segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Histórias do Bolsa Família que o governo não (nem os jornais) conta (m)

“Uma esmola, para o homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão." (Luiz Gonzaga)
I
O que foi Mariinha, por que essa cara de lagoa cheia? Ô home, é que a cunhã véia da cumade Filoca acabou de me contar uma cercunstança. A pobe tá cumendo uma cachorra insossa. E nóis com isso? Que é isso home, só por que nóis vai mió, não pudemo disprezar nossa aparentada. Tá certo. Tu sabe que a pobre véia é gorada. Ela e cumpade Chiquim num pudero ter fi. Tu mêrmo caçuava dele, dizendo que o coitado num dava conta do recado. Todo mundo fazia. É. A valia é que nóis num faia um ano. Tô o tempo todo ocupada de bucho. Isso num é vida. Mas ó agora, o bolsa famia bem que serve. É...
Intão, eu tava pensando em ajudar a cumade Filoca. Cuma? Num bota ideia na minha cabeça. Baixa o facho home, tá besta? Pois bem, nóis pudia emprestar nosso fi mais novo p’reles. Emprestar como? Eles regista o minino no nome deles pra mode pudê ganhar também uns trocadim do bolsa famia. É mêrmo. Mas o minino continua nosso fi? Ô home sem cunhecimento, fui eu que pari, é só emprestado no papé.
II
O inverno desse ano vai ser fraco. A essas altura e o mandacaru num fulorô. Ê mulê, tô falando com tu, tá môca? Eu já sabia. Intão... A roça vai ser fraca. Nóis agüenta. Ainda tem um mi, arroz e fejão guardado na lata. É, mais eu tava sonhando com uma carninha, nóis pudê comprar. Com que dinheiro? Ora, o do bolsa famia. Ano que vem o Zezim sai da vantage. Nóis pudia incumendar um bruguelo pra garantir. Tu te apega com Nossinhora do Bom Parto, vai que nasce dois. É sorte grande. E se num puder ter mais fi, as regra tão escasseando? Aí vai lascar. E que tal se eu usar a Ziroca. Outro dia ela disse que pra ganhar um dinherim da bolsa ela topava tê um fi. Num disse com quem. Né bão não, vamo ter que dividi. Ô mulé, mió dividido do que nada.
III
Assim não dá mulé, eu tô feito um jumento de trabaiar e esses minino já grande, pudia ajudar. Tu inventa essa marmota de mandar eles pra escola. É obrigado, se não nóis num ganha mais o bolsa famia. Tem inté fiscal. Mas eles já sabe o abecê. Mas eles diz que demora muitos ano pra ficar uma sabeduria só. E quem é que quer isso aqui no meio do mato? Pra que vai servir? Não, eu tô com os quarto que num guento.
E se eles tomá nossa cartão? Cunversa. Cumpade Zé Toim, que é vereador, disse ontonte que o guverno num vai mais cobrar essas ixigência. O presidente disse que num carece. Basta tê os fi e quanto mais tem, mais ganha, ô negocim bão esse que inventaro. Tanto peça eu só voto neles agora.
E as vacina, inda vão cobrar. Isso vão. Mas também se resorve. Cumpade Zé Toim disse que se o posto num tiver vacina, eles tem os carimbo pra botar naquele papé. Tá resulvido.

