domingo, 26 de maio de 2013

Admirável mundo novo

O comercial da Lupo, protagonizado pelo craque Neymar, está dando pano para manga nas redes sociais. Os internautas sugeriram que o comercial, que está sendo veiculado na televisão, seria homofóbico. Através de uma nota oficial, a fabricante de roupas íntimas negou as acusações.
A ministra da Cultura, Marta Suplicy, afirmou nesta quarta-feira (22) que ficou assustada com a decisão judicial que suspendeu editais de incentivo a projetos voltados para a cultura negra por considerá-los racistas. Ela disse ainda estar confiante de que será possível reverter a medida judicial.
Fontes: Yahoo! Esporte Interativo (23/05/2013) e UOL, em Brasília (22/05/2013)

A vida determinada pelo politicamente correto é uma chatice só. Uma careta fora do lugar, um arroto, uma piada, um bocejo que seja e logo lhe enquadram com sugestivos epítetos – a efusivos gritos – de intolerante, preconceituoso (a) e, se ousar dizer-se religioso(a), fundamentalista da ala xiita. No Brasil, algumas categorias – sei lá como dizê-las – tornaram-se vacas sagradas das ONGs, do governo petista e de certa intelectualidade que se acha ainda mais intelectual se defender as tais categorias, seus princípios e valores.
A Ministra da Cultura Marta Suplicy aporrinhou-se com um juiz maranhense ao qual chamou de racista. Justo ela que, para estupefação dos cidadãos brasileiros, mandou o povo “relaxar e gozar” quando era ministra de outra pasta e notabilizou-se por incompetência explícita... em público. Na época, os aeroportos – como agora – andavam entupidos de passageiros sofrendo atrasos, overbooking e maus-tratos de todo jeito pelas aéreas. Olha, me faltam dados se ela estava disposta a contribuir com a receita que deu.
Mas porque chamou o juiz de racista? Ora, porque ele, que deve entender do riscado, quero dizer, das leis, suspendeu projeto da ilustre ministra que era dedicado exclusivamente aos negros e, portanto, feria uma tal de Constituição que, por sua vez, é a lei máxima da nação e prevê igualdade para todos, ainda que isso seja uma coisa meio utópica. Que se dane, pensa a Ministra. Atropelar dona Constituição é apenas um detalhe. O juiz, segundo ela, é racista porque tentou evitar exatamente um racismo às avessas.
Outro dia, Alexandre Pires – cantor que é negro – apresentou o clipe Kong em que cantava uma música de um mau gosto irretocável  (refiro-me à pobreza da letra e linha melódica). O governo petista e grupos negros alegaram que ele – repito, que é negro – reforçava estereótipos contra a população negra e de quebra, contra as mulheres. Esqueci-me de dizer que o clipe apresentava um monte de dançarinas de biquínis minúsculos ao redor de uma piscina. Dançarinas seminuas para enfeitar um clipe? Isso é um acinte à moral e aos bons costumes! Ideia degenerada de que todos beberam na fonte chamada Chacrinha, do Faustão ao Gugu.
Neymar, o jogador mascarado, é o mais novo protagonista de uma superprodução da patrulha politicamente correta. Ele que só aumenta sua conta bancária, mais com comerciais que com gols, fazia o que sabe melhor: faturar uns cobres vendendo, desta feita, meias e cuecas. Podem ver no Youtube, mas resumo para os leitores(as). Duas mulheres chegam ao balcão da loja e pedem a cueca que o Neymar usa. O próprio sai por detrás de um biombo, só de cueca, e faz tosco rebolado, enfatizando libidinosamente os movimentos pélvicos, para deleite das compradoras. Em seguida, outras duas pedem meias. Novamente, o topetudo jogador salta apenas com a roupa de baixo e de meias. Por fim, chega um sujeito marombado e pede o produto. Era para ser engraçado. Ao fundo, destaca-se o quase ator Neymar saindo de fininho, pé ante pé, negando-se a rebolar para o tal brucutu.
Ora, senhoras e senhores amantes da decência! Grupos gays se sentiram feridos em suas sensibilidades. Homofobia! Gritaram de olhos esbugalhados. A propaganda, disseram indignados, reforça o preconceito contra o amor que não ousa dizer o nome, como o disse Wilde. Eles viram, sabe-se lá como, que havia uma bazófia contra os gays. Não sei quanto o Neymar cobraria para não só dançar para o cabra, mas mesmo lhe tascar, ouso eu, um beijaço na boca para agradar este público que afinal, usa cuecas também. Usa? A pobre Lupo correu para desculpar-se e pedir o obsequioso perdão da galera gay. Devem estar com medo de ver seus produtos alvo de uma fogueira em praça pública.
Em algum canto, numa galáxia não muito distante, se ouvirá entre duas vizinhas fofoqueiras. Nem te conto. Conta logo. Sabe a fulaninha, filha daquela nossa amiga? Eu sempre achei que ela era meio estranha. Pois agora saiu do armário. É heterossexual do gênero feminino a-s-s-u-m-i-d-a! Que decepção para a família! Não é?

