sábado, 25 de julho de 2015

Cuecas para colorir

Cuecas com estampas para colorir podem se tornar a nova febre entre homens e mulheres, após o sucesso dos livros com essa temática. A ideia é de uma empresa do setor em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, e será apresentada durante a Fevest, a Feira de Moda Íntima da cidade, que acontece entre 2 e 4 de agosto e recebe confeccionistas de todo o Brasil.

Fonte: G1, Juliana Scarini (24/07/2015)

Desde “O Jardim Secreto”, desconheço quem ainda não saiba sobre os tais livros para colorir. Sei, sim. Tem uns conhecidos meus que mal sabem o próprio nome, menos ainda estes tipos de novidades modernosas que, suspeito, só amplia a ignorância do brasileiro médio, mas os deixam zen, afirmam. Quisera. Não que as editoras deem atenção, pois não há uma que não tenha em seu catálogo esta nova febre que pouco se importa com o hábito indigente de leitura dos brasileiros.

O fato é que colorir livros invadiu até o campo da psicologia. Não sei bem quais transtornos eles curam ou aliviam, nem qual a posologia indicada, mas a propaganda vende que a capacidade livresca, para pintar, por suposto, abate a consumição, produz paz, calma e, se duvidar, traz o amor perdido, mesmo que ele não queira.

Os descolados fazem até coleções em suas mesas de centro nas salas, onde pilhas de obras com garatujas as mais estranhas descansam à espera de quem queira matar o tempo, fazendo suas pinturas oníricas ou, se preferirem, lisérgicas. A indústria de lápis de cor agradece penhoradamente. É, inclusive, de mal tom dar um livro desses sem uma caixinha de lápis de cor, pois afinal eles são meio inúteis e desenxabidos se não se tiver à mão algo para pintá-los.

No interior do Rio de Janeiro, o dono de uma confecção teve uma ideia escatológica. Está produzindo cuecas de algodão com padronagens para colorir. As canetas para tecido são vendidas separadamente, óbvio. Entre estranhados e curiosos, os consumidores estão aderindo à ideia, ainda que timidamente. Sem querer, acho que o empresário inventou o santo graal contra o tédio nas relações íntimas. Ou nas não relações.

E aí, você topa? Topa o quê? A gente pintar uma cueca juntos. Será que cola como cantada? Pelo menos é inusitada. Não duvidem se inventarem um concurso para premiar a cuequinha-obra mais linda. Hão de ter categorias para as pinturas: abstratas, cubistas, impressionistas e por aí afora. Um sujeito animou-se a dizer que compraria, pois é desestressante. Talvez se sinta pressionado por um desempenho digno de um Casanova. Dá para imaginar a cena: a mulher deitada esperando e o cara pegado na cueca. Peraí, tô quase terminando essa florzinha aqui.

Outro adepto da ideia, pensava em comprar uma meia dúzia – não sei se vendem o conjunto naqueles copinhos ou em pacotes econômicos – para, segundo ele, se divertir com a namorada. Taí uma boa forma de ajudar aquele que se sentia pressionado. Envolver a mulher na pintura, assim ela esquece do sexo e de qualquer cobrança.

As ideias para a vestimenta de baixo se multiplicam, mas ainda não chegou à fase de recomendá-las para problemas masculinos. Mas não duvido que alguém a indique para os que sofrem com ejaculação precoce, por exemplo. A ver.

Tem quem acredite que a cueca pintadinha pode ser útil para apimentar as relações. Tenho cá minhas dúvidas. E se a cueca só conseguir arrancar boas gargalhadas da parceira? Eis uma prova mais dura, suportar o ridículo da aparência.
A verdade é que a tendência apenas começou. Já se fala a boca pequena em avançar na direção das calcinhas e sutians e, barbaridade, camisinhas. Não sei no que isso vai dar, talvez na diminuição da população.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Podres de Mimados

Theodore Dalrympe é o pseudônimo do médico psiquiatra inglês Anthony Daniels. Guardando-se as proporções devidas, Dalrympe é o Mr. Hyde do dr. Jekyll (Daniels). Ironia e sarcasmo seguem o curso do livro sem qualquer pedido de desculpas ao politicamente correto. Ainda bem. Imagine em certos círculos no Brasil, dominado por uma ralé carregada de ideologia, especialmente em órgãos públicos aparelhados pelo petismo deliquente, alguém dizer a seguinte frase: “… é puro sentimentalismo ver viciados em drogas como vítimas de uma doença.” Ou ainda sobre o mesmo tema: “...eles se tornam viciados em heroína com algo que só pode ser chamado de determinação...”

