terça-feira, 23 de abril de 2013

O Tatá e o Mané


Fonte: diversos (18/04/2013)
Os personagens aqui mostrados são reais. Um, de fato, se chama Tatá, o outro, Manoel. São políticos maranhenses. Suas falas foram ligeiramente alteradas, mas são igualmente - por desgraça- reais.
A casa toda avarandada sugeria um ambiente calmo e agradável. Um grande terreno em volta, jardins e árvores. Um pequeno lago com patos grasnando quebra um pouco a tranquilidade. Um cachorro velho se coça na entrada da escadaria que dá acesso à grande varanda. Tosses roucas, seguidas de escarros demorados ecoam de quando em vez. Num canto, atrás de umas samambaias maltratadas, se vê os rolos de fumo de charutos que sobem indolentes. Na pequena mesa, dois homens, que aparentam decrepitude física, denunciados pelos dois andadores estacionados ao lado e algo como vasos para as cusparadas pluviométricas. Bolsas de urina que pendem e balançam preguiçosas ao lado das cadeiras.
Apesar do quadro, eles parecem satisfeitos. Não é uma velhice ditosa, mas tem o que o dinheiro pode comprar, fruto de anos pendurados, como cracas ou sanguessugas, como queiram, nas tetas de um Estado rico e objeto de incontáveis dilapidações da qual foram sócios perpetradores ou beneficiários. Estão compenetrados com suas baforadas, enquanto bebericam. Um deles, uma cachaça envelhecida e o outro, um uísque dezoito anos de alguma marca famosa.
Tu te lembra, Totó? Bons tempos aqueles. Ri-se, prazenteiro. Totó? Quem é Totó? Velho esquecido! Tô falando contigo, lesado. Meu nome não é Totó. E quem é tu? Tatá. Ah, bom. Que seja. Tu te lembra daquela época em que a gente pintava e bordava na assembleia? Tatá demonstra um esforço físico literal para recordar. Diz “lembro”, mas parece procurar na memória. A gente era bom no negócio, diz Mané. Que negócio? Nas coisas lá. Era, né Mané? Acesso de tosse. Olha a enfermeira! Se ela pega a gente fumando e bebendo... Dane-se, mando prender, berra Tatá raivoso.
Estava aqui me lembrando daquela lambança com o aumento das verbas. Quando foi mesmo? Num lembro. Eita coisinha boa era legislar resoluçõezinhas para “verba indenizatória de exercício parlamentar”. Até o nome era bonito. Esperteza política é coisa que se ceva ao longo de muuuuuitos mandatos. Cevar com “c” ou com “s”? Indaga Tatá. Com “c”. Com “s” é ralar mandioca, coisa de eleitor. Mas nós ralamo muita mandioca neles. Os dois riem. Se engasgam. Mané se socorre com o oxigênio, enquanto o outro se recupera da falta de ar com urros agonizantes. São esses charutos, dizem quase juntos. Riem da própria piada.
Mas Tutu... Quem é Tutu? Olha, eu acho que tu tá ficando caduco. Tutu é tu. Tatá, eu já disse, T-a-t-á. Vixe, esqueci, mas tu entendeu. Tu te lembra que eu dei desdobro naqueles repórteres daquela imprensa marronsista? Eu disse: vocês nem estariam aqui, se fosse na época da ditatura. Que saudade da ditadura! Tu acredita que eles se abespinharam? Ô Gentinha metida!
E eu que chamei todos de picaretas, igual o finado Lula chamou os deputados. E disse mais: mostro meu cpf pra vocês, sou um homem limpo. E quem era Lula? Num foi um político famoso que foi presidente? Mané não lembra, mas completa: tu foi macho, Dadá. Quem é Dadá? De novo, esclerosado? Tô falando de ti. Acho que essa cachaça tá te prejudicando. É Tatá. Nunca fui Dadá na vida.
Olha a bolsa Mané, tá vazando. Deixa essa m... aí. A mulher limpa. Tu te lembra da maracutaia que a gente fez? Cortamos os 14º e 15º salários e metemos as verbinhas. É, tinha aquela “Ajuda de moradia”. Os dois tem um acesso de riso. Tatá atalha. Tinha aquela – para dizer se empertiga na cadeira de rodas que balança levemente – “Verba indenizatória de ajuda de gabinete”. “Auxílio paletó”, diz o outro.  Mané, tu defendeu a moradia de uns pobres coitados deputados que precisavam receber os eleitores. Ô se lembro, diz saudoso. Um primor de defesa dos direitos adquiridos legais dos deputados profissionais. Eram quantas casas Mané? Umas 28, pelo Estado inteiro. Tudo com o auxílio moradia. Para receber os eleitores. Os dois se olham e se dobram de gargalhar. Mais tosse.
É uma pena, Teté. Tu tem pena de quem? Eu quis dizer, Teté, que tenho pena porque acabou. Um mandatinho até que pegava bem. Tatá, Tatá, velho esquecido! Mas a gente não aguenta mais nada. Aguenta, que o Cafifa até hoje tá no senado.

