sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Melancholia


Há histórias e filmes que nos capturam desde o primeiro momento. Na minha opinião, não é o que ocorre a Melancholia. Assisti-lo, de início, igualou-se a um exercício tedioso. À realização de um ato de rotina. Fazer algo porque se tem que fazer. Visto nesta perspectiva, parece que detestei o filme, não é o caso. Mas prefiro filmes que, de algum modo, produzam em mim um tipo de conexão emocional e que por este canal me provoquem a crença e a compreensão das coisas.
Enfim, Melancholia é o sugestivo nome de um planeta gigantesco que saiu de sua rota nos confins do universo e veio trombar com a terra. Justine (Kirsten Dunst, aquela que fez a namorada do Peter Parker/Homem Aranha) e sua irmã, Claire, fazem o núcleo do enredo. Some-se o marido e filho de Claire e os pais de ambas, separados. A mãe, um saco de amargor até o tutano. O pai, um bon vivant sem responsabilidade. Um microuniverso de relações com todas as nuances boas e ruins. Funciona como um espelho de nossas preocupações frugais, maldades, mesquinharias, banalidades que vistos sob a perspectiva dos grandes dramas da vida que se esfacela sobre e ao redor de nós, são insignificantes.
Exceção aos pais, são eles que no filme viverão diante da notícia aterradora: um planeta colidirá com a terra, não antes de uma dança cósmica macabra de aproximação e afastamento como duas bolas de gude que caminham em direção ao fundo de uma bacia depois de alguns giros em sua borda.
Justine, mesmo em dias que simbolizam felicidade e promessa de futuro feliz – ela celebra seu casamento – é como que, aos poucos, infiltrada pela certeza do fim do mundo. Mas ela não sabe o que é. De forma insidiosa a inquietação, o desassossego vão se avolumando, tomando sua alma. A festa, os convidados, o noivo, a programação que sua irmã zelosamente preparou, tornam-se um fardo e algo absurdo. Algumas certezas e verdades, quando um ou poucos sabem, são produtoras de solidões imensas. É nesta consumição que ela busca conforto nos familiares e todos apenas a acham estranha, infeliz no dia da felicidade, distante, mal agradecida. Como comunicar sua dor e desespero?
Enquanto as pessoas se debatem com seus medos ou frouxas esperanças, Justine adoece, entra em profunda depressão. Não há saída. Não há plano B possível. A verdade adoece, mas também cura. E ela sobrevive ao ponto quando se foi tão longe que nada mais nos pode ser tirado. Nenhuma ilusão vingará, nem um consolo, mas nenhuma dor será bastante.
Seu cunhado, um homem riquíssimo, acredita piamente na ciência e seus prognósticos. Em dado momento, ele faz compras contra o que considera pequenos efeitos pela passagem do planeta. A desgraça nos alcançará um dia e nenhuma preparação será suficiente. Ele se consola com sua habilidade, sua verdade científica (que não falha), enconde-se neste saber até que, no momento fatal, diante do inexorável, nada tem a não ser uma brutal desilusão que o sucumbe. Há verdades mais importantes que as científicas? Qual delas devemos manter conosco e que nunca nos abandonará?
A proximidade do fim produz em Justine uma fortaleza emocional, um estado de serenidade. Torna-se ela, há pouco prostrada diante da terrível verdade, agora a que consola e sustenta o sobrinho e a irmã amedrontada e fraca. Para mim, a cena mais tocante do filme, seu resumo, o traço de genial criatividade de Lars Von Triers (diretor), é a construção de uma tosca “cabana” – não mais que alguns galhos em forma de pirâmide, sem paredes ou teto – que Justine chama de “caverna mágica” para o pequeno sobrinho. Enquanto o monstro Melancholia, algumas vezes maior que  a terra se aproxima para o abraço fatal e assoma, tomando conta de todo o horizonte, os três se dão as mãos. O menino, de olhos fechados, é o retrato da inocência e pureza. Ele sabe que está protegido e não tem nenhum medo. Claire, sua mãe, aguenta-se como pode, sofre e, como a mulher de Ló, quer ver a hecatombe sobre seu mundo. Não consegue desapegar-se. Justine, de olhos fechados, tem um leve sorriso, uma paz e tranquilidade de quem alcançou uma espécie de nirvana.
Lars Von Triers, o diretor, não conhece a música “O último dia” do Paulinho Moska que diz: “Meu amor o que você faria? / Se só te restasse um dia / Se o mundo fosse acabar / Me diz o que você faria?” A pergunta – ou uma delas – é em quem estamos representados? Em Justine, que sabe da realidade e a aceita tal como é? Em Claire, que se perde ante a catástrofe e se desespera? No marido confiante e tranquilo em sua verdade científica infalível? Nos convidados do casamento que nada percebem e fazem apenas o rebanho de gente que vai para lugar nenhum? No menino que se sente protegido em sua “caverna mágica”?
Agora, depois de escrito este breve relato de minha experiência com o filme, percebo que provocou-me mais do que havia pensado. Talvez fosse o caso de repetir a experiência.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A crise da meia(?) idade


