sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

HOMENS E DEUSES – o filme


Nas montanhas do Atlas, no Magreb argelino – Tibhirine, uma pequena comunidade vive seu ritmo tranquilo e em paz. Um mosteiro de monges trapistas arrodeada de muçulmanos a quem servem de muitos modos: assistência médica, vestimenta, trabalho. Uma fórmula estranha quase borra a fronteira entre as duas religiões. Descubro que a tal fórmula é o amor e seus frutos de respeito e tolerância.
        De repente, rumores de que fanáticos islamitas, motivados pela fé distorcida e o desejo pelo poder, começam a agir em vários lugares do país. Atacam covardemente pessoas indefesas, homens e mulheres que se vestem de forma diferente, são estrangeiros ou não professam sua mesma visão de mundo. Decapitações e degolas são modos sinistro de infundirem o medo.
        Aos poucos, a comunidade ao redor do mosteiro é tomada de assalto pelo medo e preocupação. Os monges são colocados em cheque: deixar o lugar e voltar para a França ou esperar e enfrentar o inimigo ao lado de “seu povo”? Cada um dos oitos monges terá que enfrentar seus terrores, sua escolha de fé. Angústia, dúvida, medo da morte (sacrifício, martirização), se apoderam deles como demônios que os açoitam questionando suas escolhas de vida.
        Um dos vários momentos bonitos deste filme, Christian, líder do mosteiro e mais dois, conversam com o líder da comunidade mulçumana. Analisam as possibilidades. Este último defende que fiquem, lembra o início do mosteiro e o abrigo que ele sempre representou para eles. Um dos monges diz que são pássaros sem galho para pousar. A mulher do líder muçulmano intervém e diz: nós é que somos pássaros e vocês são os galhos.
        O título do filme, extraído da passagem de Salmos (82.6) – “Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.” – vai se tecendo nos diálogos em que a fragilidade humana se apresenta mais clara. Deixar-se morrer pela mão de loucos fanáticos ou tentar preservar a vida? A significação do salmo se constrói não na autoalegação de grandeza, orgulho, mas no apequenamento, na entrega. São deuses porque, a despeito de tanta fragilidade, ousam seguir o caminho de Jesus e fazer o que ele fez. Ele sim, a face humanizada de Deus, único  modelo e forma de percebermos AquEle.
        O mosteiro é, por fim, visitado pelo inimigo três vezes. Numa delas, o chefe mujadin pede ajuda médica e remédios. Na segunda vez, eles trazem um ferido que é cuidado. Na terceira, os monges são sequestrados e mortos.
        Não há lógica humana que explique manter-se ao lado da paz quando lhe apontam um fuzil e lhe ameaçam a vida. Não há sentido humano possível em morrer quando se faz o bem ou o que é justo é subvertido em nome de Deus. É uma frase lembrada no filme. Em nenhuma situação os homens fazem o mal com tanto ardor e dedicação, quando o fazem em nome da religião ou de Deus (Pascal). 
Esta história verdadeira e trágica, em meio à insanidade das guerras religiosas de hoje, dá-nos o verdadeiro sentido de Cristo e do amor que Paulo canta em 1 Coríntios 13.

“O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba;”