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Há vagas


A Halls criou uma agência de empregos onde são disponibilizadas vagas de trabalho que oferecem “experiências incríveis” e outras não tão incríveis.
Fonte: UOL Notícias (17/05/2013)

O Brasil não vive exatamente a era do pleno emprego, mas um monte de gente não está trabalhando por razões bem conhecidas, segundo o IBGE – bem, há razões que o órgão se esqueceu de listar: falta de capacitação, pouca educação formal – as redações do Enem que o digam –, preguiça, falta de vontade, vagabundagem e porque tem gente que tem vocação para não fazer nada.
        Clarimundo, primo do meu amigo Aristogênio, outro homem de visão empreendedora, criou uma agência de empregos escalafobéticos. Diz ele que quer fazer a ponte entre as empresas que oferecem ocupações estranhas e uma cambada que não consegue se encaixar. Não por isso, senhoras e senhores da vadiagem nacional e internacional. Incluo os alienígenas porque nosso país acaba de publicar decreto que facilitará a entrada de estrangeiros para trabalhar.
        A safra de ofertas está curiosa e desafiadora. Caso você tenha interesse, listarei algumas oportunidades incríveis. Não precisa experiência, currículo, nem comprovação de nada. Clarimundo afirma que paga melhor que ao Gardelón. Por suposto, explicarei as vantagens e a função propriamente dita. Que ninguém espere ficar rico, não chega nem perto. Sei que este é o problema dos ociosos profissionais, eles querem ganhar muito sem fazer nada. Não vai rolar, pessoal...
        “Testador de tobogã”. Este me conquistou pelo inusitado. Fácil. Sobe no topo do Insano e só escorrega. É um poquito mais emocionante que aquele que o Luciano Hulk escorrega para vender o Itaú. Coisinha de nada assim. Se tem seguro? Não estou dizendo que este povo da ociosidade é folgado. Vamos chegar lá. Depois de descer umas quinhentas e oitenta e duas vezes terá direito.
        “Degustador de cerveja”. Esse tem até fila. Não tinha no testador de molho de pimenta. Já foi cortado por falta de candidatos. Mas, permitam-me esclarecer. Neste emprego não pode beber no trabalho. Se você ficar bêbado, perde o paladar e vai dizer que a cerveja tá com gosto de morango com caramelo. É um gole. Bochecha de um lado, do outro, gargareja, remexe, remexe, cospe. Anota. Sei, sei, é uma tentação. Este emprego não é recomendável para pinguços e afins.
        “Dog Walker”. Já imaginou? Você, todo pimpão, entrega o cartão e diz bem empostado: eu sou um dog walker. Não entendeu? Andador de cachorro, cadela, cão. Você pode se especializar em walkear com raças específicas. Fica bonito o nome: Yorkshire Terrier Dog Walker. Você vai matar sua mãe de orgulho. Difícil vai ser ela repetir a profissão do filho.
        Tem emprego para todo gosto. Você que é sofisticado e queria ser agente secreto da ABIN poderá ser “Cliente Oculto”. Ora, Cliente Oculto é um Cliente Oculto. Tenho que desenhar? Fica escondidinho num canto que vão te dizer. Oito horas por dia. Sim, tem hora do almoço, mas disfarçado de poste, lata de lixo, coisas assim. Outra profissão na mesma linha secreta. “Insighter”. Você deve espalhar marketing de guerrilha. Armado? Bom, esta parte me escapa, mas Clarimundo terá toda paciência de explicar. Exige-se duas horas de formação em coquetel molotov.
        Mas se você é uma destas pessoas que gosta de se envolver em causas em favor dos fracos e oprimidos – não, não é na cruz vermelha nem no médicos sem fronteiras – tem a função/profissão de “Vaga Humanitária”. Na Amazônia. Este emprego é múltiplo. Você pode guardar uma vaga na fila de haitianos que querem entrar no Brasil. Ocupar vaga de índio para tirar fotos com gringos ou para os gringos. Tem vaga humanitária de seringueiro, garimpeiro, bicho preguiça que, dizem, está quase em extinção. Ufa. Acabei. Escolhe aí, vai.