domingo, 6 de setembro de 2009

O deus deles é o ventre ou os Moloks modernos

“O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas.” (Filipenses 3:19)
“...porque esses tais não servem a Cristo, nosso Senhor, e sim a seu próprio ventre; e, com suaves palavras e lisonjas, enganam o coração dos incautos.” (Romanos 16:18)
O deus deles é o ventre. São ensimesmados. O mundo inteiro converge para si. São iluminados pela própria esperteza escolada nas ruas, nos becos e nas fraquezas daqueles a quem devoram. Não comem arroz, feijão e ovo frito, são gourmets da malícia. Desejam prazeres sofisticados, vinhos envelhecidos, jamons de sete anos. Tem olhos sequiosos por tudo que lhes apeteça. Buscam mentes tolas à quais desvirginam com verdades secretas infalíveis e escravizantes.
Olham-se no espelho para alinhar as medidas de roupas milimetricamente caídas em seus corpos. Mordem os lábios de prazer ao ver carne humana exposta em tolas buscas pelas ruas e avenidas iluminadas, shoppings fosforescentes, que encantam e hipnotizam. Jogam pães às massas que correm ávidas. Comem e nunca se saciam. É pão levedado, causa dependência.
Sua glória alimenta-se de infâmia a qual dão novos nomes indecifráveis. Esquecem-se tanto de si, num abandono febril que tão somente é a indulgência com o mais vil que carregam como se fossem jóias. Não tem vergonha de nada, justificam com a palavra sagrada que sabem com hermenêuticas cozinhadas com esterco. Chamam-na para testemunha de suas façanhas milagreiras. Procusteiam a verdade para caber dentro de suas lógicas mofadas. Galanteiam a mentira com maquiagem colorida.
São forças telúricas. Arrancam força da terra, pesam milhares de gravidades de buracos negros, entortam o tempo e luz onde se assentam. Deles nada sai, apenas comem com sofreguidão sem dar nada em troca, exceto os gritos lancinantes dos devorados que lhes estendem clamores de piedade ou que lhes dê mais dos prazeres esfarrapados. Coçarão até ficar em carne viva, depois lhes negarão os ungüentos.
Suas línguas são mestres em lisonjas. E como agrada-nos que nos estapeiem com palavras deleitáveis, mesmo que se riem mal disfarçando com a mão na boca. Falam “Deus”, embora no secreto de suas mentes a nada se lhes remete a palavra. Não tem raiva de Deus nem alegria, não sabem se existe ou se é uma abstração. É algo que atrai pessoas. Palavra feromônica que remete aos instintos de sobrevivência, de encontro e de salvação, atrai irresistivelmente como lamparina às mariposas até que se imolam no brilho. Aqueles aceitam qualquer um que lhes diga “Deus”, tal o desamparo em que vivem. Deus é um abracadabra.
Eles subjugam almas incautas, destroem seus corpos com a promessa de um paraíso. São os nossos  Moloks modernos à espreita nas esquinas. Que mais dá o corpo que será destruído na morte? Deus não gosta de corpo, gosta de almas, dizem. Dão comida engordurada e com o tempo os devotados vão se tornando um enorme ventre insaciável, movidos vida adentro apenas pela tara da satisfação.
Negam que o corpo é para o Senhor e que o Senhor é para o corpo. Esta relação com um Deus que se encarna é muito complicada, falemos menos disso que é menor, sussurram. Importa a glória do reino nosso de cada dia. Mas corpos não vibram com carne, fremem com misericórdia e graça, acordes que lhes dão música.
Imagem: Ilustração do deus cananita Molok (2 Reis 23.10)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Olhos de raio X

O super-homem que se cuide. Pensando bem, ele poderia ganhar dinheiro mais fácil com diagnóstico de doenças, né não?

domingo, 30 de agosto de 2009

Sou, mas quem não é?

Após atender à solicitação do presidente Lula em não deixar a liderança do PT no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP) publicou em seu perfil no Twitter um pedido de compreensão das razões que o levaram a tomar a decisão.
“Errei ao dizer que anunciaria uma renúncia irrevogável, mas gostaria que vocês conhecessem as razões mais profundas que me levaram a essa decisão”.
Fonte: Folha On line
Entrou na política pelo movimento estudantil num tempo em que ideais revolucionários já decaíam, mas ainda mantinham seu charme. O nome, assim como os fartos bigodes que ostentava, era uma espécie de profecia. Ancrísio Meliante era modernoso, assim cultivava seu perfil político, mas era incrivelmente pusilânime com uma queda para o teatro bufão.
Informantes desta coluna conseguiram contrabandear uma gravação secreta do gabinete de Meliante. Explico o contexto ao leitor. Uma crise no partido do qual era líder, colocou-o na incômoda posição de ter que mostrar à luz do dia o que ele praticava às escondidelas e aos cochichos com seus coleguinhas. Mas, já havia dito que não faria o que estava fazendo umas quantas vezes, o que ninguém levou a sério. Não mais do que o miserável incômodo de protelar a execução do mal feito e agora dizia que não faria o que começou a fazer.
Senador, esta é a quarta vez que o senhor diz que não fará aquilo que disse que faria. Os partidários estão fulos da vida com o senhor. Eles precisam que o senhor faça a sua parte para maneirar a deles. Mas é a quarta vez que digo isso? Sim, senhor. Mas agora é irrevogável. Já usei esta palavra antes? O senhor disse renunciar. Mas depois desta não tem outra não. É tipo cláusula pétrea.
E o povo, não vai estranhar esse vai-não-vai, esse rame-rame sem fim? Uma hora diz uma coisa, outra hora diz o contrário. O povo não liga. Já sabe que nós somos assim mesmo. Sem palavra? Que é isso, tu é meu assessor ou o grilo falante? O senhor é que sabe.
Pois vou usar “irrevogável” mesmo. Ninguém no mundo me demoverá desta decisão. Não salvo o bigode nem a pau, nem um fio. O seu? O dele. Dele quem? Ah... Mas, senador Meliante, não vai pegar mal? O quê? Se o senhor confirmar, será a quinta vez que se desdiz. Meu filho, eu sou “imprescindível”, tenho que ganhar algum nesta história, a alma já vendi, quero um lugar melhor, com vista para o lago de fogo, ora se não.
Olhe, teve aquela vez que o senhor disse que entregaria o cargo se sua posição não fosse atendida pelos seus colegas liderados. Era bravata. Queria impactar. Sim, depois o senhor disse que desistiria da liderança. Potoca. Queria impressionar. Depois o senhor falou que passava a liderança. Conversa fiada. Queria chamar a atenção, bigode estava aparecendo mais que eu. Teve também aquela vez que o senhor bateu a porta e disse que não voltava mais lá. Teatro. Queria cafuné dos colegas. Queria um coro de “fica Meliante”. É lindo isso.
Bem, e agora o senhor postou no twiter que subirá à tribuna para ler o discurso de entrega do cargo de líder em caráter “irrevogável”. Isso mesmo. Agora lascou. Existe uma palavra para desdizer “irrevogável”. Vamos olhar no dicionário. Ih... só tem revogável. É fraca. Então? Só se o presidente pedir. Seria bom, não é? Agora que tô morto de arrependido. A boquinha é muito boa. Tô com medo de acontecer o que aconteceu com o Jânio. Senador, telefone. É o presidente. Agora tenho a desculpa para revogar o irrevogável. Já tenho até a frase: “Errei ao dizer que anunciaria uma renúncia irrevogável”. Agora é cair nos braços do povoléu.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Gruta milagrosa