O duplo


Entre tantos aforismos que preenchem o livro bíblico de Provérbios (15.13), deparamo-nos com um que diz assim: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate.” Esta é a versão Almeida Revista e Atualizada. Outras versões enriquecem o texto como se fossem outros ângulos de uma mesma pedra preciosa. A Edição Pastoral, da Editora Paulus, diz ligeiramente diferente: “Coração contente alegra o rosto, mas coração aflito deprime o espírito.” A Nova Tradução na Linguagem de Hoje não usa a palavra coração, é mais direta e simples: “A alegria embeleza o rosto, mas a tristeza deixa a pessoa abatida.” Por fim, a Nova Versão Internacional colore a mensagem com esta forma: “A alegria do coração transparece no rosto, mas o coração angustiado oprime o espírito.”
        Que coração é este de que fala o escritor? A versão Hebraica da Bíblia abarca vários sentidos e é muito mais direta quando trata do tema, pois o que para nós é metáfora, isto é, coração igual a mente, sentimentos, para eles pode ser homem interior, mente, consciência, vontade, sede moral, dos apetites, das emoções e paixões. Resumamos: para este momento, todos estes significados como o conjunto do que compõe o que chamamos de homem interior. É o mesmo sentido em que Paulo usa esta expressão em Romanos (7.22), 2 Co (4.16) e Ef (3.16). A leitura dos três textos nos faz perceber que aí reside o verdadeiro eu de cada um de nós.
        Mas onde está este eu? Carl Rogers, psicólogo humanista, argumenta que uma das nossas fontes de desencontro interno é viver em luta entre um eu ideal – existente na mente, projetado como um sonho, aquilo que eu gostaria de ser – e o eu real – apequenado, disforme, desencaixado, habitante do cotidiano duro e seco. Romanos 7, Paulo encontra-se numa luta interna entre estes dois eus. Diz ele: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero, isso não faço, mas o que aborreço isso faço.” 
(7:15) Um eu alegra-se na “lei de Deus”; o  outro, nos prazeres da carne. É um mesmo homem. Ambivalente. Incontrolável. Sem saída, apela como que a esmo para quem pode livrá-lo desta morte em vida: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (7:24).
        Rogers chama esta situação terrível de incongruência. Traduzindo: a incongruência é o processo  em que o autoconceito não corresponde às experiências reais. Penso de mim isto e aquilo, mas vejo outro de mim agindo e existindo, distante do que penso ser.
        Mas voltemos ao escritor proverbiano. O homem interior que assumiu o desafio de ser íntegro, coerente, funcionará de forma organizada. A experiência de vida corresponde ao que é internamente. Neste aspecto, a descoberta de Paulo pode nos ajudar. No versículo 25 ele descobre – pela graça de Deus e por Jesus Cristo – que este homem interior – com seu entendimento – serve à “lei de Deus” e o homem exterior – carnal – serve à lei do pecado. Curioso, não? O que Paulo argumenta em dois terços do livro é que agora, ele e os que creem, estão mortos para a lei do pecado, nascidos sob a graça, mediante a fé, são agora de outro reino. Lei do pecado era a lei que determinava a condição de ser humano caído, separado de Deus.
Por outro lado, o homem interior (coração) triste, sofrido, afligido, dorido, destroi o espírito. Sim, espírito significa o hálito de vida, o sopro da vida. A centelha da existência estará, literal e irremediavelmente perdida ou sem o alento que anima o corpo. O homem interior desconjuntado, incoerente produz semblante triste. E não há como ser diferente. O rosto é o espelho da alma. Dizem que os os olhos o são, mas eles, certamente, desenham todo o resto.
Uma das coisas que produzem esta tristeza é viver em conflito sem buscar saída. Ou nem tanto. Alguns estão tão anestesiados que não sabem quem são. Contentam-se em refletir os outros. Quero ser aquilo que não sou. Visto-me da melhor forma. Uso palavras e modos que agradam aos outros. Esforço-me por ser igual aos demais. Sigo a moda. Renato Russo cantou em “Quase sem Querer” que mentir para si mesmo é sempre a pior mentira. A música fala de alguém que vive pelo padrão alheio. Quer agradar a todos e nesse intento infeliz se faz em mil pedaços, desperdiçando muitas boas chances porque estava ocupado demais tentando provar para todo mundo que não precisava provar nada para ninguém.
Mário Quintana, poeta gaúcho, reflete em “O Velho do Espelho”: “Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse /
Que me olha e é tão mais velho do que eu?” Amanhã você se olhará no espelho. Aquele(a) que você verá, quem é?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Elefante papagaio


Um elefante da Coreia do Sul tem surpreendido os visitantes do Everland Zoo por conseguir imitar a fala humana. O animal diz palavras em coreano que são facilmente compreendidas por quem entende a língua. Para tornar o fenômeno ainda mais incomum, Koshik vocaliza com a tromba em sua boca.

