segunda-feira, 5 de abril de 2010

Herança de grego(a)

Uma freira escocesa de 55 anos, que tinha sido deixada em um orfanato quando nasceu, descobriu que era herdeira de uma grande fortuna e de um bordel na Áustria, na região de Estíria, segundo o jornal austríaco "Kronen Zeitung".
A religiosa herdou o bordel após a morte de sua mãe, que tinha 75 anos. A mulher foi uma artista circense que fez fortuna com bordéis. Ela não tinha marido e outros filhos. Por isso, a freira era a única herdeira.
Do G1, em São Paulo
Prezada Senhora,
Meu nome é Peter Krauss, sou advogado e trabalhei para sua mãe ao longo de quinze anos, período no qual ela amealhou uma considerável fortuna. Lamento dizer que sua genitora faleceu, semana passada, de um infarto fulminante. Pena, era uma mulher muito ativa, apesar de seus 75 anos.
Mas a vida cobra seu preço. Vossa mãe, como posso dizer? Viveu tudo que tinha direito, era desmedida em tudo, inclusive na maneira peculiar de enriquecer. Explico que o atraso em contatá-la deve-se apenas pela demora nas pesquisas em nosso centro genealógico, nossa organização teutônica serve, afinal, para alguma coisa e esses registros nos permitiram achá-la, mesmo aí, num convento.
Lamento que a senhora não a tenha conhecido. Se me permite, esclareço assim en passant, o episódio de seu nascimento. Na época, Madame K (sua mãe, era assim que era conhecida) era trapezista num circo e apaixonou-se pelo engolidor de espadas. Deste affair resultou a senhora. Impossibilitada de criá-la, ela lhe deu para um orfanato.
Muitas andanças depois, estabeleceu-se e fundou um pequeno estabelecimento. O lugar se tornou popular e cresceu. Se me permite a comparação, o lugar abrigava jovens moças, assim como este em que a senhora vive agora. Não que sejam iguais, não digo isso, a comparação deve-se apenas ao fato de que são ambientes em que mulheres vivem em comunidades de serviços.
Pois bem, não sei se me entende, mas não me é fácil dizer-lhe. A senhora vive uma vida reclusa, longe deste mundo cão que, acredite, tem coisa do arco da velha. Espanta-me inclusive a disparidade entre sua vida e de Madame K. A senhora dedicou-se a Deus e Madame... Deixemos isso de lado por enquanto.
Como dizia, a senhora é herdeira de uma grande fortuna, não está em dinheiro propriamente, nem joias, está mais na marca de serviços prestados pela empresa que Madame K dirigiu até o dia de sua morte. Serviços que são símbolo de qualidade, artigos especiais - para isso ela tinha um bom gosto a toda prova -, embora eu mesmo, como temente a Deus e esposo, não tenha me aventurado a experimentar, ainda que Madame tenha me deixado à vontade não poucas vezes. Atitude profissional. Não convém misturar lazer e trabalho. Desculpe, desvio o tema.
Suspeito que a senhora desconheça a marca de serviços criada por sua mãe, claro, sua vida é reclusa e dedicada ao próximo, à simplicidade... é meu dever comunicá-la, portanto, que é única herdeira. Não sei o que fará para administrar o negócio - nem imagino como isso será possível -, mas estarei a seu dispor para auxiliá-la no que for possível, da mesma forma que prestei meus serviços à senhora sua mãe.
Desculpe novamente, não disse, afinal, do que trata a herança. Com todo respeito, a senhora herdou uma rede de quatro bordéis com magníficas moças, trabalhadoras do sexo.
A seu dispor, Peter Krauss.

domingo, 4 de abril de 2010

Poesia para Deus

A VOZ DE DEUS

Brilha uma voz na noite...
De dentro de Fora ouvi-a..
Ó Universo, eu sou-te...
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de ideia e de nome
Em mim, e a voz: Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.