domingo, 14 de abril de 2013

Melhor escapar fedendo


O Fantástico mostrou ontem (7) a precariedade para o trabalho dos Bombeiros
no Brasil. O Maranhão está entre os Estados onde a situação é mais crítica. Em Bacabal, as chamas é improvisado com balde, água mineral e mangueiras que não alcançam o foco do incêndio,  na cidade de 100 mil habitantes, não existe Corpo de Bombeiros. O improviso chegou ao ponto de um limpa-fossa ser usado para apagar o fogo.

Fonte: G1 (08/04/2013)

Nunca mais na vida eu alugo, quero dizer, empresto meu caminhão para apagar incêndio. Vou deixar queimar. Não me movo. Minha empresa só não quebrou porque tem muita fossa pra limpar e porque faço um serviço esplêndido, senão, eu é que estava na merda. Olhou para a repórter e consertou-se. Eu quis dizer sem trabalho, pois limpar a merda dos outros é meu negócio.
Era um desabafo. Segismundo ficou acuado. De repente, viu-se no centro de uma espécie de escândalo porque socorreu um conhecido com seu caminhão limpa fossa. Mas era isso ou cinzas. Quem sabe de gente também. Os bombeiros, atarantados, gritaram que Segismundo tentou usurpar a profissão. Era um despreparado para a nobre arte de apagar fogo. A imprensa local, nacional, mundial e intergalatical ria da penúria de uma cidade que precisou de um pobre caminhão Chevrolet, relíquia dos anos setenta, ainda trabalhando, sem direito a descanso ou aposentadoria. De dia limpa fossa e nas horas vagas, apaga incêndio.
Ainda no calor do incêndio, Segismundo deu entrevista e louvou o produto tantas vezes desprezado e sua eficácia em apagar fogo. É que, dizia, a consistência, a plasticidade e a densidade como que abafava as chamas com mais rapidez do que os produtos existentes no mercado. Exaltou-se e até disse que a descoberta inesperada o fazia pensar em registrar uma patente e ganhar dinheiro. Por este ângulo, a merda era uma megasena. Produto 100% ecológico e natural. A nova serventia reciclaria o que ele simplesmente jogava no rio Mearim. Criticado algumas vezes por esta prática, defendia-se dizendo que alimentava os peixes que, inclusive, estavam acabando.
Esta empolgação explica a ira dos bombeiros. Segismundo até ameaçou comprar a briga alegando que eles não estavam lá na hora do fogaréu, mas seu limpa bosta estava. Sem ter como se defender, o chefe dos bombeiros apelou, ameaçou Segismundo de cana. Mas a chateação maior de nosso brioso bombeiro fecal é que num momento era o herói salvador e no seguinte, era a vergonha da cidade. Afinal, inadvertidamente, expôs o traseiro de todos no Fantástico.
Passado o espanto com a maneira, digamos, bizarra de se apagar um incêndio, as pessoas começaram a se perguntar porque a cidade não tinha um corpo de bombeiros nem que fosse usando carroça puxada a jumentos? Ora, o governo estadual era o culpado e a prefeitura, por suposto. Esta última escondeu-se atrás do descalabro deixado pela gestão anterior e que nem começado a trabalhar havia conseguido, mas que, mesmo nas condições precárias, começariam a treinar jumentos e carroceiros como os novos bombeiros. Água não faltará, disse o prefeito, temos um rio na porta. Ele tinha simpatia pelo plano de Segismundo, mas com tanta merda espalhada, preferiu desligar o ventilador.
O Estado, o réu da confusão, fechou-se em copas e deu o calado por resposta. Na verdade, escalaram o aloprado deputado Magno Bacelar para defendê-los. Homem de incrível oratória, foi direto ao ponto e devolveu a provocação aos adversários políticos e à população metida que deseja, imaginem só, que seus incêndios sejam apagados com água e não com cocô. Lépido como ninguém, sapecou: Quê que vocês preferem: morrer queimado ou sobreviver fedendo? E acrescentou um sábio provérbio chinês: nem sempre quem te joga na merda é teu inimigo. Estava que não cabia em si de tanta sabedoria e esperteza e nem se continha com os apupos que receberia de seus donos. Quem sabe um asponato estava a caminho.
Segismundo viu aí sua redenção. Um deputado – sabe o que é isso? – uma autoridade resgatava sua honra, por bem dizer. Via sua nova invenção como algo genial. Percebeu, homem ladino que é, a inovação tecnológica e de baixo custo, solução para as cidades que como Bacabal, não tem esgoto e precisam de seus humildes serviços de limpador público das bundas. Depois Segismundo entendeu: o homem é do Partido Verde. Estava explicado.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O que que a baiana tem?