Fonte: Globo Ciência 1/11/2012

         Papagaios, periquitos, corvos, cacatuas e até araras, falam. Isso todo mundo sabe. Então, foi uma surpresa “descobrir” que um elefante falava. Coreano, mais precisamente. Não seria inglês, coisa que qualquer um hoje fala. Português, com sua sonorização melódica. Não, meus caros, o bicharoco fala uma língua gutural, cheia de nuances que basta uma pequena mudança de entonação e o sentido muda radicalmente. É como a piada do fanho.
        Vá lá que a eloquência de Koshik não seja das melhores. Diz cinco palavras, que se sabe. Mas, dizem, tem discurso escrito e treina atualmente para entrar na política. Aqui no Brasil. Pois na Coreia políticos que pisam na bola costumam cair em tal desgraça que alguns, por vergonha extrema, se suicidam. Não senhoras e senhores, o costume ainda não pegou por aqui e, pelo visto, nem com o mensalão pegará.
        Dr. Doolitle 1 e 2 já sabia que os bichos são uns faladores. Mais recentemente, “O Zelador Animal”, outro filme babaca, um sujeito conversa com os animais para resolver suas pendengas de vida chifrins. Neste caso, o bobão precisa de conselhos amorosos e, compadecidos por tamanha antice, os animais resolvem dar-lhe umas boas dicas de como reconquistar a menina, coisa que só fizeram por que ele lhes tratava bem. Antes deste lançaram os horrorosos “Alvin e os esquilos” 1,  2 e, arre égua, 3. Mas eles ameaçam seguir indefinidamente. Não é pelos esquilos falarem, a música destes e a atuação dos atores humanos é que é uma lástima.
        Estudiosos desacreditados afirmam desde sempre o que você suspeitava e mais que isso, tinha certeza. Afinal, horas e horas conversando com seu cachorro nunca foi novidade. Especialmente – parafraseando Drummond – naqueles dias em que talvez pelo efeito da lua, solidão, o conhaque tenha lhe deixado comovido como o diabo.
        Você se acha anormal porque conversa com seu gato ou cachorro? Duvido. Não vale incluir aquela sua tia solteirona que sempre conversou com suas samambaias e ainda dizia que o segredo do viço das plantinhas eram as horas dedicadas a conversas só para saber da vida. Claro que as plantas tinham muito a dizer, defendia ela. Ou você acha que só quem tem neurose é você? Desafiava a tia. Mas fora alguns experimentos esquisitos em que as plantas emitem um zumbido contínuo, ainda não se provou fala nenhuma, daí que sua tia pode estar simplesmente alucinando. Mas nada perturbador. Botemos na conta da excentricidade.
        A literatura e o cinema sempre usaram o recurso da fala nos animais porque desde que o mundo é mundo os bichos falam, sim, senhor e senhora! Ninguém viu nem notou, mas um desenho perturbador – “O Segredo dos Animais” – revela o que o George Orwell, em “A Revolução dos Bichos” tirava o véu de mistério. O primeiro inspirou-se, certamente, no segundo. Com a diferença clássica, os porcos comunistas orwellianos são, no Brasil, petistas. A metamorfose se explica por si só. Eles chegaram ao poder. Logo, tucanos ou quaisquer outros animais politizados se transformam em porcos arrogantes, gulosos, cínicos e indiferentes. Bom mesmo só o bacon e as costelinhas fritas... deles, por suposto.
        Voltando ao vocabulário de Koshik. O que alguém faz com apenas: olá, sente-se, não, deite-se e bom? Imagine você reduzido a isto? Curiosamente, o pobre paquiderme só fala aquilo que faz parte do circo em que trabalha por um pouco de palha. Não sei se ele troca a ordem das palavras. Quero dizer, emprega na hora errada. Quer comer Koshik? Olá. Tá apertado? Bom. Mas a descoberta não revela que o elefante seja burro. É só monoglota pentavocabular.  A expressão não existe, inventei.
        Não nos esqueçamos do grilo falante. É um sábio! Dá conselhos incríveis ao Pinóquio cabeça de pau, ainda por cima mentiroso. Sugiro, inclusive, que o grilo se torne figura arquetípica do mundo falante animal.
        Não sei vocês, mas prefiro, muitas vezes, a fala animal  do que de certas pessoas. Lembraram daquele(a) amigo(a) chato(a) que não para de falar um único minuto, não é? Tem gente compulsiva, quando se trata de falar. Metralhadoras. Falam assim sem pensar e porque não querem pensar.
Vão contando uma história após outra, todas banais. Ou simplesmente são narcisistas ao extremo e só eles tem o que dizer. Você é só plateia. E se indignam se você, abusado e zonzo de tanto lero-lero, vira a cabeça distraído. E você ali, esperando o infeliz respirar para cortar a conversa e ele: patati, patatá, blá-blá-blá. Ô gente de fôlego comprido! Será que já tentaram mergulho em apnéia? Tenho certeza que ganhariam o campeonato mundial fácil.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Aconchegadora Profissional


Jackie Samuel, 29, uma moça Rochester, Nova York, tornou-se “Cuddler Professional”. Resolveu abraçar, dormir e acalentar pessoas por dinheiro para pagar seus estudos. Ela recebe em torno de R$ 525 por dia (cobra US$ 60 a hora), e “dorme” com até 30 pessoas por semana, incluindo mulheres, aposentados, veteranos de guerra, ou seja lá quem estiver carente.

