terça-feira, 19 de julho de 2011

Apertem os cintos...confusão no ar!

Um passageiro de 42 anos foi preso durante um voo entre Los Angeles e Salt Lake City, nos EUA, acusado de jogar amendoins e salgadinhos em uma aeromoça da companhia  Southwest Airlines, segundo a emissora de TV "Fox".

Fonte: Do G1, em São Paulo

Ele é um homem dono de um corpanzil. Devido ao excesso de peso, anda com aquele leve balançar que os patos têm, com uma ligeira sugestão de que as pernas se cruzarão a cada passada. O rosto largo nas bochechas dá à face o aspecto de uma grande pêra. Os cabelos são ralos e sugerem uma recente e mal sucedida tentativa de implante. Em terras americanas, onde existe competição até entre bebês, se o tipo descrito não se destacou nas artes ou ciência, na vida profissional ou em qualquer outra coisa, é chamado de loser (perdedor).
Não só carrega a imagem do perdedor, ele é de fato. Aos 42 anos, carrega três casamentos fracassados e cinco empregos nos últimos dez anos. Neste último emprego é o que mais tempo tem permanecido, talvez porque precise viajar sempre e pouco se relacione com colegas. Mesmo com seu eterno mau humor, se percebe com sorte porque seus iguais estão quase todos desempregados e a crise só aumenta.
Viaja sempre em classe econômica, e está longe do personagem do George Clooney em Amor sem Escalas (Up in the air), filme que ele viu dezessete vezes. Faz o tipo descolado com milhões de milhas aéreas e namorando uma lindona a cada cidade que passa. É seu herói por quem nutre, ao mesmo tempo, um ódio visceral. Às vezes se permite fantasiar como se fosse o próprio Ryan (personagem de Clooney); a forma de puxar a maletinha, uma das mãos no bolso... Até que, inadvertidamente, passa por um espelho, uma coluna em aço escovado. Ali, diante de sua imagem, percebe todo seu ódio e frustração.
Como é um homem grande, passa aperto e fome no avião. Sem contar os olhares de reprovação e azedume daqueles com quem é forçado a viajar ao lado. Não é raro as pessoas pedirem para mudar de assento. Se o voo está cheio, delicia-se com o desespero do passageiro ao lado que espicha olhares para identificar uma saída da ratoeira que seu assento se tornou. Sem opção, restam ao infeliz a resignação e o encolher-se o que puder até o fim do voo. Ele ri silenciosamente. Dane-se.
Naquela viagem reencontrou uma aeromoça (detesto a expressão “comissárias de bordo”) que era sua musa desde muito tempo. Animou-se todo. Atreveu-se até ir ao banheiro não só para vê-la, mas para melhorar o visual e entupir-se de desodorante e asséptico bucal. Quando saiu, o ar foi empesteado pelo cheiro e ficou a vaga suspeita nas pessoas que ele tinha feito algo horrendo no banheiro, mas pelo menos foram poupados da inhaca.
Voltou e sentou novamente, tão à vontade que o aparelho estremeceu levemente para a esquerda onde estava. Logo começou o serviço de bordo. A aeromoça, robótica: Qual a bebida, senhor? Não era ela. E ele, decepcionado, demorou-se um segundo e a “simpática” já se adiantava ao próximo. De sopetão, pediu uma cerveja antes que passasse a chance. A aeromoça o deu com um saquinho de amendoins.
Nervoso, bebeu com sofreguidão enquanto batucava a caixinha de amendoins na mesinha. Pensou que aquele dia, por alguma razão, se declararia, puxaria conversa, jogaria uma piada, seria até um porco chauvinista, quem sabe, uma palmada na bunda. Não fez nada disso. Lembrou-se: o cigarro eletrônico. Não tem cheiro e a fumaça não incomoda. E mais. Ajudaria a acalmar-se.
Mas nestes tempos de um mundo miserável politicamente correto, teria sido preferível que tivesse dito alguma coisa chula à musa. Logo o passageiro do lado viu sua oportunidade de fugir de sua opressão. Chamou a aeromoça para reclamar do cigarro. Quem veio? A dita cuja. Senhor, as normas da agência nacional de aviação proibem o fumo nos voos. Apague o cigarro imediatamente. Foi um choque. Em sua fantasia ela se aproximaria dengosa, absolutamente embriagada por ele, não aquele sargentão.
Mas é um cigarro eletrônico... Não importa, senhor. Se o senhor não desligar o cigarro, chamarei a segurança. Não tem nicotina... Senhor, se acalme, o senhor está exaltado. Não estou. Baixe o tom de voz comigo, senhor. A mulher meteu a mão no bolso e ele percebeu: era spray de pimenta. Ao mesmo tempo os demais passageiros se remexiam assustados. Alguém disse: é um atentado. Gritos. Histeria. O avião entrou numa turbulência, o comandante pedia calma.
Desesperado com a loucura instalada, ele tentou levantar-se e acabou, sem querer, jogando os amendoins na cara da aeromoça, àquela altura tranformada de musa em dragão. Ela borrifou o spray de pimenta, não mais nele que ágil como uma lebre esquivou-se. Foi na cara do passageiro ao lado. Do nada, surgiram brutamontes da segurança e o imobilizaram com algemas e daí foi jogado num armário. No final do voo foi preso por tentativa de derrubar o avião, crime inafiançável e de segurança nacional.

sábado, 9 de julho de 2011

O amor é cego

O norte-americano Justin Dale Little Jim, de 28 anos, foi preso na terça-feira em Woodbridge, no estado da Virgínia (EUA), acusado de invadir um sex shop e tentar manter relações sexuais com uma boneca inflável, segundo a emissora de TV "WJLA".