A discussão sobre a venda de acarajé pelas baianas dentro da Arena Fonte Nova voltou à tona na manhã desta sexta-feira (5). Devido a inauguração do estádio que acontece nesta manhã com a presença da presidente Dilma Rousseff, as baianas se concentraram na frente da Arena para protestar contra a suposta proibição de acesso delas ao estádio.

Fonte: UOL Notícias e iBahia (05/04/2013)

Os jornais só falam – além do (in)Feliciano, pois ninguém tem mais pauta – na Dilma inaugurando a arena – não se chama mais estádio – da Fonte Nova em Salvador. Além do discurso tosco da presidente, um drama passou despercebido da grande imprensa que, sim, relatou uma coisinha assim de pequenininha sobre uma crise terrível na cultura baiana.
A Fifa, que vem sendo mais que pedante – se bem que nem se pode reclamar com os executivos petistas responsáveis pelas obras –, cismou com o acarajé das baianas. Imagine. Ciosas de suas tradições ancestrais, as baianas saíram às ruas de acarajé em punho, melhor dizendo, panelas e balangandãs, para protestar contra este ataque a algo que identifica os baianos como baianos e já produziu lembranças hecatômbicas em milhares de turistas, seja pela desastrosa experiência com a pimenta ou pelas catastróficas diarreias. Convenhamos, a Fifa não sabe no que está mexendo.
Era preciso saber a razão desta discriminação horrorosa. Como é que uma instituição alienígena afronta um patrimônio imaterial tombado da cultura baiana e brasileira? O que seria da nação sem seu acarajé? Pior, privar o mundo de conhecê-lo também? Medidas radicais precisavam ser tomadas imediatamente.
Antes, porém, seria exigido desta fifoca uma explicação. Não senhores, não iria ficar desta maneira, eles que se explicassem tintim por tintim. O Memorial das Baianas queria um pedido de desculpas. Uma nota pública de desagravo. Mas, metida a besta como ela só, fifoca fingiu que não era com ela. Meteu-se a um ato diversionista. Que teria ficado boquiaberta com a ligeireza dos baianos que trabalharam tão rapidamente para entregar a, vá lá, arena. A emenda ficou pior que a receita. Preconceito, gritaram as baianas na porta da arena. Forçaram a entrada com acarajés molotovs, carurus incendiários e bobós lacrimogênicos. Cartazes desafiadores diziam: agora vocês vão ver o que que a baiana tem. E esqueçam, tá longe dos babados e a salada na cabeça da Carmem Miranda.
A fifoca se acovardou. Prometeu entradas gratuitas em todos os jogos para as baianas e família até a quarta geração. Mas acarajé no estádio, não. As revoltosas baianas exigiram um representante da fifoca, queriam o francês patife. Elas o comeriam antropofagicamente, mas ele sumira e enviou um tecnocrata testa de ferro terceirizado.
O talzinho chegou diante das mulheres enfurecidas. Senhoras, por favor, podemos esclarecer o mal entendido, disse. Quem falou em mal entendido? Retorquiu a líder quase anarquista acarajeniana. O acarajé está dentro do estádio – arena, consertou a companheira –, pois bem, que seja, a arena, desde que Dona Canô era menina, desde quando Caymmi deitou na rede para tocar violão. Explique logo esta infâmia contra nós baianas e o acarajé.
Senhoras, a Fifa e os patrocinadores tem um nariz sensível, o cheiro do acarajé é, digamos, um pouco forte. O dendê empesteia o ambiente com seus vapores. Tem dendê light sem cheiro? Aliás, o azeite pode ser usado por torcidas holligans.
Companheiras, o gringo tá doido. Disse que somos fedidas e ainda quer que a gente faça acarajé no microondas. Acarajé sem cheiro, os apetrechos, o tabuleiro, a baiana e o dendê, será o quê? Brioche? Isto é lá com a Antonieta, nosso negócio tem que ter tudo isso, se não eu nem sei o que seríamos. Tudo, menos baianas, certamente. Não, meu rei, Se vocês não liberarem o acarajé as baianas unidas e as doidas da femem vão fazer greve que nenhum de vocês verá, nem de longe, as outras coisas que as baianas têm. E riram todas saboreando a vingança.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Reçeita para ir bem no Enem


A redação de um estudante que conseguiu 560 pontos no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) incluindo uma receita de macarrão instantâneo continua a gerar uma série de piadas na internet.
Um papagaio fêmea de 33 anos foi sequestrado, na última semana, na cidade de Santos, no litoral de São Paulo. De acordo com os donos de Loreca, como era chamado o animal, um motociclista o capturou e levou no baú da moto. 
Fontes: UOL (22/03/2013) e Brasil Urgente – Band (25/03/2013)