(Fernando Pessoa)

domingo, 28 de março de 2010

Cinzas viajantes



O inglês Richard Munns sempre quis viajar o mundo, mas seu medo de voar o impediu de realizar esse sonho. Quando ele morreu, vítima de um câncer em 2007, sua mulher teve uma brilhante ideia: levar as cinzas do marido para 'conhecer' diversos países.
                                          
Fonte: Do G1, em São Paulo

Lembra Crisóforo, tanto que eu quis viajar, conhecer outras culturas, mas você inventou de ter fobia de avião justo quando os meninos estavam criados e tínhamos um pouco mais de liberdade. Certo, a aposentadoria não era e não é estas coisas, mas dava para umas aventurazinhas. Nossa despesa era bem pouca agora. Mas você, hein, longe daquele rapaz galante, aventureiro que conheci, tornou-se um porre, Crisóforo.
Olha, nossos primeiros trinta anos até que foram bons, não tenho do que reclamar... Quer dizer, tenho, mas agora, de que adianta? Mas nesta última década foi difícil, convenhamos. Você só reclamava, até com notícia na tv você resmungava. Cheguei a pensar que você estava lelé.
Aguentei você, Crisóforo. Sim, agora posso falar. Eu me contive muitas vezes, até por gratidão, afinal tive meus dias ruins quando se instalou a loucura que foi minha menopausa. Mas tudo tem limite. Ser chato é uma coisa, mas estraga-prazeres, Crisóforo?
Agora estou aqui olhando pra você nesta urna, me sentindo sozinha. Sabe, até sinto falta do seu jeito ranzinza. Agora sei que era a sua “menopausa”. Se eu tivesse sabido no início, talvez você nunca tivesse desenvolvido fobia a tudo.
Vi que a coisa era sem jeito quando só planejar ir aqui do lado, em Bariloche, você começou a ter uma síncope. Que susto, Crisóforo! Mas tive a esperança que, passada a crise, você voltaria ao normal. Que nos restava, Crisóforo? Só o conforto da companhia, sim, porque o resto, necas, né Crisóforo? Aliás, resto descreve bem nossa situação naquele assunto. Já sei, já sei, você não gosta de tratar disso. Fere sua masculinidade em estado de rigor cadavérico. Deu uma gostosa gargalhada. Desculpe... desculpe (tentava se recuperar do riso)... Mas a piada foi ótima.
Quer saber? Eu não vou ficar me lastimando. Se não podia ou não queria viajar eu fui solidária, agora estou livre Crisóforo: l-i-v-r-e. Então eu vou viajar. Vou conhecer o mundo. Ei, por que você não vem junto? Claro que pode, você está curado de tudo. Depois da morte, meu filho, não tem mais negócio de medo. Olha só que vantagem você tem em relação a nós: se o avião cair – não vai cair: toc, toc, toc – você será o único que não morre mais.
Vou levar você, sim. Mas vai ficar estranho carregar uma urna com cinzas do marido. Já imaginou, com a piração de segurança que está nos aeroportos? Não decolo nunca. Tem o peso. Onde colocar você sem derramar? Já sei, Crisóforo, levo pequenas porções de você num envelope. É discreto, não pesa, não fica estranho... Melhor ainda, deixo cada porção de você por onde formos, olha que louco e excitante? Você ainda poderá explorar cada lugar pelo tempo que quiser.
Claro que não vou deixar você em qualquer lugar. Escolho algum lugar bacana, perto de um cemitério de preferência, assim, caso você se sinta só, terá colegas por perto em igual condição para trocar umas ideias, descolar umas informações de alguns lugares interessantes que poderá visitar. Por onde começamos? Que tal a Europa?
Sei que parece loucura, mas não era você que suspirava querendo conhecer o mundo? Não foi. Até passar na frente de um aeroporto fazia você hiperventilar, lembra? É verdade, você vai acabar se eu for a muitos lugares. Mas se eu deixar um pouquinho de você no fundo, tudo bem? Ótimo, que bom que você concorda.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O livro de Eli - O filme