domingo, 12 de maio de 2013

Carne made in China


A polícia chinesa desbaratou uma quadrilha que vendeu mais de 1 milhão de dólares em carne de rato como se fosse de carneiro, disseram autoridades do Ministério da Segurança Pública em nota divulgada na noite de quinta-feira. Desde o começo de janeiro, 904 suspeitos já foram presos por produzirem ou venderem carnes falsificadas ou contaminadas.
Fonte: Veja (03/05/2013)
        Ainda outro dia se falou de um escândalo que envolveu vários países europeus, uns como fornecedores e maioria como consumidores. Manchou até a poderosa Nestlé: a máfia da carne de cavalo. Tinha carne equina em lasanha, pizza, nuggets e sei lá mais em quê. Os europeus, hein! O que uma crise não faz...
Por aqui – afora todo tipo de safadeza desbragada que a politicada não cansa de protagonizar – arrastamo-nos há mais de uma semana com uma quadrilha que falsificava leite no Rio Grande tchê. Misturavam de tudo. Uréia, formol, água de poço contaminado, o diabo. Isso me faz recordar do escândalo que minha avó fez com o entregador de leite que, tendo batizado nosso leitinho, esquecera de coar a rã que veio da lagoa onde ele pegou a água e se aboletou dentro do galão. Tudo muito natural. Mas ela sabia quando o leite estava ruim. Rendia pouca gordura com que fazia manteiga de garrafa, doce... bons tempos.
A pilantragem gaúcha começava no transporte desde o produtor – estes ainda não inventaram de falsificar a vaca, pelo menos não que se saiba – e se infiltrava nas insuspeitas caixinhas longa vida. Todo dia aparece uma marca nova de leite metida no rolo. Cada qual diz uma cândida desculpa para justificar uma “pequena” falha em seu controle de qualidade irretocável.
        Mas, sabem, estes falsificadores/enganadores são fichinhas perto dos chineses. Eles elevam a pirataria ao estado da arte. E nós que fazíamos graça com nossos vizinhos paraguaios. Eles são uma piada. Os chineses falsificam até... chineses. Mas fiquemos no item carne. A polícia descobriu que uma quadrilha falsificava carne. Ganharam quase dois milhões de dólares com a graça. Foram presas quase mil pessoas. Mais da metade, coitados, só capturavam os ratos. Eis um povo que sabe gerar emprego. Mandemos a Dilma para aprender.
        A bem da verdade, os patifes usavam carne de ratos dizendo que era de gado e carneiro. Usavam também pés de galinha. Aqui a coisa fica realmente sofisticada. Fazer pés de galinha passar por carne de ovino, convenhamos, é uma genialidade. Não sei se compravam os tais pés em clínicas estéticas! Ô pergunta besta!
        Os chineses comem ratos. Por que a admiração? Nenhuma. É só que querem comer rato sabendo que é rato e não disfarçado de outra coisa. Onde arrumar toneladas dos roedores? Você precisa ser instruído sobre este bicho. Uma rata pare quase uma dezena de ratinhos por vez. Leva apenas 21 dias na gestação. Emprenha tão logo pare. Os ratinhos estão maduros sexualmente aos três meses de idade. Quer dizer, eles se reproduzem como os chineses e não há a lei de filho de único.
Vejam que os chineses não estavam preocupados com toxoplasmose, tifo, peste bubônica que os ratos transmitem, pois comedores dos bichos, adquiriram algum tipo de resistência. É a enganação que dói. Também não se importam se o rato é uma catita, gabiru ou ratazana. Mas que não se invente de misturar alhos e bugalhos. O politburo ficou puto.
Confesso, depois destas histórias, ando meio desconfiado daquela carne moída que vejo nas gôngolas de supermercado. Será? Meu último cachorro quente pareceu guinchar ou relinchar e olha que até não rejeito um bom pedaço de charque... eca!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Morte Súbita de J. K. Rowling