Entre mulheres e homens com idades entre 45 e 49 anos, os cientistas perceberam um declínio no raciocínio mental de 3,6%. As conclusões contradizem pesquisas anteriores sugerindo que o declínio cognitivo só começaria depois dos 60.O estudo, publicado na revista científica British Medical Journal, foi conduzido ao longo de dez anos, entre 1997 e 2007.
Os cientistas avaliaram a memória, o vocabulário e as habilidades cognitivas – de percepção ou de compreensão – de quase 5,2 mil homens e 2,2 mil mulheres entre 45 e 70 anos, todos, funcionários públicos britânicos.

Fonte: BBC Brasil (6 de janeiro, 2012)

Até Parece que a pesquisa foi feita comigo, disse Asnovaldo. Para ver como o mundo evolui, se piora ou se melhora, não sei dizer, mas cada dia se descobre um mistério novo. Se bem que crise de meia idade não é mistério nenhum. Que não é nada de meia, está mais para lá do que para cá. O danado é que a gente ainda se enganava esperando os sessenta, para só então se queixar da escuta agravada, da vista cansada e dos esquecimentos de tudo enquanto.
Para mim foi um espanto, sim senhor. Antigamente, em se tratando dos homens do sexo masculino – Asnovaldo gosta de falar assim não por pedantismo é porque, diz: ‘o mundo está escalafobético nesta área havendo homens que não praticam o sexo masculino’. E, ainda segundo diz: é difícil de separar um do outro – o problema era só aquele de falhar na hora agá. Não aquela falha ocasional que quase todos os homens experimentam em algum momento da vida, mas  aquela falha recorrente e persistente da qual jamais se falava. Um compadre meu, coitado, tornou-se um mentiroso desavergonhado nesta questão. Ô homem de ter aventuras calientes!
Aconselhei o pobre umas poucas vezes. Mas ele ora ardia como um amante latino, quase um Rodolfo Valentino, ora mergulhava sorumbático num mutismo comatoso, se tão somente o assunto roçasse a questão sexual. Minha comadre, que era mulher séria, aguentou aquela desdita até não poder mais. Foi inventarem aqueles remedinhos azuis e meu compadre virou a besta fera de assanhado. Mas sem medir presão e fazer checkup do coração a afoiteza virou defunteza. Deus o tenha em bom lugar (benze-se).
Parece, por outro lado, que o risco vale, mesmo sendo arriscoso, havendo mesmo quem defenda a aventura como uma forma de sair de um paraíso e ir a outro, mesmo a despeito das ridículas e vexaminosas circunstâncias em que o pessoal do iml encontra o decujus. Vôte!
Já repararam? A coisa está ali quieta. Não tem nada de defeituoso e você, capengando, vai dando para o gasto. Então, um pesquisador sem ter o que fazer, diz que 45 anos e não 60 é a idade em que a coisa começa a degringolar. Eu que passei um ano depois desta fronteira me quedo descobrindo uma mouquidão que sempre vivi com ela sem fazer vexame, mas que agora precisa de aparelho. A vista sempre foi astigmatizada mesmo. E o esquecimento?! Ah, já estou com medo até de esquecer o próprio nome.
O sujeito está bem. Alguém – isto é coisa de mulher – insiste para fazer uma consulta, olhar os aparelhos, fazer uns ajustes, sei lá mais o quê. Para livrar-se da insistência, vai ao médico e acaba descobrindo que, por pouco, não seria chamado de zumbi. Quer dizer, já estava morto e não sabia. Aí aparece tudo quanto é engriguilho. E eles defendem a má notícia dizendo que é melhor ir porque se descobre precocemente – pessoal da saúde adora esta palavra – e ajeita os pandarecos. Onde já se viu...
É a profecia que se autocumpre. E o sujeito não vivia bem? Eu não posso ouvir estas coisas de pesquisa que me impressiono. Serei, como se diz? Um hipocondríaco! Serei? Não sei. Mas que estou mouco como uma porta é como me sinto. Cego ainda não, mas quase e esquecido... do que que eu estava falando mesmo?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A pele que habito