É evidente que se deve ler o contexto da fala de Dalrympe para não acusá-lo injustamente de insensibilidade e até de ignorância criminosa, posto que drogados fazem parte do público atendido pelos psiquiatras nas atuais formas de tratar o problema.

O livro inteiro é dedicado a explicar porque as sociedades ocidentais deixaram caminhos mais assertivos e meritórios para serem devoradas por um sentimentalismo que subsidia todas as ações de governo e mesmo até media a criação de filhos. 

Dalrympe tem décadas de quilometragem atendendo no sistema de saúde pública inglês e viu as transformações, nem sempre para melhor, que os SUS saxão sofreu ao longo do tempo. Ele admite que definir sentimentalismo não é fácil, mas o tipo de sentimentalismo a que quer chamar atenção não é exatamente aquele que os dicionários definem como excesso de emoção, afetação, superficialidade, que normalmente se refere a uma manifestação no plano pessoal, mas o que este comportamento gera no espaço público.

O autor também trabalhou no sistema penitenciário inglês e desta experiência traz alguns exemplos interessantes. Imagino que enriqueceria uma próxima edição de seu livro a inclusão do que no Brasil se denomina: auxílio-reclusão. Para o marginal sai a jato enquanto a concessão de uma aposentadoria é uma via crucis para o esfolado trabalhador que contribuiu com o sistema por décadas e agora na iminência de ter esse tempo aumentado ainda mais. O que justificaria essa aberração? O sentimentalismo.

Possivelmente, o protagonismo que as redes sociais instigam as pessoas a manifestar, gerou um tipo de competição que pede cada vez mais exagero nas expressões de sentimentos. O sentimentalismo se tornou a nova verdade pessoal, pois sem ele indivíduo não passa veracidade naquilo que manifesta. Estaria aí a moda de jogadores de sucesso posarem ao lado de crianças com câncer? Parece que nesse tempo escorregadio não basta jogar bem, há que justificar os ganhos estratosféricos – quase imorais – ante aqueles que realmente produzem no plano bem prático, serviços à sociedade.

Uma característica peculiar do sentimentalismo é o pouco uso da racionalidade. Bastam as emoções para autenticar um ato, uma demonstração seja do que for. Dalrympe não diz, nem passa perto, mas será que o Estado Islâmico, esta força demoníaca disfarçada de religião, não intuiu que nós ocidentais nos tornamos bebês chorões e então eles carregam as tintas (e imagens) em seus espetáculos freaks de assassinatos requintadamente perversos para impactar o mundo frouxo e desregrado no que o ocidente se tornou?

Se bem entendi, o sentimentalismo substitui as palavras que constituem argumentos. Basta o espetáculo, a aparência das coisas para que sejam justificadas. O sentimentalismo, a seguir o raciocínio de Dalrympe, alimenta a culpa e dela extrai toda sorte de vantagem malandra travestida de justiça social quando diz que nós ainda somos culpados, todos os brasileiros, pela escravatura no país. Que ao pobre dá uma condição especial de merecimento e de proteção que o Estado deve suprir. Daí os montes de bolsas-qualquer-coisa. Particularmente não sou contra a ação do estado em favor dos mais pobres, é que nos Brasil a ação estatal é manipulatória, matem a pobreza, sustenta uma súcia de políticos e partidos. Vicia o pobre, retira sua dignidade e o transforma numa faroleiro manipulador e glutão de benesses.