Minha leitura do “Morte Súbita” (The Casual Vacancy) da autora J. K. Rowling, célebre criadora do bruxo Harry Potter, foi por acidente. Explico. Eu não o leria em circunstâncias normais que seria: ir à livraria, comprá-lo e lê-lo. Simplesmente o gênero da autora não me atrai. Sim, ela tentou escrever algo diferente da saga que a deixou riquíssima. Como se diz por aí, ela explora uma história adulta para adultos.
A maioria das opiniões que li a respeito do livro foram de pessoas que são fãs declarados da autora. Destes, grande parte se disse decepcionada. Esperavam a repetição do sucesso que a deixou famosa e idolatrada. Apesar da frustração, se preocuparam em defender as qualidades da obra. Mas de fã se perdoa tudo.
Entre as críticas, repetiu-se como um mantra o fato de que quando o livro estava ficando bom, a história acabava. Sei lá o que queriam dizer com “bom”. O livro nunca chega nem perto disso. São 507 páginas de puro enfado, clichês, estereótipos, diálogos fracos e personagens óbvios. O livro é um emaranhado de repetições e... de minha parte, bocejo.
Ao longo – e põe longo nisso – de pouco mais de 400 páginas não acontece rigorosamente nada. O leitor é jogado daqui pra lá e de lá pra cá nas historinhas sem sal dos personagens. Ela levou esta montanha de papel e tinta para montar o cenário.
A coisa mais momentosa acontece nas primeiras páginas. A morte de um personagem que apesar de medíocre – e com menos dose de autenticidade do que os personagens repetidos do chatíssimo Robin Willians em “O Gênio Indomável” e “Sociedade dos poetas Mortos” – marca a vila, a vida de todos os outros, pois amigos e inimigos passarão o resto do tempo falando deste quase visionário, gênio, bom homem e, no final, um fantasma falso.
Janires, que vocês não conhecem, cantor e compositor cristão (detestaria chamá-lo de evangélico), já falecido, tem uma música linda (Casinha) que fala de uma cidade atrás de uma cidade que tem mais poesia e emoção que o livro da Rowling inteiro.
Nas cem páginas finais, a autora solta a represa de fatos e acontecimentos tentando dar vida ao livro a esta altura já pra lá de moribundo. Como não há mais nenhum suspense, você assiste entediado a um fim melancólico, por que o livro parece não acabar. Será que ela vai escrever mais seis? É aqui que o leitor fã diz que estava ficando bom e acabou abruptamente. Uau!
Por puro excesso de sensibilidade há um único momento em que me deixei tocar. Dane-se, vou falar. Na morte por afogamento de um menininho. Talvez porque eu mesmo tenha experimentado a sensação ou por que tudo com criança me comove, sei lá.
Dona Rowling deveria voltar ao seu metiê. Quem sabe mais sete livros sobre os filhos e netos do Harry Potter.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Apertem os cintos que... os pilotos foram cochilar!