Esta semana que passou divulgou-se uma pesquisa em que o Brasil ficou em segundo lugar entre os países mais empreendedores. Quer dizer, 63% dos brasileiros querem ser patrão em vez de empregados. Perdemos apenas para a Turquia. Isso é bom ou ruim, não sei dizer, o que sei é que meu amigo Aristogênio é um legítimo representante desta classe. Um sujeito atento às oportunidades.
Como se sabe – fora a licença poética de um Adoniram Barbosa com “Arnesto nos convidô, prum samba ele mora no Braz, nóis fumo e num incontremo ninguém...” – escrever e falar errado é algo que corrompe a língua. Há que se ter um guardião para que não se assassine a gramática e se aproveite de forma lubricosa da sintaxe.
As redações do Enem são, por bem dizer, um retrato da ação daqueles guardiões iniciada, se tudo der certo – quase nunca dá – no beabá. O ministro da Educação e o corpo de sumidades que organizam e corrigem as redações devem zelar pela boa prática da língua de Camões e, por que não, introduzir novidades porque a língua deve receber uns saracoteios porque não é morta, pois, pois.
Eis uma grande oportunidade. Sabendo que se pode colocar qualquer tema, em doses homeopáticas, por suposto, entremeado ao tema principal, Ari agora ensina aos alunos como colocar temas estrambóticos e escalafobéticos no corpo da redação. É que escrever trinta linhas é um exercício extenuante. Por exemplo, o gênio da receita do miojo colocou a receitinha, instrutiva, elegante e muitíssimo útil para os momentos de aperreio da fome, especialmente financeiros. Perdeu mais pontos – ele fez 560 – porque se esqueceu de acrescentar um bife do olhão à receita. Foi louvaminhado pelos corretores. Menos pelo ministro Mercadante que, em profícua viagem educacional para pedir a bênção ao Papa, sentiu-se espicaçado em sua turnê pelo monte de perguntas que os repórteres impertinentes faziam. Perdeu-se um pouco em sua concentração espiritual. Prometeu que, doravante, as redações do Enem não poderão mais ter receita de miojo.
Mas já se sabe que outros temas poderão ser tratados. A questão é saber quais corretores estarão lá. Ari, homem espertíssimo, tem um colega no ministério que lhe passará um perfil intelectual dos corretores, assim o aluno terá mais chance. Os jornais estão cheios de exemplo, diz Ari. Em Santos afanou-se, melhor, sequestrou-se uma papagaio fêmea por nome Loureca. Um caso de opressão e violência. Poderá ser encaixado numa redação sobre minorias oprimidas.
Ari ensina. Vejam, caros alunos, como ficaria a redação. “As minorias devem receber cuidados e apoio frente a massa opreçora e garantir direitos consagrados na Carta de direitos Umanos, etc, etc.” Então entra a Loureca. “Do mesmo modo deve-se garantir a liberdade de Loureca, ser que por gerassões aprendeu o nome de seus familiares e agora está perdido e traumatisado com a violência urbana de marginais sem corassão.” Olha o toque sentimental no fim da frase. Percebam que o corretor aponta palavras com erros ortográficos, mas se admite uma coisinha ou outra, desde que a ideia do texto e a coerência sejam mantidos, entenderam?
Se dominar, você pode escrever na língua do P. Ainda não pode escrever com emoticons. Por enquanto J. Um percentual de palavras podem ser escritas em internetês. Naum exagere! ;-)
Agora se você quiser ver um corretor sair do sério misture as ideias. Se você acrescenta Loureca a um texto sobre, por exemplo, à transposição do rio S. Francisco, lascou! Loureca nada tem a ver. Daria na vista na hora. Salvo se Loureca tivesse habilidade de construir carrancas, pescar ou soubesse cantar “Olê mulé rendeira”. Aí seria diferente, pois se trataria de uma nordestina legítima, parte do contexto.
O ministro, danado da vida pela exposição das redações grotescas que ora grassam no Enem, disse que haverá um pente fino que não deixará passar nada. Olha só, o ministro acaba de sugerir dois temas: você fala sobre nada, caso o tema tenha raias filosóficas, ou se for tema social, coloque a letra da música “nêga do cabelo duro / cadê o pente que te penteia”.