A pobreza, no sentimentalismo, é virtude. É claro que a se seguir com esta lógica, a sociedade vai se esfacelar em grupos os mais diversos, todos cheios de direitos, inclusive os menores assassinos e ladrões que aprenderam a manipular a lei em seu favor e quando se fala em alterar um sistema com um quarto de século de fracasso quase integral, as vozes sentimentalistas gritam que a solução para o descalabro atual não é boa o bastante. Então o quê?

O sentimentalismo alimenta a cultura do vitimalismo e do coitadismo. Todo mundo é vítima. Quase sempre, diz Dalrympe, em seus próprios termos, pois como exemplifica, a vítima é que diz que é, segundo sua própria concepção. O sistema, de certo modo, atende ao seu clamor pois eles, organizados, paralisam as ruas, avenidas, estradas – isso se tornou comum no Brasil – porque, dizem cheios de razão, estão reivindicando “seus direitos”. É um mundo de gente que só tem direitos e os demais, o estado acima de tudo, corre a atendê-los, pois pareceria vergonhoso e injusto não fazê-lo. O sentimentalismo nos tornou reféns da esperteza. “A desonestidade emocional não conhece fronteiras”

“O desejo ou ânsia de se transformar numa vítima tornou-se tão grande que hoje as pessoas afirmam ser vítimas de seu próprio mau comportamento.” Essa é outra questão que Dalrympe aborda. A vítima nunca é responsável. O coitado também não. O que eles não suportam – o coitado bem mais que a vítima – é que os chamemos pelo nome certo. Vítima nem tanto, pois como a Dilma está careca de fazer publicamente, ainda mais quando acuada, é evocar seu tempo de guerrilheira que foi presa e torturada. Conquanto ninguém em sã consciência admita que torturar é correto, ela correu o risco e pagou por isso. Não foi apenas por defender ideias à época proibidas, mas porque pegou em armas, assaltou bancos. Sua ideologia admitia o sequestro como legítima forma de luta e estes atos são crimes em qualquer lugar do mundo, mesmo em ditaduras. Pela mesma lógica, volto ao nefasto EI, é válido matar, crucificar, queimar pessoas vivas, decapitar, porque sua fé assim admite e pede.

O coitado se espoleta se o chamarmos assim. É que não pega muito bem. O coitado ama 
as vantagens que tem e que os outros, vítimas de suas chantagens, lhes dão, mas odeia que o coloquem neste lugar. Vítima dá status, coitado é xingamento.

Dalrympe é uma leitura mais que necessária para pensarmos fora da caixa ou da camisa-de-força que a atual conjuntura psicossocial impõe como verdade.

