terça-feira, 9 de junho de 2009

O Casamento dos Sapos


Indianos de um vilarejo no norte do país realizaram um casamento de sapos.

Como reza a lenda na Índia, a união entre sapos agrada o deus da chuva, que em retribuição envia nuvens carregadas para regar as plantações afetadas pela seca.

A cerimônia foi assistida por vários convidados e foi realizada por um sacerdote. A noiva foi presenteada com um colar dourado.

Fonte: BBC Brasil

Aquilo era um acinte. Nem tanto pelo acontecido, coisa comum em qualquer grupo social, mas pelo motivo. Soube-se na comunidade batráquia maranhense – vejam só o que é a globalização da comunicação –, que na Índia, país remoto e exótico, não menos que a terra tupinambá igualmente longínqua e estranha, do casamento de dois sapos, quero dizer, um sapo e uma sapa, a contragosto de ambos, apenas para que chovesse.

Os perpetradores desta inominável arbitrariedade foram humanos, raça dada a desmandos, desde que certas coisas lhes dêem na telha e sirvam a seus propósitos malévolos. Onde já se viu obrigar membros de outra espécie a se casarem forçados, apenas para obter uns reles pingos de chuva e agradar um deusinho qualquer que tem algum distúrbio voyerístico com sapos? E os sentimentos alheios não contam? Claro, fazem estas coisas com membros de castas menores, nem precisa ser um dalit, qualquer um, desde que esteja à mão.

Barruan, um sapo maranhense metido a regueiro, que há muito pensava pular fora do que julgava um casamento desconfortável com sua digna esposa, naturalmente também sapa, a senhora Maya, viu aí uma oportunidade. Pensou ele. Ora, se lá na Índia casaram os seus contraparentes para obter chuva, é de se pensar que um divórcio diminua as monções diluvianas a que está submetido nosso desaquinhoado lugar.

Não que a água lhe fosse problema, mas até um sapo sabe ser solidário, ainda mais se isso lhe rende um dividendo pessoal. Coisa de sapo. Os pobres humanos, afinal, estavam a morrer afogados, tal era o volume de água que lhe caía no cocoruto. A verdade, porém, diziam a boca miúda, há tempos lançava olhares luxuriosos para uma perereca maguinha do Sá Viana que, faceira, dava bola, mas não confiança.

Maya saltou lá longe com aquela conversa fiada de ajudar humanos, pobrezinhos. Que jinongonongo é esse, Barruan? Pois os humanos que se virem. Que que tem a ver nosso casamento com o aguaceiro? Assim, de chofre, nada. E de mais a mais, só pode valer se humanos fizerem o descasamento e em nossa comunidade isso é impossível, porque há que ter um motivo forte para uma separação. Minha mimosa anfíbia, isso se arranja, dar nó em leis e regras é com os humanos mesmo, aliás, este nosso lugar tem nome de Maranhão por causa das maranhas e patranhas, vale mais a vontade irresistível de quem manda do que qualquer aparato legal. Mais, eles precisam que as chuvas parem ou vão tudo para o brejo, conosco. Não consta que gostem muito de nossa companhia pegajosa.

Olha, Barruan, seu safado, não adianta balançar estes tererês para mim com esse olhar pidão, sei bem de tuas malandragens e que aprendeste lá pelas bandas da Lagoa. Comigo não, meu filho! Como ficam nossos girinos? A pensão tem que ser gorda, nego. Digo mais, o apartamento é meu, o riquixá é meu, porque não vou ficar sem nada. Que piração é essa, tu és uma sapa – não me leve a mal – que história é essa de apartamento, pensão... Comeste mosca estragada? Meu anuro fofo zoiudo, aprendi com os humanos a quem você quer ajudar. Se tu queres te reger pelas regras deles, então... Depois tu podes ficar com tua ranzinha. Rã, não, perereca.

Então confessas, seu sapo barbudo? Não confesso nada, apenas não é educado trocar o nome das pessoas. E que moda é essa de se importar com educação, tu que fala quase arrotando? Vamos dividir os girinos, fico com cinqüenta e tu com cinqüenta. Como é que vou dar de comer a esse monte de filhote? Aprende papudo!