Fonte: Do G1, em São Paulo 07/07/2011 11h58

Esquisitão. Este era o adjetivo com o qual os colegas mais o identificavam. Diziam outras coisas, num tempo em que garoto apelidado na escola reagia do jeito que fosse às provocações ou acolhia o apelido com ou sem traumas. Em reagir, refiro-me a ir na porrada para resolver a questão. Bem verdade, não passava disso e no máximo um olho roxo e o orgulho ligeiramente ferido era a consequência máxima do episódio.
Falamos de tempos em que ninguém sabia o que era esse tal de bullyng, estrangeirismo que o politicamente correto nos enfiou goela abaixo e acovardou ainda mais aqueles que por falta sabe-se lá de quê, manterão sua fraqueza com um tipo de amor-próprio que tem valor por nada, apenas pela fraqueza, feiúra, defeito ou um tipo de fragilidade mendiga cheia de si. Agora andam magoteados em ditas minorias que se impõem a gritos de direitos à custa de um profundo complexo de culpa da maioria. Mas a isso chamam de nova democracia, direitos humanos e outros epítetos da hora.
De qualquer modo, nosso esquisitão destoava dos demais colegas não só por que era ensimesmado, solitário, mas por um comportamento exótico que claramente denunciava algum distúrbio mental e emocional que ninguém se importou. Talvez em nome da inviolável liberdade pessoal, da individualidade, da não interferência nas coisas alheias. Que ele tinha fixação em sexo, era óbvio. Piorou na adolescência, tanto que alarmou um pobre psicólogo que um dia lhe aplicou um teste de manchas (Rorschach) e o pobre esquisito viu vagina do início ao fim.
Alguém fez alguma coisa? Nada. Ao fim da adolescência, supõe-se, ocorreu o evento mais marcante de sua vida. Ao passar casualmente por um sex shop, ele a viu pelo vidro. Foi como se um raio o tivesse atingido. Foi amor à primeira vista. Não um desses amorezinhos de ocasião, frugais, banais que se esfumaçam na próxima gostosa. Foi um abalo descomunal ao seu frágil equilíbrio. Verdade seja dita. No início, a empolgação com o amor deu-lhe mais energia e até um pouco mais de interação interpessoal. Mas amores não correspondidos ou platônicos costumam fazer vítimas.
Logo, tudo era desculpa para passar em frente ao sex shop. Demorava-se na vidraça. Fora expulso umas quantas vezes por espantar a freguesia que, como se sabe, gosta de discrição, exceto a Ângela Bismarchi. Ele concluiu que sua amada era prisioneira naquele antro. Por anos consumiu-se em  planos e arroubos na tentativa de libertá-la, mas que logo esmoreciam. Tinha certeza que seu amor era correspondido e quixotescamente vivia no afã de resgatá-la e assim poderem consumar seu amor, no sentido bíblico do termo.
Duas vezes tentou invadir o lugar e levar Dora com ele (Dora foi o nome que ele lhe deu). Ganhou um processo e uma ordem de judicial de afastamento. Não poderia chegar a menos de 50 m da loja. Ele compensou isso com um binóculo. Claro que o proprietário pirava sem saber o motivo de tamanho interesse, mas estava mais tranquilo que “o louco”, como se referia a ele, não poderia chegar tão perto da vitrine e afugentar seus fregueses.
Uma das razões porque tentou invadir a loja é porque viu um homem analisar Dora de perto. E ousadia das ousadias, o sujeito tocou justo no seio de sua musa. Ele surtou literalmente. Quem não o faria? E aí chega um folgado e mete a mão na tua mulher, assim, sem cerimônia nenhuma. Faz o quê?
Mas tudo tem limite e um homem tocar em Dora foi o limite dele. Situações desesperadoras, pedem ações desesperadas. Naquela mesma noite ele improvisou um aríete e derrubou a vidraça. Agarrou Dora pelo braço e nervoso com o alarme que zunia estridentemente, trancafiou-se num armário. O tempo inteiro dizia a Dora que se acalmasse, que a salvaria, que a amava. E naquele lapso de tempo tudo congelou. Era o paraíso. Enfim, tinha Dora em seus braços. Não pestanejou, tascou-lhe um longo e apaixonado beijo e ali deixou-se estar morto de feliz.
Do lado de fora, a polícia e o dono da loja chegaram. Tentavam achar o autor do arrobamento. Nada havia sido roubado. O dono percebeu que Dora não estava em seu lugar e já se conformava com o prejuízo. Então, ouviram barulhos estranhos que vinham do armário. Abriram-no de sopetão e lá estava nosso herói enamorado. Arrancaram-no com violência, enojados e estupefatos pela cena, jogaram-no ao chão e o algemaram. Na tentativa de tirar Dora de seus braços, um acidente. Arrastado, ainda viu sua musa esvair-se. Enquanto o levavam, ele gritava desesperado: eu te amo Dora. Nunca vou te esquecer.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Homem com H


