segunda-feira, 15 de março de 2010

Lula Falastrão

Incluo a charge que segue pelo humor (negro) e pela incrível capacidade que a arte tem de condensar, neste caso numa imagem, a que nível chega a imbecilidade humana. É o retrato do presidente brasileiro que, dos píncaros de sua egolatria, imagina que nada do que diga faz qualquer sentido ou tem qualquer valor, especialmente quando é julgado pelo bom senso.

Foi em cana só por pensar... em hambúrguer

O norte-americano Michael Francis McLaughlin, de 48 anos, foi preso na semana passada em Gastonia, no estado da Carolina do Norte (EUA), depois de ser flagrado em uma rua segurando um cartaz que dizia: "Eu estou pensando em um hambúrguer". 
Fonte: Do G1, em São Paulo
A vida tem sido uma madrasta para mim, essa é que a verdade. Você me pergunta como é que eu vim em cana. Já sei o script, colega. É praxe trocar figurinha com o companheiro de cela. Pois não se impressione comigo. Sou pé de chinelo. Você veio por bater na mulher? Isso é mal, colega, mas você tem sorte. A minha é que batia em mim.
Já estive aqui antes. Nada grave. Dirigir bêbado. Isso quando eu tinha carro. A minha ex, aquela bruxa, me tirou tudo. Até o treiler. Já dormi por um tempo dentro de um contêiner. No verão é um inferno. Mas desci ainda mais. Antes da prisão, dormia num tubo de concreto. Outro motivo? Vadiagem. Pois é, já fui preso por isso também.
Num país civilizado isso nunca aconteceria. Mas estamos aqui, nos Estados Unidos da América. Encarno o perdedor, tudo que este país mais odeia. Mas não é assim no mundo todo, não, senhor. No Brasil, por exemplo, um cara como eu tem vez. No mínimo estaria pendurado no Bolsa Família ou então invadindo terras. Até o governo defende, você acredita?
Sei que pedir esmolas ou comida é contra a lei. Aqui em Gastonia quem não tem para gastar, está lascado. Piada infame, essa. Eu sei, não é engraçado. Eu quero é que me digam como infringi a lei. Isso é uma interpretação muuuuuito esticada desse juizinho. Eu mesmo estou orgulhoso da minha astúcia. Veja você se cometi ato ilegal? Sem emprego há três anos, vivo de bico. Faz tempo que não tenho nada do seguro desemprego e mesmo é uma merreca, não dá pra nada. Há dois dias não boto nada na boca.
Usei a cachola. Minha cara não diz, mas aqui dentro (aponta para o cérebro), colega, tem fosfato. Só fiz um cartaz com dizeres inocentes, evidente, bem na frente da lanchonete local. Dizia assim: “Estou pensando num hambúrguer”. Poderia passar por qualquer um que protesta contra estes fast foods que só engordam os outros. O dono da lanchonete não gostou.
Quando dei por mim, chega um policial. Que você tá fazendo aqui? E eu. Nada, senhor. E esse cartaz? Que cartaz? Perguntei. Ele achou que eu estava com deboche. Ele insistiu. Esse aí que você segura dizendo que está pensando em hambúrguer. Aí eu vi que aquele sujeito de maus bofes estava mal intencionado. Disse que nem tinha visto o que estava escrito. Que peguei o cartaz para fazer uma sombrinha e tal. Quem disse que o homem engoliu?
        Fui preso por dizer a verdade, é isso. Com fome, um sujeito só pensa em comida. É ou não é? E esses hamburgueres, meu camarada, o cheiro daquilo para um pobre com fome é uma tortura. Eu estava pirando e como não podia pedir, saquei o lance do cartaz.
Lá no Brasil, o negócio é outro. Qualquer um pode mendigar. Aliás, colega, um amigo me disse que pedir é quase um esporte nacional. Tem tanta gente pedindo que aqueles que aparentam que podem dar algo é que correm dos pedintes. Pede o gari, pede o funcionário público (mas aí tem outro nome). Os flanelinhas, ah, já este atacam é na chincha. Lá eu seria fichinha. Sabe o que é isso? Direitos humanos. Lá eles respeitam.
        Agora quem pede mesmo são os políticos. Quer dizer, pedir, pedir, não é bem o termo. Eles pedem o voto e depois eles tomam na surdina ou nem tanto, o que podem. É uma raça infeliz em todo lugar.
      Tô pensando que talvez, depois desta cana, dar um pulinho lá pras bandas do Brasil. Acho que vou me dar bem. Já viu que nos filmes tudo quanto é bandidão só foge pra lá? Agora, aqui pra nós, eu acabei me dando bem. O juiz me tascou uma fiança de 500 dólares, que não tenho, naturalmente. Ele disse que é pra eu e outros de minha laia sair de circulação, mas no final das contas, arrumei casa, comida e roupa lavada. Sou esperto ou não sou?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Poesia sobre Deus