Dois pilotos da Air India saíram da cabine de comando para cochilar e deixaram duas comissárias de bordo no comando de um avião até que elas desligaram por equívoco o piloto automático, informou nesta sexta-feira a imprensa local.
Fonte: Agência EFE (03/05/2013)

A verdade é que piloto e co-piloto não perceberam a ficha caindo nem quando o avião embicou de dez mil metros de altitude. O que, convenhamos, não é igual ao caminhão mais ÃO que você imaginar descendo uma ladeira na banguela. Eles só caíram em si quando foram demitidos e fugiram de um quase linchamento... ainda dentro do avião, pois um espírito de porco, que tem medo de voar, não dormia e ainda monitorava que nem uma caixa preta cada evento da máquina e das pessoas dentro da aeronave.
A história tornou-se viral, como se diz, e a que mais gosto diz que os dois não cometeram irregularidades cochilando enquanto pilotavam – fora da cabine de comando – estavam cansados, alegaram seus advogados de defesa, na tentativa de culpabilizar a empresa que tira o couro dos pobres aeronautas. Os fatos “verídicos”, dizem: eles vinham de Bangcoc, a capital da safardanagem mundial. O cansaço resultou de uma esbórnia da qual os dois participaram. Algo parecido ao “Se beber não case 2” (2011) em que Stu (personagem de Ed Helms), o noivo casamenteiro, se esbalda na noite de despedida de solteiro, inclusive com um travecão que... vocês sabem.
A comissária de bordo que tomava conta da bodega, quero dizer, do copite do Airbus-321 da Air India enquanto os dois cochilavam, empolgou-se e começou a dedilhar botões à torto e à direito. Como a cada dedada, se me permitem, uma luzinha ou som era produzido, ela foi se empolgando. Ela só não, ela e as colegas que foram, uma a uma, enchendo o copite. Parecia o vagão da banda das garotas do filme “Quanto mais quente melhor” (1959) com o trio Marilyn Monroe, Tony Curtis e Jack Lemon. Quem não viu o filme, veja ou vai ficar voando com a piada.
A certa altura, já rolava de tudo no exíguo espaço entre as duas poltronas dos pilotos e os painéis com milhares de teclas e botões. Sabe-se lá como – talvez pelo vinho que rolava solto –, uma das garotas resolveu fazer aquelas danças indianas em que reviram os olhos e mexem os dedinhos de forma estranha. Pois bem, um destes desligou o piloto automático e lá vem o avião despiguelando nuvens abaixo.
Imagine se profissionais de outras áreas resolvem dar uma cochilada, aliviar a bexiga ou qualquer outra coisa que lhe dê na telha justo no meio de sua tarefa, considerando que seja de certo grau de gravidade e periclitância. O cirurgião fazendo uma intervenção cardíaca. O coração ameaça parar, tem que fazer massagem no dito com as mãos, mas cansado da tarefa enfadonha, chama o cara que recolhia o balde, sei lá, e diz: vai apertando aí que vou bem ali. A cada dez minutos para e vê se ele se vira só, se não, aperta mais. Já volto.
Ou seu dentista predileto que no meio de um tratamento de canal, depois de enfiar aquele espículo torneado no buraco do dente um monte de vezes, se enche daquilo e lhe deixa boquiaberto – literalmente – e vai tomar um café. Não fecha a boca, vou ali rapidinho. A baba enchendo sua cavidade oral, a língua se mexendo como se tivesse tomado redbull com ectasy, a luz lhe encandeando e a auxiliar, ao lado, cantando a última maravilha do gênero pagofunk.
Não quero nem falar do vexame de alguns exames que se faz que por não terem inventado nada melhor ainda é o dedo, a mão que precisam fazer o inventário de seus dilemas clínicos urológicos, ginecológicos etc. Tem gente pra tudo. Quem vai saber que na cara simpática daquele ilustre profissional não se esconde um sádico em potencial?
Não sei vocês, mas por mim, viagem aérea que inclua passar a noite dentro do tubão voador, deverá ser antecedida de alguns itens de primeira segurança. Air India nem pensar, não sou adepto de milhões deuses e tenho uma dificuldade danada de aceitar esse vai e vem de alma penada, pior ainda se corro o risco de vir como lesma ou barata. Mas o principal deles é ter quatro pilotos. Para o pessoal se revezar na direção enquanto os outros dormem!