A Justiça italiana obrigou um casal da cidade de Bolonha a se separar contra a própria vontade, depois que o homem trocou de sexo e se tornou mulher.
Alessandro Bernaroli, de 40 anos, se submeteu a uma operação de troca de sexo em 2009, quatro anos após ter se casado no civil e no religioso. Ele passou a se chamar de Alessandra e não tinha a intenção de se separar da esposa. Nem ela dele.

Fonte: BBC Brasil

Nada é tão simples como parece. Retalha-se, esquarteja-se, miudeia-se, pormenoriza-se os fatos e fenômenos porque é uma forma de apreendê-los. Mas se se torna uma coisa em seus pedaços constituintes e, sim, esmiuçam-se suas qualidades e constituição, perde-se em muito o todo que nos escapa sabe-se lá para onde. Logo, nesta toada cartesiana, nunca se saberá que o todo é sempre maior que a soma de suas partes.
        Nem sei se os leitores, já tontos, chegaram até aqui, mas se chegaram, quem sabe por pura teimosia, ou por não ter nada melhor para fazer num domingo, vamos tentar dar sentido ao parágrafo anterior. É que por mais que se tente, a fantasia está sempre atrás (muito atrás) do que acontece no real.
        Imagine que você seja um juiz ou juíza.  Chega-lhe um caso. Um simpático casal viveu amorosamente alguns anos. Eis que um dia o jovem senhor resolve que quer ser a senhora do casal. A jovem senhora, ao invés de escandalizar-se como seria, supomos, o caso, aceita a condição de mulher da mulher. Quem sabe satisfazendo alguma recôndita fantasia que antes jamais lhe ocorrera sequer compartilhar com o outrora homem da relação.
        Mas vejam, o antes homem do casal não colocou aí um bustiê, uma peruca e rebocou a cara com umas quantas pinturas, cílios, saltos e outros balangandãs que antigamente, em alguns lugares do nordeste, alcunhava de maneira semi-chula os documentos masculinos. Muito ao contrário, o marido cortou-os fora, pois disse alguma vez, precisava fazer desabrochar em toda a sua plenitude a Carmem Miranda que guardava oprimida dentro de si.
        Lembre-se, você como magistrado ou magistrada, recebe o caso que já vem aos trombolhões de incidentes legais. Pois imagine que um funcionário do registro de documentos recusara-se terminantemente a mudar as fotos e dar um novo nome ao antigo marido que agora assinava-se algo como Alessandra, emoldurando os trejeitos e máscara de uma desconjuntada balzaquiana que fosse a mulher dele homem, duvido que lhe desse bola. Ainda me acompanham?
        Enfim, em resumo, o casal entrou na justiça pedindo que a situação fosse regularizada. Na prática, se tratava de pedir que os documentos fossem emitidos para dona Alessandra que desejava manter o matrimônio com entusiasta apoio de sua mulher que manteria o status quo de casada, coisa que ela nem em sonho pensava em mudar.
        Ora vejam, o juiz, nem tanto pela estupefação ou pelos preconceitos que certamente carregava, mas ao olhar a lei percebe que duas mulheres não poderiam dar-se em casamento. O juiz não teve dúvida: determinou que os dois se separassem. Era pedir o divórcio e fim de conversa. Faltava agora àquele casamento a diversidade sexual como pedia a lei. Se o homem tornou-se mulher, não havia o que fazer.
        A esta altura, a imprensa - que não fala noutra coisa nos últimos tempos-, esbaldou-se. Caíram no juiz de tudo quanto foi nome para demonstrar sua frieza, sua falta de sensibilidade, pois no final das contas, tudo se resumia a um amor, quase a revivescência de um Romeu e Julieta que se via perseguida pela briga dos capuletos e montechios. 

Acontece que na cabeça do casal o casamento estava de pé ou sei lá. De fato, alegavam, a paixão reacendeu depois que o João alessandrou-se. A última coisa que queriam era qualificar seu casamento de homo, hetero, trans, vice-versa ou qualquer outra coisa. Era só um casamento feliz que as forças das trevas legais impunha o fim. Eles que casaram no civil e no religioso e professavam com fervor que aquilo que Deus uniu não o separe o homem se viam obrigados, contra suas crenças e amor, a pedir o divórcio.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A MALA FALANTE

A polícia regional da comunidade autônoma da Catalunha, na Espanha, prendeu em flagrante um ladrão contorcionista que se escondia em uma mala, de onde saía para roubar outras bagagens.
Segundo a polícia, o ladrão e um parceiro operavam em uma linha de ônibus que faz o trajeto entre a estação Norte de Barcelona e o aeroporto.