domingo, 19 de julho de 2015

Quem vê cara…

Imagine crescer com um irmão gêmeo não idêntico. Vocês teriam a mesma educação, a mesma escolarização, os mesmos interesses. Os dois seriam igualmente aventureiros e interessantes. Iriam à mesma academia e comeriam o mesmo tipo de comida. Espiritualmente e mentalmente, vocês seriam sósias. Mas teriam apenas uma diferença: o rosto.
Fonte: David Robson Da BBC Future (14/07/2015)
A expressão cara-de-pau não tem origem esclarecida em português. Os entendidos dizem que tanto cá como na terrinha, o sentido é o mesmo. Talvez porque o significado seja tão velho quanto o homem. Descaramento, desfaçatez, cinismo, cara lisa, caradura, são palavras que traduzem bem o cara-de-pau, bicho que no Brasil abunda e não corre o risco de chegar nem perto da extinção. Os mensalões, petrolões e afins, além da escumalha política, são pródigos nestes espécimens.
Enfim, leio que a cara, melhor, para ficar de acordo com a pesquisa, o rosto, define o futuro de quem o tem. Vale até para gêmeos idênticos, pois apesar de assim percebermos, eles têm sutis diferenças no rosto e isso, atestam os pesquisadores, definiria o destino de cada um.
Uma pessoa precisa de míseros 40 milésimos de segundo para julgar um rosto. O que vem depois daí vai depender de uma miríade de coisas, desde seus maus-bofes até a cara do indivíduo com suas microexpressões que, sabe-se lá, captamos e ali, sem maiores lero-leros, tomamos decisões, até mesmo de votar no dito. Já falo disso.
Para o bem e para o mal esta, digamos, capacidade, nos faz achar que alguém é honesto, por exemplo. Imagine. Olhamos e dizemos com nossos botões: tem cara de honesto. Como dizem, o diabo está nos detalhes, este dispositivo quase sobrenatural nem sempre acerta, donde podemos incorrer no que os pesquisadores denominaram em “preconceito facial”. Só faltava essa! Já se vive num mundo em que há mais merecidos que merecedores e ainda inventam esta marmota.
E ainda. Os cientistas atestam que este nosso radar erra muito, tanto quanto uma toupeira enxerga. E, absurdo, engana-nos, pois um indivíduo está disposto a deixar de lado o que sabe em favor do que vê.
Um rosto confiável tende a se dar bem até quando está num julgamento num tribunal. As pessoas caem até na esparrela de emprestar dinheiro apenas com aquela precária avaliação visual. Voluntários na pesquisa olharam vários rostos e, por este julgamento que dura menos que uma piscada de olho, diziam em quem votariam e costumavam acertar naqueles que, posteriormente se constatou, foram eleitos. Não sei se a politicalha brasileira descobriu a manha ou os milhões com que as empreiteiras irrigam suas campanhas permitem além do photoshop nos cartazes de parede contratar marqueteiros que subvertem até a gravidade para parecê-los tragáveis.
A coisa toda não tem nada a ver com beleza, esclareça-se, pois convenhamos, já se tentou de tudo com a Dilma e ela continua um canhão. Nem falo no andar delicado de tanque de guerra. Será que foram os dentes de coelho que a fazem fofinha? O topete, talvez isso. Falha-me o juízo para explicar e a pesquisa não trata da peculiaridade brasileira.
Uma cara com certos traços particulares pode definir, por exemplo, o sucesso entre assaltantes. Uma cara mais assustadora e aí não sei definir como seria, tende a ser menos violento, pasmem, e assim faturar mais porque infunde medo. É preciso ter cara até para ser assaltante ou não entre no negócio. Diferente dos gatunos políticos e seus coleguinhas que não precisam de cara nenhuma, só a cara-de-pau mesmo para mentir ainda quando pegos atolados até o pescoço em traquinagens as mais escalafobéticas.
Talvez tudo isso junto explique porque, sempre eles, os políticos brasileiros voltem mandato pós mandato: a acuidade visual do povo é tão boa quanto a de um daltônico, seu sensor está avariado e os velhacos sabem fazer uma cara honesta, com um sorriso enganador e nós caímos porque estamos, talvez evolutivamente, presos a esta habilidade que espero que os mais aptos a percam nas próximas quinhentas gerações.