domingo, 28 de abril de 2013

Fantasmas virtuais


O Google acaba de lançar mais uma de suas ferramentas inovadoras, o “Gerenciador de Contas Inativas”. Ela permite que suas contas inativas sejam excluídas a partir de um tempo determinado por você, que pode escolher entre três a doze meses.

Fonte: Pavablog (16/04/2013)

Ela chegou e, sem mais nem menos, perguntou: você permite que eu inclua seu email entre as minhas dez pessoas de confiança? Era inusitado para mim que, sim, a conhecia, tinha certa proximidade, mas alguém a ser incluído no seu seleto grupo de confiança era um pouquinho demais. Eu não imaginava que era tido em tanta conta nesta amizade. Temi o peso da responsabilidade. Quis saber a razão do pedido.
Ela esfregava as mãos, o rosto denunciava aflição. Puxava o ar com dificuldade e lá pelas tantas, botou a bombinha. Daquelas que pessoas com asma usam. Eu também não sabia que ela tinha tal problema. Sem que perguntasse, explicou. É que quando fico nervosa, tenho crise asmática. Mas havia várias outras doencinhas das quais se queixava: tinha ou julgava sentir. Em suma, era uma hipocondríaca e tanto mais a ansiedade estivesse presente.
Explicou que o Google havia notificado sua página da rede social e email em que ofereceria algo muito prático e útil para as pessoas. A besta Google apelidou o tal dispositivo de “Gerenciador de contas inativas”. É a possibilidade de matar seu perfil, fechar email, dar um fim nos milhares de posts – a verdadeira história de sua vida – e milhões de fotos, lista de contatos e outro sem número de badulaques.
Segundo o monstro Google, havia uma singela preocupação com os perfis – e outras tantas formas de existir na internet – fantasmas. O proprietário morrera ou simplesmente abandonara às moscas sua participação, alimentação e atualização de sua presença no mundo virtual e eles vagavam como espectros de vidas passadas. Se de mortos, atormentando os vivos com – sabe-se lá por que razão – contatos imediatos de milésimo grau, posto que vindo supostamente do além – algumas destas aparições falecidas enviam e-mails como se vivas estivessem.
Não fossem também uns desavisados que insistiam, explicava o Google, em manter contatos com estes eflúvios fantasmáticos por pura demência, pois não se davam conta de que seus mantenedores haviam desaparecido ou abandonado a página à própria sorte entre bilhões de outras, anonimadas, esquecidas, mortos vivos de lembranças e historinhas insignificantes da vida igualmente medíocre de quem os fez.
Tuta (apelido daquela amiga) estava inconsolável. E eu precisava saber como funcionava a coisa, pois para quê mesmo eu deveria ser colocado naquela posição de confiança de que falou? Tornaria-me um guardião do Hades eletrônico, eu que tenho pouquíssima parecença com o cérbero? Disse-me que funcionaria assim: antes de morrer, ela poderia programar a apoptose de seu site, blog e o escambau do que fazia parte e cuidava com zelo obsessivo.
Dez pessoas (de confiança, fez questão de enfatizar) receberiam seus dados, como se faz com as cinzas de um cremado. Então, o site se autoimplodiria. Antes, porém, num primor de delicadeza e atenção, cerca de um mês antes do dia fatal, o Google enviaria um email perguntando se a pessoa estava viva ou morta ou se apenas tivesse dado um tempo do saco que é alimentar indefinidamente este tipo de coisa. Isso para que fossem confirmadas as exéquias do site, blog, perfil, etc, etc.
Aí residia seu desespero. Queria se preparar para o pior e não deixar, afinal de contas, sua vida, ao léu como defunto sem choro ou cova sem flores. Com os tais guardiões de seus restos mortais eletrônicos estava quase resolvido, eu era o último deles, caso aceitasse a incumbência. Mas que data marcaria? E se o email de averiguação chegasse e já estivesse morta? Diante de minha estupefação e já dando com o meu aceite sem que eu respondesse, finalizou: que bom que você aceitou, agora só preciso saber como mando um email do outro lado. Minha cara de espanto provocou nela a necessidade de explicar-se, o que disse com certo enfado: Para confirmar que estou morta, né?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ruby Sparks