Fonte: BBC

Jabuzelski (doravante apenas Jabu) nunca foi muito inteligente. Foi reprovado meia dúzia de vezes até finalizar o equivalente ao ensino médio. Ao fim, como boa parte dos estudantes brasileiros, tornou-se um excelente analfabeto funcional. A seu favor, tinha dois talentos que o ajudou a sobreviver aos duros anos de estudo e depois deles. Diz-se que Deus dá a canga conforme o pescoço.
O que faltou de inteligência sobrou em simpatia. De troça Deus concedeu a Jabu uma inusitada capacidade contorcionista. Virou seu ganha-pão num circo de terceira que perambulava pela Europa. Em algum ponto deste vagar à cata de trocados, o circo se desfez e Jabu ficou à deriva num país estrangeiro. Um seu amigo de infância, Yuri, astuto lançador de facas, era o cérebro da dupla. Mas a coisa estava difícil. Euro é uma moeda danada de cara e difícil de ganhar. O estômago forçou os neurônios de Yuri até o último neurotransmissor e nada de sair daquela enrascada. Quem emprega um contorcionista e um lançador de facas?
Vagando pelas ruas de Barcelona, foram parar numa estação de onde partiam ônibus para o aeroporto. A cidade é linda em qualquer época, assim que milhares de turistas iam e viam com suas malas cheias de badulaques e coisinhas do El Corte Inglés e lojas congêneres. Eis que Yuri vira-se e dá de cara com Jabu macambúzio, corpo curvado, esfomeado e cansado. Como um sopro dos deuses, a mente de Yuri se iluminou. Uma mala estacionada casualmente ao lado de Jabu, vista pelo lado contrário, o escondia completamente. Era isso!!
Com a mente de um parvo, seria custoso explicar a Jabu os detalhes do plano que fervilhava de maneira febril na mente de Yuri. Colheu os últimos trocados e compraram uma boa mala. No muquifo onde se escondiam treinaram à exaustão. Entra na mala, sai da mala. Jabu, meu camaradinha, acabou-se a miséria. Agora seremos turistas, quer dizer, eu, você será a mala. Eu sabia que aquele terço de sangue brasileiro serviria um dia para alguma coisa. O avô de Yuri era brasileiro, malandro carioca ou baiano, escapa-nos agora a procedência. Mas isto é história para outro dia. 
Vencido o medo e tensão inicial, fizeram sua estréia em grande estilo. Relógios Rolex, Iphones, tablets, uns quantos anéis e pulseiras. O roubo acontecia no trajeto entre a estação e o aeroporto. Ali Yuri retirava sua mala como quem vai tomar o avião, mas tomava um táxi e iam direto para o cafofo. Foi uma farra. Logo acertaram com um receptador discreto e o negócio fluiu na medida em que aumentava as queixas dos passageiros às companhias aéreas, ao serviço de transporte. Logo os Mossos d’squadra, a polícia catalã, deparava-se com um grande mistério. Vigilância de todo jeito. Análise de vídeos. Os ladrões eram invisíveis.
Mesmo que a busca pelo larápio ou quadrilha tenha se tornado questão de honra, nem pista os Mossos tinham. Yuri e Jabu estavam cada vez mais ousados. Passavam ao lado da vigilância. Um dia, como a mala/Jabu estivesse particularmente pesada, ainda foi ajudado por um policial.
Mas uma hora a casa cai. Jabu, que nos últimos meses fora à desforra dos dias de fome, ganhou peso, nada que inviabilizasse sua profissão, mas comer os incríveis frutos do mar de uma boa paella tem seu preço.
Logo ao entrar na mala, sentiu algo estranho. Dentro do ônibus fez o rapa e, de volta à mala, outro aviso sinistro do estômago e todo o submundo que vem depois. Por um segundo, Yuri se distrai com uma linda catalã. Um carregador retira a mala e a coloca do lado de fora do bagageiro do ônibus. Desde os furtos, o aeroporto tem um enxame de Mossos olhando para todos os lados, feito baratas tontas. Jabu, em desespero, liga para Yuri. O bucho revirava, ele se contorcia de dor entre o saque que quinquilhava.
Um dos Mossos, estupefato, quase se recusa a acreditar que mala falava e se mexia. Aproxima-se temeroso. Quem sabe aquilo era um novo ataque dos etarras. Uma voz abafada em espanhol com forte sotaque do leste europeu suplicava: Atenda, Yuri. Eu não vou agüentar. Diabos, foi a paella, foi a maldita paella... Ai... Acuda-me João Paulo II. Um grande rebuliço se instalou ao lado da mala.
Cordão de isolamento, dezenas de Mossos, esquadrão antibomba para desarmar a mala e quando aberta, nem o quase escafandro do policial podia isolá-lo do fedor inacreditável. Pálido, suando frio, Jabu deixou-se escorregar no produto entre cordões de ouro, anéis, roupas finas. Ao lado, como um turista qualquer, Yuri assistiu à cena, escondeu-se mal e foi inevitável encontrar o olhar de desespero e súplica de Jabu, coisa que o atormentou por meses. A lástima era que encontrar um contorcionista tão talentoso é coisa que só acontece uma vez na vida.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O fim do mundo será em outubro. Eba!