Legenda da foto: O Casamento do Sapo. Montagem do grupo Mosay de Teatro

domingo, 7 de junho de 2009

Enchentes, desabrigados e governo


Há estreita relação entre as enchentes anuais do Mearim, os desabrigados, o binômio desmatamento de matas ciliares/poluição e governo.
Excetuando-se a cheia deste ano por sua excepcionalidade - nem tanta assim, já houve alagamento pior -, estamos diante de uma história esperada com enredo conhecido. Mais, a catástrofe só foi conhecida e saltou da fronteira maranhense, não por seu tamanho, mas pela dinâmica da comunicação num mundo global, antes disso, fora a região e o governo federal, que era notificado pelas declaração de calamidade pública, ninguém sabia de nada. Este mesmo governo, quando agia, a cheia havia passado tanto era o tempo perdido na burocracia.
A região central do Maranhão, as áreas das cidades mais castigadas pelo Mearim, sofrem com este fenômeno natural há pelo menos 60 anos. Todas as medidas governamentais até hoje foram inúteis e desde então o problema só piora.
O aumento da população às margens do rio, a pobreza endêmica sem perspectiva de melhora, exceto o bolsa família, a falta de um planejamento estratégico governamental, o desmatamento das matas ciliares com o consequente assoreamento do rio, contribuem para o estado de caos presente e futuro.
O ditos flagelados, ainda que pareça cruel, vêem nisso uma oportunidade de receberem atenção e cuidados. As perdas pessoais são mínimas, assim como mínima é sua vida. A cheia quebra um ciclo cotidiano de abandono, falta de trabalho, serviços públicos ruins e falta de horizonte. Há um lucro psicológico embutido que não se contabiliza a olhos vistos, tem que acompanhar o processo para vê-lo. As caras macilentas, os amontoados de pessoas em escolas ou abrigos improvisados, o "escândalo" de pessoas compartilahando o estábulo com cavalos para se abrigar, é seu cotidiano. As lentes e as câmeras e escritos do jornalismo nacional e estrangeiro é que ampliam o que, para eles, é indigência, mas que é parte natural da vida destas pessoas, sem enchente.
Os governantes de plantão seja de que matiz for - ainda existe matiz ideológico? - aproveitam a oportunidade para aparecerem como bem feitores e interessados pelas pobres vítimas. Um efeito colateral, entretanto, da super exposição na mídia é que mobiliza corações sensíveis de várias partes do país e organizações a ajudar e o fazem sem a intermediação deles.
Não há plano para o futuro. Se a mudança climática permanecer, tornando o período chuvoso nesta região sujeita a verdadeiras monções, talvez, aí sim, aja mudança. As pessoas mudariam das margens ou das regiões baixas - que incui quase toda a Trezidela do Vale - e iriam para áras mais altas. O rio, contudo, continuará a encher enlouquecido, porque há tempos perdeu seu caminho natural tal é o maltrato a que é submetido.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Entre o mar e a praia


Há dias que as palavras nos fogem da boca. Os sentimentos parecem amontoados e o nó na garganta não é outra coisa que eles procurando chão onde possam repousar e não achando este leito, transformam-se em lágrimas que é como eles se evaporam de nós. O que fica para trás? Um sem sentido, uma casa vazia. Duro mesmo é quando não há lágrimas, porque não há mais forças para chorar e no lugar delas apenas o gemido fala.

O gemido diz: estou desamparado(a), não vejo nem uma nesga de luz. Sinto-me perdido(a) e não sei recomeçar. Preciso de sentido e motivação novos. Estou cansado(a) de perder-me ou perder o que seja. Neste instante quero dormir e não acordar, quero calar minhas dores porque faltam forças para dizê-las todas e gritar, expulsando-as para longe de mim. Minha carne treme debaixo da pele, um frêmito sobe e desce por minhas entranhas e não há nada que me anime. Todo olhar meu é perdido, todo suspiro é vão. Ah, se...

Esta é a resenha de uma alma em agonia e se dá quase sempre por perdas que podem ser de qualquer coisa e gentes nos quais investimos sentimentos, expectativas, amores, tempo. Nossa alma estava preparada, todo nosso ser se mobilizou naquela direção ou naquele encontro e sem que entendamos logo, tudo se esvaiu por tortuosos labirintos nos quais nos perdemos de nós. A sensação é de um quadro de Dali, onde quase sempre o chão não é o referencial, mas o espaço e é aí que estamos soltos.