"Deus costuma usar a solidão

para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva,
para que possamos compreender
o infinito valor da paz.

Outras vezes usa o tédio,
quando quer nos mostrar a importância da
aventura e do abandono.

Deus costuma usar o silêncio para nos
ensinar sobre a responsabilidade
do que dizemos.

Às vezes usa o cansaço,
para que possamos compreender
o valor do despertar.

Outras vezes usa doença,
quando quer nos mostrar
a importância da saúde.

Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar
sobre água.

Às vezes, usa a terra,
para que possamos compreender o valor do ar.

Outras vezes usa a morte,
quando quer nos mostrar
a importância da vida".


(Fernando Pessoa)

domingo, 7 de março de 2010

Eu pito, tu pitas, ele pita...

Um cachorro chamado "Tesouro", de Pequim, na China, é viciado em cigarro e precisa de, pelo menos, dois por dia. Segundo sua dona, Li, o cão de estimação inala fumaça desde que tinha cinco meses de idade. A chinesa contou ao jornal "Daily Mail" que, quando as pessoas estão fumando, o animal chega a se levantar para inalar a fumaça.
Fonte: Do G1, em São Paulo

De um consultório qualquer de um psicólogo canino foi me passado a seguinte transcrição de um atendimento.
Abanar o rabo, arfar com a língua de fora e colocar as patas dianteiras sobre as pessoas, é minha maneira de pedir uma tragada, se estão fumando. Sim, porque de outro modo não me interessa, em geral, os humanos. Faço exceção à minha dona que, afinal, cuida de mim, compra aqueles biscoitos deliciosos e me deixa fumar um pouco. As pessoas não entendem, ora me acham importuno, ora pensam que quero brincar, mas é tudo malandragem para fumar. Agora, por recomendação médica, diminuí a fumaça para míseros dois cigarrinhos por dia. Sabe o que é isso?
Vi você levantar as sobrancelhas. Sei, não é comum um cachorro fumante, ainda mais agora com este cerco miserável a quem fuma. Viramos praga. Peguei o gosto ainda bem pequeno. Minha dona fuma. Engasguei nas primeiras vezes, ela achava engraçado meu interesse pelas bitucas no chão e um dia experimentou me dar uma tragada. Foi minha desgraça. 
É dura a vida de fumante, ainda mais cachorro. Fico horrorizado com aquelas fotos nas carteiras de cigarro. Que é isso gente, não basta o complexo de culpa por um estar se matando? Mas quer saber, não tem nada melhor para o estresse. Minha dona me sufoca. É tanto cuidadinho que faz que enche o saco.
Aprendi a falar com ela. Outro motivo porque fumo. Crise de identidade. Ela não permite que eu faça aquelas coisas que um cachorro deve fazer para ser cachorro. Vigiar a casa, correr atrás de bichos, perseguir gatos – sou até amigo do Garfield, o gato da vizinha –, correr atrás de bolas ou gravetos. Sim, lato, mas na minha cabeça estou falando com você agora. Tem gente que late e pensa que fala.
Pior mesmo é meu amigo chimpanzé, Zhora. Ele é russo, sabe. Imagine aí. Pois é, o coitado é alcoólatra. Só podia ser, não é, russo... Ah, é fumante também. Pense num macaco inconveniente. Quando ele bota aquele cigarro no canto da boca, eu já sei. Está mais bêbado que um gambá. O pior é que fica valente, fala imoralidade, é um vexame. Colocaram ele no rehab, coisa chique.
Pois não, desculpe, divago. Não quero amenizar meu problema. Aliás, nem posso, esta tosse seca e quebrada, a falta de ar, o piado no peito, estão piorando. Sem contar que meus puns estão mais fedidos, deve ser alguma coisa na composição dos filtros das bitucas de cigarro que quando estou na fissura como tantas quantas encontrar.
Sabe aquela história de fumar só dois cigarros? Aprendi uma manha pra fumar mais. Vejo alguém fumando, me encosto. Passivo também fuma, meu caro doutor. Não é igual àquele prazer de pegar o cigarro entre os dedos, colocar na boca. Tem toda uma simbologia envolvida, um prazer. Não concordo com os psicanalistas que afirmam que o ato de sugar a fumaça é alguma coisa relacionada a uma fixação na fase oral. Bobagem.
Mas voltando à manha que inventei. Se faço uma gracinha, o fumante tem que olhar pra baixo, né não? Aí dá aquelas boas baforadas e eu aproveito. Imagine a que baixeza chega um pobre viciado.
Cura? Já tentei de tudo. Chás diversos, mandingas, reza braba, emplastro de nicotina, passes em sextas-feiras 13, santo daime, universal, meditação... O senhor é minha última chance de largar este vício infernal. Doutor, será que tenho cura?