terça-feira, 19 de março de 2013

Amor


O assunto já está frio, eu sei. Há quase um mês a festa do Oscar premiou filmes e atores. Meu atraso se dá porque somente agora pude assistir ao filme “Amor”. Queria vê-lo antes de julgar se a bela e talentosa atriz Jennifer Lawrence, 22, mereceu ganhar o prêmio da academia americana de cinema em 2013. Jennifer confirmou que é uma excelente atriz, mas ficou aquela sensação de puro bairrismo americano.
A mesma coisa aconteceu entre a Fernanda Montenegro e a atriz americana Gwyneth Paltrow. A primeira concorreu por “Central do Brasil” e a segunda por “Shakespeare Apaixonado”.  Gwyneth é insossa, sem profundidade, num papel fácil, o que ela continua fazendo até hoje. O que essa atriz realmente fez para merecê-lo? Nasceu em solo americano. O que ela fez depois disso? Bem, é namorada do homem de ferro.
        Sou fã da Jennifer, mas acho que o prêmio podia esperar diante da monumental atuação da atriz francesa Emanuelle Riva de 86 anos. Nada a ver com idade, ela simplesmente arrasa no papel de Anne, uma professora aposentada de música. “Amor” é para corações fortes. Eu diria: é preciso estômago, pois ao final da projeção a sensação é de que se levou um soco no abdômen. “O lado bom da vida” é muito bom, os atores se saem bem, comédia e drama, mas não é extraordinário.
Amor não faz concessões de qualquer espécie. É cru, profundo, desesperado, doce e amargo. A dupla Anne e Georges (Jean-Louis Trintignant, outro octogenário, 82 anos) faz um casal que, neste ocaso da vida, se amam, fazem companhia um ao outro, vivem confortavelmente e apreciam as artes, especialmente a música que ocupou sua vida profissional na juventude. Os dois atores são premiadíssimos e são capazes de usar o orbiculari oculi, ativar movimentos corporais tão convincentes que é impossível não se envolver com sua atuação.
Um dia Anne sofre um AVC. Todas as nossas visões românticas do amor ou aquelas idealizadas serão postas à prova a partir de então. Numa época em que quase tudo é descartável e o amor se tornou apenas uma palavra vazia e vinculada a sexo, talvez seja o momento de revisitá-la por uma perspectiva muito particular, quando uma relação é submetida a uma dura prova de resistência, paciência e realidade.
Penso que o amor é realista. Em certas circunstâncias, talvez exija mais do que somos capazes de dar. Talvez haja um limite em nós para amar, especialmente se o amor deve se manifestar em meio à dor, perda, solidão e fragilidade, da velhice, por exemplo.
Uma frase no livro bíblico de Cânticos me ocorre. No versículo 6 do capítulo 8 o poeta diz na fala da noiva: “O amor é forte como a morte.” A comparação é esquisita aos nossos ouvidos ocidentais que pasteurizamos o amor e o infantilizamos – basta ver os tipos de presentinhos do dia dos namorados no Brasil ou no valentines day.
Não sei se o diretor Michael Haneke pensava naquela frase atribuída a Salomão. Mas ao amor, que é sempre radical, não há muitos paralelos. Talvez o poder da morte como algo limite, definitivo e imutável se iguale ao amor crescido, maduro e em total entrega, não ao outro, mas a ele mesmo, o amor. Creio que a comparação não é absurda.
Vocês lembram daquelas figurinhas de sua adolescência “amar é...”? Logo depois das reticências vinha uma frase tola tipo, sei lá, “escrever uma carta romântica”. Esqueça. Com “Amor”, é hora de crescer.

Olha onde você põe o dedo


A médica flagrada pela Guarda Municipal de Ferraz de Vasconcelos (SP) marcando ponto para colegas com dedos de silicone na manhã foi solta por volta das 18h40 deste domingo (10). Ela estava detida na delegacia de Ferraz de Vasconcelos.

Fonte: G1 (Mogi das Cruzes e Suzano – 10/03/2013)

