Aqui falo sobre um monte coisas de meu universo de interesse. Filmes, livros, família, política, religião e psicologia. Também reproduzo textos publicados em jornais de São Luís (MA).
terça-feira, 26 de maio de 2009
Com quantas gaiolas se faz um popozão?

Por vários lugares da cidade se anuncia em outdoors, ilustrados por fotos enormes, das partes pudendas traseiras das bailarinas, todas elas em posições oblíquas, o show de funk Gaiola das Popozudas.
A cidade ainda carregava ares ancestrais de um provincianismo teimoso. Bem verdade que cada vez mais envergonhado. Muito daquilo que era pecado mortal, seja de etiqueta ou de comportamento, apareceu primeiro nas famílias mais tradicionais, pelo menos no aspecto de ganhar publicidade. Entre os do andar de baixo, a bagunça já corria às escancaras há tempos.
Enfim, se anunciava o show Gaiola das Popozudas, direto da cidade maravilhosa, estreado pelas dançarinas Leidjane Rebecca, Selênia Carla e Roberta Patrícia. Todas moças muito bem aquinhoadas daquilo que se diz ser patrimônio nacional, a saber, a bunda. Rejeitaram os apelidos frutíferos porque, diziam, não ficava bem para a imagem artística sofisticadas delas. Melancia, meu filho, se encontra em qualquer feirinha de ponta de rua, dizia a mais saída do trio.
O show consistia, como o nome já sugere, em se colocar as meninas trancafiadas numa gaiola e lá fariam suas performances acrobáticas que consistiria apenas em movimentos repetidos da região da alcatra, fazendo com que os glúteos avantajados se movessem em ondulações rítmicas laterais, frontais, para cima e para baixo. A vantagem da gaiola era dupla, evitava que algum espectador quisesse passar às vias de fato e mexia, afirmavam, com as fantasias masculinas. Coisa comprovada cientificamente, afirmavam os promotores.
As meninas cantariam, como não? Algo próximo ao ado, ado, ado, cada qual em seu quadrado. Para as auriculares mais sensíveis se podia emprestar protetores – por módica quantia –, porque o som era tão alto que nem regueiro maranhense aguentaria. Ademais, o espetáculo era mais, digamos, visual, do que propriamente auditivo. A vibração produzida no chão, mesas e cadeiras, eram suficientes para marcar o balanço.
Como parte da promoção, as meninas fizeram um passeio na Rua Grande. De quando em quando paravam, agachavam quase ao chão, de pernas abertas, e colocavam o indicador na boca, enquanto lançavam olhares lúbricos para os passantes boquiabertos. O rebuliço foi grande. Não foram exatamente às compras, mas vender seu produto, este embrulhado em peças minúsculas que de tão pequenas subsumia nas reentrâncias da costa maranhense. Uma delas, em entrevista, reclamou que elas não eram apenas uma carinha bonitinha, tinham talento. O diabo é que ninguém nunca reconhecia a cara de nenhuma, até porque as fotos e filmes promocionais do show não mostravam este detalhe anatômico.
Mas, convenhamos, em tempos de internete, ver coisas do arco da velha é mais comum que a dengue, por isso não se pode dizer que os homens estivessem particularmente interessados. Adolescentes, talvez, mas como as incertas que dona justa pudesse dar num show desta categoria fosse possível e problemático, os promotores estavam meio ressabiados em vender ingressos para esta categoria etária. Mas tudo se ajeita. Podia-se alugar uma carteira estudantil descartável de um curso madureira fictício, apenas para o caso de ter que mostrar que a idade era compatível. Dona justa gosta mesmo é de papel, então...