Fonte: Site Vírgula (05/11/2012)

A palavra mais próxima que encontro, em nordestinês, é chamego. A moça chamegava os outros e só. Este “e só” ela fazia questão de enfatizar. Como aquelas meninas bonitinhas em festa de São João que vendem beijos em barraquinhas, Kate vendia chamego.
Aconchegava quem pagasse, preço que ela cobrava por hora. Não importava o sexo. A condição era ter carência, posto que, é de se entender, apenas gente solitária e carente recorreria aos serviços aconcheguísticos oferecidos pela profissional.
Mas ninguém se mete em, digamos, tal profissão sem percalços. Como separar o necessitado de aconchego de outras intenções não confessadas na hora da contratação do serviço? Esta e outras questões faziam parte do curso de chamenguento profissional que Kate iria ministrar.
Primeiro, ela explicou por que se tornou aconchegadora. A necessidade faz a invenção. No seu caso, duas necessidades. A sua e a dos outros. Queria entrar para a faculdade e percebeu a enorme quantidade de gente sozinha e carente. Pronto, estava aberto mais um mercado de serviços de relacionamento humano. Embora, lembrou Kate, lá no início, tenha aconchegado um cachorro de uma ricaça que não dormia sem a dona.
Regra um. O contratante não toca nas partes cobertas do corpo do aconchegador. Kate atende de pijamas, que deixa à mostra apenas mãos, pescoço/cabeça e mocotó. Houve um fetichista que quis ficar íntimo de seu pé, mas não rolou. Regra dois. O cliente não pode ficar nu. Regra três. Explicar na contratação que não se trata de prostituição e que pela manhã, acabou o relacionamento.
Derivada da terceira regra, a regra quatro limita o número de encontros para o relacionamento comercial não desandar. É que o povo se acostuma fácil. Mas, passados quinze dias, pode-se voltar a aconchegar o cliente novamente. Assim, não gera dependência, do que já falaremos.
Kate abriu um pequeno parêntese para contar que já existe gente viciada em chamego pago. Ela foi pioneira do serviço, mas aberto este ramo de trabalho, um monte de gente agora sobrevive embalando os outros. Recentemente foi aberto o AA – aconchegados anônimos – para tratar deste mal moderno.
Regra cinco. Importantíssima. O aconchegador aconchega em forma de conchinha. Seja para dormir – fatura-se mais, pois são mais horas – ou apenas para dar este calor por alguns poucos momentos. Futuros chamegadores! Nunca. Ouviram? Nunca mesmo, um aconchegador fica na frente de alguém do sexo masculino. Quer saber? Nem feminino também. Precisa explicar? Aprendi isso, disse ela, a duras penas, para não dizer outra coisa.
Uma atenta estudante quis saber. E se rolar um clima de parte a parte? Aí cruzamos a linha fatal que transformaria nosso serviço em prostituição. Mas se há sentimento, não é prostituição, insistiu a impertinente. Case-se ou vá morar junto com o cliente. Num instante o clima acaba. Respondeu Kate, enfurecida.
Regra seis. Aprenda a identificar os adictos do aconchegamento. Querem repetir o serviço várias vezes. Oferecem valores acima do permitido pelo sindicato. Dão presentes. São infiéis. Quero dizer, se agarram a qualquer um aconchegador. Parecem cachorros pequinês no cio. Identificou o viciado – não chamem assim por aí, eles agora se dizem uma minoria e pode-se incorrer em discriminação – encaminhem para o serviço público ou algum AA.
Um último alerta. O mercado está inflado de gente que se diz aconchegador, mas não é. Por isso a colega aqui foi confundida com uma moça da vida fácil. Há bairros chamados agora de aconchegolândias, tomados de viciados que atacam as pessoas implorando por aconchego. Isso no meio da rua e em pleno dia. Setores da cidade acumulam montes de pessoas aconchegando-se umas às outras sem o menor pudor. Um drama de saúde pública e de segurança. Passem na secretaria de recebam suas carteirinhas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vida de super herói


A PM (Polícia Militar) do Maranhão conseguiu prender uma mulher suspeita de escalar muros e paredes de prédios para roubar apartamentos em um condomínio fechado localizado em São Luís nessa quarta-feira (31).