O mundo, afinal, não acabou em 21 de maio passado, um belo sábado, às 18h. Na contramão dos adivinhadeiros, resiste teimosamente a despeito de profecias psicodélicas que de tempos em tempos ameaçam o seu fim com todas as certezas dos deuses. O amalucado profeta americano, líder da igreja (uso esta palavra por falta de outra melhor) Family Radio, depois de candidamente alegar que se equivocou nos números, empurrou o nosso fim para o próximo outubro. Aparentemente, aprendeu matemática nos livros didáticos brasileiros patrocinados pelo Ministério da Educação.

Enquanto o noticiário se ocupava em relatar as caravanas de crentes chamando os infiéis para entrar em sua arca, os cientistas, alheios ao burburinho apocalíptico, anunciavam um número estonteante. Apenas na Via Láctea, em números conservadores, deve ter uns 2 bilhões de planetas iguais à Terra. O danado é que estão há algumas centenas de anos, se conseguirmos viajar à velocidade da luz. Pois se aqui acontecer algum fim de mundo, teremos problemas, as balsas foguetes disponíveis mal nos tirariam da órbita terrestre e com muita boa vontade nos jogariam, seis meses depois ou mais, no inóspito Marte.

Em minha mente ficou girando estes dois temas. Um sujeito agenda o fim do mundo e outros apontam que aqui mesmo, a poucos anos luz, há planetas bastante para não nos preocuparmos com estas coisinhas bobas de preservação da natureza, reciclagem, aquecimento global e toda a perturbação do ramo ecológico xiita. Uma coisa chama outra. Como quem faz associação livre, acabo lembrando que João, em seu fantástico livro de revelações, anuncia que o Senhor tem planos de uma nova terra e um novo céu. Sou dos que entende isso de forma literal. Alguma coisa como repetir o Gênesis. A partir do caos, refazer um lugar paradisíaco, mas desta vez por uma cisma divina qualquer, sem mar.

O texto apocalíptico não usa o plural, não seriam terras, mas umazinha apenas. Mas se há esta fartura toda perambulando dentro de nossa galáxia, seria pecaminoso pedir uma terrinha só para si? Podia ser à semelhança do pequeno príncipe que vivia num planetinha. A terrinha seria um endereço cósmico particular, disponível para viajantes intergalácticos de outras terras vizinhas. Imagino que nesta etapa da história, as pessoas malas terão tido algum destino, sei lá, uma dimensão paralela. 

Vizinhança ruim, contra os quais nos alertaria o patriarca Abraão: atenção. Separa-nos um abismo lascado de profundo, um acidente geográfico entre os repuxos gravitacionais da trama espacial, como um buraco negro, algo intransponível. Quem tentar fazê-lo, será reduzido a nada. No caso do pessoal aporrinhador, morador da dimensão maldita, talvez até fosse um bom negócio, pois tornar-se nada, considerando as condições, deve ser melhor que estar despessoalizado e num tipo de solidão tão absurda que um teria perdido a percepção de ter a companhia até de si mesmo.

Os teólogos também batem cabeça com o fim do mundo. Mas o fazem com método. Colhem textos sagrados, esquartejam e os remontam em ordens certas (para cada qual) e contam estórias incríveis de como o Evento se dará, não sem inúmeros detalhes inspirados em João, o narrador, acrescidos de uma pimentinha para dar mais realismo. 
Os discípulos, outros interessados em fim de mundo, acuavam Jesus com perguntas. Tinham uma pressa besta, Jesus não. Queriam um marco claro: dia, hora, mês e ano. Jesus lhes responde com histórias se não vagas, não tão claras como gostariam. Afinal, guerras e seus rumores, terremotos, tsunamis (que não está na versão original), e toda sorte de destrambelho, estão aí mesmo, diante de nossos olhos acostumados e só raramente estupefatos tal a prodigalidade com que ocorrem. Mas disse o vidente gringo: de outubro não passa, é pra valer. Preferiu não dar uma hora, um pequeno suspense para os espíritos mais frágeis. Nem se fale que ano que vem, lá por dezembro, teremos outro final de mundo segundo o calendário maia. Deu filme. Mas já perdeu o pique e, pelo visto, vão adiar para outro dia.