Para todo lado que um se vire hoje, um dá de cara com filmes que evocam o fim do mundo em cataclismos em forma de asteroides, vulcões e tsunamis, sem contar as guerras atômicas. Parece que é mais que uma moda. Talvez, para além dos efeitos hollywoodianos, reflita um medo real com fundo em nossa inacreditável capacidade autodestrutiva. Não se conte os programas na mesma linha – nos canais pagos – desvendando Nostradamus, o livro bíblico do Apocalipse, as previsões maias que afirmam que não passaremos de 21 de dezembro de 2012.
Bem, The book of Eli é mais um mundo pós-apocalíptico em que os homens voltaram à barbárie mais vil. Alguns são canibais, outros, embora não apareçam no filme, são alguma espécie de mutação com mais dedos que o normal e a quem os “normais”, por motivo obscuro no filme, não aceitam.
Eli vaga nesta terra inóspita, ressecada pelos raios ultravioletas cegantes do sol, numa missão divina, embora a terra se enquadre num lugar que Deus esqueceu. Há trinta anos ele caminha para um destino a Oeste, numa titânica disposição de chegar a qualquer preço, a despeito de si mesmo. Ele carrega algo precioso, um livro, a Bíblia. Todos os exemplares existentes da Bíblia foram queimados. E a razão, dizem alguns personagens, foi este livro perigoso que desencadeou a guerra que quase exterminou a humanidade.
Um homem, num lugar perdido, conseguiu com astúcia e força, organizar uma comunidade que beira ainda o estado de natureza, como diz Hobbes. Dá àquela gente aglomerada algum sentido de comunidade dominando-os da maneira vil e explorando as mulheres como a bichos. Ele é um dos poucos sobreviventes de antes do “flash”. Ele tem um sonho e o persegue a qualquer custo: possuir uma Bíblia. Acredita que suas palavras lhe darão poder sobre os miseráveis que restaram. Isto para a incredulidade de seus asseclas mais próximos, que conhecem somente a força das armas. O Livro é uma arma para dominarmos esta gente toda e outras comunidades, diz entre exasperado e convicto. Já aconteceu antes, acontecerá de novo.
A Bíblia, no filme, representa a sabedoria, a ordem, a humanização dos homens. É um símbolo. Os autores alargam este significado no final para o conhecimento e as artes em geral que, a despeito do homem, representam o que de sublime ele pode produzir. O personagem Eli, é o paradigma deste homem de uma forma ainda mais eloquente. É capaz de violência brutal e ao mesmo tempo ele é o receptáculo do conteúdo do Livro. A velha ambivalência humana.
Eli, que lamenta em dado momento não ter seguido o que aprendeu no livro, não prega a ninguém, ele é a mensagem, está possuído e permeado por ela. Perguntado qual teria sido o aprendizado que não praticou, ele retruca que seria servir aos outros mais que a si mesmo.
O mundo inteiro ser refeito a partir dos livros e das artes é uma miragem linda de se ver. Esquecida a hecatombe, porém, quanto tempo levaria para que no novo mundo os homens se devorassem outra vez? É válida a palavra de Jesus a Nicodemos que aqui parafraseio. Um home não pode voltar ao ventre da mãe e nascer de novo, nasceria o mesmo, pois o desconcerto é original. Mas renascido, pelo Espírito de Deus, ele é um novo homem. Pela entrega, pela conversão da mente, pela disposição, baixo a graça de Deus, de tornar-se novo. Isto é um elogio à inteligência. E o filme? Vale a pena vê-lo. Abstraídas as cenas de violência, é uma bela história.
***
Relato agora uma situação curiosa. Os jornais brasileiros, desde o início do ano, dão conta da verdadeira bagunça em que o processo de seleção para as vagas na universidade se tornaram. Desde o vazamento das provas do Enem, ano passado e, na sequência, a ocupação das vagas nas universidades, o ministério da Educação tem protagonizado quadros que revelam incompetência e despreparo, sem plano B, para seus erros, exceto os adiamentos.
Também se tem visto na TV cenas de pugilato, vandalismo e agressões de jovens por gangs de sua mesma idade e escola em várias partes do país. Esta semana mesmo, no interior de São Paulo, na cidade de Sorocaba, uma escola viveu dias de terror com a chamada “gang das primas”. Meninas adolescentes que agridem outras pelos motivos mais banais, numa demonstração da completa falência da autoridade e ordem na escola. A diretora, quando entrevistada, limitou-se a dizer que nunca ouviu falar do problema e que sua escola trabalha o ensino e a cultura da paz. Atitude defensiva típica de negação, enquanto os pais tentam mudar seus filhos da escola para outras, uma aluna tem depoimento marcado na polícia esta semana e os alunos mais suscetíveis aos ataques estão até deixando de frequentar as aulas.
Nos EUA, nesta mesma semana, o Oprah Winfrey Show mostrou um flash mob patrocinado pelo programa e em seguida, um grande movimento em uma escola na Flórida em que, alunos, professores e diretoria, inspirados pelo flash mob da Oprah, realizaram uma simples e bem montada coreografia com os 1700 alunos, parodiando uma música de sucesso, cantando a prática da leitura. Apenas cada qual com seu livro na mão e o movimento dos corpos. A diretora testemunhou que esta e várias outras estratégias, tem funcionado para fazer os alunos despertarem para a prática da leitura. O resultado, disse ela, com o testemunho de dois alunos, apareceram nas notas.
No Brasil, crianças juntaram livros que foram jogados fora. Carregaram em sacos, sacolas e carrinhos de mão para montar uma pequena biblioteca na casa de um deles, numa periferia de São Paulo. Estas iniciativas ainda nos fazem ter um pouco de esperança.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A cobiça dos pés