Richard Ledgard (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico de incrível habilidade. Rico e bem sucedido, também é um gênio. Carrega, contudo uma história pessoal trágica. A mulher que amava, o traía com o meio irmão que é seu oposto em tudo: marginal, mau caráter, ladrão sem escrúpulos.
A mulher que escapa de morrer carbonizada num acidente de carro, deprime-se a ponto de suicidar-se. As dores  e a mutilação que não foi capaz de curar deixa em Ledgard um misto de culpa e obstinação por descobrir uma pele imune ao fogo, picadas e danos, algo que teria salvo sua esposa. O avanço tecnológico, inclusive a travessia do limite – a transgênese –, não vem sem quebrar todos os protocolos éticos e morais que deveria seguir como médico e cientista.
A filha, traumatizada pela morte da mãe, desenvolve transtornos mentais que a levam a anos de tratamento. Quando tudo parece caminhar para uma estabilidade, a moça que a vida inteira foi protegida do mundo e sem qualquer imunidade às experiências humanas, sucumbe a uma quase relação que não se consuma e o fio de sanidade que a mantinha se quebra.
Ledgard, o homem obcecado pelas perdas e dores nunca curadas de sua alma perdida, estabelece um plano. Uma cobaia humana para finalizar sua descoberta, uma vingança pela perda da filha, a ressurreição da mulher amada.
Almodóvar, até aqui, brinca conosco. Monta a história. Como um malabarista, brinca com o tempo, a ordem dos fatos. Joga pistas como quem atira milho aos pombos numa praça. E buscamos ávidos, entretecer as linhas, costurar os personagens entre si e na história. Ao mesmo tempo em que vamos sendo socados com a crueza da narrativa que se revela surpreendente e absurda com é a vida.
Richard é uma vaga mistura do médico e o monstro. Um Frankestein redivivo, à sua maneira. Todos queremos consertar o que desmantelamos por burrice, raiva, por amor, inveja e tudo o que explica nossos atos tresloucados se tivéssemos chance. Deste labirinto, se vamos longe o suficiente, não haverá saída, nem com o mestre das chaves. Sem que perceba, Legard terá sua paixão transformada em loucura e ambas são feitas da mesma matéria.
Descoberto o culpado pela perda da filha, há que fazê-lo pagar. Todo prisioneiro desenvolve, nas condições adequadas, amor pelo captor. Ao fenômeno se dá o nome de Síndrome de Estocolmo. A condição humana, na maioria das pessoas, pede o contato, a fala, o olhar de outro ser humano. Se o aprisionador é o único igual a quem a vítima tem, segue-se um sentimento de afeição.
O personagem de Ledgard parece saber disso para melhor dominar seu prisioneiro, não mais com correntes, mas pelo emoção e pela mente. Cada pequena concessão parece uma dádiva para quem recebe. Ao fim e ao cabo, os dois lados das grades estão tão envolvidos que não sabem mais o que os une. As emoções são retalhos misturados que causam repulsa e atração. Nunca estaremos imunes à convivência uns com os outros, para o bem ou para o mal. Almodóvar parece dizer que mesmo transformados da maneira mais radical, sempre saberemos quem somos por debaixo da pele. “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas?” Pergunta Jeremias, o profeta das lágrimas.
Há um estado perfeito do que somos ou do que entendemos ser, que jamais poderá ser mudado. A grande dificuldade de todos nós é conhecer quem somos. Nossas neuroses e psicoses são fruto da incongruência, pensava Carl Rogers. Vivemos com o que dizem de nós, máscaras falsas, ou pior ainda, com o que esperam de nós, a escravidão mais sutil e cruel. Estamos perdidos entre os dois. 
Almodóvar sabe disso. Seu filme é uma pedra com muitos lados a serem decifrados, tais quais os personagens. Brutalmente humanos. Ambíguos. Indecifráveis se os olhamos rapidamente, menos ainda se tentamos montá-los. Carregam o bem e o mal. Há em nós há um eco da fala serpentiforme: “...como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal.” A serpente nunca pretendeu que “conhecer” fosse algo apenas a expressão do intelecto, mas da experiência.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz 2012...até que enfim