Mas se as palavras bateram asas e todas elas juntas não dão conta de nossa dor, o corpo fala e, às vezes, é tal sua carga, que adoece. É assim que se encontra Pedro com quem hoje nos identificamos. É final de uma exaustiva madrugada. As redes foram retiradas vazias inúmeras vezes ao longo da noite. Alguém, à beira do lago, diz que lancem as redes outra vez. Há cansaço, descrença, hesitação. Lancem a rede à direita do barco e encontrarão peixes, diz ele. Como acharemos peixes? Mas o fazem, mecânicos.

Como mágica, a rede quase explode com os peixes se debatendo. João brada: É o Senhor! Pedro os deixa ali no barco, veste-se, e pula na água em direção à margem em busca daquele de quem sente vergonha, ternura, saudade. E é tal a profusão de emoções, que deseja desencontrado, fugir e correr para estar ao seu lado. Quando chegam todos, há uma pequena fogueira, pão, e Ele pede alguns dos peixes recém pescados para que façam ali uma refeição. Há um silêncio profundo. O que perguntariam?

Comem e Jesus quebra o momento e pergunta a Pedro: Tu me amas? Sua resposta é: tu sabes que te amo. Há nuances nesta resposta que, infelizmente, em português, não conseguimos perceber. Por hora, basta-nos saber que Ele pergunta algo como: você me ama como um homem ama a Deus?; a insistência da pergunta e o comentário do escritor sobre o entristecer-se de Pedro por causa da repetição. Era contudo, um ato curativo que ali ocorria. O palco das negações repetidas ali se reproduzia: noite, uma fogueira, pessoas ao redor para aquentar-se e comer.

A resposta, porém, que nos serve neste momento, é a expressão “tu sabes”. Não há força para dizer as razões e porquês deste amor que teme agora se comprometer. Ele sabe que ama, mas falhou. O próprio ali presente, de algum modo o decepcionou, assim ele percebe. Ele acenou com tantas coisas maravilhosas e no final é morto como outros o foram antes dele. Bem verdade, está ali, vivo. Mas que é isso? Terá dito mesmo que morreria? Não faz sentido. Que faz aqui? Por que pergunta se o amo? Amo? Sei que amo, mas não sei quanto valor isso tem, afinal isso não me impediu de negá-lo. Que amor é esse?

E nem bem Pedro organiza as idéias e logo Ele pergunta outra vez: Tu me amas como um homem ama a Deus? Tu sabes que te amo. Outra vez “tu sabes”. Não há nada a dizer. Concordo com algo porque se me pergunta, mas sei mesmo o que estou respondendo? Não sei, sei? Em algum lugar de sua alma, a segunda vez perguntada abre outra fenda na couraça de trevas que o envolve. Mas ele mesmo não tem certeza. Ele que realiza prodígios deve saber. Mas por que continua a perguntar? Como vou saber se olho dentro de mim e que vejo? Uma imensa tristeza – desta sei – e dúvida, medo e vergonha.

Ainda está envolto com seus pensamentos e logo uma terceira vez Jesus pergunta: Tu me amas? O que equivale neste momento: você me ama como um amigo? Parece que a isso Pedro pode responder, por que nas duas vezes anteriores foi assim que respondeu: eu te amo como a um amigo. Disso sou capaz, não me peças mais que isso, pois falhei em te amar como Deus. Se mais te amo, tu sabes, eu mesmo não tenho coragem de dizer.

Que sabemos na hora da dor? Esta é uma das questões, tudo que se sabe é que todas as certezas, convicções são destroçadas e nosso mundo inteiro se abala como se sofresse um imenso terremoto. Cai junto o que é sustentado por estes saberes vãos: os sonhos, as esperanças de dias melhores, o amor de alguém ou por algo. Todo amor, porém, carrega uma grande responsabilidade daí a fala tergiversante do pescador.