O mal que em nós habita

Em 1962, em Jerusalém, ocorreu um dos mais importantes julgamentos dos que tiveram como alvos criminosos nazistas. Adolf Eichmann, executor da “solução final”, foi levado ao tribunal pelos crimes de guerra e genocídio contra a humanidade que cometera. Hannah Arendt, judia, filósofa, ela mesma vítima das atrocidades perpetradas pelo nazismo, foi enviada pelo jornal The New Yorker para fazer a cobertura do julgamento e escrever um ensaio a respeito.
No livro “Eichmann em Jerusalém”, Arendt faz uma análise minuciosa do personagem nazista e discute a normalidade com que executou de forma metódica e precisa o extermínio de milhões de pessoas. Eichmann nunca admitiu culpa, pois sentia apenas que cumprira fielmente sua obrigação para com o estado alemão, do que tinha orgulho. Suas ações não foram feitas por ódio aos judeus, por tara ou sadismo: era seu dever. É nesse contexto que Arendt cria a expressão “banalidade do mal”.
A “banalidade do mal” se realiza num ambiente em que as pessoas abdicam de pensar, de empregar qualquer valor ético ou moral e, por conseguinte, de sentir culpa. Por este ângulo, se pode explicar os frequentes linchamentos e, em particular, o realizado há poucos dias em que um homem foi amarrado a um poste, despido e espancado até a morte aqui mesmo em São Luís.
Mas, cabe a pergunta: o que leva as pessoas a descerem a tal nível de barbárie? Freud, um pessimista com a natureza humana, comenta em “O mal-estar da civilização” que, em virtude de nossa tendência para a agressão, a sociedade civilizada está permanentemente ameaçada de desintegração. Reconhecia esta condição humana em seu construto teórico, ao qual denominou pulsão de morte.
Será que, ainda que seja compreensível, mas não justificável, as pessoas que assassinaram o homem – mesmo um marginal – foram movidas pela frustração, medo, sensação de desamparo, percepção de insegurança e descrença na justiça que tarda e falha, não poucas vezes, gerando, como subproduto nefasto, a certeza da impunidade daqueles que causam mal à sociedade?
Ainda que tudo isso seja verdade, parece insuficiente para, sozinho, explicar o comportamento violento das pessoas. A psicologia oferece várias teorias, entre elas a da frustração-agressão (final dos anos 1930) que, entre outras, concluem que não se encaixam em casos nos quais a violência se manifesta sem conexão aparente com uma força malévola que lhe justifique.
Tanto em Eichmann quanto em uma turba acontece um processo de desindividuação. Ele se diluiu numa máquina burocrática assassina, as pessoas que mataram Cledenilson se desconstituíram como indivíduos, mimetizados no povaréu, possessos de ira e, como um organismo selvagem sem freios, não se reconhecem culpados, nem carregam culpa.
A violência é inevitável? Estamos fadados a, num átimo, degringolar em selvageria por nos sentirmos com raiva ainda que, em certas condições, justificada? Tanto mais alheia e descrente nos valores ou estes relativizados, mais maquinal em seu comportamento a sociedade de consumo. Pessoas sujeitadas a processos em que são meras peças de uma engrenagem, desconstituídas do exercício da vontade, que abdicam da autodeterminação e cuidado de si em favor de um sistema árido e indiferente, mais propensos estarão a agir como se falidos em sua humanidade.
Educação, valoração de princípios que alimentem a prática da misericórdia, do respeito ao outro, do cuidado consigo mesmo. O fortalecimento das instituições que garantam o cumprimento das leis, da efetiva punição dos que maculam a organização social. A garantia de direitos, demonstram sociedades mais evoluídas, são caminhos que domam a fera que em nós habita. Acima de tudo, indicam inúmeras pesquisas no campo da psicologia social: o exercício da espiritualidade pode muito ajudar no convívio pacífico entre as pessoas. Especialmente aquele que tenha como base o fundamento ensinado por Jesus: amar ao próximo como a si mesmo.

domingo, 12 de julho de 2015

Depois da mandioca da Dilma, o crucifixo do Morales

A cruz em forma de martelo e foice entregue nesta quinta-feira ao papa Francisco por Evo Morales, presidente da Bolívia, seria uma reprodução do objeto criado pelo jesuíta espanhol Espinal, morto em 1980 por paramilitares contrários às suas lutas sociais.

Fonte: BBC Brasil (09/07/2015)

O Papa ainda não terminou seu périplo pela América do Sul. Equador, Bolívia e Paraguai foram os países agraciados com a presença de Sua Santidade. O que vai ficar marcado indelevelmente na viagem, além das falas contundentes e engajadas adotadas pelo pontífice, é um “presente” dado pelo presidente boliviano, o bolivariano Evo Morales.

Uma foto destaca o momento sem-noção do camarada Evo. O Papa parece temer tocar na abominação e não falo no sentido religioso, o que daria muito pano pra manga, mas da obra em si e sua aparência, digamos, horrenda para dizer o mínimo. Trata-se de uma foice e um martelo, símbolo do comunismo mundial consagrado pelos soviéticos e reproduzido em bandeiras e brasões de inúmeras nações que o implantaram para desgraça de seu povo.

A imagem do Cristo está crucificada no martelo e pouco acima da foice. Não há exegese que explique a demência da coisa. O rosto do Papa, qualquer um pode ver, parece traduzir o que vai na sua mente: PQP! O que esse imbecil está pensando? Ou esta, menos escatológica: Deus, me segura porque vou dar um bofete neste aimará maluco.