Tem gente que se consome nesta época do ano. Nem a semana do Natal acabou e lá vem outra festa. E o Natal cobra que é uma beleza: do estômago e do bolso. As duas coisas fazem parte do combo padrão ou você não está no espírito do natalino. Chega mesmo a se sentir a pior das criaturas se não tiver com quem compartilhar a ceia e, fatalidade das fatalidades, ser participante de algum amigo invisível que, para agradar todo mundo, estabelece que o presente tem que ser de trinta reais, por aí. E alguém no espírito do momento justifica: é para que todo mundo participe. É só uma lembrancinha para marcar a data. Dane-se, o que é que se compra com míseros trinta reais? Bugiganga chinesa com cores e desenhos trash e que não servem para nada.
Minha decisão de fim de ano, válido para o próximo, claro: não participarei de amigo invisível nenhum. Até porque tenho a desdita de quase nunca ganhar nada que preste ou criativo ou inteligente. Faço um desagravo para este ano que ganhei um livro. Mas, de verdade, não conheço ninguém que diga que tem sorte em amigo invisível.
Não se aborreça, leitor, se ainda falo do Natal que agora parece tão distante quanto alguma nebulosa galática. Mas tem festa com mais cara de família do que esta? Para azar da maioria das pessoas que conheço. A ceia, não raro, é uma arapuca cheia de risos e mesuras que são pura hipocrisia com fita. Gente que não se falou o ano inteiro e nem queria estar junta, obriga-se ao convescote natalino pedindo a Deus que tudo acabe, o diabo do galo cante, que os reis magos entreguem os tais presentes e acabem aquelas imitações de sino que tocam dentro de seu juízo.
Então, você mal escapou de todas as armadilhas dos ajuntamentos com sua tribo particular e lá vem outra dose, sem dúvida, cada ano mais carnavalesca e mais longe do seio familiar. A festa do ano novo. E lá vai você desejar feliz ano novo para tudo quanto é gente e que você nem daria bom dia se encontrasse no elevador. Mas é o de menos. A rasteira ainda virá. Seguir o script: vestir branco, comer lentilhas, entupir a carteira com sementes de romã, dar saltinhos nas ondas, não andar para trás, vestir cuecas ou calcinhas de cores essa e aquela porque atraem o que você estiver necessitado(a). Ufa!
Calma. Ainda faltam as promessas de ano novo. Tem gente que pergunta quais promessas você fez, tem gente que fica falando as suas, mesmo que você não pergunte. E tem gente que roga praga. Descobri que não estou em nem um destes times. Mas promessa ou resolução – parece mais sério e dá a entender que você cumprirá mesmo – são feitas para uma coisa: a gente esquecer logo que o ano entra.
Tem sua função, nos faz feliz por um minuto quando acreditamos mesmo no que dizemos. Pode ser qualquer coisa que por preguiça, falta de vontade, leniência, falta de vergonha, se decidiu realizar dois três anos antes e se teve a oportunidade de fazer quatrocentas vezes e não se fez. Dá um alívio dizer: agora é pra valer... Alguém lembra a promessa que fez a si mesmo(a) ano passado? Lembre agora e diga de novo, quem sabe desta vez...