A fala de Jesus à terceira resposta de Pedro: Apascenta minhas ovelhas, quer dizer: cuida de ti, cuida dos outros, segue em frente, agora você sabe que amar é correr riscos, mas o amor nunca acaba, mesmo que você falhe, embora haja terríveis conseqüências a esta falha. Você foi tocado pelo amor e não pode mais ser o antigo homem, nem que quisesse. Você falhou e ainda falhará, mas você sempre poderá se reerguer porque o amor o ajudará – você que foi atravessado por ele – desde que ele tenha um alvo em mim, no outro, em você. O amar precisa fluir como corrente de águas, do contrário apodrece como, se inutiliza.

Nada mais a perguntar, nada a dizer. Jesus lida com o tempo e com o diálogo. Tempo, porque nele estamos engolfados por hora e nele tudo é processual. Diálogo, porque somos tornados seres falantes e nada se faz nem se realiza sem a fala. Ela produz a bênção e a maldição. Ela navega os oceanos profundos da alma, mesmo que tenhamos sempre a sensação de sua insuficiência em muitos momentos. A palavra é o exercício vivo dos sentimentos e por meio delas é que eles chegam aos outros. Às vezes elas podem se tornar desnecessárias, desde que tenham sido faladas antes.

PS. Escolhi a ilustração na obra de Frida Khalo. Nenhum artista entendeu tanto de dor e expressou isso em sua obra com tanta delicadeza e força. A obra ilustra chama-se "La coluna rota".

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A hidra


Taí esse menino, o Angeli, com sua versão da hidra. Mas nós não combinamos nada, a não ser que o tratante não queira me dar o crédito. Olhando assim, acho que faltou o bigode, né não?



A lenda de Pragmônio


O ministro de Justiça britânico, Shahid Malik, renunciou nesta sexta-feira na primeira perda de alto escalão do governo do premiê Gordon Brown desde a divulgação dos escândalos dos gastos reembolsados, no qual deputados e parlamentares pediam reembolso do governo britânico por despesas como estrume, comida para cachorro, churrasqueiras e outros itens pessoais.

Fonte: Folha On line - Reuters

Homem educado, de modos e gostos refinados, escovados ao longo de mais de uma cinquentena de anos, seus movimentos eram milimetricamente planejados, até o tique num dos olhos, que olham como uma esfinge. Roupas, aparência, cada detalhe causava seu próprio impacto. Trabalhava de forma tenaz, porém, para aparentar algo Vestal ao mesmo tempo sublime.

Ele não dizia mais termos chulos, coisas que denegriam seu status. A esta altura, tinha gente que dissesse por ele. Uma de suas leis, entre muitas pelas quais se guiava, era, no dito popular: O bom cabrito não berra, versão nordestina de “vingança é um prato que se come frio”. Mas não dizia estas coisas tolas que funcionam na prática e na boca de um tipo de presidente peculiar. Nele, não.

Chamava-se Pragmônio Sarnakovsky, nome sem dúvida diferente, o que ele tornou uma marca, e marca a gente se acostuma depois de milhões de vezes exposto a ela, a ponto de não se perceber mais exatamente do que ela fala. É como se tornasse parte do cotidiano, algo que enche as ruas, os prédios, até biblioteca, como cupins leitores que adoram furar buracos enormes nos livros, embora tenham a teima em deixar as capas intactas – bicho disfarçado e estratégico –, quando um se dá conta, adeus omasos.

Pragmônio foi político. Tinha um dom inacreditável: mimetizava-se em tantas formas e cores ideológicas que, passados tantos anos, estudiosos descobriram, não em seus escritos, dos quais se orgulhava a não mais poder, mas disso já falamos. Descobriram cavoucando a história remendada nas ruas, nos edifícios, nas leis, nos alfarrábios registrados de seus mandos, coisa que, diziam – para espanto de todos que na primeira vez que se ouviu –, se identificava traços de suas digitais desde as capitanias hereditárias. Havia quem dissesse que vinha de mais longe, algo lá pelas sesmarias.

Mas dizia, os historiadores descobriram uma particular ideologia nos atos deste titã, à qual denominaram Sarnakovsklítica. Não houve nada igual, nem desde os césares e olha que os caras eram mestres nas manobras políticas. Mas Pragmônio criou algo único, diria, irrepetível, talvez num milênio num país longínquo ao qual chamavam Brazyl. Exceto se por causa de nossas desavenças humanas chegarmos à beira do extermínio e tivermos que começar outra vez. Os estudiosos descobriram um padrão, é que na arte Pragmônica, tipos iguais vicejam no caos, na pobreza, na deseducação e se possível, em situações de falta de liberdade. É como um tornado classe V, condições específicas e raras devem se unir para produzi-lo.