Não sei se confio nas contas do pastor americano para outubro, agora menos depois que o pobre teve um AVC. Mas também tenho pulgas atrás das orelhas por aqueles que gargateiam em cultos de arromba coisas para lá de fantasiosas que, confesso, me fazem rir. E isso é o que parece incrível. Sempre há quem dê crédito e até queira ouvir que morarão em ruas de ouro com coroas cravejadas de pedras preciosas, o que me soa de tremendo mau gosto. Com um pouco de imaginação, dá para reproduzir coisa bem parecida na Marquês de Sapucaí, ou não?

Então, devagar com o andor. Um fim de mundo de cada vez. Que ninguém empurre, nem fure a fila, também parece falta de educação guardar vez para retardatários ou para gente enfatuada que não quer aguentar a espera. Comprar vez na fila é de tremendo mau caratismo, embora haja uma galera com suas igrejinhas-franquia fazendo exatamente isso. Exagero, eles sequer mencionam mesmo um fim de mundo mixuruca, eles já chegaram num novo céu: a contas bancárias que o digam.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Leva eu, eu também quero ir

O destino de cães e gatos de estimação após o dia do Juízo Final, que alguns cristãos fundamentalistas garantem que acontecerá agora, tem sido motivo de preocupação para muitas famílias, mas um grupo de empresários ateus dos Estados Unidos já oferece a solução. Em 26 dos 50 Estados americanos, os empreendedores abriram um negócio que oferece serviços de resgate e adoção dos animais dos cristãos que forem selecionados para subir aos céus.

Fonte: UOL Notícias (AFP) 18/05/2011

Mestre, a congregação, quero dizer, alguns membros da congregação querem saber se a data está mantida. Ele, que lia algo, estava absorto, alheio mesmo. Possuía um ar alumbrado. Um sorriso pequeno emoldurava seu rosto. Enigmático. Fosse pintado, faria concorrência ao sorriso da Monalisa. O grupo permaneceu num silêncio inquieto, enquanto aguardavam que ele acordasse daquela espécie de torpor.
Santo mestre! Sim. O senhor ouviu nossa pergunta? Por favor, não se indigne conosco, não temos sua força, sua fé... que mais? Entreolharam-se à procura de palavras. Alguém atrás do grupo disse: sua sapiência. O líder e portavoz dos demais ouviu a sugestão a contragosto, mas por falta de palavra melhor. Sim, sua sapiência. Os outros balançavam a cabeça em concordância.
Repita, filho. O que vocês querem. Queremos saber se a data do arrebatamento está mantida. Mas como não, eu por acaso mudei a data? Algum outro declarou coisa contrária? Mas é que o sábado está bem aí. E daí, minha criança? Pois mantenho a data, sim. Mestre, perdoe, mas é que o senhor errou a outra data. Confundiu-me o ano bissexto e um erro de um dia não é nada. Mas as conjuminâncias celestiais precisaram rodar um ano mais para que todos os portais divinos se alinhassem. De agora não passa. Vocês sabem lá o trabalhão que dá marcar um juízo final?
Fiquem calmos. Ouçam! Repentinamente todos ficaram espevitados, assuntando sons inaudíveis que ainda não sabiam o que era. Profeta, desculpe, mas o que devemos ouvir? Disse o líder um tanto sem jeito. O som das trombetas, meu filho!
Novamente eles se entreolharam, mas se o mestre ouvia, quem ousaria dizer que não. Eram surdos certamente para as coisas elevadas e divinas. O assunto parecia encerrado, mas diante do mestre que olhava para cima e mantinha a cabeça levemente inclinada para o lado como que a ouvir uma melodia encantada, olhos fechados e aquele sorriso na boca. Era preciso esperar, quem sabe dali não sairia uma palavra divina.
Já cansavam de esperar. Estavam avexados. Queriam sair e ninguém se atrevia acordar o mestre do seu transe. Então, ele abre os olhos repentinamente. Sim, mas vocês não vieram apenas perguntar pela data. O que os aflige, meus filhos? Quem cuidará de nossos bichos? Ora, vossos parentes increús, os não escolhidos como nós. O senhor me desculpe, mas não confio no traste do meu irmão. Aquilo é um come e dorme. E minha mulher, mestre, atalhou outro, aquela mulher onde pisa o capim morre.
O mesmo da sugestão sapiente anterior gritou. Eu sei como resolver o problema. Meu primo é ateu, um debochado. Sabia que a gente ia se mandar (desculpem). Enfim, que a gente seria levado. Ele tem uma empresa que pode cuidar dos nossos bichinhos. Eu mesmo já paguei R$135 pelo Mundico. Mundico!! Meu jabuti. Muito pior é o Zé que tem um camaleão chamado belzebu. Nem meu primo quis o bicho.
Alías, o meu primo ateu está ganhando um dinheirão. Tem um monte de irmãos que já contraram o serviço de resgate. Ele só não pega bicho grande, violento, que nem a onça da sogra do Paulão. Ninguém riu. Qualé, pessoal, que falta de senso de humor.
Uma vantagem é que o contrato vale por dez anos. Quer dizer, vão cuidar dos bichinhos até morrer. O mundico é diferente, meu primo é meio afeiçoado a ele, então se ele viver um tico mais, ele cuida assim mesmo. Agora, se sábado a gente não der no pé, ele nem devolve o dinheiro nem manda recolher os bichos. Claro, né?
Os irmãos estavam estupefatos. O mestre rilhava os dentes de ódio. Como é que uma pessoa tão perto da viagem podia ser tão heresiarca?! Daquele jeito vai ficar fora dos 200 milhões de eleitos, é isso que ele tá querendo. Mas o mestre controlou-se, apenas disse que eram motivo de chacota por causa dos tolos irmãos, amantes de bichos. Um desperdício de tempo, já que a terra inteira seria torrada.
Percebendo que o mestre superara sua ira santa, o esperto disse: pessoal, quem fizer o contrato com meu primo ganha desconto e eu um trocado de comissão. Não para mim, em absoluto, é para minha mulher que me disse que prefere ficar. Tenho pena da pobre, sabe...
O mestre explodiu. Chacais! Abutres! Hienas! A congregação se mantinha em silêncio obsequioso e amedrontada. Vocês só pensam em cachorro, gato, macaco, jabuti? E como é que eu não tive a ideia destes infiéis ateus de colocar uma empresa para cuidar dos bichinhos dos irmãos, já imaginou quanto é que nosso igreja iria faturar? Alguém do grupo indignou-se: mestre, nós vamos ou nós ficamos. Nós vamos, meus filhos, nós vamos. Sábado sem falta. 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Quem tem medo da união homoafetiva?