FELIZ 2012 A TODOS OS LEITORES.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sentidos do Fundamentalismo - um senão com o Contardo Calligaris


O Psicanalista Contardo Calligaris não poderia ser incluído entre pessoas fundamentalistas ou intransigentes em suas posições. Acompanho-o na Folha já há algum tempo, não poucas vezes apreciando seus textos e aprendendo com eles. Como ele mesmo diz em “Sentidos do Fundamentalismo” (Caderno Ilustrada da Folha de 15 de dezembro de 2011): “...eu não sou fundamentalista: decido e escolho segundo as circunstâncias e não por princípio.”
O texto citado é muito bom e recomendo sua leitura. Numa época em que o fundamentalismo religioso de toda espécie ganha as páginas dos jornais pelos motivos mais infames, nunca é demais questionar as razões e certezas absolutas de quem diz seguir ordens divinas com resultados que relembram apenas os períodos de barbárie pelos quais a humanidade passou.
Minha cisma começa quando o Calligaris, a título de exemplo, retoma o tema que está sempre na ordem do dia nos últimos tempos, o homossexualismo em contraposição com o cristianismo, ou este contra aquele, e diz que prefere Oscar Wilde a Paulo, o apóstolo. Ora, claro está que o articulista não está colocando em evidência sua mera preferência – questão que, como se sabe, não se discute – mas o que subjaz à afirmação e isto esclarece no parágrafo seguinte de seu texto.
Também gosto de Oscar Wilde, mas conheço Paulo melhor. Nenhum dos dois poderá ser julgado pelo que os outros fizeram com o que escreveram ou, no mínimo, se incorreria numa enorme injustiça. Donde acho que a comparação é descabida. Sim, alguém poderia dizer que Paulo enquadra a conduta homossexual, masculina e feminina, como algo que o cristão deve evitar sob pena de estar praticando algo pecaminoso. De fato, Paulo fala isso mais de uma vez, destaque para a carta aos Romanos (1.26,27).
Que se pode entender destas recomendações paulinas? Em primeiro lugar, não há em qualquer de suas falas sequer a insinuação de que os cristãos devem empreender uma caça aos homossexuais como forma de extirpar o pecado seja de onde for.   Em segundo lugar, o que está na Bíblia, de modo geral, é para o que crê, logo é somente este que deve se adequar como princípio de fé. Em terceiro lugar, os fundamentalistas, ainda que sejam a face espalhafatosa da fé cristã, não a representam. Ao contrário, distorcem seus princípios fundamentais, entre eles o amor sua ordem basilar.
É de Paulo a descrição mais bonita deste estado de alma (1 Co 13.2-9): “E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará;”
Calligaris incorre em outro deslize. Toma o termo “evangélicos” como algo unânime e coeso como se houvesse uma única forma de ser evangélico, a saber, a forma fundamentalista como chama. Se há os que desejam converter todos os homossexuais ou condená-los ao fogo do inferno, e fazem disso quase uma missão, há os que entendem os praticantes homossexuais como pessoas que, como qualquer outra, sob o ponto de vista cristão, precisam do perdão dos pecados na pessoa de Jesus. O que, absolutamente, não é impositivo.