A Sarnakovsklítica não é violenta. Isso é algo interessante, afirmam os historiadores. Não a violência bruta, à luz do dia, ela se vale das forças da própria estrutura que organiza as gentes para consumi-la. Serpenteia no intrincado labirinto de relações entre os poderes. Move peças em todos eles a fim de alcançar o que lhe apetece. A violência é subreptícia, as mortes dos inimigos realizadas com espetacular ciência, prescinde das fogueiras e de forcas em praças públicas, mesmo assim os mata, um a um. Dizem que o poder daí nascente é tentacular. Comparam-no às vezes, por troça, com a Hidra de Lerna, cuja cabeça cortada renasce noutro lugar. Não há Hércules que chegue.

Frase de Pragmônio - não confirmada – a literatura salva. Esta é outra peculiaridade dele. Como fosse algo parente do lendário Matusalém que, segundo se diz, viveu 969 anos, ele precisaria de um titulo que lhe desse entre os meios sociais a característica de imortalidade – coisa que já tinha –, não no nome como é comum pensar, nem nos escritos pelos quais zelava como o Cérbero, seu irmão, vigia a porta do Hades. Até porque as academias estão cheias de mortos bem morridos – quem se lembra? –, a não morte é por outros meios, mais, digamos, mefistofélicos. Fausto que o diga.

A Sarnakovsklítica remodelou toda a idéia do que chamavam democracia. Porque ela com esta não se confunde, pois necessita de espaço físico, portanto, revive os trejeitos dos déspotas esclarecidos, sem seus rompantes, porém. Lembra o absolutismo, mas feito ao pé do ouvido, pavoneia seus pares, troca cafunés de poder. Domina amplas lavras de terra, sem, contudo, cuidá-las como o faziam os senhores feudais, mas é certo retirar dela seu quinto.

Quanto mais estudam as habilidades de Pragmônio, mais admirados ficam os estudiosos. Dizem que não morreu, desapareceu como Dom Sebastião. Sua sombra ainda se estende sobre as almas, como lenda em terras brancas, entre casarões seculares e, por último, como um espírito da floresta.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Quem tem medo de dúvidas?


“E compadecei-vos de alguns que estão na dúvida;” Judas 1:22 (ARA)

 

O minúsculo livro de Judas, no Novo Testamento, é um escrito para um momento extremamente preocupante. Não muito diferente de hoje, diga-se. Doutrinas várias haviam se disseminado, aproveitadores se faziam passar por pastores e exploravam a fé dos incautos cristãos que ainda não conheciam suficientemente as verdades evangélicas.

A descrição sobre estes homens é dura. São os que promovem divisões, seguem suas próprias paixões, brutos sem razão, a quem Judas compara como mares sujos, estrelas errantes, nuvens sem água, sonhadores alucinados. No final da epístola, Judas dá conselhos para que seus leitores se fortalecessem no que ele chama de fé santíssima, não esquecendo, contudo, todos aqueles que ainda tivessem dificuldade em viver plenamente as palavras de Cristo.

Em sua lista, ele relaciona “alguns que estão na dúvida” e pelos quais pede misericórdia. É possível que no contexto se pense em algo muito ruim sobre este grupo de pessoas. De fato, eles parecem estar enquadrados como vacilantes, como diz a Edição Pastoral, portanto, mais suscetíveis aos lobos devoradores. Há, porém, outras possibilidades para a palavra grega diakrino (dúvida) utilizada neste versículo.

Além da óbvia significação de hesitação, ela guarda em seu sentido também o “aprender por meio da habilidade de ver diferenças, tentar, decidir”; “determinar, julgar, decidir uma disputa”; e até mesmo “opor-se, lutar com disputa, contender”. Ora, estes sentidos são plenamente compatíveis e até desejáveis para um saudável exercício da fé. Diria – espero não estar misturando coisas diferentes – que há um encontro com a fala de João (1 Jo 4.1) na qual ele pede que os crentes provem os espíritos para saber se são de Deus ou de falsos profetas. A palavra provar neste versículo é dokimazo, que significa julgar, testar, examinar.