Esta só tem porta de entrada, não de saída.


Superfêmea

Diante da ameaça de perder a medalha de ouro conquistada nos 800 metros do Mundial de Atletismo de Berlim, caso não passe em um teste de gênero sexual, a corredora sul-africana Caster Semenya recebeu o apoio de vários segmentos de seu país nesta quinta-feira.
A corredora, de 18 anos de idade, atraiu as atenções não só por seu excelente desempenho, mas por sua constituição física, que foi considerada masculina demais pela Federação Internacional de Atletismo.
Fonte: BBC Brasil.
A celeuma estava grande. A ganhadora dos 800 metros era o quê mesmo? Chamava-se Semenya. Sugestivo nome que não escapou às piadas dos jornalistas. Como deixaram que se inscrevesse na prova como... bem, como mulher? Indagavam alguns comentaristas. O comitê olímpico estava numa saia justa. O fato é que se inscreveu e a despeito da aparência um tanto, digamos, masculina, Semenya participou das provas classificatórias com louvor e ninguém notou nada naquele feixe de bíceps e tríceps torneados, barriga dividida como um mister universo e a falta... enfim, a falta completa de peitos, sem contar as axilas cabeludas.
Semenya, no meio daquele furdunço, disse que não estava nem aí para o que falavam ou achavam, ela mesma – assim se referia a si mesma – sabia o que era. Falava isso e aos que se viam mais perspicazes, ficava uma ponta de suspeita naquela afirmação, segundo eles, ambígua. Enquanto o mexerico rolava dando as mais estapafúrdias versões, o comitê saiu-se com um: é preciso investigar o gênero da atleta, disse meio sem convicção o porta voz do comitê.
Logo o país da atleta, desacostumados a terem celebridades olímpicas, tendo já transformado Semenya em hero...ína nacional, que seja, entraram na briga. Campanha sexista e racista, clamaram. O povo foi às ruas. Até a avó de Semenya, Darci, foi convocada a falar em cadeia nacional. Com voz típica de velhinha interiorana e uma boca sem dentes: Minha netinha é homem. Oooohhhh! Vexame. O diretor do programa não sabia se cortava o microfone ou... antes disso, porém, a velhinha se refez: Quero dizer, é mulher. Desculpem, é que me confundem estas luzes e estes, estes... estes negócios de falar que colocam quase dentro da boca da gente.
A senhora sabia que sua neta pode perder a medalha porque estão suspeitando que ela pode ser homem? Um absurdo! Ainda guardo as bonequinhas que ela brincava. É um doce de menina. Dizem que eram bonecos de vodu. Maldade dessa gente. Olhe moço, tô cheia disso, minha neta tem as partes igual às minhas, quer que eu mostre? Ameaçou levantar a saia. Não, não, não há necessidade, vovó. Nós acreditamos na senhora. A entrevista já ganhara seu espaço na história. E aquela menina brasileira, aquela que luta judô? A Edinanci. Isso. Ninguém fala dela. É até mais feia que minha neta. Aquilo sim, parece o Cosmógenes, meu quarto marido. Senhora, mas ela fez o teste que querem que sua neta faça, e ela é... quero dizer, o teste disse que ela é mulher.
Olhe aqui, minha neta não precisa de teste. As mulheres de minha família tem os peitos pequenos mesmo, pode ver, apalpou-se. Só porque ganhou estão fazendo esta patuscada. Se tivesse perdido ninguém ligava. Ela é assim porque dei muita catuaba com mastruço pra ela, a bichinha quando nasceu era fraquinha que só vendo, só escapou por causa das garrafadas com ovo de galo. Ahhhh, bom. Estava explicado. Dia seguinte a cotação dos galos subiu para patamares inacreditáveis.