Movimento grande mesmo aconteceu nas hostes feministas. Promoveram passeata ressuscitando velhos jargões que, ainda mocinhas, lá pelos anos 60, São Luís só ouvia falar e elas não podiam manifestá-lo, até porque naqueles idos, só queriam uma coisa: encontrar um bom rapaz e casar, embuchar e cuidar da casa. Mas prometiam queimar sutiãs e rasgar calcinhas
Logo havia um bate-boca nos jornais. As artistas devolveram chamando as feministas de recalcadas, feias e, supremo xingamento, gordas. As feministas retrucaram que elas eram seres vulgares e denegriam a classe. Como resultado da malquerença, cada qual prometia manifestações mais audaciosas. Perguntem-me quem ganhou. As feministas. Ora, bunda balançando se vê em qualquer lugar e a toda hora, agora, sabe-se lá o que é ver uns estrupícios gritando palavras de ordem e fazendo fogueira de corpetes e calçolas em praça pública, isso sim, é que seria um show.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
O terror em forma de religiosos

Reproduzo a charge do Angeli porque o que se passou na Irlanda, agora registrado por uma comissão pública de pesquisa, é que durante dezenas de anos, aquilo que chamaram de epidemia, assolou todas as instituições que cuidavam de menores naquele país. Em padres e freiras afloraram os mais baixos instintos de perversidade e taras que se pode nomear contra crianças indefesas. De estupros a surras cotidianas. Entre as barbáries descritas está a singela atitude de um padre que no afã de punir um menino o brigou a lamber cocô que grudou no solado de seu sapato.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Nasce o Homo minimus

O nome do artigo é “Idéias para um mundo pequeno”. O autor, articulista do The New York Times, avalia a tendência irreversível da diminuição do tamanho das coisas. A frase “menos é mais” tornou-se quase banal num mundo que se miniaturiza, desde que inventaram o transistor, há pouco mais de 60 anos. Não é estranho que a minimização dos aparatos eletrônicos atomizem todo o resto? Agora só se fala em nano-qualquer-coisa. Nano é um prefixo grego que significa excessiva pequenez, e no caso da tecnologia atual, dimensões moleculares.
Foi Mcluhan quem, em fins dos longínquos anos 60, vaticinou: o mundo havia se tornado uma aldeia global. Desde então, ele não para de encolher. Imagine que o sujeito espirra, atacado de gripe suína lá nos confins de Chiapas, no México, e em poucos dias a coisa ameaça virar pandemia. Efeito da facilidade e rapidez com que fazemos deslocamentos. Se o assunto são idéias, então, a coisa é ultra-rápida. A onipresente internete trata de, instantaneamente, espalhar o que for. Um efeito virulento, pode-se dizer.
Palavras estão ligadas a esta onda minimalista que se ampliou consideravelmente dos anos 90 para cá. Intuitivo. Quer dizer um equipamento qualquer que alguém pode usá-lo mesmo que não entenda bulhufas da tecnologia presente nele. Clean. Palavra inglesa que significa, entre outras coisas, limpo, enxuto, claro. Representa o lado estético desta nova forma de ser que abarca de comida a moradia; da fala a lojas; de carros a comunicação. A questão é que elas passam a definir também as pessoas e seu modo de vida.
No quesito comunicação, este fenômeno é evidente. O grande sucesso da rede é o facebook e o twitter. Microblogs, são chamados. Os textos não devem passar de 140 palavras. Mais que isso, simplesmente você não será lido. A comunicação pelo msn e assemelhados inventa novos idiomas, cuja marca é a supressão e transformação das palavras em não mais que três, quatro letras. Está nascendo o homo minimus.
Não discuto os efeitos benéficos da miniaturização, há muitos. Penso no que a filosofia por trás deste movimento está fazendo a nós, pessoas. A primeira coisa, é o que percebo, é a impaciência. Intrinsecamente ligado à pequenez está a instantaneidade. Ninguém quer perder tempo com o processo, logo, não à toa, o amadurecimento das pessoas está cada vez mais demorado, quando amadurecem. Estamos empanzinados de informações. Sabemos de tudo um pouco, mas sabemos pouquíssimo de cada parte do tudo. Não admira este permanente sentimento de deslocamento, um mundo fraturado em pedaços que não juntamos. De qual deles fazemos parte?
Por que uma das áreas econômicas que mais cresce no mundo é a área de prestação de serviços? Porque estamos sendo transformados em peças de engrenagens em um enorme sistema que nos consome. Terceirizamos para outros os cuidados e atenção para nós. Aqueles os entregarão prontos, supostamente personalizados. É um mundo delivery. Um paradigma administrativo desta nova era é que as empresas conheçam os hábitos do cliente para atendê-lo sob medida. Quer atender à norma da individualidade que supõe a qualidade daquele que é único, mas que se veste e come por atacado, conforme as marcas da moda se imponham.
Mas individualidade, como quer esta pós-modernidade, tem a ver com a estética de ser, que é tudo no que se resume um ser humano hoje, dividido em suas várias tribos urbanas. Já de pessoalidade, que tem a ver com valor, não se quer nem ouvir falar, pois esta evoca qualidades de ser que inclui a moralidade, a ética, o caráter. Nossa pessoalidade foi substituída pelos valores dados pelo meio: defender o meio-ambiente, ser politicamente correto nas relações, ser vegetariano conta pontos a mais, ser ambientalmente auto-sustentável, e abraçar uma árvore de vez em quando.