A dúvida, portanto, pode perfeitamente ser um instrumento de julgamento de algo que se nos apresentam como verdade, mas que, por algum motivo, confronta algo em que já se crê. Afasto aqui aquela dúvida que, ao contrário da vacilação por causa da ignorância, carrega em sua pança a enfatuação e até boa dose de cinismo. É provocativa porque falta ao que a esboça o respeito e a decência pela verdade ou pelo outro que a afirma. É puro deboche, não se afirma em fatos, apenas reflete uma agressividade covarde de todos aqueles que não têm argumento, mas não querem ceder seu apedeutismo para não se sentirem por baixo. Estes são o retrato da empáfia.

Li na revista “Cristianismo Hoje” uma entrevista com o pastor americano Rob Bell em que ele conta que promoveu em sua igreja a “Noite da dúvida”. As pessoas trariam suas dúvidas – inclusive ele –, colocariam numa urna e de lá algumas seriam retiradas para leitura pública e uma discussão para dirimi-las tanto quanto fosse possível.

A certa altura ele diz: “...trazer questões e dúvidas é uma forma de respeito a Deus.” No que minhas dúvidas, que não são poucas, ou as suas, representam respeito a Deus? Penso em quatro motivos, pelo menos: 1. Eu não sei tudo, nem uma milésima parte do “tudo”; 2. Minhas dúvidas sinceras me fazem voltar ao Senhor e diante dele, em humildade, buscar esclarecimento; 3. É uma habilidade, como um dos significados sugere, para aprender por comparação, percebendo as diferenças entre uma coisa e outra e, passo seguinte, fazer escolhas; 4. A dúvida é um instrumento de luta contra aquilo que não conheço, mas que fala de algo familiar para mim, por exemplo, no campo religioso. Paulo, ao falar aos bereanos, não lhes trazia exatamente uma verdade nova, algo que lhes fosse completamente desconhecido.

Carregamos dúvidas e pouco nos importamos com elas, porque precisamos satisfazer demandas da doutrina da igreja à qual se pertence, à opinião dos outros e porque elas, nos ensinaram, são ameaçadoras. Quem tem medo de dúvidas, à parte dos que fomos ensinados a temê-la? Todos aqueles que esboçam valores comprometidos, manchados por interesses, que tentam defender uma construção teológica ou doutrinária alçada ao posto de “verdade”. Cada qual que está comprometido com partidarismos intelectuais e religiosos elevaram sua forma de ver a um patamar inquestionável. Mas o que não pode ser questionado em nossas verdades transitórias?

Não há resposta para tudo. Mas isso incomoda a muitos. Mas até onde é possível afirmar, no campo da fé, temos o suficiente para viver de forma digna diante do Senhor. Afinal, o que ele quer de nós? Respostas para o insondável, que sejamos doutores em seus profundos mistérios? Ouso dizer que não. Talvez se disser que Ele deseja obediência, fidelidade, haverá tremenda discussão como cada um viverá estas coisas, mas talvez, se disser que Ele tão somente quer que imitemos seu Filho, torno tudo tão amplo que uns e outros desistirão de explorar a forma dessa imitação.

Mas, pensemos: imitar a Cristo, na verdade pedir toda a ajuda do céu nesse intento, porque estamos sempre sabotando este projeto com nossas infindáveis idiossincrasias, é mais fácil, apesar de tudo. Embora todo nosso tempo será consumido neste propósito, daí porque não teremos tempo para eleger esta ou aquela igreja/doutrina como a melhor e depois nos desgastarmos tentando defendê-la. Ele sempre acolheu a todos. Não fez separação entre as pessoas. Não prejulgou. Amou, por fim, se não custarei a acabar a lista.

Explore suas dúvidas sem medo, pois tanto quanto são expostas, menos perigosas ou amedrontadoras serão. É possível que você enfrente problemas, mas se as suas dúvidas não se absolutizarem em você, não haverá maiores consequências, porque elas não serão a verdade, mas a tentativa de aproximação dela, com temor e tremor, digo.

Foto: A dúvida - Misha Gordin