Na Coreia do Sul, onde é costume tirar os sapatos antes de entrar em casas, restaurantes ou agências funerárias, um problema se tornou comum: as pessoas vão embora com os sapatos de outras, seja por engano ou, às vezes, intencionalmente.


Mas o detetive Kim Jeong-gu ficou de queixo caído recentemente, quando abriu o armazém de um ex-presidiário em Seul e encontrou 170 caixotes de frutas contendo 1.700 pares de sapatos de grife, organizados por tamanho e marca, e todos teriam sido roubados.
Fonte: Folha de S. Paulo/The New York Times

Seul, 21 de março de 2010.
Prezados amigos e parentes,
Desculpem pelo vexame que os fiz passar. Preso, tive tempo de refletir e estou envergonhado. Perdoem-me se os desonrei. Vocês tem todo direito de não quererem se associar a mim em qualquer circunstância, inclusive, devido ao rumoroso que se tornou meu caso. Sei que a imprensa os está procurando para montar meu perfil. As piores coisas têm sido ditas a meu respeito, só não aceito a classificação de louco nem que me chamem de pés cobiçosos. Portanto, eu os autorizo a negar que me conheceram até na escola primária.
Meus vizinhos podem negar que eu morei em sua rua e seu prédio. Acho que assim vocês estarão livres de mais este aborrecimento. Por outro lado, se alguns de vocês quiserem falar aquelas coisas de praxe, fingindo admiração ou estupor, podem fazê-lo. Sei que alguns vão gostar de sair no jornal ou na televisão.
Como vocês sabem, nunca fui muita coisa. Que posso dizer? Sou um bosta. Meu melhor emprego foi naquela sapataria de sapatos usados. Ali começou meu fascínio – guardem esta palavra – por sapatos. Posso dizer que em toda Coréia e quiçá no mundo, não tem alguém que entenda mais de sapato que eu. Até um Zé Ninguém tem algum talento.
Mas vocês sabem, a loja estava mais para uma quitanda vagabunda. Imagine, vender sapatos usados. Mas havia alguma freguesia. Um homem, porém, tinha bom gosto, fora rico e conhecia o produto. Perguntava por marcas mais refinadas que eu, na minha bruta ignorância, desconhecia. Pensei: eis aí uma oportunidade de vender mais e quem sabe, montar minha própria loja. Num país que é cultura deixar os sapatos do lado de fora de quanto é canto, eu estava feito. Foi ganância, meus amigos.
Quantas vezes não se calça o sapato alheio sem querer? Explorei este engano tão comum entre nós. Eu dizia a mim mesmo, nos primeiros “enganos” que cometi, que eram isso mesmo, enganos. Meu cliente ficava satisfeito. Eu passei a traficar sapatos pra ele que ficava feliz e até indicava novos clientes, quebrados iguais a ele, que não podiam comprar novos, mas que ainda apreciavam produtos de qualidade.
Quando dei por mim era especialista, mas também desenvolvi o gosto por calçá-los eu mesmo. Logo, já não entregava os sapatos aos meus receptadores e fui montando uma coleção que, modestamente, chegou a 1.700 pares. Sabe lá o que é botar o pé num Oxford? Um Gucci verdadeiro? Um cromo alemão? Passava noites inteiras no depósito calçando-os, desfilando para mim mesmo.
Não, não senhores, eu os envergonhei, é verdade, mas o nome para isso não é roubo, esta coisa baixa e banal. Considero-me um gourmet de sapatos. Nem se diga a inebriante sensação de calçar um Manolo. Entonado num deles, eu sou o cara.
Reconheço que parece nojento apropriar-me de sapatos em velórios, mas nestas mega organizações de lamento de mortos existem salas como se fossem um shopping e vocês não acreditariam como as pessoas vão bem calçadas. Isso é uma incógnita para mim. Fui pego no ato, que fazer? Depois de três “enganos” que pratiquei. Aquilo estava uma festa, se me permitem o humor negro.
Que mais posso dizer? Sou tarado por sapatos. Como diriam os americanos: um addicted to shoes. Desenvolvi uma sapatofilia. Assumo: sou sapatófilo. Dou meu mindinho por um Prada que até o Papa calça. Naquele pequeno instante sou rico, bonito, feliz e, não me desculpo por isso, um homem de profundo bom gosto. Sou estou preocupado é que agora dei para ter admiração por salto alto, não sei que farei com minha labirintite.
Kim Kuong