Não digo que estas coisas não tenham seu valor, mas apenas apelam para uma demanda da hora. Como valores que norteiem o mais íntimo do ser, são inócuas. Substituem aquilo que gritamos décadas atrás: contra a bomba H, as usinas atômicas, pelas revoluções socialistas. Cada qual, a seu modo, oferece um novo Éden. O que não se vê é que para chegar lá, construímos uma torre de Babel no caminho. A semente de nossa separação.
Quem é este homo mínimus? É acima de tudo um consumidor de produtos e idéias. Neste sentido, é um corpo-cérebro tatuado de etiquetas sejam das designer label (etiquetas de grife) ou de rótulos certificados. Ou se está num ou noutro. Este homem/mulher consome seu tempo em tornar-se útil para o sistema. Assim, ele vai cada vez mais longe na preparação acadêmica e ele mesmo se desconhece, é um inábil.
No resto do tempo que lhe resta, este homem/mulher é consumido pelas opções de lazer e distrações de toda sorte. Eis aqui a internete novamente como um imenso parque de diversões que cada dia fica mais virtual. Aliás, é neste mundo de bits que se pode projetar um avatar, não de si mesmo – às vezes por segurança, mas pode também ser por mau caratismo – porque como a maioria de nós está insatisfeita consigo mesma, a oferta é ser quem você quiser.
Perdeu-se, neste caminho, a idéia de caminhar, passo a passo, na construção de si mesmo. Isto é o que produz experiência e esta, amadurecimento e sabedoria. Faz parte o sofrimento – sem esta de pedir para afastar o cálice com um prozac –, a perda, o embate intra e inter-humano. Como cristão, não consigo ver onde se encaixa o novo homem, renascido pela fé – onde a perspectiva de um processo de desenvolvimento da salvação é parte natural –, pode ter lugar neste mundo. Se não tem, ele deve aceitar que é parte de um projeto de um reino de contracultura e deve aceitar as consequencias disso. Cabe lembrar Paulo e Fernando Pessoa (Ricardo Reis).
“Portanto, meus irmãos, por causa da grande misericórdia divina, peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como um sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a ele. Esta é a verdadeira adoração que vocês devem oferecer a Deus. Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim, vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele.” (Rom. 12.1,2 – NTLH)
Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua / toda /Brilha, porque alta vive.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
O diabo danou-se

Comerciante invade igreja matriz em Viseu-PA, fantasiado de diabo, para protestar contra padre em plena missa de domingo.
Fonte: O Liberal – Belém, Pará. (06/05/09)
Cincero, peloamordedeus, que é isso meu nego? O susto da mulher não era pra menos. O marido se encontrava lambuzado dos pés à cabeça de uma tinta vermelha, apenas de cueca, um par de chifres na cabeça – que ela não pusera, era mulher de estirpe – e uma capa esvoaçante acima da bunda, que ele tentava colocar de uma maneira que só ele mesmo poderia saber. Elegâncias do rabudo que não cabe em nossa estética.
É hoje que ele me paga. Eu avisei. Não vai ficar barato, ele tá pensando o quê? Ele quem, seu louco? O padre. Tu já pensou nas crianças e a vergonha que tu vai fazer a gente passar? Não ligo, hoje mato e morro. Só se for de susto, seu abestado, porque tu não faz mal a uma mosca. Daqui tu não sai. Saio. Não sai. Saio. Olha que te jogo uma praga. Minha nossa senhora de nazaré, o louco tá acreditando mesmo que encarnou o fute.
Acorda doido, tu é só o Cincero. Sacudia o marido-diabo pelos ombros
Pouca gente notou aquele desmantelo ambulante, era noitinha e a missa acabara de começar. Entrou por uma porta lateral e escondeu-se atrás de uma coluna. Esperaria a melhor hora para atacar. O povo cantava. Terminada a cantiga, o padre levantou-se e como que do nada o tisnado saltou em cima dele. Eu vim te atentar, seu padreco. Eu sou o cão. E caíram em bolo no altar. O pobre do vigário deu um grito de espanto, o sacristão correu para tentar soltá-lo do coisa-ruim que o agarrara, a esta altura, pelo pé. Larga, larga. Um dos chifres caíra longe, de modo que o azarado não-sei-que-diga, ficou parecido um unicórnio, só que torto.