Há poucos dias o Supremo Tribunal Federal (STF) manifestou-se favorável à união homoafetiva, garantindo às pessoas nesta condição igualdade de direitos e deveres semelhantes aos casais heterossexuais no quesito patrimônio, o que inclui declaração conjunta de imposto de renda, direito a receber pensão, herança, etc.
Antes de se ater à questão, gostaria de fazer alguns esclarecimentos iniciais. Para quem não sabe o Supremo Tribunal Federal não age sozinho, é regido pelo princípio da inércia que configura a atividade judicante. Foi instado a julgar, na qualidade de guardião da Constituição Federal e corte máxima do país, duas ações específicas, que foi a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132. As ações foram ajuizadas na Corte, respectivamente, pela Procuradoria-Geral da República e pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Ambas requeriam que fosse dada interpretação conforme a Constituição Federal para excluir qualquer significado do artigo 1.723 do Código Civil – que trata da união estável entre homem e mulher – que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar.

E o que pediam especificamente tais ações? A ADI 4277, protocolada pela Procuradoria Geral da República, buscou a declaração de reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Pediu, também, que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis fossem estendidos aos companheiros nas uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Já na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132, o governo do Estado do Rio de Janeiro (RJ) alegou que o não reconhecimento da união homoafetiva contraria preceitos fundamentais como igualdade, liberdade (da qual decorre a autonomia da vontade) e o princípio da dignidade da pessoa humana, todos da Constituição Federal. Com esse argumento, pediu que o STF aplicasse o regime jurídico das uniões estáveis, previsto no artigo 1.723 do Código Civil, às uniões homoafetivas de funcionários públicos civis do Rio de Janeiro.

Ao reconhecer por unanimidade (por 10 votos) a estabilidade da união homoafetiva, a  decisão tem efeito vinculante e alcança toda a sociedade. Ou seja, toda a vez que um juiz se deparar com um caso semelhante, onde houver questões envolvendo direitos de casais homoafetivos, levará em conta a decisão do STF.

Não houve mudança da Constituição, como muita gente desinformada ficou falando. A Constituição pode ser emendada – através de Emendas Constitucionais – ou substituída por uma nova, através de uma Assembleia Constituinte. Tanto é que o presidente do STF, ministro Cezar Peluso, convocou o Poder Legislativo a assumir a tarefa de regulamentar o reconhecimento da união estável para casais do mesmo sexo. É necessário que o Legislativo se exponha e se for o caso, venha a regulamentar as situações em que a aplicação da decisão da Corte será justificada também do ponto de vista constitucional.

Assim como aqueles que invocaram o artigo 226, parágrafo terceiro como libelo contra a decisão do STF, é preciso lembrar que o artigo 3º, inciso IV, da CF veda qualquer discriminação em virtude de sexo, raça, cor e que, nesse sentido, ninguém pode ser diminuído ou discriminado em função de sua preferência sexual. O STF entendeu que as normas constitucionais como essa citada não excluem outras modalidades de entidade familiar, pois devem ser levados em conta outros princípios da Constituição – dignidade, igualdade, não discriminação e outros. Essa é questão do ponto de visto jurídico.