Há nítida surpresa e um leve e amarelo sorriso papal que tenta entender o significado do desastre estético e teológico. Nem os mais empedernidos teólogos da libertação boffinianos ousariam ajuntar símbolos tão díspares num mesmo saco. Só pra lembrar. O martelo e a foice foram usados literalmente para matar cristãos dentro das fronteiras de quase todo país comunista e que decretaram o ateísmo como uma política de estado. Mas coerência na esquerda, intelectual ou chifrim, é como pedir ao porco que não goste de lama.

Imagino o que ocorreu entre os assessores mais chegados ao presidente. Em alegre debate tentando agradar primeiramente ao seu patrãozinho. Foram incumbidos de pensar num típico presente que seria dado ao ilustre visitante. Um deles conhecia um artesão que faz qualquer coisa que lhe mandam. Camaradas, disse alguém, o presente deve traduzir a revolução bolivariana e o socialismo do séc. XXI do inefável companheiro finado Chavez que Deus o tenha. Benzeu-se, no que foi acompanhado pelos demais num sonoro “amém”. De repente, como que atingido por uma convulsão cerebral, berrou: viva Che! E os outros bradaram: viva! Viva Evo! Viva! Viva Chavez! Viva! Viva Dilma! O quê? Perdón, camaradas!

Um sujeito que a tudo assistia com pouca participação, pois parecia num transe, disse: um resumo da obra crística-bolivariana, a maneira de afastarmos esse cristianismo do colonizador opressor. Algo original com cheiro de Andes e cocô de Alpaca. Pregaremos Jesus na foice e no martelo. É a síntese de tudo. Olhos lacrimejados. Sinto aqui a presença do Chavez. Ele bafejou a ideia do presente ao Santo Papa. Amém, disseram todos. Ao final, antes de sair do transe, rabiscou freneticamente a obra. Com reverência, entregou o papel a um seu camarada que partiu incontinenti em busca do artesão que faria a esquisitice.

Dilma daria mandiocas ao Papa. Talvez com a imagem da Aparecida esculpida numa delas, vai se saber. De qualquer forma, o Papa já pagava um mico danado, pois nem bem desceu do avião, Evo sapecou-lhe um colar com uma sacola semelhante a um bornal e que trazia uns penduricalhos parecendo pequenas trouxas. A primeira fala do Papa, ainda no aeroporto, foi com a coisa pendurada ao peito. Nem Dilma com sua proverbial antice seria capaz de tanto.

A provação papal, no entanto, está quase no fim. Talvez reserve um momentozinho para fazer uma sacolagem entre nossos mais chegados falsificadores e agora entreposto chinês. O mercado de quinquilharias paraguaio.
Enquanto os fieis se dividem entre esquerda e direita, os primeiros a favor do presente destrambelhado do Morales e os segundos contra o que consideram um acinte à fé, o mundo gira. Há suspeitas de que o Santo Padre teria, qual Carlota Joaquina, batido o pó boliviano dos pés, mas era só para tirar a inhaca do Evo que grudou na batina.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Como Jesus se tornou Deus