sexta-feira, 19 de março de 2010

Ilha do medo


A tradução de Shutter Island (Ilha do medo) não faz jus à história do filme. Medo, neste caso, nada tem a ver com terror que, como se sabe, tornou-se espetáculo regado, não raro, a decalitros de sangue, mutilações que arrancam dos espectadores, no máximo, risos e alguns gritos e agora, vampiros aos borbotões. Mas estes seres meio humanos, meio diabólicos não são exatamente aterrorizantes, mas fazem eles, os meninos vampiros, o delírio das adolescentes.
Enfim, desvio o tema. Toda a ideia do filme é uma veneziana, uma abertura, uma persiana que se abre, como sugere a palavra shutter, de uma janela mental de um homem que surta definitivamente, para quase nunca mais voltar, diante da dor que ele é incapaz de elaborar. O medo em estado sólido é a assustadora visão que ele não consegue voltar a ela sem que faça um gigantesco esforço: os três filhos mortos afogados pela mulher que enlouquecera e a quem ama profundamente.
Como explicar, como suportar a culpa pela qual é corroído? A culpa faz o seu papel, como é praxe nestas circunstâncias. Se tivesse ouvido. Se tivesse visto. Se... No caso do filme, seria ouvir e ver as condições de ampla deterioração mental da mulher. Estavam lá na cara, mas ele preferiu não ver, segue-se a esta negação, digamos assim, a tragédia inominável.
Como num curto circuito, falhados todos os dispositivos de proteção mental, os mecanismos de autorregulação e enfrentamento, este homem sucumbe criando um mundo em que a culpa de tudo está em outros, num sistema maléfico, que se misturam às suas memórias de guerra.
A estratégia dos médicos (psiquiatras) é corajosa e desesperada. Sem medicamentos – pelo menos não na tentativa mais audaciosa que empreendem na luta pela cura daquele homem – embarcam em seus delírios paranóides, solidarizam-se em suas alucinações, ao mesmo tempo em que tentam conduzi-lo à verdade dos fatos, para que, confrontado, recupere a sensatez, contrariamente a tudo que se pode esperar dando-lhe liberdade. Quase conseguem... A liberdade parece aqui uma belíssima metáfora de cura, de retorno a si mesmo.
Os médicos só não sabem como dizer àquele homem como carregar seu fardo insuportável. Não sabem ensiná-lo a aceitar o inaceitável e, quem sabe, não esquecer – sua desgraça é também sua história, ou parte dela –, mas ver todo o caos em que sua vida foi engolfada, à distância, como um sonho ruim.
Ponto para o filme que começa ao contrário. Ponto para Di Caprio, que em sua pareceria com Scorsese, dá conta com louvor da exigência emocional que seu personagem pede. É uma história dentro da história, sendo que a primeira é apenas fruto de uma mente, não diria doente, sofrida ante a dor que não ousa dizer o nome. Eis o medo, da realidade.
Diretor: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Emily Mortimer, Michelle Williams, Max von Sydow, Jackie Earle Haley, Dennis Lynch.
Produção: Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, Martin Scorsese
Roteiro: Laeta Kalogridis, baseado em obra de Dennis Lehane
Fotografia: Robert Richardson
Duração: 148 min.
Ano: 2009
País: EUA
Gênero: Drama

Poesia sobre Deus

Deus

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

Fernando Pessoa