quarta-feira, 3 de março de 2010

Alá por empréstimo e o manual gay politicamente correto

A língua malaia, segundo reportagem do Der Spiegel, não possui uma palavra para Deus. Como a religião muçulmana é majoritária no país, os cristãos decidiram usar o nome Alá, conforme sua crença. Os muçulmanos, insuflados por imãs fanáticos, passaram a perseguir os cristãos porque, segundo eles, o nome Alá é exclusivamente seu.
Uma corte de justiça na capital (Kuala Lumpur) reconheceu que os cristãos têm direito de usar o nome Alá, mas setores do governo apoiam os fanáticos e deram declarações que funcionaram como uma espécie de carta branca para que os cristãos fossem atacados. Resultado: igrejas foram incendiadas e cristãos agredidos e alguns mortos.
Embora haja componentes políticos envolvidos, a linha de frente da briga é por causa da utilização de uma palavra, pois, dizem os fanáticos muçulmanos, seus fiéis podem ser confundidos e até cometerem a traição de se converterem ao cristianismo. O raciocínio tosco é que não sabendo a que Alá os cristãos se referem, muçulmanos simplórios podem, inadvertidamente, servi-lo.
A briga por palavras é parte de nossa capacidade de articular vocábulos desde que estas eram apenas grunhidos sem sentido. Elas são agudas como um punhal. Não à toa a Bíblia compara a palavra de Deus com uma espada, penetrante, afiada, divisora mesmo daquilo que só a morte separa: alma, corpo e espírito, medulas e juntas, pensamentos e intenções.
Somos a sociedade da imagem, mas imagem não é tudo. A formatação social tem no campo semântico a face mais visível de uma luta de classes, ou de minorias contra a maioria que supostamente é opressora e discriminatória. Mas como todos querem uma lasca de vantagem, existem centenas destas minorias. Quem não protagoniza é protagonizado por alguma ONG que lhe toma a voz e defesa.
A luta se dá quando as pessoas se apossam de palavras ou instrumentalizam dicionários particulares que, consideram, lhes definem. É uma espécie de autotutela, a libertação de dizer um mesmo quem é. Prevarica contra a verdade particular aí embutida quem é analfabeto no dialeto ou se mantém chamando as coisas como são.
Este é o caso do movimento politicamente correto que elevou as expressões corriqueiras, que nunca foram depreciativas, à categoria de párias vernaculares, porque ferem suscetibilidades. Criaram uma prisão patrulhada por olhos e cenhos franzidos ao primeiro deslize de quem quer que seja.
Talvez haja aqui a incógnita de quem veio primeiro se a galinha ou o ovo. O movimento politicamente correto criou as minorias (ou o contrário?) que vicejaram na esteira de ações sociais. Tentativas de exorcizar culpas em favor de um tipo de participação direta que subverte a democracia ocidental, ironicamente, pela liberdade que ela proporciona. Assim, comerciantes de países como EUA, Inglaterra e grande parte da Europa, não usam mais o velho e conhecido Merry Christmas no natal em suas lojas, mas um seboso e sem sal Happy Holidays. Não se quer ferir os adeptos de outras religiões.