Fonte: UOL (01/11/2012)

Vida de super herói é dose. O sujeito ou sujeita tem que viver dia e noite alerta para salvar gente em tudo quanto é situação, sem contar as bigs ameaças de super marginais querendo dominar o mundo ou destruí-lo só por troça ou vingança por não ter achado o seu lugar merecido ou ainda porque foram sacaneados no ensino fundamental. Isso sem direito a hora extra, décimo – isso é só para os super pilantras políticos que tem até décimo oitavo salário – seguro, plano de saúde. E ai dele se falhar uma vezinha. 
Em Los Angeles, na calçada fama, um monte de supers desempregados perambulam e retiram o sustento tirando fotos com turistas, inclusive mexicanos. Moram em muquifos, comem mal e para segurar a onda se entopem de drogas e bebidas o que resulta, não poucas vezes, em dividir celas com bandidos que outrora capturaram.
O Hulk, como era de se esperar, surtou outro dia e partiu para um turista porque o cara não gostou da cara do próprio na foto e recusou-se a pagar. Hulk até disse que a cara feia foi um sanduiche estragado, mas não adiantou. Terminou em cana. Gato Félix desentendeu-se com a Betty Boop. Dizem que dividiam o cafofo, mas o gato pegou a dita enrabichada com o Homem Aranha que até alegou inocência, pois teria confundido a Betty com a sua consorte aracnídea. Em sua defesa, ainda, disse que havia bebido um pouco mais, o que o fez enganar-se. Aliás, por causa das contínuas ressacas e farras, tomou uma carraspana do Super Homem, que lhe cobrou postura mais profissional. Homem Aranha também foi enquadrado pela polícia.
Aqui entra a Mulher Aranha. Desgostosa com a traição, entrou num cargueiro de forma clandestina e veio dar no golfão maranhense, quando foi descoberta e jogada ao mar. Por meses sustentou-se com as moscas e baratas do navio e um ou outro rato que conseguiu capturar. Catadores de sarnambi a encontraram semimorta numas pedras na ilha do caranguejo. Alguém disse que era uma sereia, mas barangada, logo viram que faltava muito para a gostosura das sereias. Faltava o rabo depois de meses passando fome. Se é que me entendem.
Desesperada e longe do mundo superheróico, passou a realizar pequenos furtos em condomínios de predinhos de três andares. Arrumou uma comparsa que fazia ponto no porto do Itaqui que logo topou pois, longe de seus melhores dias, desinteressava aos marinheiros, mesmo aqueles com meses de mar. E, pasmem, não é que a briosa polícia do Maranhão a capturou? Há quem diga que estatelou-se do segundo andar numa incursão e desmaiou, por isso a pegaram.