A história provoca, mas demora um pouco para engrenar. Não sei se a razão é a má utilização do roteiro, o próprio que não se encontra ou ainda a curiosa direção de duas cabeças. Não sei se duas cabeças dirigindo é melhor que duas pensando.
Enfim, o personagem de Paul Dano (Calvin) é um escritor de sucesso. Cultiva todas as idiossincrasias de um artista desta categoria, pelo menos os clichês típicos. É avesso a badalação, tem dificuldade de arrumar uma namorada, um histórico de bullyng na escola que venceu por causa de sua imaginação privilegiada. Para completar, passa por uma seca criativa. Os editores e agente estão no seu pé para o novo livro.
Escrevendo como que a esmo, cria uma personagem. A mulher de seus sonhos. Novamente, esta figura se repete entre outras tantas que a telona mostrou desde o megasucesso de Pretty Woman (Uma Linda Mulher, 1990) – só para marcar uma data –, obra que catapultou Julia Roberts para o estrelato. Garota que respira liberdade, dona de si, divertida, amante das artes, bonita, inteligente, boa amante, liberada dos pudores mais comezinhos que nos mantém nos eixos das obviedades.
Como parte de suas esquisitices, Calvin escreve suas histórias numa máquinas de datilografar. Uma mágica acontece. As letras, tinta, papel e palavras materializam a garota que ele chama de Ruby Sparks (Zoe Kazan, que é a autora do roteiro). A mulher perfeita está ali, em carne e osso. Imagine o susto. Esmola grande o santo desconfia.
Em paralelo, a história só é escrita quando lhe convém. Calvin dedica todo seu tempo a viver sua paixão com Ruby. Ele alcançou o clímax de sua projeção perfeita de uma relação. O livro deve ficar na gaveta. Mas se para de escrever, a história se escreve a si mesma. Um script se impõe pela vida e as interrelações com outras pessoas.
O personagem vivo, autônomo, não segue o roteiro que se espera, tem vida própria. O amor entre os dois é vivido intensamente, mas Ruby exercita plenamente sua liberdade. Ela é um ser humano, com tudo de bom e ruim. O escritor descobre que pode manipular sua personagem ao seu gosto e caprichos. Afinal, ela é apenas fruto de sua mente. Calvin, desesperado, quer manter aquele amor intocável, perfeito, congelado. Ele ama mais o personagem idealizado que a mulher na qual ela se torna.
A cada intervenção com a velha máquina de escrever, uma consequência incontrolável se manifesta. Calvin está desesperado. Num frenesi de onipotência, frustrado por uma quase traição da namorada, ele muda seu humor, seu comportamento, como quem faz alterações num desenho que não atingiu a estética que se quer.
Uma carga tão grande de emoções e mudanças exaure totalmente quem Ruby foi, seja como mulher ou personagem. Calvin está inconsolável com a perda. Culpa e arrependimento não trazem de volta sua namorada. Ele precisa libertá-la e se libertar com este ato. Seu livro chega ao fim com a simbólica mudança da máquina para um computador onde escreve suas últimas frases. Um novo Calvin que se mudou e foi mudado na relação com o outro. Como todo romance, que flerta com a comédia leve, há um final feliz. Mas é só um ponto para recomeçar, agora, se quiser, com a lição de que controlar a vida de alguém é tarefa extenuante, ingrata e infeliz.