
Drummond de
Andrade diz ainda que que o tal fatiador do tempo, “industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Esta palavra esperança está
intimamente ligada à passagem de um ano. É nossa principal moeda, pois com ela
negociamos os planos e projetos que acreditamos: se realizarão, ainda que
muitos deles sejam repetições de outras tantas passagens, logo, nunca
realizados, mas agora convenientemente esquecidos, se revestem de novo mesmo
fedidos a mofo.
Neste período,
lançamo-nos ávidos a “fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta. Chorar arrependido pelas besteiras consumadas e parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudarão” (Carlos Drummond de Andrade). A lista é quase infinita. De fato, é o período propício para organizar nossas incongruências, harmonizar e diminuir a distância entre um eu real e um eu projetado. O primeiro, falho, esquecido e não cumpridor das promessas. Ele é quem está no controle na maior parte do tempo, valorizando o prazer, às vezes o dever, nem que seja como mera desculpa para se escusar de não realizar o que deveria fazer.
para arquivá-las na gaveta. Chorar arrependido pelas besteiras consumadas e parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudarão” (Carlos Drummond de Andrade). A lista é quase infinita. De fato, é o período propício para organizar nossas incongruências, harmonizar e diminuir a distância entre um eu real e um eu projetado. O primeiro, falho, esquecido e não cumpridor das promessas. Ele é quem está no controle na maior parte do tempo, valorizando o prazer, às vezes o dever, nem que seja como mera desculpa para se escusar de não realizar o que deveria fazer.
O segundo é aquele que se
gostaria de ser. Crédulo, motivado, alegre e com a maioria das qualidades que
tanto apreciamos, inclusive físicas, mas que por razões que nos escapam, estão
sempre a um passo de distância. Dependendo do ângulo, na frente ou atrás. Para emulá-lo,
nos esclarece Jung, usamos máscaras, personas simuladas, não necessariamente
falsas, para trabalhar, se relacionar, viver, enfim. Mas sabe-se o que são,
exceto quando um adoece e a máscara, apegada à face, torna o personagem algo
que suplanta o ser real.
Talvez devamos nos perguntar
por que falhamos em nossas promessas de ano novo? Uma razão é o distanciamento
confortável entre o momento da afirmação e o momento fático da realização.
Acreditamos que por artes mágicas o prometido se realizará, quase sem nosso
esforço e suor. Outra razão é porque apagamos todos os problemas ligados à
realização de um projeto. Não há custo e os planos são perfeitos.
Ainda com Drummond. Ele diz que ao final de doze meses, qualquer um está
cansado e pronto para entregar os pontos, afinal, digo eu, fez-se uma baita
viagem arrodeando o sol. É uma estrada de 930 milhões de quilômetros. Então
estamos prontos, volto a Drummond, com “outra vontade de acreditar que daqui
pra diante vai ser diferente.” Acreditar é outra razão para fazermos promessas.
Tomados de uma incrível fé em nós mesmos, não há qualquer dúvida que faremos
isso e aquilo tal qual foi dito. Até que se é engolfado pela vida e suas
urgências inadiáveis e então, como se tem ano à vontade pela frente,
procastinamos.
Com as promessas é
preciso parcimônia. Elas não devem ser tratadas como descartáveis. Simples
motes de roda de conversa, pois logo se tornam autoenganos e estes hábitos de
como driblar e sabotar a vida.