Desgostosa e vendo o quanto desceu, achou um ghost writer para contar um pouco de suas memórias e tentar ganhar algum. Mais interessante que sua vida, foram as fofocas das ruas sobre os colegas que deixou para trás. Sobre o Batman reservou as piores coisas. Deixou no ar que era uma vingança por que o morcegão lhe deu um fora. Disse que ele arrastava a capa pela Super Girl, mas esta lhe enrolou apenas para poder dividir a comida ele ainda conseguia, pois, de verdade, tinha um caso meio secreto com a Mulher Maravilha por quem o Super Homem, mesmo casado com uma professora, já havia se declarado umas poucas vezes, mas esta, como boa amazona, não era chegada no sexo oposto. Desencantado, dizem que o pobre tentou até o suicídio duas vezes, mas homem de aço é duro de morrer.
Enfim, sobre o Batman, disse que estava decadente e que andou vendendo drogas para o Bob Esponja que havia se tornado traficante, pois foi a única maneira de dar tudo o que o seu namorado Patrick exigia, pois se considerava uma dondoca aristocrática. Sugeriu ainda, que o serviço psiquiátrico da Liga havia declarado que ele era incapaz de trabalhar. E acrescentou, o Batman havia se tornado amigo íntimo do Coringa. Este, disse ela, não era tão mau caráter quanto se dizia por aí, embora fosse louco.
A Mulher Maravilha é quem ainda estava um pouco melhor, pois malhava bastante e tinha um corpão legal. Antes fazia pip show, mas desentendeu-se com seu cafetão e foi para as ruas. Fez pontinhas em filmes de terceira e um ou dois comerciais. Tudo isso a troco do popozão que tinha, razão pela qual ela aboliu a capa, pois os turistas só queriam tirar fotos se esta parte do corpo da heroína estivesse à mostra. De vez em quando, ela se dava uma palmada e dizia: isso vende! A Mulher Aranha contou um episódio em que um ciclista drogado passou a mão no traseiro maravilhoso da Mulher Maravilha que, indignada, teve que chamar a Liga Justiça que o Super Homem preside. O cara fugiu rindo e não foi pego. Ela ficou lamentando na calçada que o cara lhe devia dez dólares pela palpada.
Super Homem é um que, segundo conta,  tem efisema e bronquite crônica porque viciou-se em fumar kriptonita. Mas ainda dá uma ordem no lugar. Disse que quando se aposentar, entrega a direção para o Dart Vader que é quem mais fatura ultimamente com fotos. Seria o Batman, mas está preso e o que assumiu o seu lugar está mais para um Robin disfarçado, sem contar que passa o tempo fazendo trechos líricos no metrô. Diz que tem talento e a carreira vai decolar. O pessoal acha que é um tolo deslumbrado.
Por fim, a Mulher Aranha desculpou-se, disse que estava subindo pelas paredes pelo tempo no mar, e já que estava dentro dos apartamentos resolveu pegar umas coisinhas. Emprestadas, enfatizou. Que devolveria no tempo apropriado. A delegacia agora está com problemas, pois os fãs estão fazendo fila para vê-la. Já se disse que a Sônia Braga, aquela do Beijo da Mulher Aranha, já acampou na porta pedindo a soltura de sua colega. Aproveitou para desancar a última Gabriela. Disse que se fosse ela teria incendiado a Globo de tanto sensualidade. Esta gente é alucinada!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A máquina acaba briga


