonistas, quase sempre magotes autointitulados minorias, quais polícias religiosas, andam sedentos, exaltados, determinados a enquadrar uma maioria acovardada, com uma síndrome de culpa ou vergonha por serem causadores de toda sorte de miséria, mesmo que elas tenham acontecido há quinhentos anos.