O ser cristão é um modelo de vida, uma postura perante o mundo, uma forma de entender a realidade, uma “contracultura” como chamava Jonh Stott em seu livro baseado no Sermão do Monte. Baseia-se no respeito ao outro, na misericórdia e encontra sua fonte na Graça que, no sentido cristão, é a bondade de Deus em nosso favor sem que haja merecimento de nossa parte. Se alguém se diz evangélico e representa ideias e comportamentos contrários a estes princípios, não expressa o sentido da pregação de Cristo.
A Bíblia, as cartas de Paulo incluídas, defendem sim, que certas posturas, pensamentos e posições são pecado, a saber: toda forma de viver que nos distancia de Deus.  Ao mesmo tempo, o Livro diz que todos somos pecadores e que em nós habita o pecado (Paulo), o que põe em igualdade de condições  assassinos, ladrões, homossexuais e aquele que não é nada disso, mas perjura, odeia, mente, engana, sente inveja e ainda se gaba de não fazer o que os primeiros fazem. Como diz Paulo: “Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte?” À pergunta retórica, ele mesmo responde: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm 7. 24)
O que está claro é que o fundamentalista não suporta – não o cristão cheio de Graça – que as pessoas em todos os tempos e em todas as classes, continuem vivendo segundo suas próprias crenças, modelos e culturas. Que não estão obrigados a aceitar o “negar-se a si mesmo” e seus “desejos” (viu Calligaris?) para estabelecer uma relação única de obediência e serviço a Deus. A Parábola do Semeador é esclarecedora. A semente é lançada pelo semeador num campo que fora previamente preparado. Mas parte dela caiu à beira do caminho, outra parte sobre pedras, outra entre espinhos e foi sufocada e outra no solo profundo, donde veio a germinar, crescer e produzir frutos conforme sua natureza e em proporções distintas. Ora, nem aqui há igualdade, mas o fundamentalista não suporta o diferente.
O Evangelho de Jesus é acima de tudo inclusivo, não sem que o incluído seja transformado, sublimando suas misérias em coisas produtivas e abençoadoras de si e de outros. Diga-se, projeto para a vida inteira. Não é um ato em que as pessoas são submetidas a um tipo qualquer de lavagem cerebral ou o tacão da lei, acontece pelo poder do Espírito de Deus, cada um a seu modo e tempo. Se as pessoas querem viver de acordo com seus cânones, alheios à fé, a expressão cristã genuína concorda com Calligaris: “não é preciso escolher entre as ideias e as práticas das partes, mas entre os que querem regrar a vida de todos segundo seus preceitos e os que preferem que, nos limites da lei, todos possam pensar e agir como quiserem.” Pois cada qual, diante de Deus, dará conta apenas de si.


DESEJO A TODOS OS LEITORES UM NOVO ANO CHEIO DE PAZ E SAÚDE.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Você não sabia, mas há uma cobra na sua vida antepassada (não é a sua sogra)


Dois cientistas americanos cotejaram uma massa impressionante de dados para mostrar que o embate entre cobras e primatas ajudou a moldar a evolução humana.

Fonte: UOL "CIÊNCIA E SAÚDE" 19/12/2011

Acho que a descoberta não é candidata a receber o Ignobel e constar nos Anais das Pesquisas Improváveis, mas dá o que pensar pelo inusitado.

As serpentes, dizem dois pesquisadores americanos, moldaram a evolução dos primatas. Acostume-se, no jargão científico entende-se por primata todos os bípedes que acabaram de completar 7 bilhões de almas. Quer dizer, inclui você, o vizinho mala, o cunhado mandrião e aquela senhora de bobes que lhe espera no final do dia e que você chama de patroa com justa razão.