No Brasil, a Presidência da República encampou o manual da militância gay, que pretende ser um guia de comunicação com a classe, e o colocou no site do Observatório da Igualdade de Gênero, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, e por conselhos federais, como o de Serviço Social. Atentem (ver grifo) em que lugar o governo Lula colocou o tal manual.
A primeira coisa que um tem que aprender com o manual é que a palavra homossexualismo lembra doença. A expressão agora é homossexualidade, pois se trata de uma condição. A palavra homofobia, esta não mudou nada. É definida como medo, aversão ou ódio irracional aos homossexuais. Carregam bem nas tintas do verbete que é usado e abusado para classificar qualquer atitude, para etiquetar os outros, mesmo em contextos religiosos, por exemplo, para criticar uma citação bíblica. Não satisfeitos, descrevem o que seja fobia e aí também explicam: distúrbio psiquiátrico... Num mundo destes, imagine o Chacrinha, nas tardes de sábado, cantando: Maria sapatão, sapatão...
Não tarda e teremos uma versão bíblica politicamente correta em português. A propósito, sem definir quem, o manual acusa as religiões monoteístas de terem seguidores fundamentalistas, dogmáticos e literalistas que interpretam seus escritos sagrados ao pé da letra e ao fim escorregam,  reconhecem que a cultura cristã é fortemente arraigada no país.
O movimento politicamente correto é danoso à sociedade, agressivo e injusto, pois não trata os desiguais de forma desigual e os iguais de forma igual. Agride o direito de quem discorda. Rotula. Impõe padrões e falas que sejam aceitáveis. Engessa a sociedade. Exclui a espontaneidade nas relações. Arma as pessoas emocionalmente umas contra as outras. Inibe o contraditório. E, no Brasil, a minoria gay, aliada a deputados e senadores, está em plena campanha para crimiminalizar a fé cristã.
De algum modo, como os cristãos malaios, estão nos tomando as palavras. Pior, estão dizendo quais são corretas e quais não são e ai de nós, os que ousarmos ser livres naquilo que ainda nos divisa dos animais, das bestas, dos insanos: exercermos o sagrado direito de falar o que pensamos, neste fascinante mistério que é fazer-se entender e entender o outro, onde se inclui, sim, palavras que, se não devem denegrir a dignidade do outro, podem ofendê-lo. Mas se não posso nem correr o risco de ferir e ser ferido no processo de compreender e ser compreendido, como posso ter espaço para o diálogo? O caminho da tolerância inclui acatar a divergência, colocar-se e, neste movimento, aceitar aquele de quem divirjo, nunca tentar mudá-lo, nem suas palavras.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Peito de aço? Não, de silicone