Vários episódios que vem ocorrendo nos últimos anos neste quesito, motivaram manifestações exaltadas de muitos evangélicos nos púlpitos país afora e na internete. Eu mesmo recebi um vídeo do Pr. Daniel Sampaio em que  fazia um libelo contra a decisão do STF, com um pedido de repassar à minha lista de contatos. Com base no exposto anteriormente, não o fiz por entender que o pastor não contribui de forma inteligente para o debate. De fato, seus argumentos não resistiriam um minuto diante da realidade. Falo porque toda sua tese toma por base a Constituição, numa tentativa de ganhar daqueles de quem deplora a decisão, em seu próprio jogo. Mas, na tentativa, troca personagens, sugere uma conspiração governamental, atribui ações ao STF, neste caso, que não são verdadeiras, demonstra despreparo na argumentação. Mas era sua igreja, cabia falar o que quisesse.
O que se percebe é um enorme imbróglio em toda esta discussão. Alguns cristãos têm feito o papel perfeito que reforça os rótulos que a militância gay lhes tem dedicado, ou seja, chamá-los de fundamentalistas – noutra época, esta era uma boa palavra -, intolerantes, preconceituosos, e contam com a simpatia acrítica de grande parte da imprensa que ressoa este mantra. Infelizmente, hoje são as vozes mais estridentes dos cristãos que se fazem ouvir. Estas, de forma inglória, tentam impor sua forma de crença – sempre em nome da defesa da família – ou normatizar a vida de todos pelos padrões bíblicos ou cristãos, como queiram. Isso não passa, em boa parte das vezes, de um tipo de fanatismo, completamente desconexo com os valores do Evangelho e com a separação entre Estado e Igreja. Este é o verdadeiro debate que, equivocadamente, subjaz as ações dos dois lados.
Talvez seja necessário relembrar: o mundo jaz no maligno. A Igreja de Cristo no mundo é a contracultura, como nos afirma a velha ideia evangelical (alguém lembra?). O esteio de sua manifestação deve se basear tão somente na Graça e na Misericórdia e esse é seu papel e poder. Neste cenário, em algum momento num futuro não tão distante, haverá casamento gay ou algo parecido independente do que se faça ou diga.
Não há afirmação de santidade nem de sagrados valores combatendo a militância gay ou o que seja, mas sendo imitadores de Jesus. Aliás, é tudo o que eles querem: um inimigo que lhes dê validade à causa, em grande parte forjada. Basta aos cristãos serem assertivos naquilo que é proposto aos homens, segundo o Evangelho. Cabe denunciar e enfrentar princípios contrários à Escritura, mesmo quando o Estado os patrocina ou  qualquer outro grupo, especialmente quando ganham caráter de imposição, de impedimento que o cristão viva plenamente sua fé. Conviver com a diferença, por sua vez, faz parte do jogo de se viver no mundo. Há algo de muito estranho quando a existência do diferente é tida como uma agressão aos outros e a quem se deve combater.
É preciso que se entenda: a designação “família” na Bíblia e para a sociedade contemporânea são diferentes e a questão é que ambas conviverão. Precisamos decidir como. O fato de a sociedade aceitar uma diversidade enorme de arranjos familiares, não agride a Bíblia ou aqueles que professam a fé bíblica. Quer dizer, a sociedade muda, os homens fazem suas leis, definem comportamentos e em todos os tempos sempre foi assim. A Bíblia e seus seguidores estavam lá para dizer: é nisso que cremos. O Senhor, a quem servimos, nos pede isso. Ele se agrada daquilo. Deus sempre nos dá a opção da escolha. Não nos esqueçamos, sempre que ocorreu a hegemonia da visão dita cristã, a história relata fatos horríveis.
Jesus afirma em João que não veio julgar o mundo, mas as palavras que proferiu, essas o julgariam (Jo 12.47). Porque entre a fala do Senhor e a decisão do homem há um espaço: o da escolha, o do convencimento, do cair em si, e cada qual fará de um modo. O Senhor, a seu tempo, julgará com justiça a cada um e isso não é problema da Igreja, sua função é testemunhar a pessoa de Jesus.  Ser testemunha dos valores bíblico-evangélicos é um chamado para o que crê e, segundo Jesus, são os frutos deste crente que mudam o mundo e contra a verdade nada pode resistir. Nem as portas do inferno. 
É pura perda de tempo e supervalorizar a causa gay quando, supostamente em defesa da família brasileira – um devaneio onipotente –, muitos evangélicos reagem de forma tão agressiva e espalhafatosa contra a união homoafetiva. Alegam que eles poderão adotar crianças. Ora, isso já é fato. Os evangélicos adotarão todas as crianças desamparadas do país? No vídeo que recebi, o pastor Daniel disse que tinha vergonha de ser brasileiro por causa da decisão do Supremo. Eu não tenho vergonha de ser brasileiro, tenho vergonha da fotografia de boa parte da igreja evangélica, cuja principal relevância hoje está no apelo dos votos, resultado de seu tamanho numérico – um monte de gente enche a boca com isso. Davi também confiou em números certa vez. Ninguém se espante quando instado a escolher: três anos de fome, ou que por três meses sejas consumido diante dos teus adversários, e a espada de teus inimigos te alcance, ou que por  três dias a espada do SENHOR, isto é, a peste na terra... (1 Cr 21.12)