E como teria sido isso? Eis o mistério.  Resumo para você. Os pesquisadores levantaram uma cornucópia de informações, embaralharam, juntaram tudo isso e bum! Concluíram que as serpentes estavam lá, em tempos de antanho, influenciando o ser humano a dar no que deu.

Suas sumidades afirmam que as serpentes participaram de três maneiras neste processo. Elas comiam nossos antepassados se algum deles dava bobeira. Elas comiam nossa comida, ou seja, competiam conosco e, por fim, viravam churrasquinho de sucuri quando elas davam bobeira. Era uma suruba de comilança. Literalmente, quero dizer, seus cabeças sujas.

O engraçado é que nestas descobertas ora, suponho, avançamos, ora afirmamos o que outros sem nenhum aparato já afirmaram mesmo com outras intenções. No caso da Bíblia, quem conta a história da cobra foi, por bem dizer, quase testemunha ocular. Em miúdos, o que aconteceu ali foi uma serpente empurrando homem e mulher para um tipo de evolução.

Há controvérsias, você diria. Sim e não. Pelo sim pode-se dizer que o casal ou mais gente que estava por lá, saíram de um estado de inocência e se tornaram ardilosamente criativos. Foram na onda da serpente, a moleza acabou e para se livrar do mau tempo, espinhos e uma terra mais mesquinha, tiveram que se virar com invenções e tecnologia. Caíram no conto do vigário ofídico, mas superaram. Serem conhecedores do bem e do mal, sei... Se tornarem iguais ao Todopoderoso, pois não...

Pelo não abarca a questão moral. O gênero antropominídeo tornou-se um bicho descarado e sem a menor compostura. Quer dizer, em termos absolutos regrediu a quase o estado primitivo da animalidade sem julgamento ético ou moral de qualquer espécie. Um tipo movido a instinto puro. Passou a dar em cima da mulher do vizinho. Tomar emprestado e não devolver ou pagar. Tomar simplesmente o bem do outro como bom carniceiro. E desenvolveu a mentira até o nível mais sofisticado. Isto é precisamente aquilo que nos diferencia de tudo quanto é bicho andante, nadante, voante ou rastejante.

Claro que tornado o mundo uma monumental bagunça, houve que, apesar da vontade danada de fazer tudo errado, dar um pouco de ordem para manter a vida minimamente suportável. Havia não somente que criar formas de governar para justificar os vários substratos sociais – quem fica na cobertura e quem fica nos andares de baixo até o porão –, mas também leis e religião para legitimar os sistemas. O fruto mais acabado desta influência serpentina é a política brasileira.

E a serpente? Fora os ecologistas de todo matiz e uns malucos que não tem o que fazer, a cobra continua despertando aversão e sendo culpada de quase tudo. Como é que se chama aquela pessoa incrivelmente falsa? E aqueles políticos finórios e despudoramente caras de pau? Quem acertar ganha um final de semana na ilha de Curupu com direito a ir no helicóptero do GTA. Vou dar a dica: Cobra. (não é para jogar no bicho, ouviram?)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Bóson ou Bozó: você decide