A recepcionista Lydia Carranza estava no trabalho quando um homem armado com uma pistola semiautomática entrou no consultório e atirou contra ela. A bala acertou o peito da vítima, mas não chegou próximo de seu coração por conta do implante.
Fonte: Do G1, em São Paulo
É curioso como os caminhos das pessoas se cruzam, para o mal e para o bem. Vá se saber que forças operam na tessitura desta grande teia de gente de todo jeito e suas vidas previsíveis na maior parte do tempo. O fato é que aquele dia tão banal seria abalado por um evento que mexeria com o bairro e a cidade.
Ceiça é uma destas cinquentonas sacudidas, cheia de energia e que a despeito de ser avó, gosta de se cuidar, como diz. Sua última incursão na área estética foi a aquisição de duas próteses mamárias, cada uma com 450 ml. Era um sonho, disse ela. Na verdade, trocou as peças antigas e menores, por umas mais avantajadas e que andam sempre à amostra num colo farto. Fora isso, já tinha dado uns repuxões aqui e ali, injetado botox, arrancado pelos a laser e outros procedimentos mais íntimos que não dizia, mas insinuava. Era quase uma garota propaganda da clínica estética onde trabalhava como recepcionista.
Com tanta produção, Ceiça havia remoçado uns dez anos pelo menos. Ela não se dizia aficionada de melhorias estéticas, fazia manutenção, pois o tempo é cruel e não perdoa as mulheres, dizia como uma verdade inabalável.
Aristófanes é um típico perdedor. Aos trinta e poucos anos, teve tempo de cevar uma enorme raiva de si e do mundo. É quase um milagre que tenha arranjando uma mulher com quem casar. Não é desconjuntado, o que explicaria uma possível fuga das mulheres, mas basta conversar com ele para perceber: é um mala suerte ambulante.
Homem de poucas falas, Aristófanes não sabe rir e tem péssimo humor. Os colegas de trabalho o apelidaram de percevejo, se mexer com ele, logo se percebe o mau cheiro. Ele nunca soube do apelido. É quase um autômato, o que é bom para sua atividade de controle de almoxarifado. Os obsessivos são perfeitos em trabalhos que pedem controle. Lá pelas tantas do casamento, sua mulher resolveu pular fora daquela canoa furada. As más línguas diziam que Aristófanes fora presenteado com algo mais do que cabelos na cabeça. Assim mesmo, à ameaça da mulher com o divórcio o fez choramingar para que não o abandonasse.
A mulher foi intransigente. Ele, que se sentia rejeitado, sofrer o abandono da mulher arrombou a represa de rancor e despeito que sentia pelo mundo. Essas coisas não se resolvem na conversa para este tipo de gente. Como quem amola uma faca cega, pacientemente ele acariciou a intenção de matar a mulher, que agora representava todas as suas frustrações, depois... bom, depois se mataria também.
Com esmero de ourives e a minúcia da montagem de um relógio, registrou horários, lugares, tudo que a mulher fazia. Dedicado a esta faina, perdeu até o emprego, pois não fazia outra coisa. Daria um tiro na traidora e fim, pensava.
Aquela tarde de segunda-feira estava aborrecida como tantas outras. Ceiça olhava para o relógio da parede contando os minutos. Se saísse dez minutos adiantada, pegaria o ônibus menos lotado. Uma última cliente aguardava distraída folheando uma revista. Do lado de fora, um vulto achegou-se ao vidro da porta de entrada duas vezes. Colocou as mãos em concha ao lado dos olhos para poder ver dentro da sala de espera. Ceiça não se importou.
Segundos depois, irrompe porta adentro o homem já com a arma em punho e tremendo. A cliente nem se deu conta. Ceiça viu, mas ficou como que em estado de suspensão. Acordou com o estampido, cujo alvo era a cliente. O homem levou arma ao ouvido e ia disparar. Seu olhar cruzou com o de Ceiça. Então o homem baixou a arma e foi em sua direção. Falou coisas incompreensíveis. Ceiça nem teve tempo de se proteger, apenas sentiu o impacto, justo em cima do peito direito. Caiu. O homem fugiu.
Ceiça estava atordoada. Não sabia se estava morta ou viva. Logo chegaram curiosos, chamaram a ambulância. A mama de silicone de Ceiça fora destruída, mas parou a bala. Ela pensou: preciso colocar umas maiores e “jaque”... aproveito e dou fim nestes pneuzinhos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O ladrão das calcinhas

O ex-prefeito da cidade inglesa de Preesall, em Lancashire, foi condenado a dois anos de prisão por invadir casas de mulheres para roubar suas calcinhas, segundo reportagem do jornal "Belfast Telegraph".
Ian Stafford, de 59 anos, renunciou ao cargo depois de ter sido preso suspeito de conexão com o roubo da roupa íntima.