Descobri o livro numa coluna do Felipe Pondé (19/01/2015), articulista da Folha de São Paulo. Não sei se por sinceridade ou para vender o livro, ele se derramava em elogios, afinal, como formador de opinião, sua apreciação de uma obra tem peso. Desconhecia a obra, mas como apreciador do tema, não tive dúvida em comprá-la.
Pondé se mostra entusiasmado. Em suas próprias palavras: “Seu livro (o autor tem vários sobre o tema) tem outra grande qualidade, além de ser escrito por um cara que entende do traçado. ‘Como Jesus se Tornou Deus’ é gostoso de ler e não serve apenas como objeto de culto para iniciados. Qualquer pessoa que aprecie o tema e tenha o hábito da leitura vai aprender muito e se deleitar com ele.”
Então descubro o sr. Bart D. Ehrman, especialista em Novo Testamento e História do Cristianismo Primitivo. Professor de Estudos da Religião na Universidade da Carolina do Norte. Também se define como ex-cristão e agora agnóstico.
Sobre sua profissão de fé (ou não fé), nenhum problema. E é verdade que se apoia em muita informação reconhecida na academia. Em vários momentos sinto que ele pisa em ovos. Afirma não poucas vezes que muita coisa sobre Jesus, em particular sobre sua deidade que ele tenta destrinchar com suas ferramentas históricas, não pode ser afirmada ou negada por um historiador. Talvez uma sensação de honestidade o persiga. Mas nem tanto.
O texto de Ehrman está cheio de palavras como “possivelmente”, “provavelmente” e afirmações equivalentes a essa: “reconstruir da melhor forma possível o que provavelmente (olha a palavra outra vez) aconteceu no passado, com base nas evidências sobreviventes, e admitir que existem muitas coisas que não só não sabemos, como também não podemos saber em termos históricos” (p. 234). Não que ele devesse mostrar provas contundentes do que pretende provar, mas essa espécie de mea culpa fragiliza enormemente a tentativa do autor e o joga numa vala de especulações.
Há trechos de interpretação totalmente subjetiva. Entre tantos, ele afirma: “Para Lucas, porém, parece que o corpo ressurreto de Jesus era simplesmente o cadáver reanimado” (p.245). Ele não explica de onde retirou essa interpretação nem tampouco em que se baseou.
Ainda sobre Lucas afirma: “Possivelmente (de novo a palavra que é um pé em falso) ele (Lucas) inventou essa narrativa.” (p. 279). Aqui ele comenta – não sem jogar dúvida sobre autoria do livro de Atos a que se refere assim: “o autor do livro de Atos – vamos chamá-lo de Lucas...” – sobre a ascensão do Senhor que Lucas descreve em Atos com detalhes e coloca no lugar um grande grupo de testemunhas. Então ele relembra ao leitor de que Lucas, em seu Evangelho, já havia se esforçado para descrever um Jesus ressurreto que comia pão e peixe.  
Sobre a ressurreição de Jesus o doutor não chega nem a ser criativo e original. Sua teoria está muito próxima dos muçulmanos que consideram Jesus como um profeta, porém negam sua divindade e ressurreição, e explicam, entre outras coisas, que ele não morreu de fato, portanto não ressuscitou. Tudo não passou de histórias que foram inventadas e que ganharam versões e acréscimos ao longo do tempo e foram, muito depois, escritas no que nós chamamos de Evangelhos.
Sobre Paulo, acerca de quem ele é mais comedido na crítica, pois segundo afirma, não há dúvida quanto à sua existência e autoria de várias cartas, mas não todas as que compõem o Novo Testamento, diz: “Paulo escreveu a carta aos romanos para angariar apoio para sua missão.” Nas duas situações ele não se digna a citar fontes históricas ou nem afirmações de outros pesquisadores. No caso de Paulo, apenas sugere que o conteúdo da carta aos romanos indica que aquela era a intenção do Apóstolo dos gentios.
O livro é massudo (492 págs de texto) e, sim, Pondé tem razão, o autor não é pedante – preocupa-se em traduzir os termos técnicos – e a leitura é agradável. Contudo, a um razoável conhecedor da Bíblia e mesmo a um estudioso diletante de teologia que nem eu, fica claro que o autor manipula o texto bíblico no qual se apoia sem fazer a mais reles conexão com outras passagens, regra básica de estudo do livro Sagrado. Mas o objetivo dele é explicar que Jesus se tornou Deus porque as pessoas acreditaram assim, apenas isso. 
O livro vale a leitura? Eu diria que vale, pois há algumas boas informações do período histórico no qual Jesus viveu. Para mim, no entanto, Bart Ehrman, em seu objetivo de mostrar que Jesus só se tornou Deus por contingências especiais e uma fé cega de seus seguidores, falha fragorosamente em seu intento.