Dizem que todo dia surge uma profissão nova e na direção inversa, uma some. Sinal dos tempos. Do mesmo jeito, pode-se fazer uma arqueologia de produtos que existiram até pouco tempo atrás e hoje desapareceram. Alguém aí ainda usa disquete? Põe talco Vicar nos pés para evitar frieira ou o detestável chulé? Quem das leitoras põe Neutrox nos cabelos? Passa rouge no rosto? Usa celular com antena? Não a fixa, aquela que tem que levantar. Já tomou uma Cibalena hoje? Fiquei tentado a escrever este texto com uma velha IBM elétrica. Um luxo poder trocar as fontes com aquela bolinha. E fazê-lo ouvindo um bom som com um walkman de fita cassete. Estou com preguiça para levantar e colocar o long play na radiola.
Antes que pense que sou velho demais, do tempo em que se entretinham as crianças com o Vila Sésamo e você se achando o máximo porque é da época do Balão Mágico. Lembre-se que tem gente que cantava o Ila ila ila ila riê ê ê ê e acha você antigão. Quero só ilustrar a velocidade com que coisas e profissões mudam. Tudo evolui. Algumas coisas no velho jeitinho brasileiro que, suponho, tem vínculo estreito com o ditado: a ocasião faz o ladrão. Eis um exemplo. No meio da saúde um monte de gente ganha a vida em vários empregos em horários que subvertem a lei física da impenetrabilidade (Um corpo não pode ocupar ao mesmo tempo dois lugares distintos no espaço.)
Então, como estar em dois, três lugares ao mesmo tempo? Na cara dura, muita gente não comparece e pronto. Vai uma vez ou outra, inventa coisas, dá drible de todo jeito, mas tudo muito fajuto. Agora, caros leitores, com o diabo destas máquinas de registro de ponto biométricas acabou a farra. Aqui entra meu amigo Aristogênio. Um oportunista de primeira. Eis um homem ladino. Nada lhe escapa. Como este é um baita problema e tem um monte de gente precisando de uma solução, Ari inventou o dedo de silicone para registrar o ponto. É um pouco tosco, mas dá conta do recado que é simular o dedo do servidor da saúde no lugar onde ele não está. Esta foi a área de especialização do Ari.
Como é uma coisa que cheira a estelionato, Ari, ardilosamente e por prudência de astuto golpista, não alardeou o produto por aí nos intervalos do Jornal Nacional. Forneceu um como teste, como fazem seus colegas traficantes. O primeiro dedo é de graça, depois só dinheiro vivo e uma boa grana. As redes sociais fizeram o resto. Mais rápido do que pensamento, Ari vendeu centenas de dedinhos: polegares, maiores de todos, mindinhos, seu vizinho e furas bolos. Uma boa roupa, malas parecidas às dos representantes. Uma ligação, e o Ari está na porta. Até começou a customizar os dedos para clientes mais exigentes. Uma bateria de manicures criavam verdadeiras obras de arte. Foi daí que surgiu esta moda das mulheres pintarem as unhas com duas cores, florzinhas, etc.
Mas a inveja é uma coisa. Falsificadores de dedos de silicone padrão Aristogênio, competidores do mercado, denunciaram seu maior cliente no interior de São Paulo. Acabou. Um monte de dedos encalhados. Ari até repassou alguns para uma dupla que falsificava impressões para carteiras de motorista, pai e filho, mas os burros gananciosos falsificaram os dedos para aumentar os lucros e como não tivessem a tecnologia Aristogeniana – havia dedos com furos, tortos, impressões borradas – foram presos.
Ari teve que contratar uma consultoria para reposição de produto. Sim, o que ele faria com aquela montanha de dedos? Não queiram saber do prejuízo. As indicações do consultor foram úteis, mas é o próprio Ari quem tem encontrado outras funções para os dedos. Aos interessados, vai algumas sugestões. Dedo para exame de próstata em casa. Dedo legal. Indicador para dar cutucão. O maior de todos na posição ereta com os adjacentes em solene reverência, caso você esteja puto com alguma coisa. Dedo gancho para segurar coisas, por suposto. E aí, vai querer qual? Ou está a fim de abrir uma franquia?

segunda-feira, 11 de março de 2013

Minorias: o que é isso?