Fonte: G1 

Ele decidiu fazer a própria defesa. Não porque não confiasse nos advogados, acreditava na sua lábia de político experimentado. Metade dos jurados eram mulheres e, notou sua perspicácia, todas feias de doer. Ali haveria uma chance de sensibilizá-las, quem sabe...
As pessoas não sabem a desdita que é nascer feio. Esta foto estampada nos jornais não me faz justiça. Acho que, pelo ângulo, estou até passável. Agora mesmo, apesar do desmantelo estético facial que ainda carrego, não se compara ao que fui. Carreguei a desfortuna de uma cara que inspirava riso o que motivou um sem número de apelidos. Imaginem isso na adolescência.
Minha cabeça era maior. Duas protuberâncias achatadas nas laterais repuxavam os olhos. Com cabelos mais ralos, pelos cortes rasos que minha mãe fazia – era zelosa, coitada, queria me proteger de piolhos na escola, como se eu precisasse –. O queixo fino, boca pequena e desconjuntada resultado, ainda assim, de uma bem sucedida cirurgia de correção de lábio leporino. Nem falo nos dentes.
O corpo é este mesmo. Raquítico, braços e pernas finos, uma escoliose leve que me faz pender para o lado contrário em busca de equilíbrio e me dá este andar ziguezagueante. Já me tomaram por bêbado e nem de bebida eu gosto.
O que tudo isso tem a ver com o fato de estar neste tribunal? Tudo, senhoras e senhores jurados. Sei, sou acusado de roubar calcinhas, o que é verdade, não nego. Mas se sou feio, ainda sou homem. Tenho cá meus desejos, minhas necessidades, e cada um resolve do jeito que pode ou lhe é melhor. Quem pode me contradizer? Nego com vigor a infâmia de que uso as calcinhas roubadas. Isto é um disparate.
Mas satisfação sexual, isto é assunto particular, ou não? Embora, no meu caso, tenha dado pequeno prejuízo a algumas senhoras e senhoritas. Mas, convenhamos, ínfimo prejuízo financeiro, até porque não tenho particular predileção por uma marca chique, como a Victoria Secrets. Digo mais, o delito ocorreu sem dor ou ameaça de qualquer espécie às vítimas, embora eu não concorde com esta palavra, prefiro clientes. Ao contrário, deveriam estar lisonjeadas, pois o fim de suas roupas íntimas não é um lixo qualquer, é a admiração, a alegria deste pobre que vos fala.
Lembro como esta compulsão começou. Mas antes, considerem que nunca nenhuma mulher me olhou com desejo ou mostrou qualquer indício de interesse erótico ou de qualquer natureza. É uma cruz. Muitos balançavam a cabeça em concordância. Sempre fui motivo de chacota. A mais malvada delas, recordo com amargura – fez um ar desamparado, passou o lenço no olho por baixo da armadura dos óculos enorme – foi uma prima que lá pelos meus 13, 14 anos, fase que vocês podem imaginar o suplício que é. Vejam a que ponto chega a maldade humana. Pois bem, esta devassa me atormentava mostrando a calcinha. Bastava eu olhar, o que era até difícil de saber devido a esta minha vesguice, a danada escondia, como direi? Enfim... e ria.
Quando dei por mim, vivia na seção feminina dedicada a esta vestimenta. Mas calcinhas virgens não tem o mesmo valor, se é que me entendem. Digo em meu favor, todas as mulheres representadas nas calcinhas eram lindas na minha mente, mesmo que fossem tribufus na realidade. Quero ainda fazer um adendo e já termino. No exercício político, nunca roubei os cofres públicos como meus colegas brasileiros. Isso deve ter algum valor. Peço sua compaixão para um pobre que nunca soube o que foi um beijo feminino, um abraço, um cheiro no cangote, um quindim de nada. Tornei-me ladrão de calcinhas forçado pelas circunstâncias, nunca por maldade. Lamento pelas calcinhas de estimação de algumas das minhas clientes, não sei mais que diga...
Por uma destas coincidências malévolas, a metade feminina dos jurados, feias ou não, foram todas vítimas do furto. Os homens não lhe foram solidários por pura má vontade e por se sentirem mal representados. Resultado, consideraram-no culpado. O juiz lhe deu dois anos de cana.