A imprensa não falou noutra coisa nestes dias. Os cientistas europeus estavam ou estão por um triz de descobrir o, por enquanto, maior mistério da matéria. O bicho tem nome e apelido. O nome clássico é Bóson de Higgs (Peter Higgs, seu idealizador), mas atende pelo apelido de Partícula de Deus.
No maior laboratório de estudo da física do mundo, um círculo com 27 quilômetros de diâmetro, enterrado entre as fronteiras da Suiça e França, os estudiosos atiram prótons uns contra os outros e estudam os cacos que sobram destas colisões. Por aí, em algum lugar nos destroços, este treco de proporções infinitesimais explicaria tudo que você e eu vemos, tocamos, comemos e fazemos coisas outras sobre as quais não se fala em público. A paisagem mais linda, o prato mais delicioso, a garota mais incrível, são cada qual, uma sopa de bósons. Quer dizer, se a arisca coisa for encontrada.
E por que os cientistas o procuram com tamanha tenacidade? Ora, porque é a forma de explicar a constituição das unidades básicas da matéria, os elétrons, prótons, átomos e toda esta fauna (ou flora, você decide) de coisinhas que infernizavam a sua vida no ensino médio e, conforme se acredita desde Demócrito, dizem porque uma estrela é uma estrela, por exemplo. No momento, ninguém consegue dizer com clareza para que servirá a descoberta, mas que será útil para alguma coisa, ah, isso será.
Sobre o apelido um tanto metafísico, há quem defenda que se retire a preposição “de” e se alcunhe Partícula Deus. Vixe! Li por aí que há cientistas, aqueles mais ciosos de que se misturem alhos com bugalhos, que não se deveria apelidar o tal Bóson de Partícula de Deus com ou sem preposição. Temem que os fundamentalistas ou mesmo religiosos menos aguerridos acreditem que, afinal, Deus é mesmo o criador de tudo e que eles sempre tiveram razão. Imagine uma procissão com o cartaz de inspiração futebolística: ah, eu já sabia. Será que os cientistas tem razão? Até posso imaginar duas possibilidades bizarras.
A primeira é que poderia nascer uma nova religião. Falo da casualidade dos denodados físicos acharem o bichinho que primeiro surgiu no Big Bang. Por que sim? Pensem comigo. Alguém poderia dizer que o Bóson é um pedaço de Deus, a prova fatal de sua intervenção no mundo, o tijolo fundamental de tudo. Com a facilidade, pelo menos por aqui, com que se criam igrejas, acho que a Igreja do Bóson Sagrado teria chance. Chancelada pela ciência mais fina, a Bosonlatria uniria as duas coisas, ciência e religião. Coisa ultramoderna, ou não?
A segunda possibilidade. A descoberta precipitaria a que os religiosos, especialmente os monoteístas, se unissem numa guerra santa pela ousadia humana de tocar num pedaço de Deus. Um sacrilégio imperdoável, por suposto. Posso ver em minha imaginação delirante, hostes de cristãos lideradas pelos brutos americanos do Bible Belt e jihadistas xiitas do Irã, unidos contra o mundo que contaminou Deus quando o tocaram. Pior, teriam mostrado alguma coisa debaixo de seu manto celestial.
Mas não tenho grandes expectativas sobre estas minhas previsões. Todo alarde no final das contas, ouvindo-se os próprios pesquisadores, têm-se apenas pistas muito boas de que o Bóson está dentro da sopa de partículas esfaceladas, como um saci danado dentro do redemoinho. Desconfia-se que esteja, sente-se seu cheiro, mas o danado não aparece.
E se não acharem o Bóson? E se a Partícula de Deus não existir e todos os cálculos estiverem equivocados? Como você, leitor, poderá viver sabendo que o Bóson de Higgs, depois de muito dinheiro e milhares de horas envolvidas, é uma história da carochinha? Como explicar a massa das outras partículas atômicas, estas conhecidas e com resultados bem palpáveis, os japoneses que o digam? Mas também quem já fez radioterapia sabe, não é pessoal? Vamos deixar de maldades. Enquanto os estudiosos lambem os beiços, eu que não sei nada de física (não me orgulho disso não, ouviram?), tenho uma solução caso o Bóson se torne um fiasco: chamarei o Bozo ou o Bozó, sumidades que poderão explicá-lo melhor que qualquer um, inclusive a histeria coletiva que virá. Até lá, eu, morto de preocupado, dormirei de galochas na pia, só por precaução. 
(Esta maçaroca de linhas da ilustração, dizem os pesquisadores, é o resultado da colisão dos prótons. Portanto, é dentro desta barafunda que o danado do Bóson de Higgs se esconde.)