Chineses criam "Detector de Humor" para salvar casais em conflitos. Os chineses não cansam de nos surpreender, não é mesmo, internauta? E se você acha que já viu de tudo, então senta para receber essa notícia: para (tentar) resolver as brigas rotineiras dos casais, uma dupla chinesa desenvolveu um "detector de humor", capaz de mediar conflitos.

Fonte: Do UOL Tablóide em São Paulo (11/10/2012)

O mercadão de terapias para casais é quase infinito. Quem não vende terapia, escreve livros de autoajuda, dá conselhos, ensina mandinga, simpatias. Neste quesito, nós, latinos de influência católica, inventamos até um santo, dito casamenteiro, que resolve a solteirice daquelas moças que, sabe-se lá por quê, não encontraram seu príncipe. Não foi por falta de bebum, do que somos fartos.
Por que o santo só resolve o vexame das moças? E eu sei lá! Ainda não vi homem botando o santo de cabeça para baixo e nem se esfregando no pau, nem tirando cascas desse para fazer chá. Opa! Não me levem a mal com esta conversa de pau. Olhem as mentes sujas! Pau, árvore, madeira – literalmente falando – que, diz a lenda, teria a capacidade mágica de, não sei se depois de benzido, atrair os homens como besouros tarados pelo feromônio das besouras ou cães atrás das cadelas, correrem às mulheres que nele se esfregam. Também literalmente.
Relação de casal é quase tudo igual. Gire o globo e ponha o dedo em qualquer lugar e verá que as picuinhas, os maus humores, os diálogos de surdos mudos, os desentendimentos, são clichês puros. Menos nas latitudes e longitudes dominadas pelo islamismo, onde mulher compara-se a coisa. Mesmo aí, com burca e tudo, elas acham formas de estabelecerem seu espaço de manobra. Ou seria impossível sobreviver como algo assemelhado a gente.
Os chineses inventaram a pólvora, bússola, papel e um sem número de outras coisas. Bo Li é chinês e, esperto como só eles sabem ser, teve a fascinante ideia de criar um aparelho que resolveria brigas de casais. Estava cansado da senhora Li lhe detonar a paciência. E se houvesse um dispositivo que alertasse ou mesmo interferisse nas brigas dos casais? Comentou com um amigo que logo lhe lembrou a versão chinesa de que em briga de homem e mulher não se deve meter a colher. Bo não se deixou vencer pelo pessimismo do amigo. Haveria de criar a colher que acabaria com as brigas dos casais.
Quantos homens e, vá lá, mulheres, não estão cheios das brigas? Argumentava. E se houvesse um alarme que percebesse as primeiras palavras ferinas e a desfeita? E se fosse capaz de detectar as ironias mortais? Mais ainda, cheirasse as pisadas de calos? O aparelho se converteria numa espécie de campainha do Pavlov. Só que em vez das pessoas salivarem, parariam a briga. Quero dizer, o início dela.
O amigo, que ouvia atentamente, quis saber como é que as pessoas desafogariam suas frustrações depois de tantas vezes interrompidos, justo quando tripudiariam sobre seu cônjuge, descontariam uma contrariedade. O número de agressões passionais aumentariam, alarmou. Pior, até mortes, aconteceriam com tanta raiva guardada e sem ter para onde ir. O homem era um catastrófico de nascença.  Bo, ao contrário, era um otimista maníaco.
Que nada! Diminuiu o negativismo do amigo. As pessoas vão usar esta energia de forma (re)produtiva. Depois dos cinquenta milhões de tons de cinza e uma pitada de kama sutra, as pessoas desafogarão esta energia em sexo selvagem.
Com o pé atrás, o amigo de Bo decidiu entrar na empreitada. Qual será o princípio da detecção? Perguntou. Bo tinha tudo resolvido depois de horas pensando confucianamente. Pelo tom de voz, respondeu na lata. Um programa armazena diversos tons de voz carregados daquelas maldades típicas com que se espezinha a mulher ou marido. Uma voz – que tem que ser delicada e sensual – disparará uma frase pedindo calma, alertando para diminuir a aspereza da voz ou coisa assim. Ótimo, aplaudiu o outro. Faltava definir as frases. Vamos nós mesmos testar em casa. Dona Li será um teste de fogo, provocou o amigo de Bo, que riu amarelo – olha a piada infame.
Uma semana depois, Bo encontrou o amigo. Estava meio desanimado. O outro ria. Em sua casa o aparelho funcionou às mil maravilhas. Dona Li superou o aparelho? Perguntou. Mais ou menos. Quando ela começava a sair dos trilhos o aparelho funcionava. Já no final da semana, ela ganhou uma espécie de imunidade aos alertas e dava tanta importância às frases quando se dá para aquelas das cancelas de shopping. Pior, meu amigo, cismou que a moça tinha uma voz sensual demais e quis por que quis saber onde eu tinha arrumado aquela zinha.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Fecharam o purgatório


O papa Bento XVI declarou nesta quarta-feira que o purgatório não é um lugar do espaço, do universo, "mas um fogo interior, que purifica a alma do pecado".
O Pontífice fez estas manifestações perante 9 mil pessoas que assistiram à audiência pública das quartas-feiras, cuja catequese dedicou à figura de santa Catarina de Gênova (1447-1510), conhecida por sua visão sobre o purgatório.

Fonte: site Terra (12 de janeiro de 2011)