Metade do povo da igreja correu e a outra metade ficou paralisada de medo. Nem se diga que umas senhoras tiveram uma síncope e outras berravam histéricas: o diabo matou o padre. O padre, coitado, correu e o mono-chifrudo atrás dizendo impropérios. Alegava uma dívida, alguma coisa com prejuízo que o padre lhe dera. E se virava de quando em vez para os poucos que ainda estavam na igreja para dizer: é hoje que mato gente. Eu vim aqui foi para atentar.
A custo, o sacristão conseguiu que o padre fugisse, enquanto Cincero revirava por todo canto tentando achá-lo. Nisso entra a mulher do diabo com alguns homens da família para prender seu marido tinhoso. Como estivesse liso como um muçum, jogaram uma tarrafa para agarrá-lo e o arrastaram para fora, jogaram na traseira de um jipe e sumiram no mundo enquanto o raivoso vociferava maldições contra seus captores.
Na delegacia, o padre relatou o acontecido. Segundo ele, uma empreita de construção de uns prédios da igreja não fora satisfatoriamente realizada por Cincero e o padre cancelou a obra, chegou a pagar metade dos gastos do homem num acordo amigável na justiça, mas Cincero nunca se conformara e prometera por mais de uma vez vingar-se da desfeita. As buscas realizadas não deram
terça-feira, 28 de abril de 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Quiproquó de alto nível é outra coisa

Enquanto isso, numa corte suprema de justiça de uma República Bananeira...
- Vossa Excelência não
ouviu minha fala?
- Não entendi, refere-se o insigne colega a minha pessoa? Ora, se a condição é fática e não há pressuposto possível de avaliação do caso, declarado antes inválido, como é que agora se quer colocar em pauta? Non liquet! Por causa de um ministro que sequer aqui esteve?
- Quem é que manda aqui? Eu sei dirigir uma sessão plenária, não preciso consultar nem esperar sua aprovação.
- Digo mais. Houve quorum para tal.
- Como é que é? O que foi que vossa excelência acabou de dizer sobre minha parte pudenda?
- Disse quorum, a não ser que tenha mudado de nome.
- Olha como Vossa Excelência fala, esta corte não lhe pertence. Se me permite o arbítrio, entendo que a cultura do jeitinho quer se imiscuir na solenidade de audiência tão relevante que, inclusive, decide sobre tema que afeta a carta magna de nossa nação – erga omnes, por obra e arte de um povinho que tem fama de fazer tudo no calado.
- Meça suas palavras Excelência, quer me dar lição de moral? Com esta cara ad hoc nem que fosse com animus abutendi.
- Não a fortiori Exclência, mas Ex tunc que Ex nunc...
- Caras excelências, não percamos a seriedade deste julgamento. Percebo que descambamos para trocas verborrágicas nada lisonjeiras de parte a parte. Vejam que somos perscrutados em cadeia nacional pelo dispositivo de comunicação televisivo.
- Eu não comecei nada, apenas adverti Sua Excelência, presidente desta casa, que sendo eu o relator do presente processo, não admito não ser consultado sobre decisão antes tomada e que agora é animus violandi pela atitude atropelativa que percebo no luminoso presidente.
- Alea jacta est...
- Vossa excelência não tem condição de me dar lição de moral.
- Mas não sou eu quem está envergonhado a justiça brasileira com atos espirambóticos de quem não passa um só dia sem mostrar sua obtusa face nos meios de comunicação. Aliás, diz-se por aí que vossa magnífica pessoa não pode ver luz acender que arreganha os dentes pensando que é flash.
Explode risada geral entre as vestustas e iluminadas sapiências.
- Ordem! Ordem! Que é isso, estamos na suprema tribunda, desculpem, tribuna da justiça. Isso é lugar de respeito e quanto a Vossa Excelência, pegou pesado agora, não tenho que lhe responder nada, apenas lhe digo que aqui não é lugar para estas latinórias provocações.
- Não lhe provoco, afirmo a veracidade dos fatos e o faço bona fide, mas se caiu em vosso caput...
- Nada caiu, a propósito, não se refira a mim como o faz aos vossos curimbabas importados do Maranhão.
- Sugiro que vossas excelências decidam lá fora vossas querelas.
- Dou o caso por encerrado.
- Encerrado nada, ainda estou dirigindo a sessão.
- Dirigindo, só se for um fusca.
Outra onda de gargalhadas e já nada se pôde ouvir, porque a transmissão ficou muda. Lamento, prezados leitores, não poder finalizar a parte mais interessante, nosso departamento de leitura labial chegou a identificar algumas palavras elogiosas entre as excelências, mas impublicáveis em nosso prestigioso jornal.