O termo “minoria” diz respeito a um grupo humano caracterizado por vários aspectos, que incluem desde práticas culturais específicas religiosas e não religiosas até a cor da pele, idioma e um sem número de outras qualidades à parte do campo sociológico e antropológico, como as pessoas acometidas por doenças mentais e limitações físicas, por exemplo. Estes inumeráveis grupos, normalmente, estão em desvantagem numérica em relação a uma maioria que exerce sua força majoritária nas sociedades, às vezes em desfavor ou desconsiderando a existência das necessidades daqueles grupos ditos minoritários.
Talvez possamos estabelecer um ponto de partida para as políticas (ações) afirmativas atuais na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), promulgada pela ONU e ainda outras similares que dela derivaram, tais como as Convenções pelos direitos da criança, contra o racismo e xenofobia, etc. É claro que eventos históricos graves no campo político e econômico – o holocausto durante a Segunda Guerra Mundial –contribuíram para a consolidação da defesa das minorias. O que é justo e certo.
Mais recentemente, a globalização em todas as suas faces (econômicas, políticas, sociais) reforçou a ênfase em favor das minorias, pois a uniformização do mundo amplificada pelas redes mundiais de comunicação ameaçaram culturas e sociedades que se viram perdendo valores ancestrais nas novas gerações e, no movimento contrário, passaram a reafirmar estes valores de forma a garantir sua identidade.
O problema, no meu ponto de vista, é que neste exato momento, especialmente nos países ocidentais, este conceito de minoria ganhou tal dimensão que caminhamos céleres para uma sociedade esfacelada em milhares de minorias, todas defendendo seus direitos e exigindo garantias e privilégios especiais à sua condição. O conceito está tão elástico que quase todo tipo de diferença pode ser definido como minoria.
Como efeito desta verdadeira proliferação de minorias, vê-se que as normas que organizam a sociedade são hoje definidas não pelo maior número de pessoas beneficiadas, mas impõe a estas, que não se classificam em qualquer destes grupos, comportamentos, limites e obrigatoriedades que não preservam a tal minoria ou apenas lhe garantem o direito de existir e viver conforme seus valores e crenças – naturalmente entre si e os seus –, mas abarcando aqueles que até não desejam que se lhes imponham estes valores.