domingo, 5 de julho de 2015

Orelhão-humano



Clientes falam em celulares acorrentados a um guarda-sol em barraca de "minutero", vendedor de minutos em ligações telefônicas. As correntes servem para evitar roubo dos aparelhos desses típicos personagens das cidades colombianas.
Fonte: Rodrigo Bertolotto. Do UOL, em Leticia (Colômbia) (04/07/2015)
Costumava-se dizer que a necessidade é a mãe das invenções. Na América Latina e alhures, a pobreza é a mãe da esperteza e da sobrevivência.
“Um poquito mas allá. Muy bien. Puede hablar, pero no demasiado fuerte.” O falante era orientado pelo “minutero”, uma nova profissão que a tecnologia pariu. Não exatamente a tecnologia. A falta de oportunidade. Com o celular à mão e este amarrado por uma corrente firmemente agarrada à roupa do vendedor, o usuário despacha o falatório.
Outros acorrentam o celular a um paraguas gigante, daqueles de piscina. É para o caso do falante esquecer-se e levar o celular por engano, coisa difícil de acontecer, mas nunca se sabe. A ideia antifurto é genial, pois não? É um tanto inconveniente por um guarda-sol no bolso. Vá lá, mesmo carregar debaixo do braço para andar por aí ou, pior ainda, correr para evitar que o minutero, justamente, queira o celular devolvido.
Apesar da orientação do minutero ao falante, parece um tanto complicado fazer uma ligação e manter a privacidade. Até porque tudo isso acontece no meio da rua e em locais movimentados, posto que negócio escondido não vende. Assim que o usuário deste inacreditável serviço deve se valer de alguma artimanha para guardar sua intimidade, pois o falante vizinho, não raro, dez ao redor, acabe por prestar mais atenção à sua conversa do que na dele.
Falar intimidades de amores calientes, então: Mi amor, dime cosas calientes com tu boca roja. Muy dificil, pues. O negócio é falar por código. Fulano, sabe aquilo? Aquilo, lembra? Aquela coisa que a gente combinou. Como? Não sabe do que estou falando? Não posso falar claramente. Entendeu? O outro lá vai continuar sem entender porque é tanso em captar o código morse de palavras do seu amigo.
Pode-se falar apenas usando emoticons. Boa pedida. O danado é achar todos para expressar o que se quer dizer. Tem a vantagem de ser silencioso, mas a desvantagem de que a interpretação das carinhas não é exatamente uma unanimidade. Como é, aquela carinha era um riso? E como é que eu ia saber, pois parecia alguém com dor de barriga. Aquela nuvemzinha não era pum, mas alguém que saiu muito rápido do local. Aí você está querendo demais!
Os minuteros estavam fazendo a festa. Um sujeito começou sozinho, mas com dez celulares amarrado à cintura, estava difícil administrar o empreendimento. Colocou a mulher, o filho, o irmão e o cunhado mala. A família inteira minutera. Mas há neste comércio, diz o governo, uma distorção da telecomunicação nacional. Mais grave, bandidos descobriram o anonimato dos celulares dos minuteros. Nem se dão ao trabalho de disfarçar a voz para extorquir, cobrar supostas dívidas e mandar recado para familiares de gente sequestrada. A guerrilha FARC descobriu o nicho para suas comunicações secretas. Tudo isso sob o manto do populacho falador e o baratinamento das forças secretas governamentais. Os minuteros também são acusados de contribuírem com seu trabalho subversivo para o aumento do adultério, pois os amantes estão se esbaldando, enquanto seus celulares ficam longe da bisbilhotice dos companheiros e companheiras. 
Mas vida boa de pobre dura pouco. Estão se descabelando porque com o Whatsapp o povo tá falando menos e dedilhando horrores. Os celulares que usam são da geração olha a hora, disca o número. Os smartphones são a verdadeira ameaça, porque do governo desmancha-prazeres o sindicato dos homens-orelhão já está enfrentando. Aqui é um termo genérico, há também mulheres no ofício. Os colombianos ainda não descobriram que existem homens sapiens e mulheres sapiens, como descobriu a Dilma, assim bem separado e cada qual no seu quadrado para não confundir. O que soa válido, pois o mundo está meio louco nas definições de gênero e aquilo que você vê e pensa que é uma coisa, é outra. Estão aí Romário e Ronaldo (ex) Fenômeno que não nos deixam mentir.