Ele estava azedo. Quis saber por quê. Balbuciou algo ininteligível. Se fosse minha avó, diria que ele budejou. Não está no Aurélio e, suponho, o Houaiss também desconhece esta flexão corruptela no passado do verbo balbuciar. Ele, explico, é um velho amigo. Não declinarei o nome, ainda que inventado. Religioso das antigas, daqueles que não come carne na semana santa e guarda com genuflexão dias santos e festas, com todos os ritos que conhece. Não consta, para mim, que ele se flagele com um cilício, por exemplo, mas andou de joelhos algumas escadarias.
Como disse, indaguei o motivo de tamanha desconsolação. Movimentos lentos, palavras medidas e um ar de velório, só disse: o purgatório. Mesmo assim, a palavra saiu sumida da boca. O mistério só aumentou. Pensei no pior. Estaria com os dias contados? Soubera de uma doença terminal? Minutos depois, ainda como que em transe, acrescentou: o papa. Tentei juntar o papa e o purgatório, mas por uma dificuldade dedutiva de meu espanto, preferi esperar. Pensei até em me aconselhar com Dante, sei lá, folhear a Divina Comédia até encaixar as duas informações, mas seria perda de tempo. Em toda a trajetória pelos círculos infernais, Dante encontrara desafetos reais que ali colocara por vingança, dizem, mas absteve-se de colocar qualquer Papa no lugar.
Longa espera. Ele resolveu falar. O Papa acabou com o purgatório, você pode imaginar isso? Perguntou e, sem esperar uma resposta, que eu não tinha, emendou: como é que vai ficar tudo? Se mexer no purgatório, onde é que fica o céu e o inferno? Sua Santidade afirmou que o purgatório não é um lugar. Passei a vida sabendo que é um lugar. O catecismo dizia. Os velhos professores de religião tinham certeza. Um lugar com endereço fixo. Abrigou milhões por não sei quanto tempo e agora, assim sem mais nem menos, desapareceu. Onde essa gente foi parar? Despejados como moradores de rua incômodos. Estou sem chão e agora, sem purgatório.
Quando eu imagino que a gente quase podia fazer um turismo mental no purgatório, tamanho eram os detalhes que nos diziam: pracinhas, ruas simpáticas com vendedores de bugigangas chinesas, lugares legais para comer e conhecer gente. Claro que teria falta d’água, apagões, malandros, políticos corruptos, poluição, mas nada insuportável. Quer dizer, antes de estar lá, você como que desenvolvia uma relação afetiva com o lugar e de repente acabou. 
Estou com medo, queixou-se. Agora é céu de um lado, inferno do outro e no meio o nada. Sem uma estação intermediária para resolver aquelas pendências que a gente tem, você sabe, procurou minha solidariedade, talvez, é como um cara ou coroa. Quer dizer, uma coisinha assim de nada pode me jogar nos quintos, pois a balança vai pesar pra um dos lados e aí, já era.
 O Papa disse que o purgatório é tipo um fogo purificador dentro de nós. Não sei não, desde que o mundo é mundo purgatório é um lugar onde as almas semidanadas descontam o excesso de pecado. Precisa mesmo ser um lugar, para acolher esse monte de gente. Ter instalações adequadas e os locais com profissionais experientes para fazer a limpeza ou ensinar seja lá o que se precisa para aliviar o peso. O Papa deve saber o que diz, mas quero ver como é que a gente transforma um lugar numa abstração.
Tem mais. Este novo purgatório interior acontece antes ou depois da morte? Não ficou claro. Tem um estágio de aprendizado de como carregar o purgatório inteiro nas costas? É portátil? Tipo: cabe num pen drive? Há que pensar também na temperatura deste fogo purificador interno. Como se sabe, o purgatório antigo era quente, mas suportável, pois quente mesmo é o inferno. Convenhamos, uma coisa é um fogo fora, você se afasta, se esconde atrás de algo, coloca os recém chegados na frente. Mas com o fogo dentro de si fica difícil. Haverá algum tipo de termostato para regular o calorão? Estou cheio de dúvidas, você me entende? Eu não entendia. Nunca cogitei o purgatório e nem sabia que havia tantos pormenores envolvidos nesta moradia, ainda que temporária, segundo disse meu amigo.
De qualquer modo, estava penalizado pelo desamparo do meu amigo. Pensei em dizer que o Papa falou apenas figuradamente, que fez um exercício retórico teo-filosófico, mas não adiantaria. Não estava sendo fácil para ele suportar que aquele lugar simplesmente tenha desaparecido. Pensei em sugerir que estava ocorrendo um programa imobiliário celestial e que precisaram do espaço que estava meio decadente como os centros velhos de uma metrópole, com montes e montes de gente sem fazer nada, esperando o tempo passar para poder subir de degrau espiritual. Mas até eu achei a ideia meio maluca.
Meu amigo continuava confuso. Com esta mudança, disse ele, depois de longo embatucamento, acabo virando protestante, pois eu lhe pergunto, de que adianta um católico sem purgatório? De repente, seu rosto se iluminou, quem sabe, já meio arrependido de ser protestante. E se o santo padre mandasse construir um purgatório novo, num lugar menos mal afamado? Espaço entre o inferno e o céu não falta.