A razão desta imposição é justificada por seus defensores com outra palavra cara a este movimento: inclusão. Levados ao limite, estes conceitos afirmam pelo menos duas propostas contraditórias: preservar a individualidade e uniformizar a todos, como numa sociedade maoísta. Isso nem é dialético, está mais para algo esquizofrênico. As fronteiras da democracia estão sendo levadas ao seu limite, particularmente no que tange à convivência entre diferentes. Em seu nome, subverte-se a liberdade no sentido mais amplo por inúmeras pequenas liberdades e regras microscópicas impositivas.
O Brasil, como um país democrático, reflete esta maré que tem no politicamente correto seu apoio ideológico, mas que não passa de uma forma de opressão às avessas. O perfil psicológico das minorias em geral, certamente com poucas exceções, é de meninos e meninas – veja que tenho que citar os dois gêneros sob pena de discriminação – mimados que só sabem exigir direitos e ai dos que não lhes atendem, pois farão birras em praça pública e lhes xingarão de antidemocráticos, intolerantes e preconceituosos. Ah, se o discordante tem uma expressão de fé, será também chamado de fundamentalista.
Estas minorias usam outro valor democrático, uma nebulosa versão do que chamam de opinião pública. As recentes listas de abaixo assinados eletrônicos são a face mais visível deste tipo de manifestação deles. Neste caso, nada mais é que a cooptação de uma parcela da sociedade que se encontra anestesiada e desorientada e que compram seus pontos de vista pelo valor de face, sem crítica de qualquer espécie. Aliás, as minorias detestam crítica. Criticá-los é tornar-se seu inimigo e, sem dúvida, um intolerante. Eles não são permeáveis ao contraditório, pois isso atenta contra sua própria existência, imaginam.
Eles são estridentes e agora gritam seus direitos, invadem espaços públicos, avenidas, atropelam a voz alheia, caçam o direito de discordar e a sociedade, refém de uma espécie de culpa no caso de alguns e por uma suposta coerência democrática, dobra-se. Eles patrulham em todos os meios de comunicação uma fala, até a intenção de alguém, para denunciá-lo e expô-lo como um perseguidor de minorias. Até uma apostila de física num colégio em Fortaleza (CE) tornou-se alvo da sanha destes movimentos, pois, naquele caso, a ilustração sobre polos que se repelem e se atraem foi transformada num atentado homofóbico.
Chegará a hora em que – a manter-se o atual estado de coisas –, se consolidará de fato, uma forma de ditadura, uma cerceação, uma permanente insegurança para todos que são apenas pessoas normais (aqui no sentido de não ter qualquer característica expressiva e relevante de diferença), que viverão se policiando sobre uma palavra fora do lugar, pois um ato descontraído e impensado se tornarão passíveis de punição. Se isso não é algo parecido a uma ditadura, com que se parece?